{"id":29856,"date":"2024-10-08T09:31:09","date_gmt":"2024-10-08T09:31:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=29856"},"modified":"2024-10-08T09:31:09","modified_gmt":"2024-10-08T09:31:09","slug":"silencio-diante-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/silencio-diante-do-senhor\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancio diante do Senhor!"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 14pt;\">O sil\u00eancio \u00e9 um bem raro e, por isso, precioso. \u00c9 importante preservar as nossas Igrejas e Capelas, fora dos tempos de culto comunit\u00e1rio, como o\u00e1sis de sil\u00eancio no deserto rumoroso das cidades (e at\u00e9 aldeias) em que vivemos e onde falta esta\u00a0<em>\u00e1gua<\/em>\u00a0sem a qual n\u00e3o pode haver vida interior. Numa catequese de 15 de dezembro de 2021 sobre S\u00e3o Jos\u00e9, homem do sil\u00eancio, referia o Papa Francisco: \u00ab\u00c9 importante pensar no sil\u00eancio nesta \u00e9poca na qual ele parece ter t\u00e3o pouco valor. [\u2026] Mas todos sabemos por experi\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil: o sil\u00eancio assusta-nos um pouco, porque nos pede para entrarmos em n\u00f3s mesmos e encontrarmos a parte mais verdadeira de n\u00f3s. Muita gente tem receio do sil\u00eancio, deve falar, falar, falar ou ouvir r\u00e1dio, televis\u00e3o\u2026, mas n\u00e3o pode aceitar o sil\u00eancio porque tem medo\u00bb. Mais recentemente, na alocu\u00e7\u00e3o ao\u00a0<em>Angelus\u00a0<\/em>de 10 de dezembro de 2023, Francisco convidava: \u00abmesmo que isso signifique ir contra a corrente, valorizemos o sil\u00eancio, a sobriedade e a escuta\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Mas em que consiste o \u00absil\u00eancio\u00bb preconizado para as nossas Igrejas?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">A primeira e origin\u00e1ria ace\u00e7\u00e3o deste termo \u00e9 \u00ab<em>estado de quem se abst\u00e9m ou p\u00e1ra de falar<\/em>\u00bb (cf.\u00a0<em>Dicion\u00e1rio Priberam da L\u00edngua Portuguesa<\/em>\u00a0[em linha]). \u00c9 importante destacar este significado porque o \u00absil\u00eancio\u00bb identit\u00e1rio do espa\u00e7o Igreja n\u00e3o \u00e9, primeiramente, uma suposta (e imposs\u00edvel) aus\u00eancia de sons, mas um necess\u00e1rio, deliberado e corajoso \u00abcalar-se\u00bb. Falamos, obviamente, do tempo fora das celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias (estas s\u00e3o, por ess\u00eancia, o tempo da Palavra de Deus e da palavra a Deus, intercalado ainda por palavras de convite, di\u00e1logo, informa\u00e7\u00e3o e incentivo entre os participantes\/orantes; mas tamb\u00e9m esta\u00a0<em>palavra<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem o suporte do sil\u00eancio que escuta, acolhe, adora).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">O\u00a0<strong>primeiro inimigo do sil\u00eancio,<\/strong>\u00a0que devemos combater na Igreja,\u00a0<strong>\u00e9 a conversa<\/strong>\u00a0fiada, \u00e9 o falar negligente, distra\u00eddo, despropositado, por vezes murmurador e maledicente. H\u00e1 quem, depois de sete dias seguidos a rezar o ter\u00e7o numa Igreja, j\u00e1 a\u00ed se comporte como se estivesse na sala de estar da sua casa, desfazendo-se em cumprimentos com comadres e compadres, dando e pedindo not\u00edcias da fam\u00edlia e conhecidos, e partilhando as novidades do anedot\u00e1rio local ou dos notici\u00e1rios da v\u00e9spera. E levam a mal quando algu\u00e9m critica que se fale ao telem\u00f3vel dentro do espa\u00e7o sagrado ou convida a calar e a prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao Dono da Casa ou, pelo menos, a n\u00e3o perturbar quem deseja encontrar-se com Ele e escutar a Palavra que s\u00f3 fala quando outras palavras emudecem. Estes inimigos do sil\u00eancio at\u00e9 na fila da comunh\u00e3o (ou ainda com o SS.