{"id":28511,"date":"2024-03-08T10:39:12","date_gmt":"2024-03-08T10:39:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=28511"},"modified":"2024-03-08T10:39:12","modified_gmt":"2024-03-08T10:39:12","slug":"leitoras-e-leitores-na-escala-de-servico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/leitoras-e-leitores-na-escala-de-servico\/","title":{"rendered":"Leitoras e Leitores na escala de servi\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pergunta:\u00a0<\/strong><em>A escala dos leitores da minha par\u00f3quia, por norma, coloca sempre mulheres a fazer a primeira leitura e homens a segunda. Motivo: numa forma\u00e7\u00e3o lit\u00fargica ensinaram que era essa a ordem correta. Pergunto se esse costume tem justifica\u00e7\u00e3o porque eu, que sou sempre escalado para a segunda leitura, tamb\u00e9m gostaria de ler, por vezes, a primeira.<\/em>\u00a0[Pergunta assinada]<\/p>\n<p><strong>Resposta do Secretariado Diocesano da Liturgia:<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 qualquer fundamento objetivo para uma regra t\u00e3o estrita: primeira leitura \u2013 leitoras; segunda leitura \u2013 leitores. N\u00e3o haver\u00e1, subjacente a essa \u00ab praxe \u00bb, a ideia de uma progress\u00e3o na \u00abdignidade\u00bb dos leitores, dado que, fora do tempo pascal, a primeira leitura \u00e9 sempre do AT e a segunda leitura \u00e9 sempre do NT? Ent\u00e3o, atribuindo ao AT uma menor \u00abimport\u00e2ncia\u00bb (em confronto com o NT) e conformando-se \u00e0 conven\u00e7\u00e3o que atribu\u00eda uma inferioridade ao sexo feminino, a escala mobilizaria quem \u00e9 \u00abmenos digno\u00bb (!) para o que \u00e9 \u00abmenos\u00bb importante e quem o \u00e9 mais para o \u00abmais\u00bb importante\u2026<\/p>\n<p>Se \u00e9 esse o pressuposto impl\u00edcito da referida regra, ent\u00e3o teremos de dizer que o fundamento \u00e9 falacioso. Recordemos, em primeiro lugar, que toda a Escritura \u00e9 \u00abpalavra do Senhor\u00bb, como se aclama no final da proclama\u00e7\u00e3o e toda ela \u00e9 inspirada por Deus (<em>2 Tm<\/em>\u00a03, 16). Jesus Cristo Ressuscitado insiste com os seus disc\u00edpulos em que a Lei de Mois\u00e9s, os Profetas e os Salmos \u2013 toda a Escritura, que ent\u00e3o se limitava ao AT (os livros do NT ser\u00e3o redigidos a seguir) \u2013 a Ele se referiam. E \u00e9 esse o modo crist\u00e3o de ler o AT. Ali\u00e1s, \u00e9 conhecido o coment\u00e1rio de S\u00e3o Jer\u00f3nimo que at\u00e9 ousa chamar \u00abevangelista\u00bb ao profeta Isa\u00edas. A haver \u2013 e h\u00e1 \u2013 alguma distin\u00e7\u00e3o lit\u00fargica entre os livros da Sagrada Escritura, em que alguns sobressaiam em \u00abdignidade\u00bb sobre os demais e requeiram ministros especiais, essa apenas discrimina os quatro Evangelhos, o \u00abEvangelho quadrimorfo\u00bb que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, costuma ter maior investimento art\u00edstico e encaderna\u00e7\u00e3o mais preciosa \u2013 o Evangeli\u00e1rio \u2013, sendo objeto de particulares honras lit\u00fargicas (levado em prociss\u00e3o, entronizado no altar, osculado, incensado\u2026) e reservado \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o de ministros ordenados.<\/p>\n<p>Quanto ao pressuposto de uma diferen\u00e7a de dignidade que inferiorize o sexo feminino ao masculino, diremos que esse preconceito cultural j\u00e1 h\u00e1 muito deveria ter sido superado porque, tanto na dignidade humana como na gra\u00e7a batismal, deve afirmar-se e manter-se, com S\u00e3o Paulo, que em Cristo n\u00e3o h\u00e1 homem nem mulher mas todos s\u00e3o um s\u00f3 (<em>Gal\u00a0<\/em>3, 28). Foi, sem d\u00favida, por isso que o Papa Francisco reviu a lei can\u00f3nica da Igreja e superou a exclus\u00e3o feminina dos minist\u00e9rios laicais institu\u00eddos, incluindo o do Leitorado (Carta ap. motu proprio\u00a0<em>Spiritus Domini<\/em>\u00a0de 10 de janeiro de 2022).