{"id":28813,"date":"2024-05-20T09:30:22","date_gmt":"2024-05-20T09:30:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=28813"},"modified":"2024-05-20T09:45:10","modified_gmt":"2024-05-20T09:45:10","slug":"os-padrinhos-apontamentos-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/os-padrinhos-apontamentos-da-historia\/","title":{"rendered":"Os padrinhos \u2013 apontamentos da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 elucidativo percorrer a hist\u00f3ria da Igreja e ver de que modo nos aparece desde cedo a figura e miss\u00e3o dos padrinhos e madrinhas. Em portugu\u00eas temos uma obra preciosa para fazer esta pesquisa: a\u00a0<em>Antologia Lit\u00fargica. Textos lit\u00fargicos, patr\u00edsticos e can\u00f3nicos do primeiro mil\u00e9nio<\/em>, F\u00e1tima, SNL 2017 (sigla: AL).<\/p>\n<p>O primeiro a referir explicitamente os padrinhos \u00e9 Tertuliano, ao findar do s\u00e9c. II, no seu\u00a0<em>De Baptismo<\/em>\u00a018, 3. Chama-lhes \u00ab<em>sponsores<\/em>\u00bb porque s\u00e3o\u00a0<em>garantes<\/em>\u00a0e\u00a0<em>fiadores<\/em>\u00a0das crian\u00e7as a batizar. Tertuliano desaconselha esse batismo, exceto em caso de necessidade, entre outros motivos para n\u00e3o fazer correr aos\u00a0<em>padrinhos<\/em>\u00a0o risco de faltarem \u00e0s promessas feitas no caso de eles pr\u00f3prios morrerem ou de os afilhados se desviarem do bom caminho (AL 640).<\/p>\n<p>A\u00a0<em>Tradi\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<\/em>(c. 215-225), pouco posterior a Tertuliano, confia aos pais ou a algu\u00e9m da fam\u00edlia o encargo de responder pelas crian\u00e7as incapazes de falar por si (<em>TA<\/em>\u00a021: AL 795). Mas a\u00a0<em>TA<\/em>\u00a0refere outra figura importante para o nosso tema:\u00a0<strong>os que trazem<\/strong>\u00a0os candidatos ao catecumenado, membros conhecidos da comunidade, devem\u00a0<strong>testemunhar<\/strong>\u00a0acerca dos candidatos e suas motiva\u00e7\u00f5es e aproveitamento quer na primeira apresenta\u00e7\u00e3o (TA 15; AL 789) quer quando, ap\u00f3s cerca de tr\u00eas anos de catecumenado, chegar\u00e1 a hora de examinar o seu progresso doutrinal, moral e espiritual em ordem \u00e0 elei\u00e7\u00e3o para os sacramentos da Inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 (TA 20; AL 794). Compreende-se a import\u00e2ncia destes \u00abgarantes\u00bb, nomeadamente em tempo de persegui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 pelo valioso testemunho e precioso acompanhamento dos catec\u00famenos, mas tamb\u00e9m para filtrar hipot\u00e9ticas infiltra\u00e7\u00f5es de eventuais delatores. A reserva que rodeava o processo da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e a correspondente\u00a0<em>disciplina do segredo<\/em>, para al\u00e9m de finalidades pedag\u00f3gicas tinha tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o de defesa em tempos de clandestinidade. A prop\u00f3sito, observemos que estes\u00a0<em>garantes<\/em>\u00a0v\u00e3o ser acolhidos no atual Ritual da\u00a0<em>Celebra\u00e7\u00e3o da Inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos adultos<\/em>, largamente inspirado na\u00a0<em>Tradi\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica<\/em>.