{"id":30976,"date":"2025-05-07T13:31:59","date_gmt":"2025-05-07T13:31:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=30976"},"modified":"2025-05-07T13:31:59","modified_gmt":"2025-05-07T13:31:59","slug":"nos-1700-anos-de-niceia-memoria-e-compromisso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/nos-1700-anos-de-niceia-memoria-e-compromisso\/","title":{"rendered":"Nos 1700 anos de Niceia, mem\u00f3ria e compromisso"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 1700 anos, em Nic\u00e9ia, territ\u00f3rio da atual Turquia (Iznik), mais de tr\u00eas centenas de bispos reuniram-se, convocados pelo imperador Constantino e com a anu\u00eancia do Papa S. Silvestre, para o primeiro conc\u00edlio ecum\u00e9nico da Igreja. Vindos de todo o mundo crist\u00e3o, alguns ainda traziam no corpo as marcas das persegui\u00e7\u00f5es e supl\u00edcios que haviam sofrido por causa do Evangelho.<\/p>\n<p>A assembleia ocupar-se-\u00e1 da defesa da f\u00e9 contra a heresia do arianismo, mas ter\u00e1 ainda oportunidade para se pronunciar sobre a data em que se deveria celebrar a P\u00e1scoa e sobre um cisma eg\u00edpcio. No final dos trabalhos, que duraram cerca de um m\u00eas, aprovaram-se decretos sobre aqueles assuntos, bem como sobre outros aspetos da disciplina eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>Para assinalar a data, a Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional publicou, no passado dia 03 de abril, um extenso documento, intitulado \u201c<em>Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. 1700\u00ba Anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico de Niceia (325-2025)\u201d<\/em>, onde se recorda que a f\u00e9 de Niceia, na sua beleza e na sua grandeza, \u00e9 a f\u00e9 comum a todos os crist\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>Amea\u00e7a \u00e0 f\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>A heresia do arianismo, cujo aparecimento se deve a um jovem e din\u00e2mico padre de Alexandria (Egito) chamado \u00c1rio (256-336), negava a divindade de Jesus, vendo-o apenas como uma criatura subordinada ao Pai, uma esp\u00e9cie de demiurgo, criado por Deus para criar o mundo. Porque, segundo ele, falar em \u201cincarna\u00e7\u00e3o\u201d ou dizer que o divino assumiu a condi\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o lhe parecia digno da imagem que tinha de Deus. A preocupa\u00e7\u00e3o de \u00c1rio e dos seus seguidores era preservar a absoluta transcend\u00eancia de Deus, mesmo que \u00e0 custa de um deficiente conhecimento do pr\u00f3prio Jesus. Se Deus \u00e9 uno e transcendente, como \u00e9 poss\u00edvel que Jesus seja Deus? Mas, como bem advertiu St. Atan\u00e1sio, um dos grandes obreiros de Niceia, se Jesus Cristo n\u00e3o era Deus, ent\u00e3o seria apenas um her\u00f3i e n\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos sido verdadeiramente salvos e n\u00e3o seriamos filhos no Filho.<\/p>\n<p>Apesar das condena\u00e7\u00f5es de \u00c1rio e dos seus ensinamentos, a heresia propaga-se e amea\u00e7a a unidade da Igreja. O que as cont\u00ednuas e cru\u00e9is persegui\u00e7\u00f5es dos romanos ou as heresias gn\u00f3sticas do segundo s\u00e9culo n\u00e3o tinham conseguido fazer, parecia estar a ser conseguido agora. Por outro lado, tamb\u00e9m a estabilidade pol\u00edtica do Imp\u00e9rio romano, j\u00e1 em decl\u00ednio, \u00e9 posta em causa com estas divis\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O \u201cs\u00edmbolo\u201d de Niceia<\/strong><\/p>\n<p>A assembleia de Niceia proporcionou uma discuss\u00e3o sobre os fundamentos doutrinais da f\u00e9 e tornou poss\u00edvel a defini\u00e7\u00e3o da ortodoxia crist\u00e3. A formula\u00e7\u00e3o do \u201cCredo\u201d, afirmando a divindade de Jesus Cristo, torna-se uma declara\u00e7\u00e3o fundamental da f\u00e9 crist\u00e3, professando a \u201cconsubstancialidade\u201d (<em>homoousios<\/em>) de Jesus Cristo com o Pai. Embora distintos, Pai e Filho partilham uma mesma \u201csubst\u00e2ncia\u201d divina.