{"id":31153,"date":"2025-06-28T19:23:20","date_gmt":"2025-06-28T19:23:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=31153"},"modified":"2025-06-28T19:23:20","modified_gmt":"2025-06-28T19:23:20","slug":"os-pobres-nao-podem-esperar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/os-pobres-nao-podem-esperar\/","title":{"rendered":"Os pobres n\u00e3o podem esperar"},"content":{"rendered":"<p>No dia 13 de junho de 2025, o Papa Le\u00e3o XIV publicou a sua mensagem para o 9.\u00ba Dia Mundial dos Pobres que se vai realizar a 16 de novembro. O Santo Padre refere que \u00ab<em>os pobres n\u00e3o s\u00e3o um passatempo para a Igreja, mas sim os irm\u00e3os e irm\u00e3s mais amados, porque cada um deles, com a sua exist\u00eancia e tamb\u00e9m com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as m\u00e3os a verdade do Evangelho.\u00bb<\/em>\u00a0Recorda a todas as comunidades crist\u00e3s que\u00a0<em>\u00abos pobres est\u00e3o no centro de toda a a\u00e7\u00e3o pastoral.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Muitos poder\u00e3o escudar-se nas palavras do pr\u00f3prio Jesus Cristo, no evangelho segundo S\u00e3o Jo\u00e3o:\u00a0<em>\u00ab<\/em><em>De facto, os pobres sempre os tendes convosco\u2026\u00bb (Jo 12, 8a),<\/em>\u00a0justificando a fatalidade da pobreza e que nunca a conseguiremos eliminar. Mas tal n\u00e3o \u00e9 verdade! Temos de reduzir a pobreza e os seus n\u00fameros alarmantes o m\u00e1ximo que conseguirmos, seja pela justa distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, atrav\u00e9s de sal\u00e1rios justos e apoios estatais; seja pela promo\u00e7\u00e3o social e pela educa\u00e7\u00e3o, quebrando os seus ciclos de transmiss\u00e3o geracional.<\/p>\n<p>Em Portugal, temos n\u00fameros chocantes de pobreza, para um pa\u00eds europeu. Segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edstica, em 2024, 19,7% da popula\u00e7\u00e3o portuguesa vivia em risco de pobreza ou de exclus\u00e3o social. Ou seja, quase dois milh\u00f5es de portugueses n\u00e3o t\u00eam o suficiente para viver com dignidade. N\u00e3o podemos ficar indiferentes e calados.<\/p>\n<p>H\u00e1 que voltar a reinflamar os cora\u00e7\u00f5es com as palavras do Padre Am\u00e9rico, fundador da Obra da Rua. Ele escrevia nas p\u00e1ginas do seu livro\u00a0<em>P\u00e3o dos Pobres:<\/em>\u00a0<em>\u00abo grande rem\u00e9dio \u00e9 escolher dos mais pobres entre os Pobres; dos mais enxovalhados entre os sujos; dos mais desprez\u00edveis entre os desprezados. \u00c9 levar de entre doentes os de maior gravidade, de entre famintos os que passam mais fome e os de mais v\u00edcios entre os viciados. Aplicar o rem\u00e9dio conforme o doente e na medida das feridas de cada um; cuidar de todos eles com inten\u00e7\u00e3o muito recta e muito silenciosa.\u00bb\u00a0<\/em>Mas n\u00e3o ficou s\u00f3 pelas palavras. Criou o Patrim\u00f3nio dos Pobres, em que cada comunidade constru\u00eda casas para os mais desfavorecidos; o Calv\u00e1rio para os doentes terminais ou desamparados e o Gaiato para as crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s ou abandonadas.<\/p>\n<p>Recordo a minha catequista da primeira comunh\u00e3o que me falava dos tempos em que o Padre Am\u00e9rico ia de capa negra tra\u00e7ada, pregar ao p\u00falpito da Igreja do Bonfim, apelando \u00e0 generosidade dos fi\u00e9is. Ele levava sempre dois rapazes da sua obra com ele. A minha catequista dizia-me que tal era o fervor daquele padre que as pessoas esvaziavam as carteiras na saca das esmolas dos gaiatos e as senhoras tiravam as suas joias e davam-nas para ajudar os mais pobres.<\/p>\n<p>Temos de repetir as palavras de D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos, que na sua primeira homilia como Bispo do Porto, em abril de 2014, dizia: \u201c<em>Sejamos ousados, criativos e decididos. Sobretudo onde estiverem em causa os fr\u00e1geis, os pobres e os que sofrem. Os pobres n\u00e3o podem esperar.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Quem vive na pobreza n\u00e3o pode esperar. Os pobres existem e s\u00e3o pessoas que merecem toda a nossa aten\u00e7\u00e3o e cuidado. Se cada comunidade, bairro ou freguesia estiver atenta \u00e0queles que passam priva\u00e7\u00f5es e reagir, prestando aux\u00edlio e resolvendo as situa\u00e7\u00f5es mais urgentes, o mundo come\u00e7a a mudar a partir de n\u00f3s e da nossa proximidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esperar que o Estado fa\u00e7a tudo. Temos \u00e9 de exigir aos \u00f3rg\u00e3os estatais, desde as autarquias ao governo, que apoiem quem est\u00e1 no terreno e conhece a realidade. Como se podem fazer festas, festivais e prociss\u00f5es monumentais quando h\u00e1 irm\u00e3os nas nossas terras que contam os c\u00eantimos para viver e t\u00eam de escolher entre comer ou tomar medica\u00e7\u00e3o, entre alimentar-se ou passar frio ou calor extremos. Temos de pedir \u00e0s comunidades crist\u00e3s mais a\u00e7\u00e3o e menos palavras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 13 de junho de 2025, o Papa Le\u00e3o XIV publicou a sua mensagem para o 9.