{"id":27889,"date":"2023-11-03T10:02:48","date_gmt":"2023-11-03T10:02:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=27889"},"modified":"2023-11-03T10:02:48","modified_gmt":"2023-11-03T10:02:48","slug":"a-igreja-e-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/a-igreja-e-a-paz\/","title":{"rendered":"A Igreja e a Paz"},"content":{"rendered":"<p>A Igreja tem contribu\u00eddo para a paz de diversos modos. Nos seus come\u00e7os, denunciou at\u00e9 ao mart\u00edrio a idolatria belicista do Imp\u00e9rio Romano. Quando se tornou cultural e politicamente hegem\u00f3nica, caiu algumas vezes na tenta\u00e7\u00e3o de impor a paz pela for\u00e7a. Mais recentemente, denunciou convictamente o belicismo, ao menos pela voz incompreendida do Papa Bento XV. No Conc\u00edlio Vaticano II, prop\u00f4s analisar a quest\u00e3o da guerra \u201cuma mentalidade nova\u201d. \u00c9 neste novo horizonte, religioso e moral mais do que pol\u00edtico, na ace\u00e7\u00e3o restrita desta palavra, que devem ser situadas as exorta\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos papas, nomeadamente do Papa Francisco em cujo pontificado se tem assistido a um novo incremento da guerra, mesmo e sobretudo na Europa crist\u00e3, mas tamb\u00e9m em outras latitudes.<\/p>\n<p>O contributo da Igreja n\u00e3o pode ficar apenas na par\u00e9nese. Tem de ir mais longe. \u00c9 com esse sentido de ir mais longe que propomos as reflex\u00f5es que seguem.<\/p>\n<p>O primeiro contributo para a paz \u00e9, a nosso ver, a proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho de Jesus que \u00e9 o reconhecimento do verdadeiro Deus. Este assunto \u00e9 da maior import\u00e2ncia, pois a justifica\u00e7\u00e3o da guerra \u00e9 sempre uma forma de idolatria. A beliger\u00e2ncia \u00e9 geralmente uma forma de cren\u00e7a na superioridade de uma ideia sobre outra, sendo que a considerada inferior deve ser aniquilada e combatida, juntamente com os seus defensores. Jesus iniciou-nos \u00e0 f\u00e9 no verdadeiro Deus, uma presen\u00e7a escondida e bondosa, que est\u00e1 acima de todas as ideias e garante a dignidade absoluta de todos os seres humanos, para l\u00e1 das suas ideias e dos seus m\u00e9ritos. O rosto de Deus est\u00e1 especialmente presente no olhar das v\u00edtimas, para l\u00e1 das suas ideias e das suas perten\u00e7as \u00e9tnicas ou religiosas. O ser humano \u00e9 de Deus, antes de qualquer outro aspeto da sua condi\u00e7\u00e3o e perten\u00e7a. \u00c9 esta forma de viv\u00eancia que se levanta contra todas as formas de justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra qualquer grupo ou qualquer ser humano. A justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia anda sempre envolta por um mecanismo sacrificial que foi superado na execu\u00e7\u00e3o injusta de Jesus que morre pedindo perd\u00e3o. Os crist\u00e3os n\u00e3o podem esquecer que a sua experi\u00eancia de Deus \u00e9 a experi\u00eancia de Jesus, o qual sofreu a viol\u00eancia injusta, cruel e absurda.<\/p>\n<p>\u00c9 esta viv\u00eancia do divino que \u00e9 a fonte do princ\u00edpio da conviv\u00eancia pac\u00edfica das nossas sociedades. Sendo de Deus e s\u00f3 de Deus, os seres humanos podem conviver entre si como irm\u00e3os e irm\u00e3s nas suas inesgot\u00e1veis diferen\u00e7as religiosas, culturais, pessoais. Este \u00e9 o caminho do reconhecimento do princ\u00edpio da laicidade. Uma vez que s\u00e3o de Deus, os seres humanos podem conviver no Estado de direito, seja qual for a sua f\u00e9, a sua etnia, a sua hist\u00f3ria, as suas op\u00e7\u00f5es valorativas, as suas formas pac\u00edficas de levar por diante as mais diversas formas de ganhar a vida e a celebrar. A laicidade quer dizer que o Estado se funda na justi\u00e7a e n\u00e3o na religi\u00e3o nem em outras formas de convic\u00e7\u00e3o moral que n\u00e3o sejam dotadas de universalidade. O Estado de direito, pensado por este caminho, \u00e9 o princ\u00edpio da paz, quer da paz interna dos pa\u00edses, quer da paz internacional. Est\u00e1 bem de ver que este ideal de Estado est\u00e1 longe de ser colocado no terreno, mesmo nos nossos pa\u00edses de velha cristandade. Mas na maior parte das outras latitudes, est\u00e1 tudo ainda muito mais distante de ser conseguido.<\/p>\n<p>A adjac\u00eancia ao Evangelho tem, pois, de ser o princ\u00edpio orientador das interven\u00e7\u00f5es da Igreja em favor da paz. N\u00e3o lhe falta inspira\u00e7\u00e3o vivencial nem terreno f\u00e9rtil para desenvolver uma racionalidade amiga da paz e capaz de desconstruir as raz\u00f5es envenenadas que levam \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 guerra. A inclus\u00e3o dos povos na verdadeira experi\u00eancia religiosa \u00e9 muito mais do que proselitismo: \u00e9 o princ\u00edpio base de qualquer humanismo, desse que o nosso mundo de hoje necessita em tantas vertentes da vida. Mas o desenvolvimento de uma racionalidade aberta, capaz de desmascarar os mecanismos da sacraliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m uma tarefa da comunidade crist\u00e3. Assim as escolas da Igreja e as suas universidades possam inscrever-se neste