{"id":28937,"date":"2024-06-19T17:47:39","date_gmt":"2024-06-19T17:47:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=28937"},"modified":"2024-06-19T17:47:39","modified_gmt":"2024-06-19T17:47:39","slug":"misterio-de-adoracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/misterio-de-adoracao\/","title":{"rendered":"Mist\u00e9rio de Adora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A f\u00e9 da Igreja na presen\u00e7a real de Cristo Ressuscitado nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas \u00e9 de sempre. \u00c9 a aceita\u00e7\u00e3o \u00f3bvia do sentido direto das palavras de Jesus que, na Ceia em que nos deixou este memorial da Sua P\u00e1scoa, disse aos disc\u00edpulos, ao repartir por eles o p\u00e3o e ao convid\u00e1-los a beber do c\u00e1lice sobre o qual acabara de recitar a ora\u00e7\u00e3o de b\u00ean\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as: \u00ab<em>Isto \u00e9 o Meu Corpo\u2026<\/em>\u00bb; \u00ab<em>Este \u00e9 o c\u00e1lice do meu Sangue\u2026<\/em>\u00bb. Tomando como refer\u00eancia estas palavras de Jesus, explicava S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, no hino\u00a0<em>Adoro Te devote<\/em>: a vis\u00e3o, o gosto e o tato falham, s\u00f3 o sentido da audi\u00e7\u00e3o serve de guia seguro \u00e0 f\u00e9; eu creio em tudo o que disse o Filho de Deus porque n\u00e3o h\u00e1 nada mais verdadeiro do que a palavra da Verdade.<\/p>\n<p>Este sentido da f\u00e9 na presen\u00e7a real de Cristo sempre guiou os fi\u00e9is em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Eucaristia: o Seu Corpo e o Seu Sangue, presentes no Sacramento e, desse modo, dados em alimento aos fi\u00e9is, s\u00e3o insepar\u00e1veis da Sua Pessoa. \u00c9 Ele, o Ressuscitado, que j\u00e1 est\u00e1 para al\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es da f\u00edsica, da qu\u00edmica e da biologia, Quem verdadeiramente se torna presente deste modo singular para fazer de todos os comungantes um s\u00f3 Corpo e um s\u00f3 Esp\u00edrito. S\u00e3o in\u00fameros os textos da Patr\u00edstica e da Liturgia que testemunham esta inabal\u00e1vel convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta unanimidade na afirma\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>facto<\/em>\u00a0da presen\u00e7a real convivia pacificamente, durante o primeiro mil\u00e9nio, com diversos ensaios de resposta acerca do\u00a0<em>modo<\/em>\u00a0como essa presen\u00e7a se torna real e efetiva. De facto, a linguagem explicativa desse\u00a0<em>modo<\/em>\u00a0regista um certo pluralismo conforme os autores utilizavam conceitos e palavras das correntes do pensamento filos\u00f3fico e da cultura dominantes. At\u00e9 que, com a primeira escol\u00e1stica e o racionalismo l\u00f3gico, express\u00f5es que nos Padres da Igreja tinham um sentido aceit\u00e1vel, passam a ser vistas como nega\u00e7\u00e3o da realidade da Presen\u00e7a que, precisamente, se queria explicar. Quando, no s\u00e9c. XI, Bereng\u00e1rio de Tours afirmou que a esp\u00e9cie do p\u00e3o depois da consagra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro Corpo de Jesus, mas apenas o s\u00edmbolo da Sua presen\u00e7a, o sentido da f\u00e9 da generalidade dos crist\u00e3os reagiu de forma veemente. Porque na linguagem desse novo racionalismo, o s\u00edmbolo n\u00e3o \u00e9 a realidade.<\/p>\n<p>Essa como\u00e7\u00e3o foi sentida por toda a cristandade ocidental que sentiu a necessidade de afirmar e adorar o Corpo (e Sangue) de Cristo presente nas esp\u00e9cies consagradas, de forma t\u00e3o real e verdadeira como est\u00e1 no C\u00e9u, com novas formas de piedade e culto. Assistimos, ent\u00e3o, ao pulular de milagres eucar\u00edsticos um pouco por toda a Europa: em Portugal \u00e9 c\u00e9lebre o Milagre de Santar\u00e9m. Na Eucaristia introduzem-se ritos para exprimir melhor esta f\u00e9: \u00e9 o caso da eleva\u00e7\u00e3o da H\u00f3stia e do C\u00e1lice ap\u00f3s as correspondentes palavras de Cristo recordadas na narra\u00e7\u00e3o da Institui\u00e7\u00e3o; e para muitos fi\u00e9is \u2013 que raramente comungavam \u2013 essa contempla\u00e7\u00e3o adorante da H\u00f3stia era a forma mais alta e intensa de participar na Eucaristia. O lugar da Sagrada Reserva ganha no espa\u00e7o das nossas