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo IV, obtida a liberdade de culto, multiplicam-se as refer\u00eancias aos padrinhos que assistem os batizandos. Ast\u00e9rio, o Sofista, enaltece a responsabilidade do padrinho que faz ren\u00fancias e promessas em representa\u00e7\u00e3o do afilhado, ainda beb\u00e9 (AL 1314). Eg\u00e9ria, no seu di\u00e1rio de peregrina \u00e0 Terra Santa (c. 383), fala dos padrinhos e madrinhas presentes nas catequeses pr\u00e9-batismais, durante a Quaresma, a acompanhar os\u00a0<em>competentes<\/em>\u00a0que se preparam para o Batismo na pr\u00f3xima P\u00e1scoa (AL 1687, 1688, 1689). Os candidatos homens apresentavam-se com padrinhos, as mulheres com madrinhas, porventura porque deveriam acompanhar os afilhado(a)s \u00e0 fonte batismal e ajud\u00e1-los a despirem-se para depois, \u00e0 sa\u00edda da \u00e1gua, os receberem e ajudarem a vestir-se (cf.\u00a0<em>C\u00e2nones de Hip\u00f3lito<\/em>, 19: AL 1378).<\/p>\n<p>Na mesma \u00e9poca, S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo dirige uma interessante mensagem aos\u00a0<em>padrinhos<\/em>\u00a0que ficam respons\u00e1veis pelos afilhados. Recorda-lhes que s\u00e3o\u00a0<strong>fiadores<\/strong>: \u00abSe os que prestam fian\u00e7a de dinheiro a outrem ficam respons\u00e1veis em justi\u00e7a pela integridade da soma, com mais forte raz\u00e3o os fiadores do espiritual, quando \u00e9 um balan\u00e7o espiritual que est\u00e1 em causa, devem mostrar grande vigil\u00e2ncia, exortando, aconselhando, animando com grande afeto paternal\u00bb (Cat. II, 15; AL 2459). Era costume chamar aos padrinhos \u2013 recorda \u2013 \u00ab<strong>pais espirituais<\/strong>\u00bb; por isso, n\u00e3o podem ser negligentes (Cat. II, 16; AL 2460). A sua miss\u00e3o n\u00e3o acaba no dia do Batismo\u2026<\/p>\n<p>J\u00e1 em contexto de generaliza\u00e7\u00e3o do batismo de crian\u00e7as, Santo Agostinho refere a interven\u00e7\u00e3o dos padrinhos nos ritos, respondendo em vez dos afilhados crian\u00e7as (<em>A Gra\u00e7a de Cristo e o pecado original<\/em>\u00a0II 40, 45; AL 3254). Na famosa\u00a0<em>Carta\u00a0<\/em>98 a Bonif\u00e1cio, o santo pastor de Hipona sugere que a fun\u00e7\u00e3o de apresentar as crian\u00e7as ao Batismo, respondendo por elas, competir\u00e1 mais aos pr\u00f3prios pais do que a eventuais padrinhos \u00a0(AL 3446, 3447, 3448, 3449); casos havia, por\u00e9m, em que as crian\u00e7as eram apresentadas por outros que sobre elas exerciam autoridade, como os senhores dos escravos e os tutores de \u00f3rf\u00e3os ou de crian\u00e7as abandonadas (AL 3448).<\/p>\n<p>J\u00e1 no s\u00e9c. V, o Pseudo-Dion\u00edsio Areopagita na sua\u00a0<em>Hierarquia Eclesi\u00e1stica<\/em>\u00a0menciona a presen\u00e7a e miss\u00e3o do padrinho na celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos da Inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 (AL 4569); compete-lhe receber o afilhado acabado de batizar e revesti-lo \u00abcom uma veste conveniente\u00bb (ibid.). Os padrinhos n\u00e3o s\u00e3o iniciados em vez das crian\u00e7as mas simplesmente as representam. E sublinha-se a import\u00e2ncia da sua miss\u00e3o que prosseguir\u00e1 ap\u00f3s a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento. Ao responderem pelas crian\u00e7as, \u00e9 como se dissessem: \u00ab\u201c<em>Prometo que quando esta crian\u00e7a puder entender as verdades sagradas, a instruirei e formarei com os meus ensinamentos, de tal modo