Como um mendigo

«Ó Deus, nosso Deus, apresento-me diante de ti como um mendigo. Suplico-te, não permitais que a malignidade das minhas ações cubra o grito da minha oração. Estou numa prisão erguida com os meus defeitos e com os meus pecados de omissão. Suplico-te, elimina da minha alma estas más escórias, não deixeis que invadam o meu coração.»

Talvez possa parecer um pouco provocador que, a poucos dias de uma festa tão cristã como a Santíssima Trindade, recorra a uma oração muçulmana. O islão, com efeito, nega a Trindade, ainda que, erradamente, confunda a terceira pessoa divina com Maria.

A invocação que escolhi de uma recolha sufi de salmos consegue, todavia, demonstrar que em toda a humanidade há um anseio profundo e apaixonado por Deus e pela sua glória. A rezar com as palavras acima citadas era Yumaud, um mestre do sufismo, corrente mística muçulmana, que morreu em Bagdad no ano de 911.

Sugestiva é a maneira de se apresentar a Deus: «somos todos mendigos», gostava também de repetir Lutero. Perante o fulgor divino devemos descobrir a treva que está em nós; perante a sua pureza devemos desvelar o nosso mal; perante a sua eterna grandeza devemos confessar a nossa fragilidade.

E como se intui nas invocações de Yumayd, no fim não está o desespero ou o desencorajamento a apoderar-se de nós, mas a certeza de que a mão poderosa de Deus – que em Cristo escolhe nada menos do que fazer-se próximo numa carne frágil como a nossa – pode eliminar as «más escórias», abater os muros das prisões que erguemos com as nossas culpas.

Sim, porque como escrevia Pascal, nós não nos desesperamos por causa dos nossos pecados, porque «eles nos serão revelados no preciso momento em que seremos perdoados».

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In “Avvenire”
Trad./adapt.: SNPC
07.06.2017