Entrevista de D. António Taipa à Voz Portucalense

Nesta entrevista, D. António Taipa recorda o último contacto com D. António Francisco pouco antes de ele falecer. Faz também um balanço sobre os três anos em que trabalhou com D. António Francisco, e apela à Igreja do Porto para partir em missão, como tão convictamente ele pediu em Fátima.

VP: Quando foi a última vez que falou com o senhor D. António Francisco?

D. António Taipa: “A última vez que falei com ele foi um quarto de hora, vinte minutos antes de ele falecer. Eu ia para Fátima, tinha saído muito cedo porque queria ir devagar, e ali pela zona de Pombal o telefone tocou. Vi que era ele, fiquei admirado. A esta hora! Eram oito horas e vinte minutos, mais ou menos… Ele perguntou-me se o senhor padre Pais estava comigo. E eu respondi-lhe: ‘Eu vou de viagem para Fátima, mas o senhor está doente.’ Eu vi logo que ele estava mal. E diz ele: ‘Eu queria o padre Pais.’ E pronto, e calou. Eu lembrei-me logo do que aconteceu ao senhor D. Armindo. E foi assim. Ele não falou mais comigo nem eu com ele. Depois em casa as coisas processaram-se como toda a gente sabe: a nossa governanta foi ter com ele e ele disse que tinha uma dor muito forte no peito e que só tinha medo que fosse um enfarte do miocárdio. E assim foi.”

VP: O que é que sentiu no dia do seu falecimento?

D. António Taipa: “É muito difícil! É muito difícil dizê-lo. Porque para além de eu ser auxiliar dele, para além de nos conhecermos há muito tempo, nós eramos muito amigos e sintonizávamos muito na visão dos problemas, na visão das coisas e conversávamos muito um com o outro. Eu na altura ia para Fátima, ainda ia com todo aquele espetáculo da peregrinação que tinha sido no sábado anterior… Foi uma coisa que eu entendo que foi o top da ação dele no Porto, nestes três anos que esteve no Porto. Eu penso que o senhor D. António fez tudo, porque também deu tudo. Ele morreu ao serviço. De maneira que é assim uma dor e um vazio que ninguém imagina. Por várias razões e porque o senhor D. António era um homem muito bom.”

VP: Que balanço podemos fazer, olhando para estes três anos e meio da sua presença na Diocese do Porto, de todo o caminho percorrido por D. António Francisco?

D. António Taipa: “O balanço está dito na peregrinação em Fátima e está dito aqui no funeral dele. Em Fátima foi toda aquela multidão que toda a gente viu. E aqui no funeral, quando nós saímos da Catedral e vimos aquela multidão de cabeças que ali estavam a encher o Terreiro da Sé, eu perguntava-me assim: ‘Como é possível que este homem junte tanta gente à volta dele?’ Este homem, que nunca se pôs em bicos de pés, este homem a respeito de quem a comunicação social nunca disse nada de especial. Um homem profundamente discreto, eu diria: um homem que ninguém viu, mas que toda a gente viu. Era um homem que estava com as pessoas e ali se viu. Ia ao encontro delas, sem ninguém ver, sem ninguém saber. Eu até brincava com ele, lá com o GPS do automóvel, que aquilo levava-o à casa de toda a gente que estivesse doente. O GPS dele levava-o lá. Era um homem que ia visitar um doente ao hospital, uma pessoa amiga que estava numa enfermaria com dez ou doze pessoas e ele visitava o amigo e visitava os outros todos! Conversava, ouvia…

VP: Recorda-se de algum episódio pessoal que o tenha marcado?

D. António Taipa: “Sim. Uma ocasião chegou aqui e disse-me: ‘Fui ao IPO e estive com uma família da sua terra. Eu vinha embora no elevador com um casal novo, perguntei se estava alguém doente da família e estava um filhinho doente. Então eu quero ir ver o filhinho. E foi ver o filhinho e conversou e falou e por aí a fora.’ E esta gente desta família da família depois falou comigo e disseram-me estar encantados com a atitude dele. E era isto. O D. António andava por aí no meio das pessoas e era por isso que o D. António depois trabalhava de noite e não descansava. E rebentou. Eu disse-lhe muitas vezes: o senhor vai rebentar. Ele ria-se. O senhor nunca o ouviu dizer que estava doente, nunca o ouvi dizer que lhe doía a cabeça. Preocupava-se muito connosco, com a nossa saúde e com o nosso descanso. E o balanço é este: a avalanche de pessoas de volta dele. O D. António chegou à hora de morrer porque chegou ao pleno da sua vida pastoral. Ele teve a diocese de volta dele em Fátima. Ele não imaginava e contava com metade das pessoas. Aquilo emocionou-o profundamente e isso também teve que ver com o acidente que o levou. Mas, ele fez tudo… fez tudo. Fez tudo, porque não podia mais e porque não podia mais, morreu. Foi para o Céu.”

VP: E agora como Administrador Diocesano com que atitude assume este serviço?

D. António Taipa: “Como é óbvio fui apanhado de surpresa por estas coisas. Nós nunca nos preparamos. Mas assumi com a disponibilidade com que assumi todas as missões que me confiaram durante a minha vida de padre e de bispo. Com alguma apreensão é evidente. E agora neste pouco tempo de administração entendo muito mais que o D. António tenha morrido, entendo muito mais a pressão em que D. António viveu. Porque de facto isto é uma coisa muito grande, é uma diocese muito grande e que tem problemas correspondentes e é preciso uma força psicológica muito, muito grande. É preciso muita fé, é preciso muita esperança. São dois milhões e meio… é muita coisa, muita gente e tem os problemas correspondentes. Mas também tem muita gente a trabalhar e eu vou sentindo agora isso porque vou vendo o que isso é. E é uma coisa muito simples: é estar a trabalhar e ter o telefone permanentemente a tocar. E ter a porta permanentemente a ser batida de alguém que procura. Elegeram-me para isto. Sou eu, foi a mim que elegeram. Portanto, sou eu que vou responder como eu puder, com as minhas capacidades, com as minhas habilidades, com as minhas aptidões, com os meus limites porque eu sou como sou e não vou ser diferente por estar numa missão diferente. E dou o que tiver de mim conforme as pessoas forem exigindo e a novidade dos tempos for pedindo.”

VP: Quer deixar, nesta oportunidade, uma mensagem aos seus diocesanos?

D. António Taipa: “A mensagem que eu deixo é esta: que todos os diocesanos leiam e respondam com a sua vida à grande palavra do D. António, palavra que é breve mas que é uma síntese espantosa de comunhão com a Igreja, de comunhão com a orientação dos últimos Papas, desde João Paulo II, Bento XVI e Papa Francisco sobre a centralidade de Jesus Cristo na vida e na pastoral. Que as pessoas leiam e tentem responder e não ponham de lado. Ponham num sítio em que possam permanentemente estar em contacto com aquele testamento. É uma grande mensagem, é um grande desafio quando ele diz: ‘Igreja do Porto: parte sob a bênção de Maria ao encontro de Cristo e nele e dele ao anúncio aos homens’. É uma maravilha, é a grande mensagem. Torná-lo presente na vida, torná-lo presente nas iniciativas, torná-lo presente neste esforço pastoral da centralidade de Cristo’.”