{"id":31128,"date":"2025-06-20T10:24:23","date_gmt":"2025-06-20T10:24:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=31128"},"modified":"2025-06-20T10:24:23","modified_gmt":"2025-06-20T10:24:23","slug":"caminhos-de-unidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/caminhos-de-unidade\/","title":{"rendered":"Caminhos de unidade"},"content":{"rendered":"<p>A celebra\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria dos 1700 do conc\u00edlio de Niceia (celebrado no ano de 325, e que proclamou Deus Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo e Jesus Cristo como Filho Deus e consubstancial ao Pai), que constituiu um ponto de encontro das diversas tend\u00eancias teol\u00f3gicas da \u00e9poca, dando origem ao \u201cCredo\u201d que hoje proclamamos, constituiu o motivo de uma celebra\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica realizada em Lisboa e que foi considerada como afirma\u00e7\u00e3o presente do compromisso ecum\u00e9nico.<\/p>\n<p>Dois conceitos se baralham sobre este tema: o tema do ecumenismo e o da unidade. O caminho ser\u00e1 o ecumenismo e a meta ser\u00e1 a unidade. O conc\u00edlio procurou encontrar a unidade essencial: a presen\u00e7a de Deus e Jesus Cristo como o sentido de toda a f\u00e9 crist\u00e3. Estamos certos, por\u00e9m, de que meta n\u00e3o \u00e9 definitiva, mas ela pr\u00f3pria constitui outro caminho: quando encontremos a unidade resta-nos sempre a tarefa da salva\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Cristo o ensina quando afirma \u201cque todos sejam um para que o mundo creia que Tu me enviaste\u201d, a fim de que depois, como ensina S. Paulo, uma vez acreditando o mundo seja salvo em seu nome. N\u00e3o se trata apenas de uma salva\u00e7\u00e3o individual, mas de uma salva\u00e7\u00e3o universal e c\u00f3smica.<\/p>\n<p>Tra\u00e7am-se assim as metas no tempo e a meta para al\u00e9m do tempo. As metas do tempo s\u00e3o a f\u00e9 e a unidade; as metas para al\u00e9m do tempo s\u00e3o a salva\u00e7\u00e3o e a perfei\u00e7\u00e3o universal do Amor.<\/p>\n<p>As vias do ecumenismo t\u00eam vindo a ser afirmadas e incrementadas nos \u00faltimos tempos, ao menos nas palavras e em algumas convic\u00e7\u00f5es. E tamb\u00e9m em doutrinas e atitudes. \u00c9 j\u00e1 frequente que as confiss\u00f5es crist\u00e3s se encontrem em torno de projetos, j\u00e1 se convidam mutuamente os seus membros e hierarcas para pregarem a palavra e se escutarem uns aos outros. Recordamos que no in\u00edcio deste s\u00e9culo a Rainha de Inglaterra convidou o Bispo da Igreja Cat\u00f3lica a dirigir a palavra a uma magna reuni\u00e3o da Igreja anglicana. Os encontros de Assis, propostos pelo Papa Jo\u00e3o Paulo II pretendem reunir n\u00e3o apenas os crist\u00e3os, mas tamb\u00e9m outros chefes religiosos, nomeadamente os mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos \u00e9 outro positivo sinal dos tempos: quem diria que aqueles a quem Cam\u00f5es chamou \u201co torpe ismaelita cavaleiro\u201d poderiam ter assento de paz ao lado dos seguidores de Cristo, Pr\u00edncipe da Paz\u201d! E que as lutas do passado se possam transformar em projetos edificadores do presente, em caminhos de paz e desenvolvimento.<\/p>\n<p>Sinais positivos dos tempos, que se devem conjugar com outros sinais, estes negativos: que a sociedade ainda n\u00e3o consiga realizar uma integra\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e a vida, entre as convic\u00e7\u00f5es profundas e o quotidiano social e pol\u00edtico, entre uma f\u00e9 espiritualista e emocional e as din\u00e2micas e pr\u00e1ticas vivenciais incarnadas no tempo e nos projetos sociais. Se o discurso pol\u00edtico incorpora muitas vezes conceitos oriundos do esp\u00edrito crist\u00e3o (como liberdade, igualdade, fraternidade ou solidariedade), torna-se penoso o seu esbarrar com os projetos e ambi\u00e7\u00f5es nascidas do mundo da economia e dos projetos industriais ou de desenvolvimento.