Igrejas um destaque at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido. Surge uma nova solenidade lit\u00fargica: a Festa do Corpo de Cristo (Li\u00e8ge, na B\u00e9lgica 1246), depressa alargada a toda a Igreja (Urbano IV, 1264). Desenvolvem-se formas variadas de adora\u00e7\u00e3o \u00e0s Sagradas Esp\u00e9cies \u2013 a Cristo nelas e por elas presente \u2013 que culminam na Prociss\u00e3o Eucar\u00edstica que cedo se tornou uma caracter\u00edstica da nova solenidade. Numa palavra: a crise ocasionada por uma explica\u00e7\u00e3o deficiente do modo como a presen\u00e7a de Cristo se nos d\u00e1 de forma real e permanente nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas p\u00f4s em marcha um claro progresso da f\u00e9 e da piedade, abrindo caminho a explica\u00e7\u00f5es mais consistentes (S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino e, ap\u00f3s a crise Protestante, Conc\u00edlio de Trento) e, sobretudo, a novas formas cultuais.<\/p>\n<p>Importa, contudo, destacar que \u00e9 a pr\u00f3pria celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, no seu todo, com palavras e a\u00e7\u00f5es, o supremo mist\u00e9rio de adora\u00e7\u00e3o. Para o exprimirmos adequadamente temos de convocar toda a beleza e expulsar toda a vulgaridade, toda a \u00abchatice\u00bb. Sem essa consci\u00eancia, a nossa participa\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, aparentemente t\u00e3o animada, torna-se fastidiosa e banal. O culto do mist\u00e9rio eucar\u00edstico fora da Missa subordina-se \u00e0 Missa, preparando-a e prolongando-a. A forma principal do culto eucar\u00edstico \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o plena, pela comunh\u00e3o sacramental, no mist\u00e9rio de adora\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o que \u00e9 a Eucaristia toda, memorial da P\u00e1scoa do Senhor, sagrado banquete em que se recebe Cristo, em conformidade com a sua vontade expressa: \u00ab<em>Tomai, todos, e comei!<\/em>;\u00a0<em>Tomai, todos, e bebei!<\/em>\u00bb. \u00c9 belo ver uma multid\u00e3o de jovens a ajoelhar perante o Sant\u00edssimo Sacramento solenemente exposto. Parece ser bem mais dif\u00edcil lev\u00e1-los \u00e0 Missa e viv\u00ea-la gostosamente como ela \u00e9, correspondendo ao desejo ardente do Redentor.<\/p>\n<div class=\"mh-social-bottom\">\n<div class=\"mh-share-buttons clearfix\"><span style=\"font-size: 10pt;\">(Secretariado Diocesano da Liturgia)<\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A f\u00e9 da Igreja na presen\u00e7a real de Cristo Ressuscitado nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas \u00e9 de sempre. \u00c9 a aceita\u00e7\u00e3o \u00f3bvia do sentido direto das palavras de Jesus que, na Ceia em que nos deixou este memorial da Sua P\u00e1scoa, disse aos disc\u00edpulos, ao repartir por eles o p\u00e3o e ao convid\u00e1-los a beber do c\u00e1lice sobre o qual acabara de recitar a ora\u00e7\u00e3o de b\u00ean\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as: \u00abIsto \u00e9 o Meu Corpo\u2026\u00bb; \u00abEste \u00e9 o c\u00e1lice do meu Sangue\u2026\u00bb. Tomando como refer\u00eancia estas palavras de Jesus, explicava S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, no hino\u00a0Adoro Te devote: a vis\u00e3o, o gosto e o tato falham, s\u00f3 o sentido da audi\u00e7\u00e3o serve de guia seguro \u00e0 f\u00e9; eu creio em tudo o que disse o Filho de Deus porque n\u00e3o h\u00e1 nada mais verdadeiro do que a palavra da Verdade. Este sentido da f\u00e9 na presen\u00e7a real de Cristo sempre guiou os fi\u00e9is em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Eucaristia: o Seu Corpo e o Seu Sangue, presentes no Sacramento e, desse modo, dados em alimento aos fi\u00e9is, s\u00e3o insepar\u00e1veis da Sua Pessoa. \u00c9 Ele, o Ressuscitado, que j\u00e1 est\u00e1 para al\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es da f\u00edsica, da qu\u00edmica e da biologia, Quem verdadeiramente se torna presente deste modo singular para fazer de todos os comungantes um s\u00f3 Corpo e um s\u00f3 Esp\u00edrito. S\u00e3o in\u00fameros os textos da Patr\u00edstica e da Liturgia que testemunham esta inabal\u00e1vel convic\u00e7\u00e3o. Esta unanimidade na afirma\u00e7\u00e3o do\u00a0facto\u00a0da