<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que as nossas palavras ser\u00e3o sempre pobres e incapazes de descrever o mist\u00e9rio de Deus. Mas esta precis\u00e3o afasta a ideia errada de \u00c1rio de um Pai que teria enviado um intermedi\u00e1rio, um anjo superior ou um super-homem para nos salvar. O pr\u00f3prio Deus vem at\u00e9 n\u00f3s em Jesus, para nos redimir. Permanecendo fi\u00e9is \u00e0 revela\u00e7\u00e3o que Jesus nos faz de si mesmo, do Pai e do Esp\u00edrito Santo, a profiss\u00e3o de f\u00e9 protege este mist\u00e9rio contra a tenta\u00e7\u00e3o de o reduzir, adaptando-o, \u00e0s limitadas capacidades da raz\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de uma guerra de palavras, mas da verdade e da verdade da nossa salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A singularidade da nossa f\u00e9 est\u00e1 na afirma\u00e7\u00e3o de que o homem Jesus \u00e9 Deus, permitindo-nos acreditar que o Filho, Pessoa da Trindade, ofereceu realmente a sua vida na Cruz pela salva\u00e7\u00e3o de todos. Deus feito homem n\u00e3o nos olha do alto nem de longe ou de maneira impessoal. Sem deixar de ser Deus, n\u00e3o temeu assumir a nossa condi\u00e7\u00e3o humana e tomar sobre si as nossas fraquezas e os nossos pecados para nos libertar e nos redimir. Desta forma, o Conc\u00edlio contribuiu decisivamente para o desenvolvimento teol\u00f3gico, sustentando que s\u00f3 Deus poderia redimir o homem.<\/p>\n<p>O \u201cs\u00edmbolo\u201d de Niceia ser\u00e1 \u201cafinado\u201d cinquenta e seis anos depois, no Conc\u00edlio de Constantinopla (381), que reafirmou a unicidade de Deus e a presen\u00e7a das tr\u00eas Pessoas divinas: Deus Pai todo-poderoso, Jesus Cristo, o Filho de Deus, o \u00fanico gerado, e o Esp\u00edrito Santo que com o Pai e o Filho \u00e9 coadorado e coglorificado. E \u00e9 esse \u201cCredo niceno-constantinopolitano\u201d que, habitualmente, professamos aos domingos.<\/p>\n<p><strong>Trabalho que continua<\/strong><\/p>\n<p>O Conc\u00edlio de Niceia recorda-nos que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o se constr\u00f3i no isolamento, mas repousa numa tradi\u00e7\u00e3o viva, transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, sob a a\u00e7\u00e3o iluminadora do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos trabalhos daquela assembleia todos puderam tomar conhecimento dos diferentes \u201ccredos\u201d existentes, desenvolvidos em diferentes contextos e tendo uma \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o: preservar a f\u00e9 que deveria ser transmitida, sem erro, aos novos crist\u00e3os e \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es para a edifica\u00e7\u00e3o da Igreja. Atrav\u00e9s da \u201cconversa\u00e7\u00e3o no Esp\u00edrito\u201d, inspirados pela gra\u00e7a divina, os participantes conseguiram chegar a um consenso e oferecer ao mundo um s\u00edmbolo, \u201ca f\u00e9 de Niceia\u201d, preservando a verdade e garantindo a unidade.<\/p>\n<p>Por outro lado, em Niceia testemunhamos o aparecimento de vocabul\u00e1rio extrab\u00edblico, importado da filosofia grega, que n\u00e3o deixar\u00e1 de causar estranheza. Mas tamb\u00e9m aqui podemos contemplar a a\u00e7\u00e3o de Deus e a concretiza\u00e7\u00e3o da lei da incarna\u00e7\u00e3o: a Palavra que incarna numa cultura e se serve de uma linguagem, ainda que imperfeita, para se dizer. A Palavra deve permanecer viva e viva atrav\u00e9s dos tempos, percorrendo um caminho evolutivo que visa a sua atualiza\u00e7\u00e3o, sem adultera\u00e7\u00e3o. A f\u00e9 precisa de uma linguagem teol\u00f3gica para se dizer.