\u00ba Dia Mundial dos Pobres que se vai realizar a 16 de novembro. O Santo Padre refere que \u00abos pobres n\u00e3o s\u00e3o um passatempo para a Igreja, mas sim os irm\u00e3os e irm\u00e3s mais amados, porque cada um deles, com a sua exist\u00eancia e tamb\u00e9m com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as m\u00e3os a verdade do Evangelho.\u00bb\u00a0Recorda a todas as comunidades crist\u00e3s que\u00a0\u00abos pobres est\u00e3o no centro de toda a a\u00e7\u00e3o pastoral.\u00bb Muitos poder\u00e3o escudar-se nas palavras do pr\u00f3prio Jesus Cristo, no evangelho segundo S\u00e3o Jo\u00e3o:\u00a0\u00abDe facto, os pobres sempre os tendes convosco\u2026\u00bb (Jo 12, 8a),\u00a0justificando a fatalidade da pobreza e que nunca a conseguiremos eliminar. Mas tal n\u00e3o \u00e9 verdade! Temos de reduzir a pobreza e os seus n\u00fameros alarmantes o m\u00e1ximo que conseguirmos, seja pela justa distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, atrav\u00e9s de sal\u00e1rios justos e apoios estatais; seja pela promo\u00e7\u00e3o social e pela educa\u00e7\u00e3o, quebrando os seus ciclos de transmiss\u00e3o geracional. Em Portugal, temos n\u00fameros chocantes de pobreza, para um pa\u00eds europeu. Segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edstica, em 2024, 19,7% da popula\u00e7\u00e3o portuguesa vivia em risco de pobreza ou de exclus\u00e3o social. Ou seja, quase dois milh\u00f5es de portugueses n\u00e3o t\u00eam o suficiente para viver com dignidade. N\u00e3o podemos ficar indiferentes e calados. H\u00e1 que voltar a reinflamar os cora\u00e7\u00f5es com as palavras do Padre Am\u00e9rico, fundador da Obra da Rua. Ele escrevia nas p\u00e1ginas do seu livro\u00a0P\u00e3o dos Pobres:\u00a0\u00abo grande rem\u00e9dio \u00e9 escolher dos mais pobres entre os Pobres; dos mais enxovalhados entre os sujos; dos mais desprez\u00edveis entre os desprezados. \u00c9 levar de entre doentes os de maior gravidade, de entre famintos os que passam mais fome e os de mais v\u00edcios entre os viciados. Aplicar o rem\u00e9dio conforme o doente e na medida das feridas de cada um; cuidar de todos eles com inten\u00e7\u00e3o muito recta e muito silenciosa.\u00bb\u00a0Mas n\u00e3o ficou s\u00f3 pelas palavras. Criou o Patrim\u00f3nio dos Pobres, em que cada comunidade constru\u00eda casas para os mais desfavorecidos; o Calv\u00e1rio para os doentes terminais ou desamparados e o Gaiato para as crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s ou abandonadas. Recordo a minha catequista da primeira comunh\u00e3o que me falava dos tempos em que o Padre Am\u00e9rico ia de capa negra tra\u00e7ada, pregar ao p\u00falpito da Igreja do Bonfim, apelando \u00e0 generosidade dos fi\u00e9is. Ele levava sempre dois rapazes da sua obra com ele. A minha catequista dizia-me que tal era o fervor daquele padre que as pessoas esvaziavam as carteiras na saca das esmolas dos gaiatos e as senhoras tiravam as suas joias e davam-nas para ajudar os mais pobres. Temos de repetir as palavras de D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos, que na sua primeira homilia como Bispo do Porto, em abril de 2014, dizia: \u201cSejamos ousados, criativos e decididos. Sobretudo onde estiverem em causa os fr\u00e1geis, os pobres e os que sofrem. Os pobres n\u00e3o podem esperar.\u201d Quem vive na pobreza n\u00e3o pode esperar. Os pobres existem e s\u00e3o pessoas que merecem toda a nossa aten\u00e7\u00e3o e cuidado. Se cada comunidade, bairro ou freguesia estiver atenta \u00e0queles que passam priva\u00e7\u00f5es e reagir, prestando aux\u00edlio e resolvendo as situa\u00e7\u00f5es mais urgentes, o mundo come\u00e7a a mudar a partir de n\u00f3s e da nossa proximidade. N\u00e3o podemos esperar que o Estado fa\u00e7a tudo. Temos \u00e9 de exigir aos \u00f3rg\u00e3os estatais, desde as autarquias ao governo, que apoiem quem est\u00e1 no terreno e conhece a realidade. Como se podem fazer festas, festivais e prociss\u00f5es monumentais quando h\u00e1 irm\u00e3os nas nossas terras que contam os c\u00eantimos para viver e t\u00eam de escolher entre comer ou tomar medica\u00e7\u00e3o, entre alimentar-se ou passar frio ou calor extremos. 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