{"id":28300,"date":"2024-01-27T10:17:27","date_gmt":"2024-01-27T10:17:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=28300"},"modified":"2024-01-27T10:17:27","modified_gmt":"2024-01-27T10:17:27","slug":"falando-de-principios-morais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/falando-de-principios-morais\/","title":{"rendered":"Falando de princ\u00edpios morais"},"content":{"rendered":"<p>Tem sido muito trabalhada a recep\u00e7\u00e3o do recente documento \u201cFiducia Supplicans\u201d do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 relativo \u00e0s b\u00ean\u00e7\u00e3os de pessoas em situa\u00e7\u00f5es irregulares do ponto de vista moral, como sejam recasados ou conviv\u00eancias homossexuais.<\/p>\n<p>Podemos perguntar o que levou o Papa Francisco a aprovar a publica\u00e7\u00e3o de um texto que n\u00e3o foi pedido pelo Povo de Deus nem referendado por uma consulta sinodal. Parece evidente que o Papa n\u00e3o estava confort\u00e1vel como um documento anterior que respondia negativamente a uma pergunta diferente sobre o mesmo assunto. N\u00e3o parece dif\u00edcil de imaginar qual a preocupa\u00e7\u00e3o pastoral do Papa. A ele como pastor compete manter ligadas e confirmar a liga\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e0 comunidade salv\u00edfica, mesmo aquelas que se encontram nas regi\u00f5es existencialmente remotas, quase desligadas da potente gravita\u00e7\u00e3o de Cristo, o astro-rei de todo o real.<\/p>\n<p>Tem sido dito que o Papa d\u00e1 o seu acordo \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o toca nos princ\u00edpios. Vai nessa linha uma nota \u00e0 imprensa do pr\u00f3prio Vaticano que afirma que o centro do documento \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o entre b\u00ean\u00e7\u00e3os lit\u00fargicas e outras b\u00ean\u00e7\u00e3os comuns. A explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o convence toda a gente. O que parece verdade \u00e9 que o Papa quer mesmo intervir sobre os princ\u00edpios. Tanto no caso das pessoas a viver num casamento civil como nas pessoas que vivem rela\u00e7\u00f5es homossexuais, o que est\u00e1 em causa \u00e9 mesmo uma quest\u00e3o de princ\u00edpio. Vamos ent\u00e3o tentar esclarecer de que se trata quando falamos de \u201cprinc\u00edpios\u201d morais.<\/p>\n<p>Para encurtar raz\u00f5es, podemos dizer que o princ\u00edpio pretende ser uma no\u00e7\u00e3o orientadora da escala dos valores morais e das normas concretas de ac\u00e7\u00e3o. Falamos do princ\u00edpio da autonomia, da subsidiariedade, da dignidade do ser humano, do intrinsecamente mau, e assim por a\u00ed adiante. Tendo uma certa estabilidade, o princ\u00edpio nunca \u00e9 uma realidade terminada. H\u00e1 sempre a necessidade de ir mais longe na liga\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio \u00e0 origem da realidade. \u00c9 isso que faz a reflex\u00e3o \u00e9tica continuadamente.<\/p>\n<p>No caso da vida das pessoas homossexuais, h\u00e1 uma grande hist\u00f3ria relativa aos princ\u00edpios. A doutrina recente tem dito que h\u00e1 uma compaix\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o homossexual e uma proibi\u00e7\u00e3o dos gestos de afecto e sexo. Estamos muito longe do tempo em que se penalizava essas pessoas de maneira dur\u00edssima, mesmo com a pena capital. Mas na base de melhores abordagens da Sagrada Escritura, temos conclu\u00eddo que a antiga formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece justa, pois o sentido dos textos normativos era outro, baseado em pressupostos culturais inaceit\u00e1veis e n\u00e3o na revela\u00e7\u00e3o divina. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio formular de novo o princ\u00edpio. Como h\u00e1 algumas pessoas que sofrem a sua condi\u00e7\u00e3o homossexual (como as pessoas heterossexuais tamb\u00e9m sofrem a sua condi\u00e7\u00e3o) \u00e9 necess\u00e1rio dizer que elas est\u00e3o abrangidas pela mesmo princ\u00edpio da castidade que se aplica a todos. E isso o que implica? Implica que vivam no amor rec\u00edproco, na m\u00fatua ajuda, no sacrif\u00edcio pelo outro, na valoriza\u00e7\u00e3o do outro. O que aconteceu \u00e9 que o princ\u00edpio mudou os marcos: deixou de ser positivista e passou a ser personalista. A raz\u00e3o deixou-se guiar pela f\u00e9 e aproximar-se do princ\u00edpio de todas vidas que \u00e9 a vida ressuscitada do Senhor.<\/p>\n<p>Por isso, podemos dizer que o texto vaticano, ao permitir a b\u00ean\u00e7\u00e3o das pessoas, seja qual for a sua condi\u00e7\u00e3o, toma a s\u00e9rio a f\u00e9 como princ\u00edpio de acesso \u00e0 realidade e n\u00e3o apenas como um acess\u00f3rio. Todas as pessoas s\u00e3o encontradas por Jesus na valeta da vida e necessitam de convers\u00e3o e de eleva\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o sentido da celebra\u00e7\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o e do sacramento. Essa eleva\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de perd\u00e3o aceite e pedido reiteradamente ao longo de uma biografia que \u00e9 dram\u00e1tica, e algumas vezes de luta ag\u00f3nica, pelo bem, pela perseveran\u00e7a na gra\u00e7a, pela integra\u00e7\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a vida de todos, sejam homossexuais ou heterossexuais.<\/p>\n<p>O que o Papa Francisco deixa antever neste documento \u00e9, portanto, uma evolu\u00e7\u00e3o da teologia moral no sentido da sua adjac\u00eancia maior ao mist\u00e9rio de Cristo, como reden\u00e7\u00e3o de todos os seres humanos, seja qual for a sua condi\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o vai at\u00e9 institucionalizar a vida das pessoas homossexuais, como faz o direito civil de diversos pa\u00edses. Mas abre a porta a uma pastoral mais pr\u00f3xima da bondade, do amor, da miseric\u00f3rdia, da convers\u00e3o a Cristo. Algu\u00e9m o pode censurar por isso?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem sido muito trabalhada a recep\u00e7\u00e3o do recente documento \u201cFiducia Supplicans\u201d do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 relativo \u00e0s b\u00ean\u00e7\u00e3os de pessoas em situa\u00e7\u00f5es irregulares do ponto de vista moral, como sejam recasados ou conviv\u00eancias homossexuais. Podemos perguntar o que levou o Papa Francisco a aprovar a publica\u00e7\u00e3o de um texto que n\u00e3o foi pedido pelo Povo de Deus nem referendado por uma consulta sinodal. Parece evidente que o Papa n\u00e3o estava confort\u00e1vel como um documento anterior que respondia negativamente a uma pergunta diferente sobre o mesmo assunto. N\u00e3o parece dif\u00edcil de imaginar qual a preocupa\u00e7\u00e3o pastoral do Papa. A ele como pastor compete manter ligadas e confirmar a liga\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e0 comunidade salv\u00edfica, mesmo aquelas que se encontram nas regi\u00f5es existencialmente remotas, quase desligadas da potente gravita\u00e7\u00e3o de Cristo, o astro-rei de todo o real. Tem sido dito que o Papa d\u00e1 o seu acordo \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o toca nos princ\u00edpios. Vai nessa linha uma nota \u00e0 imprensa do pr\u00f3prio Vaticano que afirma que o centro do documento \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o entre b\u00ean\u00e7\u00e3os lit\u00fargicas e outras b\u00ean\u00e7\u00e3os comuns. A explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o convence toda a gente. O que parece verdade \u00e9 que o Papa quer mesmo intervir sobre os princ\u00edpios. Tanto no caso das pessoas a viver num