<\/p>\n<p>Mas Niceia tamb\u00e9m convoca e responsabiliza os crist\u00e3os para o caminho ecum\u00e9nico, mostrando-nos como as divis\u00f5es podem ser ultrapassadas se a proximidade e o di\u00e1logo se concretizarem e a escuta do Esp\u00edrito acontecer verdadeiramente.<\/p>\n<p>Ontem como hoje, conhecer e compreender o que esteve em jogo em Niceia, h\u00e1 1700 anos, \u00e9 inscrever-se nesta cadeia ininterrupta que nos une aos primeiros crist\u00e3os e comprometer-se nesta miss\u00e3o que continua.<\/p>\n<p>(D. Joaquim Dion\u00edsio, Bispo Auxiliar do Porto)<\/p>\n<div class=\"mh-social-bottom\">\n<div class=\"mh-share-buttons clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 1700 anos, em Nic\u00e9ia, territ\u00f3rio da atual Turquia (Iznik), mais de tr\u00eas centenas de bispos reuniram-se, convocados pelo imperador Constantino e com a anu\u00eancia do Papa S. Silvestre, para o primeiro conc\u00edlio ecum\u00e9nico da Igreja. Vindos de todo o mundo crist\u00e3o, alguns ainda traziam no corpo as marcas das persegui\u00e7\u00f5es e supl\u00edcios que haviam sofrido por causa do Evangelho. A assembleia ocupar-se-\u00e1 da defesa da f\u00e9 contra a heresia do arianismo, mas ter\u00e1 ainda oportunidade para se pronunciar sobre a data em que se deveria celebrar a P\u00e1scoa e sobre um cisma eg\u00edpcio. No final dos trabalhos, que duraram cerca de um m\u00eas, aprovaram-se decretos sobre aqueles assuntos, bem como sobre outros aspetos da disciplina eclesi\u00e1stica. Para assinalar a data, a Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional publicou, no passado dia 03 de abril, um extenso documento, intitulado \u201cJesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. 1700\u00ba Anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico de Niceia (325-2025)\u201d, onde se recorda que a f\u00e9 de Niceia, na sua beleza e na sua grandeza, \u00e9 a f\u00e9 comum a todos os crist\u00e3os. Amea\u00e7a \u00e0 f\u00e9 A heresia do arianismo, cujo aparecimento se deve a um jovem e din\u00e2mico padre de Alexandria (Egito) chamado \u00c1rio (256-336), negava a divindade de Jesus, vendo-o apenas como uma criatura subordinada ao Pai, uma esp\u00e9cie de demiurgo, criado por Deus para criar o mundo. Porque, segundo ele, falar em \u201cincarna\u00e7\u00e3o\u201d ou dizer que o divino assumiu a condi\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o lhe parecia digno da imagem que tinha de Deus. A preocupa\u00e7\u00e3o de \u00c1rio e dos seus seguidores era preservar a absoluta transcend\u00eancia de Deus, mesmo que \u00e0 custa de um deficiente conhecimento do pr\u00f3prio Jesus. Se Deus \u00e9 uno e transcendente, como \u00e9 poss\u00edvel que Jesus seja Deus? Mas, como bem advertiu St. Atan\u00e1sio, um dos grandes obreiros de Niceia, se Jesus Cristo n\u00e3o era Deus, ent\u00e3o seria apenas um her\u00f3i e n\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos sido verdadeiramente salvos e n\u00e3o seriamos filhos no Filho. Apesar das condena\u00e7\u00f5es de \u00c1rio e dos seus ensinamentos, a heresia propaga-se e amea\u00e7a a unidade da Igreja. O que as cont\u00ednuas e cru\u00e9is persegui\u00e7\u00f5es dos romanos ou as heresias gn\u00f3sticas do segundo s\u00e9culo n\u00e3o tinham conseguido fazer, parecia estar a ser conseguido agora. Por outro lado, tamb\u00e9m a estabilidade pol\u00edtica do Imp\u00e9rio romano, j\u00e1 em decl\u00ednio, \u00e9 posta em causa com estas divis\u00f5es. 