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o da aproxima\u00e7\u00e3o entre os crist\u00e3os (e entre os crentes que n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3os e entre os homens que n\u00e3o s\u00e3o crentes), s\u00f3 pode fazer-se mediante tr\u00eas esp\u00e9cies de caminhos. O primeiro \u00e9 o reconhecimento, com necess\u00e1ria humildade, dos erros cometidos ao longo dos s\u00e9culos, n\u00e3o certamente pela for\u00e7a da f\u00e9, mas pela incapacidade de saber seguir os caminhos da f\u00e9; o segundo \u00e9 o perd\u00e3o m\u00fatuo, a nascer desse reconhecimento (a que Jo\u00e3o Paulo II chamava \u201ca purifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d); a terceira \u00e9 a redescoberta dos caminhos tra\u00e7ados no Evangelho e a for\u00e7a da palavra de Jesus Cristo, ou d\u2019Ele como palavra. Se as duas primeira s\u00e3o dif\u00edceis, a mais dif\u00edcil \u00e9 esta \u00faltima: redescobrir no tempo e na a\u00e7\u00e3o um Jesus Cristo sempre novo e sempre atual, princ\u00edpio universal de salva\u00e7\u00e3o e de esperan\u00e7a. A descoberta da f\u00e9 como princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o social e comunit\u00e1ria \u00e9 a mais importante tarefa da sociedade de hoje, na vida pol\u00edtica e na movimenta\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Os ventos de guerra, militar e econ\u00f3mica, que hoje assolam o mundo constituem contraponto negro e desumano do ideal de desenvolvimento e de paz que o mundo tecnol\u00f3gico de hoje teria possibilidades para percorrer. Lamentavelmente parece percorrer o caminho inverso.\u00a0 Falta assim realizar o que o Patriarca de Lisboa propunha no encontro ecum\u00e9nico: que a sociedade, as for\u00e7as pol\u00edticas, a linguagem e a pr\u00e1tica, possam \u201caderir a um projeto maior, a um projeto de dignidade, a um projeto de paz\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A celebra\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria dos 1700 do conc\u00edlio de Niceia (celebrado no ano de 325, e que proclamou Deus Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo e Jesus Cristo como Filho Deus e consubstancial ao Pai), que constituiu um ponto de encontro das diversas tend\u00eancias teol\u00f3gicas da \u00e9poca, dando origem ao \u201cCredo\u201d que hoje proclamamos, constituiu o motivo de uma celebra\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica realizada em Lisboa e que foi considerada como afirma\u00e7\u00e3o presente do compromisso ecum\u00e9nico. Dois conceitos se baralham sobre este tema: o tema do ecumenismo e o da unidade. O caminho ser\u00e1 o ecumenismo e a meta ser\u00e1 a unidade. O conc\u00edlio procurou encontrar a unidade essencial: a presen\u00e7a de Deus e Jesus Cristo como o sentido de toda a f\u00e9 crist\u00e3. Estamos certos, por\u00e9m, de que meta n\u00e3o \u00e9 definitiva, mas ela pr\u00f3pria constitui outro caminho: quando encontremos a unidade resta-nos sempre a tarefa da salva\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Cristo o ensina quando afirma \u201cque todos sejam um para que o mundo creia que Tu me enviaste\u201d, a fim de que depois, como ensina S. Paulo, uma vez acreditando o mundo seja salvo em seu