<\/p>\n<p>Teremos de encontrar, por isso, outras justifica\u00e7\u00f5es para a organiza\u00e7\u00e3o das escalas de leitores, superando qualquer rigidez ou preconceito. Idealizando neste \u00e2mbito uma poss\u00edvel \u00abarte de celebrar\u00bb em que se promova a beleza da proclama\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Palavra de Deus, poder\u00e1 fazer sentido a procura de altern\u00e2ncia entre vozes masculinas e femininas, porque a variedade contribui para a beleza e suscita de forma mais eficaz a aten\u00e7\u00e3o dos ouvintes. Na hist\u00f3ria do minist\u00e9rio dos Leitores o valor dessa altern\u00e2ncia levou mesmo \u00e0 admiss\u00e3o de crian\u00e7as para esse servi\u00e7o \u2013 tamb\u00e9m porque os timbres agudos e cristalinos infantis facilitavam a audi\u00e7\u00e3o das leituras nos amplos espa\u00e7os das bas\u00edlicas, quando n\u00e3o havia recursos t\u00e9cnicos de amplifica\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica \u2013 evolu\u00e7\u00e3o essa que depois conduziu \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 esvaziamento do minist\u00e9rio de leitor e seu exerc\u00edcio respons\u00e1vel. Essa altern\u00e2ncia de vozes e timbres poder\u00e1 ser, portanto, sem qualquer rigidez e automatismo, um dos crit\u00e9rios presentes na elabora\u00e7\u00e3o das escalas de leitores. Se poss\u00edvel, nessa sequ\u00eancia tenha-se tamb\u00e9m em conta a articula\u00e7\u00e3o com o servi\u00e7o do(a)s salmistas, porque a Liturgia da Palavra \u00e9 um todo.<\/p>\n<p>Frequentemente, as escalas funcionam de uma forma mais ou menos autom\u00e1tica, para evitar monop\u00f3lios e ser equitativa. Contudo, correndo o risco de algum subjetivismo, seria prefer\u00edvel que as vozes fossem escolhidas em fun\u00e7\u00e3o dos textos a proclamar (mais l\u00edricos, ou narrativos, ou exortativos\u2026), escolhendo as mais adequadas a cada g\u00e9nero. E se h\u00e1 algum leitor ou leitora mais capaz, que lhe sejam confiadas as leituras mais dif\u00edceis. Elaborar uma ordem de servi\u00e7o com essa aten\u00e7\u00e3o d\u00e1 muito mais trabalho e pressup\u00f5e capacidade, prepara\u00e7\u00e3o e responsabilidade por parte de quem coordena esse minist\u00e9rio.<\/p>\n<div class=\"mh-social-bottom\">\n<div class=\"mh-share-buttons clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pergunta:\u00a0A escala dos leitores da minha par\u00f3quia, por norma, coloca sempre mulheres a fazer a primeira leitura e homens a segunda. Motivo: numa forma\u00e7\u00e3o lit\u00fargica ensinaram que era essa a ordem correta. Pergunto se esse costume tem justifica\u00e7\u00e3o porque eu, que sou sempre escalado para a segunda leitura, tamb\u00e9m gostaria de ler, por vezes, a primeira.\u00a0[Pergunta assinada] Resposta do Secretariado Diocesano da Liturgia: N\u00e3o h\u00e1 qualquer fundamento objetivo para uma regra t\u00e3o estrita: primeira leitura \u2013 leitoras; segunda leitura \u2013 leitores. N\u00e3o haver\u00e1, subjacente a essa \u00ab praxe \u00bb, a ideia de uma progress\u00e3o na \u00abdignidade\u00bb dos leitores, dado que, fora do tempo pascal, a primeira leitura \u00e9 sempre do AT e a segunda leitura \u00e9 sempre do NT? Ent\u00e3o, atribuindo ao AT uma menor \u00abimport\u00e2ncia\u00bb (em confronto com