Nicolau, santo de compaixão e caridade: De construtor de pontes a Pai Natal

Procissão de S. Nicolau, Bari, Itália | D.R.

«E construtor da unidade foi-o também após a morte, quando, graças ao acontecimento, que hoje nos aparece como providencial, da trasladação das suas relíquias para Bari [atual Itália], tornou-se sinal eloquente de reconciliação entre Oriente e Ocidente», apontou o papa polaco.
«A recordação do grande bispo, ao mesmo tempo que suscita em nós a nostalgia daquela unidade que foi feliz possessão da Igreja do seu tempo, reaviva nas nossas almas o compromisso a não poupar esforços para que a Igreja de hoje se dirija para aquele objetivo, e consiga assim, finalmente, recuperar no encontro das duas grandes tradições do Oriente e Ocidente toda a riqueza que o Espírito de Cristo quer nela derramar», prosseguiu.
Nasceu entre 250 e 260 em Patara, na Ásia Menor, atual Turquia, de uma família nobre. Foi eleito bispo de Mira, também na atual Turquia – devido seus dotes de piedade e caridade muito explícitas desde criança -, quando a Igreja era perseguida. Terá sido preso sob o imperador Diocleciano. É considerado um dos santos mais venerados e amados no mundo, uma das figuras maiores no campo da hagiografia.

É representado como bispo que tem nas mãos ou aos seus pés três bolas de ouro, que são uma adaptação artística de saquinhos repletos de moedas de ouro que estão no centro de uma das narrativas mais conhecidas sobre a sua vida e que na cultura ocidental o veio a apresentar como portador de presentes

Cada povo fê-lo próprio, vendo-o sob uma luz diferente, conservando, no entanto, as suas características fundamentais, entre as quais a de defensor dos frágeis e daqueles que sofriam injustiças. É protetor das jovens que se preparam para o Matrimónio, bem como dos marinheiros, sendo ainda mais célebre, sobretudo no Ocidente, como defensor das crianças.
Na iconografia é representado como bispo que tem nas mãos ou aos seus pés três bolas de ouro, que são uma adaptação artística de saquinhos repletos de moedas de ouro que estão no centro de uma das narrativas mais conhecidas sobre a sua vida e que na cultura ocidental o veio a apresentar como portador de presentes.
Segundo a tradição, chegaram aos ouvidos de S. Nicolau rumores de que uma família estava a atravessar um mau momento. Um senhor, caído em grave miséria, desesperado por não oferecer à filha um matrimónio decoroso, tinha insinuado a ideia de ela se prostituir com o propósito de recolher o dinheiro suficiente para a boda.
Nicolau decide intervir, fazendo-o segundo um conselho evangélico: não saiba a tua esquerda o que faz a direita. Por outras palavras, queria realizar uma obra de caridade sem que as pessoas se apercebessem e o admirassem.

Intuindo a possibilidade de um terceiro gesto de caridade, o pai procura, nos dias seguintes, dormir com um olho aberto. Não queria que aquele que tinha salvado a sua honra permanecesse para ele um desconhecido

Por isso decide agir de noite. Com moedas de ouro envolvidas em tecido, sai de casa e chega à morada da infeliz jovem. Aproximando-se da janela, passa a mão pela mesma e deixa cair o pequeno pacote no interior. O barulho apanha de surpresa o pai, que recolhe o dinheiro e com ele prepara o casamento da filha maior.
Vendo que o pai tinha utilizado bem o dinheiro, Nicolau quer repetir o gesto. Pode imaginar-se a alegria que encheu o coração do progenitor. Tomado pela curiosidade, procura, em vão, saindo de casa, quem tinha sido o benfeitor. Com as moedas de ouro, encontradas no saquinho que Nicolau havia novamente lançado pela janela, pôde realizar o sonho da segunda filha de contrair um feliz matrimónio.
Intuindo a possibilidade de um terceiro gesto de caridade, o pai procura, nos dias seguintes, dormir com um olho aberto. Não queria que aquele que tinha salvado a sua honra permanecesse para ele um desconhecido.
Uma noite, enquanto se esforçava por se manter acordado, eis o barulho do terceiro saquinho que, caindo ao chão, faz o clássico tilintar das moedas. Apesar de o jovem se afastar rapidamente, o pai precipita-se para fora de casa, conseguindo individuar o seu contorno. Alcançando-o, reconhece-o como um dos seus vizinhos. Nicolau, porém, fez-lhe prometer de não revelar o acontecimento a ninguém.
O pai promete mas, a julgar pela história, é muito provável que não tenha mantido a promessa. E a fama de Nicolau como homem de grande caridade difunde-se ainda mais pela cidade de Mira.
Faleceu em torno de 335, notabilizado igualmente como lutador contra as heresias. Antes da morte já era considerado santo. As suas relíquias foram levadas para Bari, atual Itália, em 1087. Tornou-se no lendário “Santa Claus” dos países anglo-saxónicos, o Pai Natal na tradição portuguesa, Papai Noel no Brasil. A sua memória litúrgica é evocada a 6 de dezembro.

P. Gerardo Cioffari O.P., Matteo Liut
Fontes: “Santiebeati”, “Avvenire”
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 06.12.2017