nome. N\u00e3o se trata apenas de uma salva\u00e7\u00e3o individual, mas de uma salva\u00e7\u00e3o universal e c\u00f3smica. Tra\u00e7am-se assim as metas no tempo e a meta para al\u00e9m do tempo. As metas do tempo s\u00e3o a f\u00e9 e a unidade; as metas para al\u00e9m do tempo s\u00e3o a salva\u00e7\u00e3o e a perfei\u00e7\u00e3o universal do Amor. As vias do ecumenismo t\u00eam vindo a ser afirmadas e incrementadas nos \u00faltimos tempos, ao menos nas palavras e em algumas convic\u00e7\u00f5es. E tamb\u00e9m em doutrinas e atitudes. \u00c9 j\u00e1 frequente que as confiss\u00f5es crist\u00e3s se encontrem em torno de projetos, j\u00e1 se convidam mutuamente os seus membros e hierarcas para pregarem a palavra e se escutarem uns aos outros. Recordamos que no in\u00edcio deste s\u00e9culo a Rainha de Inglaterra convidou o Bispo da Igreja Cat\u00f3lica a dirigir a palavra a uma magna reuni\u00e3o da Igreja anglicana. Os encontros de Assis, propostos pelo Papa Jo\u00e3o Paulo II pretendem reunir n\u00e3o apenas os crist\u00e3os, mas tamb\u00e9m outros chefes religiosos, nomeadamente os mu\u00e7ulmanos. A aproxima\u00e7\u00e3o entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos \u00e9 outro positivo sinal dos tempos: quem diria que aqueles a quem Cam\u00f5es chamou \u201co torpe ismaelita cavaleiro\u201d poderiam ter assento de paz ao lado dos seguidores de Cristo, Pr\u00edncipe da Paz\u201d! E que as lutas do passado se possam transformar em projetos edificadores do presente, em caminhos de paz e desenvolvimento. Sinais positivos dos tempos, que se devem conjugar com outros sinais, estes negativos: que a sociedade ainda n\u00e3o consiga realizar uma integra\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e a vida, entre as convic\u00e7\u00f5es profundas e o quotidiano social e pol\u00edtico, entre uma f\u00e9 espiritualista e emocional e as din\u00e2micas e pr\u00e1ticas vivenciais incarnadas no tempo e nos projetos sociais. Se o discurso pol\u00edtico incorpora muitas vezes conceitos oriundos do esp\u00edrito crist\u00e3o (como liberdade, igualdade, fraternidade ou solidariedade), torna-se penoso o seu esbarrar com os projetos e ambi\u00e7\u00f5es nascidas do mundo da economia e dos projetos industriais ou de desenvolvimento. A realiza\u00e7\u00e3o da aproxima\u00e7\u00e3o entre os crist\u00e3os (e entre os crentes que n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3os e entre os homens que n\u00e3o s\u00e3o crentes), s\u00f3 pode fazer-se mediante tr\u00eas esp\u00e9cies de caminhos. O primeiro \u00e9 o reconhecimento, com necess\u00e1ria humildade, dos erros cometidos ao longo dos s\u00e9culos, n\u00e3o certamente pela for\u00e7a da f\u00e9, mas pela incapacidade de saber seguir os caminhos da f\u00e9; o segundo \u00e9 o perd\u00e3o m\u00fatuo, a nascer desse reconhecimento (a que Jo\u00e3o Paulo II chamava \u201ca purifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d); a terceira \u00e9 a redescoberta dos caminhos tra\u00e7ados no Evangelho e a for\u00e7a da palavra de Jesus Cristo, ou d\u2019Ele como palavra. Se as duas primeira s\u00e3o dif\u00edceis, a mais dif\u00edcil \u00e9 esta \u00faltima: redescobrir no tempo e na a\u00e7\u00e3o um Jesus Cristo sempre novo e sempre atual, princ\u00edpio universal de salva\u00e7\u00e3o e de esperan\u00e7a. A descoberta da f\u00e9 como princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o social e comunit\u00e1ria \u00e9 a mais importante tarefa da sociedade de hoje, na vida pol\u00edtica e na movimenta\u00e7\u00e3o social. 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