programa de amplia\u00e7\u00e3o da racionalidade, de forma desinteressada e l\u00facida. E depois de fazer tudo o que nos compete para evitar a viol\u00eancia h\u00e1 o pedido insistente para sermos livres do mal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja tem contribu\u00eddo para a paz de diversos modos. Nos seus come\u00e7os, denunciou at\u00e9 ao mart\u00edrio a idolatria belicista do Imp\u00e9rio Romano. Quando se tornou cultural e politicamente hegem\u00f3nica, caiu algumas vezes na tenta\u00e7\u00e3o de impor a paz pela for\u00e7a. Mais recentemente, denunciou convictamente o belicismo, ao menos pela voz incompreendida do Papa Bento XV. No Conc\u00edlio Vaticano II, prop\u00f4s analisar a quest\u00e3o da guerra \u201cuma mentalidade nova\u201d. \u00c9 neste novo horizonte, religioso e moral mais do que pol\u00edtico, na ace\u00e7\u00e3o restrita desta palavra, que devem ser situadas as exorta\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos papas, nomeadamente do Papa Francisco em cujo pontificado se tem assistido a um novo incremento da guerra, mesmo e sobretudo na Europa crist\u00e3, mas tamb\u00e9m em outras latitudes. O contributo da Igreja n\u00e3o pode ficar apenas na par\u00e9nese. Tem de ir mais longe. \u00c9 com esse sentido de ir mais longe que propomos as reflex\u00f5es que seguem. O primeiro contributo para a paz \u00e9, a nosso ver, a proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho de Jesus que \u00e9 o reconhecimento do verdadeiro Deus. Este assunto \u00e9 da maior import\u00e2ncia, pois a justifica\u00e7\u00e3o da guerra \u00e9 sempre uma forma de idolatria. A beliger\u00e2ncia \u00e9 geralmente uma forma de cren\u00e7a na superioridade de uma ideia sobre outra, sendo que a considerada inferior deve ser aniquilada e combatida, juntamente com os seus defensores. Jesus iniciou-nos \u00e0 f\u00e9 no verdadeiro Deus, uma presen\u00e7a escondida e bondosa, que est\u00e1 acima de todas as ideias e garante a dignidade absoluta de todos os seres humanos, para l\u00e1 das suas ideias e dos seus m\u00e9ritos. O rosto de Deus est\u00e1 especialmente presente no olhar das v\u00edtimas, para l\u00e1 das suas ideias e das suas perten\u00e7as \u00e9tnicas ou religiosas. O ser humano \u00e9 de Deus, antes de qualquer outro aspeto da sua condi\u00e7\u00e3o e perten\u00e7a. \u00c9 esta forma de viv\u00eancia que se levanta contra todas as formas de justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra qualquer grupo ou qualquer ser humano. A justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia anda sempre envolta por um mecanismo sacrificial que foi superado na execu\u00e7\u00e3o injusta de Jesus que morre pedindo perd\u00e3o. Os crist\u00e3os n\u00e3o podem esquecer que a sua experi\u00eancia de Deus \u00e9 a experi\u00eancia de Jesus, o qual sofreu a viol\u00eancia injusta, cruel e absurda. \u00c9 esta viv\u00eancia do divino que \u00e9 a fonte do princ\u00edpio da conviv\u00eancia pac\u00edfica das nossas sociedades. Sendo de Deus e s\u00f3 de Deus, os seres humanos podem conviver entre si como irm\u00e3os e irm\u00e3s nas suas inesgot\u00e1veis diferen\u00e7as religiosas, culturais, pessoais. Este \u00e9 o caminho do reconhecimento do princ\u00edpio da laicidade. Uma vez que s\u00e3o de Deus, os seres humanos podem conviver no Estado de direito, seja qual for a sua f\u00e9, a sua etnia, a sua hist\u00f3ria, as suas op\u00e7\u00f5es valorativas, as suas formas pac\u00edficas de levar por diante as mais diversas formas de ganhar a vida e a celebrar. A laicidade quer dizer que o Estado se funda na justi\u00e7a e n\u00e3o na religi\u00e3o nem em outras formas de convic\u00e7\u00e3o moral que n\u00e3o sejam dotadas de universalidade. O Estado de direito, pensado por este caminho, \u00e9 o princ\u00edpio da paz, quer da paz interna dos pa\u00edses, quer da paz internacional. Est\u00e1 bem de ver que este ideal de Estado est\u00e1 longe de ser colocado no terreno, mesmo nos nossos pa\u00edses de velha cristandade. Mas na maior parte das outras latitudes, est\u00e1 tudo ainda muito mais distante de ser conseguido. A adjac\u00eancia ao Evangelho tem, pois, de ser o princ\u00edpio orientador das interven\u00e7\u00f5es da Igreja em favor da paz. N\u00e3o lhe falta inspira\u00e7\u00e3o vivencial nem terreno f\u00e9rtil para desenvolver uma racionalidade amiga da paz e capaz de desconstruir as raz\u00f5es envenenadas que levam \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 guerra. A inclus\u00e3o dos povos na verdadeira experi\u00eancia religiosa \u00e9 muito mais do que proselitismo: \u00e9 o princ\u00edpio base de qualquer humanismo, desse que o nosso mundo de hoje necessita em tantas vertentes da vida. Mas o desenvolvimento de uma racionalidade aberta, capaz de desmascarar os mecanismos da sacraliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m uma tarefa da comunidade crist\u00e3. Assim as escolas da Igreja e as suas universidades possam inscrever-se neste programa de amplia\u00e7\u00e3o da racionalidade, de forma desinteressada e l\u00facida. 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