S. João evangelista, o discípulo que Jesus amava

“S. João e a águia” (det.) | Vladimir Borovikovsky | Catedral de Kazan, S. Petersburgo, Rússia | D.R.

Do apóstolo João (nome hebraico que significa “O Senhor dá a sua graça”) é conhecida nos Evangelhos a sua família: o pai era Zebedeu, o irmão era o apóstolo Tiago; de profissão era pescador, ou talvez membro de uma sociedade familiar de pesca na qual, provavelmente, colaboravam outros dois irmãos, os apóstolos Simão Pedro e André.

A sua vocação – chamamento – ocorreu precisamente no ambiente de trabalho e partir desse momento João foi cooptado por Jesus para o grupo restrito das três testemunhas privilegiadas, que compreendia Pedro e Tiago. São eles a assistir em exclusivo à ressurreição da filha de Jairo, à transfiguração, à oração do Getsémani, antes da prisão e morte.

Cristo imporá também um apelido aos dois irmãos, João e Tiago, Boanerges, “filhos do trovão”, habitualmente ligado ao seu carácter veemente, mas talvez a considerar em sentido positivo, sendo o trovão na Bíblia símbolo da voz poderosa de Deus: eles, então, teriam a tarefa de atestar com força e autoridade a palavra divina.

João reaparece nos Atos dos Apóstolos, frequentemente em conexão com Pedro, com a missão de evangelizador. Paulo coloca-o entre as «colunas» da Igreja-mãe de Jerusalém, juntamente com Pedro e Tiago «irmão do Senhor».

Em síntese, podemos dizer que João constitui uma das figuras de mais alto relevo no interior do colégio apostólico dos Doze.

 

O discípulo amado

Uma consideração à parte merece a figura misteriosa do «discípulo que Jesus amava», que entra em cena no quarto Evangelho apenas no fim, quando está para se cumprir a «hora»m da paixão, morte e glorificação pascal de Cristo. É convicção tradicional que seja um auto-retrato do próprio apóstolo João.

Há, porém, uma dificuldade: este «discípulo amado», também chamado «o outro discípulo» (relativamente a Pedro), de acordo com a mesma narrativa evangélica, «era conhecido do sumo-sacerdote». Como era possível que isto acontecesse a um pescador da Galileia, mesmo que integrando de uma empresa piscícola própria?

Todavia outras tentativas de identificação são substancialmente impraticáveis. Por isso continua-se a reter a linha tradicional que procura sobrepor o rosto de João ao do «discípulo amado» que tinha «repousado sobre o peito de Jesus». Talvez se possa imaginar uma especificação posterior na complexa história da redação do quarto Evangelho.

 

O quarto Evangelho

Detenhamo-nos, então, neste escrito atribuído a João e marcado com o símbolo da águia, na base da atribuição tradicional aos quatro evangelistas dos quatro seres viventes do Apocalipse (leão, touro, homem, águia, cf. Ap 4, 6-7).

Composto por 15 416 palavras gregas e 879 versículos, terceiro em comprimento após Lucas e Mateus, este Evangelho caracteriza-se por uma linguagem teológica muito apurada, de tal modo que mereceu a definição de “Evangelho espiritual”.

Usam-se, com efeito, nas suas páginas, termos com aceções específicas. Assim, «verdade» é a revelação que Cristo oferece; «sinais» e «obras» são os milagres (e o quarto evangelista seleciona sete, muito originais e emblemáticos); a «hora» por excelência é, como referimos, a morte e a ressurreição de Cristo, definida também como «exaltação» e «glorificação».

Denso é também o vocabulário processual usado para descrever o recontro entre Cristo e o mal: «testemunho», «justiça», «juízo», «Paráclito» (isto é, defensor), entre outras palavras. Termos caros a João são também «amor», «amar», «conhecer», «vida», «mundo», «permanecer», «luz», «Eu sou» (título divino bíblico atribuído a Cristo).

Parece, portanto, que esta obra é fruto de uma elaboração precisa, posterior à dos outros Evangelho, a situar no final do primeiro século, talvez na região da Ásia Menor, onde precisamente tinham florescido comunidades que se referiam à pregação do apóstolo João.