que ela renuncie \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es do Dem\u00f3nio e se obrigue a p\u00f4r em pr\u00e1tica as santas promessas\u201d. N\u00e3o h\u00e1, pois, nada de absurdo no facto de uma\u00a0<strong>forma\u00e7\u00e3o espiritual acompanhar o desenvolvimento da crian\u00e7a. Isto pressup\u00f5e, naturalmente, que haja um chefe e padrinho<\/strong>\u00a0que forme santos h\u00e1bitos na crian\u00e7a e a defenda das tenta\u00e7\u00f5es do Diabo. O pont\u00edfice admite a crian\u00e7a a participar nos s\u00edmbolos sagrados para que, com eles, se alimente espiritualmente, passe toda a vida em cont\u00ednua contempla\u00e7\u00e3o dos sagrados mist\u00e9rios, progrida espiritualmente ao estar em comunh\u00e3o com eles, adquira uma santa e perseverante forma de vida e cres\u00e7a, em santidade,\u00a0<strong>guiado por um padrinho exemplar<\/strong>, cuja vida esteja em conformidade com Deus\u2026<\/em>\u00bb (AL 4590).<\/p>\n<div class=\"mh-social-bottom\">\n<div class=\"mh-share-buttons clearfix\">(Secretariado Diocesano da Liturgia)<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 elucidativo percorrer a hist\u00f3ria da Igreja e ver de que modo nos aparece desde cedo a figura e miss\u00e3o dos padrinhos e madrinhas. Em portugu\u00eas temos uma obra preciosa para fazer esta pesquisa: a\u00a0Antologia Lit\u00fargica. Textos lit\u00fargicos, patr\u00edsticos e can\u00f3nicos do primeiro mil\u00e9nio, F\u00e1tima, SNL 2017 (sigla: AL). O primeiro a referir explicitamente os padrinhos \u00e9 Tertuliano, ao findar do s\u00e9c. II, no seu\u00a0De Baptismo\u00a018, 3. Chama-lhes \u00absponsores\u00bb porque s\u00e3o\u00a0garantes\u00a0e\u00a0fiadores\u00a0das crian\u00e7as a batizar. Tertuliano desaconselha esse batismo, exceto em caso de necessidade, entre outros motivos para n\u00e3o fazer correr aos\u00a0padrinhos\u00a0o risco de faltarem \u00e0s promessas feitas no caso de eles pr\u00f3prios morrerem ou de os afilhados se desviarem do bom caminho (AL 640). A\u00a0Tradi\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0(c. 215-225), pouco posterior a Tertuliano, confia aos pais ou a algu\u00e9m da fam\u00edlia o encargo de responder pelas crian\u00e7as incapazes de falar por si (TA\u00a021: AL 795). 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A reserva que rodeava o processo da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e a correspondente\u00a0disciplina do segredo, para al\u00e9m de finalidades pedag\u00f3gicas tinha tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o de defesa em tempos de clandestinidade. A prop\u00f3sito, observemos que estes\u00a0garantes\u00a0v\u00e3o ser acolhidos no atual Ritual da\u00a0Celebra\u00e7\u00e3o da Inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos adultos, largamente inspirado na\u00a0Tradi\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica. No s\u00e9culo IV, obtida a liberdade de culto, multiplicam-se as refer\u00eancias aos padrinhos que assistem os batizandos. Ast\u00e9rio, o Sofista, enaltece a responsabilidade do padrinho que faz ren\u00fancias e promessas em representa\u00e7\u00e3o do afilhado, ainda beb\u00e9 (AL 1314). Eg\u00e9ria, no seu di\u00e1rio de peregrina \u00e0 Terra Santa (c. 383), fala dos padrinhos e madrinhas presentes nas catequeses pr\u00e9-batismais, durante a Quaresma, a acompanhar os\u00a0competentes\u00a0que se preparam para o Batismo na pr\u00f3xima P\u00e1scoa (AL 1687, 1688, 1689). Os candidatos homens apresentavam-se com padrinhos, as mulheres com madrinhas, porventura porque deveriam acompanhar os afilhado(a)s \u00e0 fonte batismal e ajud\u00e1-los a despirem-se para depois, \u00e0 sa\u00edda da \u00e1gua, os receberem e ajudarem a vestir-se (cf.