casamento civil como nas pessoas que vivem rela\u00e7\u00f5es homossexuais, o que est\u00e1 em causa \u00e9 mesmo uma quest\u00e3o de princ\u00edpio. Vamos ent\u00e3o tentar esclarecer de que se trata quando falamos de \u201cprinc\u00edpios\u201d morais. Para encurtar raz\u00f5es, podemos dizer que o princ\u00edpio pretende ser uma no\u00e7\u00e3o orientadora da escala dos valores morais e das normas concretas de ac\u00e7\u00e3o. Falamos do princ\u00edpio da autonomia, da subsidiariedade, da dignidade do ser humano, do intrinsecamente mau, e assim por a\u00ed adiante. Tendo uma certa estabilidade, o princ\u00edpio nunca \u00e9 uma realidade terminada. H\u00e1 sempre a necessidade de ir mais longe na liga\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio \u00e0 origem da realidade. \u00c9 isso que faz a reflex\u00e3o \u00e9tica continuadamente. No caso da vida das pessoas homossexuais, h\u00e1 uma grande hist\u00f3ria relativa aos princ\u00edpios. A doutrina recente tem dito que h\u00e1 uma compaix\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o homossexual e uma proibi\u00e7\u00e3o dos gestos de afecto e sexo. Estamos muito longe do tempo em que se penalizava essas pessoas de maneira dur\u00edssima, mesmo com a pena capital. Mas na base de melhores abordagens da Sagrada Escritura, temos conclu\u00eddo que a antiga formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece justa, pois o sentido dos textos normativos era outro, baseado em pressupostos culturais inaceit\u00e1veis e n\u00e3o na revela\u00e7\u00e3o divina. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio formular de novo o princ\u00edpio. Como h\u00e1 algumas pessoas que sofrem a sua condi\u00e7\u00e3o homossexual (como as pessoas heterossexuais tamb\u00e9m sofrem a sua condi\u00e7\u00e3o) \u00e9 necess\u00e1rio dizer que elas est\u00e3o abrangidas pela mesmo princ\u00edpio da castidade que se aplica a todos. E isso o que implica? Implica que vivam no amor rec\u00edproco, na m\u00fatua ajuda, no sacrif\u00edcio pelo outro, na valoriza\u00e7\u00e3o do outro. O que aconteceu \u00e9 que o princ\u00edpio mudou os marcos: deixou de ser positivista e passou a ser personalista. A raz\u00e3o deixou-se guiar pela f\u00e9 e aproximar-se do princ\u00edpio de todas vidas que \u00e9 a vida ressuscitada do Senhor. Por isso, podemos dizer que o texto vaticano, ao permitir a b\u00ean\u00e7\u00e3o das pessoas, seja qual for a sua condi\u00e7\u00e3o, toma a s\u00e9rio a f\u00e9 como princ\u00edpio de acesso \u00e0 realidade e n\u00e3o apenas como um acess\u00f3rio. Todas as pessoas s\u00e3o encontradas por Jesus na valeta da vida e necessitam de convers\u00e3o e de eleva\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o sentido da celebra\u00e7\u00e3o da b\u00ean\u00e7\u00e3o e do sacramento. Essa eleva\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de perd\u00e3o aceite e pedido reiteradamente ao longo de uma biografia que \u00e9 dram\u00e1tica, e algumas vezes de luta ag\u00f3nica, pelo bem, pela perseveran\u00e7a na gra\u00e7a, pela integra\u00e7\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a vida de todos, sejam homossexuais ou heterossexuais. O que o Papa Francisco deixa antever neste documento \u00e9, portanto, uma evolu\u00e7\u00e3o da teologia moral no sentido da sua adjac\u00eancia maior ao mist\u00e9rio de Cristo, como reden\u00e7\u00e3o de todos os seres humanos, seja qual for a sua condi\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o vai at\u00e9 institucionalizar a vida das pessoas homossexuais, como faz o direito civil de diversos pa\u00edses. Mas abre a porta a uma pastoral mais pr\u00f3xima da bondade, do amor, da miseric\u00f3rdia, da convers\u00e3o a Cristo. 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