presen\u00e7a real convivia pacificamente, durante o primeiro mil\u00e9nio, com diversos ensaios de resposta acerca do\u00a0modo\u00a0como essa presen\u00e7a se torna real e efetiva. De facto, a linguagem explicativa desse\u00a0modo\u00a0regista um certo pluralismo conforme os autores utilizavam conceitos e palavras das correntes do pensamento filos\u00f3fico e da cultura dominantes. At\u00e9 que, com a primeira escol\u00e1stica e o racionalismo l\u00f3gico, express\u00f5es que nos Padres da Igreja tinham um sentido aceit\u00e1vel, passam a ser vistas como nega\u00e7\u00e3o da realidade da Presen\u00e7a que, precisamente, se queria explicar. Quando, no s\u00e9c. XI, Bereng\u00e1rio de Tours afirmou que a esp\u00e9cie do p\u00e3o depois da consagra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro Corpo de Jesus, mas apenas o s\u00edmbolo da Sua presen\u00e7a, o sentido da f\u00e9 da generalidade dos crist\u00e3os reagiu de forma veemente. Porque na linguagem desse novo racionalismo, o s\u00edmbolo n\u00e3o \u00e9 a realidade. Essa como\u00e7\u00e3o foi sentida por toda a cristandade ocidental que sentiu a necessidade de afirmar e adorar o Corpo (e Sangue) de Cristo presente nas esp\u00e9cies consagradas, de forma t\u00e3o real e verdadeira como est\u00e1 no C\u00e9u, com novas formas de piedade e culto. Assistimos, ent\u00e3o, ao pulular de milagres eucar\u00edsticos um pouco por toda a Europa: em Portugal \u00e9 c\u00e9lebre o Milagre de Santar\u00e9m. Na Eucaristia introduzem-se ritos para exprimir melhor esta f\u00e9: \u00e9 o caso da eleva\u00e7\u00e3o da H\u00f3stia e do C\u00e1lice ap\u00f3s as correspondentes palavras de Cristo recordadas na narra\u00e7\u00e3o da Institui\u00e7\u00e3o; e para muitos fi\u00e9is \u2013 que raramente comungavam \u2013 essa contempla\u00e7\u00e3o adorante da H\u00f3stia era a forma mais alta e intensa de participar na Eucaristia. O lugar da Sagrada Reserva ganha no espa\u00e7o das nossas Igrejas um destaque at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido. Surge uma nova solenidade lit\u00fargica: a Festa do Corpo de Cristo (Li\u00e8ge, na B\u00e9lgica 1246), depressa alargada a toda a Igreja (Urbano IV, 1264). Desenvolvem-se formas variadas de adora\u00e7\u00e3o \u00e0s Sagradas Esp\u00e9cies \u2013 a Cristo nelas e por elas presente \u2013 que culminam na Prociss\u00e3o Eucar\u00edstica que cedo se tornou uma caracter\u00edstica da nova solenidade. Numa palavra: a crise ocasionada por uma explica\u00e7\u00e3o deficiente do modo como a presen\u00e7a de Cristo se nos d\u00e1 de forma real e permanente nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas p\u00f4s em marcha um claro progresso da f\u00e9 e da piedade, abrindo caminho a explica\u00e7\u00f5es mais consistentes (S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino e, ap\u00f3s a crise Protestante, Conc\u00edlio de Trento) e, sobretudo, a novas formas cultuais. Importa, contudo, destacar que \u00e9 a pr\u00f3pria celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, no seu todo, com palavras e a\u00e7\u00f5es, o supremo mist\u00e9rio de adora\u00e7\u00e3o. Para o exprimirmos adequadamente temos de convocar toda a beleza e expulsar toda a vulgaridade, toda a \u00abchatice\u00bb. Sem essa consci\u00eancia, a nossa participa\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, aparentemente t\u00e3o animada, torna-se fastidiosa e banal. O culto do mist\u00e9rio eucar\u00edstico fora da Missa subordina-se \u00e0 Missa, preparando-a e prolongando-a. A forma principal do culto eucar\u00edstico \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o plena, pela comunh\u00e3o sacramental, no mist\u00e9rio de adora\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o que \u00e9 a Eucaristia toda, memorial da P\u00e1scoa do Senhor, sagrado banquete em que se recebe Cristo, em conformidade com a sua vontade expressa: \u00abTomai, todos, e comei!;\u00a0Tomai, todos, e bebei!\u00bb. \u00c9 belo ver uma multid\u00e3o de jovens a ajoelhar perante o Sant\u00edssimo Sacramento solenemente exposto. Parece ser bem mais dif\u00edcil lev\u00e1-los \u00e0 Missa e viv\u00ea-la gostosamente como ela \u00e9, correspondendo ao desejo ardente do Redentor. 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