\u00a0C\u00e2nones de Hip\u00f3lito, 19: AL 1378). Na mesma \u00e9poca, S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo dirige uma interessante mensagem aos\u00a0padrinhos\u00a0que ficam respons\u00e1veis pelos afilhados. Recorda-lhes que s\u00e3o\u00a0fiadores: \u00abSe os que prestam fian\u00e7a de dinheiro a outrem ficam respons\u00e1veis em justi\u00e7a pela integridade da soma, com mais forte raz\u00e3o os fiadores do espiritual, quando \u00e9 um balan\u00e7o espiritual que est\u00e1 em causa, devem mostrar grande vigil\u00e2ncia, exortando, aconselhando, animando com grande afeto paternal\u00bb (Cat. II, 15; AL 2459). Era costume chamar aos padrinhos \u2013 recorda \u2013 \u00abpais espirituais\u00bb; por isso, n\u00e3o podem ser negligentes (Cat. II, 16; AL 2460). A sua miss\u00e3o n\u00e3o acaba no dia do Batismo\u2026 J\u00e1 em contexto de generaliza\u00e7\u00e3o do batismo de crian\u00e7as, Santo Agostinho refere a interven\u00e7\u00e3o dos padrinhos nos ritos, respondendo em vez dos afilhados crian\u00e7as (A Gra\u00e7a de Cristo e o pecado original\u00a0II 40, 45; AL 3254). Na famosa\u00a0Carta\u00a098 a Bonif\u00e1cio, o santo pastor de Hipona sugere que a fun\u00e7\u00e3o de apresentar as crian\u00e7as ao Batismo, respondendo por elas, competir\u00e1 mais aos pr\u00f3prios pais do que a eventuais padrinhos \u00a0(AL 3446, 3447, 3448, 3449); casos havia, por\u00e9m, em que as crian\u00e7as eram apresentadas por outros que sobre elas exerciam autoridade, como os senhores dos escravos e os tutores de \u00f3rf\u00e3os ou de crian\u00e7as abandonadas (AL 3448). J\u00e1 no s\u00e9c. V, o Pseudo-Dion\u00edsio Areopagita na sua\u00a0Hierarquia Eclesi\u00e1stica\u00a0menciona a presen\u00e7a e miss\u00e3o do padrinho na celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos da Inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 (AL 4569); compete-lhe receber o afilhado acabado de batizar e revesti-lo \u00abcom uma veste conveniente\u00bb (ibid.). Os padrinhos n\u00e3o s\u00e3o iniciados em vez das crian\u00e7as mas simplesmente as representam. E sublinha-se a import\u00e2ncia da sua miss\u00e3o que prosseguir\u00e1 ap\u00f3s a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento. Ao responderem pelas crian\u00e7as, \u00e9 como se dissessem: \u00ab\u201cPrometo que quando esta crian\u00e7a puder entender as verdades sagradas, a instruirei e formarei com os meus ensinamentos, de tal modo que ela renuncie \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es do Dem\u00f3nio e se obrigue a p\u00f4r em pr\u00e1tica as santas promessas\u201d. N\u00e3o h\u00e1, pois, nada de absurdo no facto de uma\u00a0forma\u00e7\u00e3o espiritual acompanhar o desenvolvimento da crian\u00e7a. Isto pressup\u00f5e, naturalmente, que haja um chefe e padrinho\u00a0que forme santos h\u00e1bitos na crian\u00e7a e a defenda das tenta\u00e7\u00f5es do Diabo. 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