Fotografia: Monika Bulaj, onde o sagrado rompe as fronteiras

Étiopes envolvidos nos xailes de musselina branca que regressam a casa depois de uma noite de vigília e cantos, os samaritanos em Israel no monte em que Abraão ofereceu em sacrifício o seu filho a Deus, os peregrinos russos nos Urais, as crianças albanesas que estudam o Corão na mesquitas, cerimónia vudu no Haiti, a mulher de hábito negro para a procissão da Desolada.

As viagens fluem uma após a outra compondo o itinerário de uma longa viagem: lugares longínquos, pessoas totalmente diferentes mas unidas por uma comum respiração de fundo, por um mesmo olhar para o alto, uma “atmosfera” semelhante as envolve. Homens e mulheres debaixo do mesmo Céu.

«Em grego e em latim – escrevia o historiador das religiões Elémire Zolla – fala-se do fascínio como de uma brisa, uma aura em espiral de pessoas ou lugares, que por vezes cresce, torna-se turbina, nuvem deslumbrante, reverberação dourada, inunda e provoca vertigem.» É a atmosfera que respira a fotógrafa e repórter polaca Monika Bulaj andando pelo mundo das fés.

«Há muitos anos – escreve Bulaj – viajo ao longo das fronteiras dos monoteísmos, em oásis de encontros infestados por fanatismos armados, pelas pátrias perdidas dos foragidos de hoje. Asilos da fé, como o Bósforo, onde as mulheres armenas e turcas adormecem junto ao sepulcro de um santo bizantino, praticando o “incubatio”, de que se escrevia já antes de Heródoto, anestesiando com o sono a memória do extermínio que as divide.

Como os mosteiros no deserto egípcio, atacados pelos fanáticos. Como o Kosovo, onde os muçulmanos veneram o desafortunado santo dos sérvios, o rei Estêvão, cego pelo próprio pai e morto pelo filho. Como Damasco, onde cristãos, muçulmanos, xiitas e sunitas rezam lado a lado na mesquita dos Omayyadi, junto do catafalco de João Batista e debaixo do minarete de Cristo. Como o mosteiro Deir Mar Musa, cujas pedras foram novamente colocadas por cristãos e muçulmanos, por quem rezaram juntos durante um milénio na mesma Síria.»

Um trabalho que mudou ao longo dos anos. «No início documentava pequenas e grandes religiões à sombra de guerras antigas e recentes, e as suas cinzas. Depois, a determinado ponto, foram as minhas imagens a cercar-me, a falar em privado, narrando orações e sonhos, de água e de fogo, da memória, do teatro da festa dos mortos, do caminho dos cantos. O que faço agora é simples, quase infantil: recolho estilhaços de um grande espelho partido, milhares de estilhaços, fragmentos incoerentes, peças, átomos, talvez tijolos da torre de Babel.»

«Talvez isto possa fazer o fotógrafo, recolher pedaços de um mosaico que nunca ficará completo, colocar na ordem que lhe parece certa, ou talvez apenas possível, sonhando essa imagem total do mundo que talvez esteja perdida ou provavelmente se perdeu, como a língua de Abraão.» Uma lição. De fotografia. E de vida.

Giuseppe Matarazzo
In “Avvenire”
Redação: SNPC
Publicado em 11.09.2017