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Permanecendo fi\u00e9is \u00e0 revela\u00e7\u00e3o que Jesus nos faz de si mesmo, do Pai e do Esp\u00edrito Santo, a profiss\u00e3o de f\u00e9 protege este mist\u00e9rio contra a tenta\u00e7\u00e3o de o reduzir, adaptando-o, \u00e0s limitadas capacidades da raz\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de uma guerra de palavras, mas da verdade e da verdade da nossa salva\u00e7\u00e3o. A singularidade da nossa f\u00e9 est\u00e1 na afirma\u00e7\u00e3o de que o homem Jesus \u00e9 Deus, permitindo-nos acreditar que o Filho, Pessoa da Trindade, ofereceu realmente a sua vida na Cruz pela salva\u00e7\u00e3o de todos. Deus feito homem n\u00e3o nos olha do alto nem de longe ou de maneira impessoal. Sem deixar de ser Deus, n\u00e3o temeu assumir a nossa condi\u00e7\u00e3o humana e tomar sobre si as nossas fraquezas e os nossos pecados para nos libertar e nos redimir. Desta forma, o Conc\u00edlio contribuiu decisivamente para o desenvolvimento teol\u00f3gico, sustentando que s\u00f3 Deus poderia redimir o homem. O \u201cs\u00edmbolo\u201d de Niceia ser\u00e1 \u201cafinado\u201d cinquenta e seis anos depois, no Conc\u00edlio de Constantinopla (381), que reafirmou a unicidade de Deus e a presen\u00e7a das tr\u00eas Pessoas divinas: Deus Pai todo-poderoso, Jesus Cristo, o Filho de Deus, o \u00fanico gerado, e o Esp\u00edrito Santo que com o Pai e o Filho \u00e9 coadorado e coglorificado. E \u00e9 esse \u201cCredo niceno-constantinopolitano\u201d que, habitualmente, professamos aos domingos. Trabalho que continua O Conc\u00edlio de Niceia recorda-nos que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o se constr\u00f3i no isolamento, mas repousa numa tradi\u00e7\u00e3o viva, transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, sob a a\u00e7\u00e3o iluminadora do Esp\u00edrito. No in\u00edcio dos trabalhos daquela assembleia todos puderam tomar conhecimento dos diferentes \u201ccredos\u201d existentes, desenvolvidos em diferentes contextos e tendo uma \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o: preservar a f\u00e9 que deveria ser transmitida, sem erro, aos novos crist\u00e3os e \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es para a edifica\u00e7\u00e3o da Igreja. Atrav\u00e9s da \u201cconversa\u00e7\u00e3o no Esp\u00edrito\u201d, inspirados pela gra\u00e7a divina, os participantes conseguiram chegar a um consenso e oferecer ao mundo um s\u00edmbolo, \u201ca f\u00e9 de Niceia\u201d, preservando a verdade e garantindo a unidade. Por outro lado, em Niceia testemunhamos o aparecimento de vocabul\u00e1rio extrab\u00edblico, importado da filosofia grega, que n\u00e3o deixar\u00e1 de causar estranheza. Mas tamb\u00e9m aqui podemos contemplar a a\u00e7\u00e3o de Deus e a concretiza\u00e7\u00e3o da lei da incarna\u00e7\u00e3o: a Palavra que incarna numa cultura e se serve de uma linguagem, ainda que imperfeita, para se dizer. A Palavra deve permanecer viva e viva atrav\u00e9s dos tempos, percorrendo um caminho evolutivo que visa a sua atualiza\u00e7\u00e3o, sem adultera\u00e7\u00e3o. A f\u00e9 precisa de uma linguagem teol\u00f3gica para se dizer. Mas Niceia tamb\u00e9m convoca e responsabiliza os crist\u00e3os para o caminho ecum\u00e9nico, mostrando-nos como as divis\u00f5es podem ser ultrapassadas se a proximidade e o di\u00e1logo se concretizarem e a escuta do Esp\u00edrito acontecer verdadeiramente. Ontem como hoje, conhecer e compreender o que esteve em jogo em Niceia, h\u00e1 1700 anos, \u00e9 inscrever-se nesta cadeia ininterrupta que nos une aos primeiros crist\u00e3os e comprometer-se nesta miss\u00e3o que continua. (D. 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