o NT) e conformando-se \u00e0 conven\u00e7\u00e3o que atribu\u00eda uma inferioridade ao sexo feminino, a escala mobilizaria quem \u00e9 \u00abmenos digno\u00bb (!) para o que \u00e9 \u00abmenos\u00bb importante e quem o \u00e9 mais para o \u00abmais\u00bb importante\u2026 Se \u00e9 esse o pressuposto impl\u00edcito da referida regra, ent\u00e3o teremos de dizer que o fundamento \u00e9 falacioso. Recordemos, em primeiro lugar, que toda a Escritura \u00e9 \u00abpalavra do Senhor\u00bb, como se aclama no final da proclama\u00e7\u00e3o e toda ela \u00e9 inspirada por Deus (2 Tm\u00a03, 16). Jesus Cristo Ressuscitado insiste com os seus disc\u00edpulos em que a Lei de Mois\u00e9s, os Profetas e os Salmos \u2013 toda a Escritura, que ent\u00e3o se limitava ao AT (os livros do NT ser\u00e3o redigidos a seguir) \u2013 a Ele se referiam. E \u00e9 esse o modo crist\u00e3o de ler o AT. Ali\u00e1s, \u00e9 conhecido o coment\u00e1rio de S\u00e3o Jer\u00f3nimo que at\u00e9 ousa chamar \u00abevangelista\u00bb ao profeta Isa\u00edas. A haver \u2013 e h\u00e1 \u2013 alguma distin\u00e7\u00e3o lit\u00fargica entre os livros da Sagrada Escritura, em que alguns sobressaiam em \u00abdignidade\u00bb sobre os demais e requeiram ministros especiais, essa apenas discrimina os quatro Evangelhos, o \u00abEvangelho quadrimorfo\u00bb que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, costuma ter maior investimento art\u00edstico e encaderna\u00e7\u00e3o mais preciosa \u2013 o Evangeli\u00e1rio \u2013, sendo objeto de particulares honras lit\u00fargicas (levado em prociss\u00e3o, entronizado no altar, osculado, incensado\u2026) e reservado \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o de ministros ordenados. Quanto ao pressuposto de uma diferen\u00e7a de dignidade que inferiorize o sexo feminino ao masculino, diremos que esse preconceito cultural j\u00e1 h\u00e1 muito deveria ter sido superado porque, tanto na dignidade humana como na gra\u00e7a batismal, deve afirmar-se e manter-se, com S\u00e3o Paulo, que em Cristo n\u00e3o h\u00e1 homem nem mulher mas todos s\u00e3o um s\u00f3 (Gal\u00a03, 28). Foi, sem d\u00favida, por isso que o Papa Francisco reviu a lei can\u00f3nica da Igreja e superou a exclus\u00e3o feminina dos minist\u00e9rios laicais institu\u00eddos, incluindo o do Leitorado (Carta ap. motu proprio\u00a0Spiritus Domini\u00a0de 10 de janeiro de 2022). Teremos de encontrar, por isso, outras justifica\u00e7\u00f5es para a organiza\u00e7\u00e3o das escalas de leitores, superando qualquer rigidez ou preconceito. Idealizando neste \u00e2mbito uma poss\u00edvel \u00abarte de celebrar\u00bb em que se promova a beleza da proclama\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Palavra de Deus, poder\u00e1 fazer sentido a procura de altern\u00e2ncia entre vozes masculinas e femininas, porque a variedade contribui para a beleza e suscita de forma mais eficaz a aten\u00e7\u00e3o dos ouvintes. Na hist\u00f3ria do minist\u00e9rio dos Leitores o valor dessa altern\u00e2ncia levou mesmo \u00e0 admiss\u00e3o de crian\u00e7as para esse servi\u00e7o \u2013 tamb\u00e9m porque os timbres agudos e cristalinos infantis facilitavam a audi\u00e7\u00e3o das leituras nos amplos espa\u00e7os das bas\u00edlicas, quando n\u00e3o havia recursos t\u00e9cnicos de amplifica\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica \u2013 evolu\u00e7\u00e3o essa que depois conduziu \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 esvaziamento do minist\u00e9rio de leitor e seu exerc\u00edcio respons\u00e1vel. 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