<sup>mo<\/sup>\u00a0Sacramento na boca!) se desfazem em mesuras e sauda\u00e7\u00f5es com as pessoas conhecidas que v\u00e3o localizando banco a banco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Sil\u00eancio! Sil\u00eancio para ouvir o Senhor e, tamb\u00e9m, sil\u00eancio para o louvar! Estamos habituados a rezar o v. 2 do Salmo 65\/64 segundo a vers\u00e3o lit\u00fargica oficial: \u00ab<em>A V\u00f3s, \u00f3 Deus, \u00e9 devido louvor em Si\u00e3o<\/em>\u00bb. \u00c9 assim que traduz a maioria das B\u00edblias, seguindo a antiga vers\u00e3o grega dos LXX e a vers\u00e3o sir\u00edaca. Entretanto o Texto Massor\u00e9tico (hebr.) e as antigas tradu\u00e7\u00f5es de \u00c1quila (gr.) e aramaica traduzem: \u00ab<em>Para ti, o sil\u00eancio \u00e9 um louvor<\/em>\u00bb. S. Jer\u00f3nimo, na revis\u00e3o do Salt\u00e9rio segundo a\u00a0<em>veritas hebraica\u00a0<\/em>(que n\u00e3o entrou na Vulgata Clementina), traduziu: \u00abTibi\u00a0<strong>silens laus<\/strong>\u00a0Deus in Sion\u00bb \u2013 \u00ab<em>A Ti um silente louvor, \u00f3 Deus, em Si\u00e3o<\/em>\u00bb. A tradu\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a ser preparada para a CEP n\u00e3o ignora esta tradu\u00e7\u00e3o, mas apenas a refere em nota: \u00abPara ti, \u00f3 Deus,\u00a0<strong>o silencio \u00e9 louvor<\/strong>, em Si\u00e3o\u00bb. Mais ousada, a tradu\u00e7\u00e3o oficial italiana, aprovada pela CEI em 2008, traduz sem hesitar: \u00ab<em>Per te il silenzio \u00e8 lode, o Dio, in Sion<\/em>\u00bb \u2013 \u00abPara Ti\u00a0<strong>o sil\u00eancio \u00e9 louvor<\/strong>, \u00f3 Deus, em Si\u00e3o\u00bb. J\u00e1 Lu\u00eds Stadelmann, em 1983, propunha: \u00ab<strong>Se algu\u00e9m te louva em sil\u00eancio<\/strong>, \u00f3 Deus de Si\u00e3o, ou cumpre os votos em tua presen\u00e7a,\u00a0<strong>tu ouves a sua ora\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00bb (<em>Os Salmos. Estrutura, conte\u00fado e Mensagem<\/em>, Petr\u00f3polis, Vozes). Quase nos parece ver aqui uma alus\u00e3o \u00e0 prece silenciosa de Ana, futura m\u00e3e de Samuel (1Sam 1, 13), injustamente censurada pelo Sacerdote Eli que a julgava \u00e9bria. E a sua silente ora\u00e7\u00e3o foi atendida. Nas\u00a0<em>notas<\/em>\u00a0de coment\u00e1rio da tradu\u00e7\u00e3o italiana sublinha-se que \u00abo gesto de tapar a boca com a m\u00e3o para calar equivalia a reconhecer a pr\u00f3pria incapacidade e o pr\u00f3prio espanto perante algo de grande e incompreens\u00edvel (<em>Jb<\/em>\u00a021, 5; 29, 9; 40, 3-4;\u00a0<em>Mq<\/em>\u00a07, 16)\u00bb.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\">Hoje perdemos a mem\u00f3ria da origem das palavras, mas a \u00abadora\u00e7\u00e3o\u00bb, origin\u00e1ria e espontaneamente, consistia em\u00a0<strong>levar a m\u00e3o \u00e0 boca<\/strong>\u00a0(<em>os<\/em>,\u00a0<em>oris<\/em>; \u00ab<em>ad orem<\/em>\u00bb) num gesto de autoimposi\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio, que brota da experi\u00eancia assombrosa do encontro com o inef\u00e1vel, tremendo e fascinante. Poder\u00edamos, a prop\u00f3sito, recordar a recomenda\u00e7\u00e3o de Sofonias: \u00ab<em>Sil\u00eancio, diante do Senhor!