 

Do Evangelho ao Apocalipse

Os estudiosos procuram aprofundar a génese do escrito, propondo reconstruções muito complexas. Certo é que na base do quarto Evangelho está o testemunho do próprio apóstolo que tinha partilhado a vida pública de Jesus a partir de um ângulo privilegiado.

É ele a dar início, através das suas palavras, a um escrito que talvez tenha tido a ajuda de um redator qualificado que compôs o Evangelho na base desse testemunho oral, mas também com a sua experiência, a sua preparação espiritual e cultural, a sua habilidade literária. Para alguns estudiosos poderia ser ele o «discípulo amado», associado a João.

Quaisquer que sejam as circunstâncias, não há dúvida de que o quarto Evangelho revela um trabalho de formação progressivo, de tal modo que nos encontramos com dois finais diferentes, sinal pelo menos de uma posterior “reedição”.

No entanto, o conjunto do Evangelho revela uma coesão e uma identidade teológica bem claras. Por esta razão, foi particularmente amado pela tradição, que exaltava os grandiosos discursos de Jesus contidos naquelas páginas; os milagres, «sinais» do mistério profundo de Cristo; a grandiosa narração da Paixão, que vê a cruz como o trono da glória do Redentor; o inesquecível e extraordinário prólogo onde se celebra a Incarnação do Verbo; os encontros de Jesus com personagens que representam outros tantos modelos de vida, como Nicodemos ou a samaritana; o tema reiterado do amor e assim por diante.

Não foi por acaso que um grande escritor cristão do séc. III, Orígenes, afirmou: «A flor de toda a Sagrada Escritura é o Evangelho e a flor do Evangelho é o Evangelho a nós transmitido por João, cujo sentido profundo e oculto ninguém poderá alguma vez colher plenamente».

Precisamente porque João, o apóstolo, foi considerado a fonte de uma tradição eclesial, pastoral e teológica, a ele foram reconduzidas outras obras do Novo Testamento. Por um lado há as três Cartas de João (a primeira é, na realidade, um esplêndido tratado sobre a fé e sobre o amor, enquanto que as outras são uma espécie de breves notas); por outro lado há essa obra-prima que é o Apocalipse, que no entanto reflete características próprias que a tornam autónoma.

 

Tradições

Em torno a João floresceu também uma tradição popular muito viva baseada em textos apócrifos e em legendas. Segundo estas memórias, João, durante a perseguição de Domiciano, teria sido conduzido de Éfeso a Roma, onde, na Porta Latina, teria sido mergulhado numa caldeira de óleo a escaldar, da qual sai ileso. Teria sido então relegado para a ilha-prisão de Patmos, no mar Egeu, onde teria escrito o Apocalipse.

De lá, transferido para Éfeso, teria convertido um filósofo e, obrigado pelos ourives da cidade – que produziam ex-votos para a deusa Artémis – a beber uma taça de veneno, com um sinal da cruz a purificou, fazendo sair dela uma serpente.

A ele serão atribuídas ressurreições dos mortos, milagres e discursos, e a sua figura entrará triunfalmente na história da Teologia e da piedade popular, exaltado como “virgem” e “teólogo”.

Uma longa sequência iconográfica acompanhá-lo-á ao longo dos séculos: enquanto que o Oriente o representa ancião, calvo e com barba, o Ocidente medieval prefere-o jovem e imberbe.

Em qualquer caso o seu Evangelho permanecerá a estrela polar da sua presença na história do cristianismo, que o assinala a 27 de dezembro, em ligação com o Natal por ele exaltado nas meditações sobre a Incarnação que afloram nas suas páginas.

O patriarca greco-ortodoxo Atenágoras declarava: «João está na origem da nossa espiritualidade mais alta. Com ele, os “silenciosos” conhecem esse misterioso intercâmbio de corações, invocam a presença de João, e os seus corações inflamam-se».

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad.: SNPC
Publicado em 27.12.2017