<\/em>\u00bb (1, 7). Perante a presen\u00e7a do Senhor no seu templo santo, toda a terra se deve calar (Hab 2, 20). E como poderemos n\u00f3s fazer das Igrejas palrat\u00f3rio!<\/span><\/p>\n<p>(Secretariado Diocesano da Liturgia)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sil\u00eancio \u00e9 um bem raro e, por isso, precioso. \u00c9 importante preservar as nossas Igrejas e Capelas, fora dos tempos de culto comunit\u00e1rio, como o\u00e1sis de sil\u00eancio no deserto rumoroso das cidades (e at\u00e9 aldeias) em que vivemos e onde falta esta\u00a0\u00e1gua\u00a0sem a qual n\u00e3o pode haver vida interior. Numa catequese de 15 de dezembro de 2021 sobre S\u00e3o Jos\u00e9, homem do sil\u00eancio, referia o Papa Francisco: \u00ab\u00c9 importante pensar no sil\u00eancio nesta \u00e9poca na qual ele parece ter t\u00e3o pouco valor. [\u2026] Mas todos sabemos por experi\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil: o sil\u00eancio assusta-nos um pouco, porque nos pede para entrarmos em n\u00f3s mesmos e encontrarmos a parte mais verdadeira de n\u00f3s. Muita gente tem receio do sil\u00eancio, deve falar, falar, falar ou ouvir r\u00e1dio, televis\u00e3o\u2026, mas n\u00e3o pode aceitar o sil\u00eancio porque tem medo\u00bb. Mais recentemente, na alocu\u00e7\u00e3o ao\u00a0Angelus\u00a0de 10 de dezembro de 2023, Francisco convidava: \u00abmesmo que isso signifique ir contra a corrente, valorizemos o sil\u00eancio, a sobriedade e a escuta\u00bb. Mas em que consiste o \u00absil\u00eancio\u00bb preconizado para as nossas Igrejas? A primeira e origin\u00e1ria ace\u00e7\u00e3o deste termo \u00e9 \u00abestado de quem se abst\u00e9m ou p\u00e1ra de falar\u00bb (cf.\u00a0Dicion\u00e1rio Priberam da L\u00edngua Portuguesa\u00a0[em linha]). \u00c9 importante destacar este significado porque o \u00absil\u00eancio\u00bb identit\u00e1rio do espa\u00e7o Igreja n\u00e3o \u00e9, primeiramente, uma suposta (e imposs\u00edvel) aus\u00eancia de sons, mas um necess\u00e1rio, deliberado e corajoso \u00abcalar-se\u00bb. Falamos, obviamente, do tempo fora das celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias (estas s\u00e3o, por ess\u00eancia, o tempo da Palavra de Deus e da palavra a Deus, intercalado ainda por palavras de convite, di\u00e1logo, informa\u00e7\u00e3o e incentivo entre os participantes\/orantes; mas tamb\u00e9m esta\u00a0palavra\u00a0n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem o suporte do sil\u00eancio que escuta, acolhe, adora). O\u00a0primeiro inimigo do sil\u00eancio,\u00a0que devemos combater na Igreja,\u00a0\u00e9 a conversa\u00a0fiada, \u00e9 o falar negligente, distra\u00eddo, despropositado, por vezes murmurador e maledicente. H\u00e1 quem, depois de sete dias seguidos a rezar o ter\u00e7o numa Igreja, j\u00e1 a\u00ed se comporte como se estivesse na sala de estar da sua casa, desfazendo-se em cumprimentos com comadres e compadres, dando e pedindo not\u00edcias da fam\u00edlia e conhecidos, e partilhando as novidades do anedot\u00e1rio local ou dos notici\u00e1rios da v\u00e9spera. E levam a mal quando algu\u00e9m critica que se fale ao telem\u00f3vel dentro do espa\u00e7o sagrado ou convida a calar e a prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao Dono da Casa ou, pelo menos, a n\u00e3o perturbar quem deseja encontrar-se com Ele e escutar a Palavra que s\u00f3 fala quando outras palavras emudecem. Estes inimigos do sil\u00eancio at\u00e9 na fila da comunh\u00e3o (ou ainda com o SS.mo\u00a0Sacramento na boca!) se desfazem em mesuras e sauda\u00e7\u00f5es com as pessoas conhecidas que v\u00e3o localizando banco a banco. Sil\u00eancio! Sil\u00eancio para ouvir o Senhor e, tamb\u00e9m, sil\u00eancio para o louvar! Estamos habituados a rezar o v. 2 do Salmo 65\/64 segundo a vers\u00e3o lit\u00fargica oficial: \u00abA V\u00f3s, \u00f3 Deus, \u00e9 devido louvor em Si\u00e3o\u00bb. \u00c9 assim que traduz a maioria das B\u00edblias, seguindo a antiga vers\u00e3o grega dos LXX e a vers\u00e3o sir\u00edaca. Entretanto o Texto Massor\u00e9tico (hebr.) e as antigas tradu\u00e7\u00f5es de \u00c1quila (gr.) e aramaica traduzem: \u00abPara ti, o sil\u00eancio \u00e9 um louvor\u00bb. S. Jer\u00f3nimo, na revis\u00e3o do Salt\u00e9rio segundo a\u00a0veritas hebraica\u00a0(que n\u00e3o entrou na Vulgata Clementina), traduziu: \u00abTibi\u00a0silens laus\u00a0Deus in Sion\u00bb \u2013 \u00abA Ti um silente louvor, \u00f3 Deus, em Si\u00e3o\u00bb. A tradu\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a ser preparada para a CEP n\u00e3o ignora esta tradu\u00e7\u00e3o, mas apenas a refere em nota: \u00abPara ti, \u00f3 Deus,\u00a0o silencio \u00e9 louvor, em Si\u00e3o\u00bb. Mais ousada, a tradu\u00e7\u00e3o oficial italiana, aprovada pela CEI em 2008, traduz sem hesitar: \u00abPer te il silenzio \u00e8 lode, o Dio, in Sion\u00bb \u2013 \u00abPara Ti\u00a0o sil\u00eancio \u00e9 louvor, \u00f3 Deus, em Si\u00e3o\u00bb. J\u00e1 Lu\u00eds Stadelmann, em 1983, propunha: \u00abSe algu\u00e9m te louva em sil\u00eancio, \u00f3 Deus de Si\u00e3o, ou cumpre os votos em tua presen\u00e7a,\u00a0tu ouves a sua ora\u00e7\u00e3o\u00bb (Os Salmos. Estrutura, conte\u00fado e Mensagem, Petr\u00f3polis, Vozes). Quase nos parece ver aqui uma alus\u00e3o \u00e0 prece silenciosa de Ana, futura m\u00e3e de Samuel (1Sam 1, 13), injustamente censurada pelo Sacerdote Eli que a julgava \u00e9bria. E a sua silente ora\u00e7\u00e3o foi atendida. Nas\u00a0notas\u00a0de coment\u00e1rio da tradu\u00e7\u00e3o italiana sublinha-se que \u00abo gesto de tapar a boca com a m\u00e3o para calar equivalia a reconhecer a pr\u00f3pria incapacidade e o pr\u00f3prio espanto perante algo de grande e incompreens\u00edvel (Jb\u00a021, 5; 29, 9; 40, 3-4;\u00a0Mq\u00a07, 16)\u00bb. Hoje perdemos a mem\u00f3ria da origem das palavras, mas a \u00abadora\u00e7\u00e3o\u00bb, origin\u00e1ria e espontaneamente, consistia em\u00a0levar a m\u00e3o \u00e0 boca\u00a0(os,\u00a0oris; \u00abad orem\u00bb) num gesto de autoimposi\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio, que brota da experi\u00eancia assombrosa do encontro com o inef\u00e1vel, tremendo e fascinante. Poder\u00edamos, a prop\u00f3sito, recordar a recomenda\u00e7\u00e3o de Sofonias: \u00abSil\u00eancio, diante do Senhor!\u00bb (1, 7). Perante a presen\u00e7a do Senhor no seu templo santo, toda a terra se deve calar (Hab 2, 20). E como poderemos n\u00f3s fazer das Igrejas palrat\u00f3rio! 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