{"id":31549,"date":"2025-10-16T10:29:23","date_gmt":"2025-10-16T10:29:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=31549"},"modified":"2025-10-16T10:29:23","modified_gmt":"2025-10-16T10:29:23","slug":"leao-xiv-e-a-questao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/leao-xiv-e-a-questao-social\/","title":{"rendered":"Le\u00e3o XIV e a Quest\u00e3o Social"},"content":{"rendered":"<p>O Papa Le\u00e3o XIV confessou que a escolha do seu nome pretende indicar-nos uma direc\u00e7\u00e3o para o seu magist\u00e9rio: situar-se na tradi\u00e7\u00e3o da Igreja que se preocupa com a complexidade da chamada Quest\u00e3o social e com a sua resolu\u00e7\u00e3o. O seu primeiro texto, a Exorta\u00e7\u00e3o \u201cDilexi Te\u201d, comprova este prop\u00f3sito. Vamos, por isso, propor uma primeira leitura deste programa que acaba de ser publicado.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos por esclarecer o que se entende por \u201cquest\u00e3o social\u201d.\u00a0 As sociedades antigas n\u00e3o tinham uma quest\u00e3o social, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tinham desequil\u00edbrios. O que se passa \u00e9 que, na Antiguidade e na Idade M\u00e9dia e em muitas sociedades tradicionais de hoje, se vivia num mundo est\u00e1tico. Havia ricos e pobres, reconhecidos e n\u00e3o-reconhecidos, inclu\u00eddos e exclu\u00eddos, mas essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era impugnada pela \u00e9tica e muitas vezes era sustentada pela religi\u00e3o. Diversas inst\u00e2ncias, como a Igreja, apelavam \u00e0 esmola e a outras formas de socorro dos desfavorecidos. Mas n\u00e3o havia uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica propriamente dita sobre a mat\u00e9ria. A partir das revolu\u00e7\u00f5es que fizeram o mundo moderno, esta situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser pensada pelas ci\u00eancias, pela pol\u00edtica e pela teologia. \u00c9 aqui que se situa o Papa Le\u00e3o XIII que publica, em 1891, a sua enc\u00edclica social, a conhecida \u201cRerum Novarum\u201d. A partir daqui, come\u00e7a a reconhecer-se que h\u00e1 uma factor apreens\u00edvel, o \u201csocial\u201d, que \u00e9 objecto da sociologia e da interven\u00e7\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica. Este reconhecimento tornou as sociedades mais conflituais, mas tamb\u00e9m mais participativas e mais progressivas. \u00c9 neste contexto que come\u00e7am a ser fundados e reconhecidos os \u201cdireitos sociais de cidadania\u201d que fazem parte do jogo democr\u00e1tico e das exig\u00eancias \u00e9ticas de uma sociedade fundada no bem e n\u00e3o apenas na for\u00e7a.<\/p>\n<p>O texto do Papa Le\u00e3o XIV \u00e9 muito interessante neste ponto. Come\u00e7a por situar-se na continuidade com o seu antecessor, o Papa Francisco, que teria tido mesmo a inten\u00e7\u00e3o de publicar um texto sobre o tema do amor para com os pobres. Reconhece que a quest\u00e3o da pobreza \u00e9 um assunto de muitas faces. Por\u00e9m, a pobreza, tal como \u00e9 vista pela teologia suposta no texto, \u00e9 uma quest\u00e3o de \u201crevela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de benefic\u00eancia\u201d (n. 5). Este ponto \u00e9 important\u00edssimo para a leitura da exorta\u00e7\u00e3o. De facto, a pobreza tem um contexto pr\u00e9vio a todos os outros que \u00e9 este de ser um lugar de revela\u00e7\u00e3o. A pobreza \u00e9, pois, uma situa\u00e7\u00e3o existencial, \u00e9 o lugar do encontro de Deus com o ser humano, e o ponto de origin\u00e1rio da incarna\u00e7\u00e3o de Deus, \u00e9 o territ\u00f3rio de origem da Igreja. Estamos a falar do lugar da salva\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de um qualquer motivo de luta sociol\u00f3gica. Por isso, imp\u00f5e-se um trabalho para superar a ambiguidade que anda ligada \u00e0 quest\u00e3o da pobreza. Desde logo, para superar qualquer moralismo ou de qualquer ideologia. Todas os pontos de vista emitidos na exorta\u00e7\u00e3o sup\u00f5em esta afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E qual \u00e9 o foco da aten\u00e7\u00e3o do documento, no que toca \u00e0s pobrezas dos dias que correm? Recordemos que no tempo de Le\u00e3o XIII, se tratava de quest\u00e3o dos oper\u00e1rios, que eram o motor da revolu\u00e7\u00e3o industrial e n\u00e3o tinham parte nos benef\u00edcios dela. No actual contexto, os visados s\u00e3o os descartados da riqueza, os desnutridos e os carentes de \u00e1gua pot\u00e1vel, os migrantes. O Papa observa como existe uma dist\u00e2ncia entre as elites detentoras de uma riqueza desmedida e as enormes multid\u00f5es que apenas sobrevivem sobre a terra.<\/p>\n<p>Para explicar este estado de coisas, o escrito papal usa muito frequentemente a alus\u00e3o a um \u201cpecado estrutural\u201d. Este diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 novo, pois remonta a Jo\u00e3o Paulo II. Estas estruturas, criadas pelos seres humanos, tornam patente e explicam os mecanismos de concentra\u00e7\u00e3o da riqueza mundial, bem como a correspondente depend\u00eancia dos pobres que alimentam com o seu trabalho a riqueza dos mais ricos. A nosso ver, esta refer\u00eancia \u00e9 importante pois se situa no centro de uma desordem do nosso mundo econ\u00f3mico e financeiro que manipula habilmente o valor em proveito de um grupo possuidor que se torna escandalosamente rico.<\/p>\n<p>A esta explica\u00e7\u00e3o, poderia ajuntar-se mais duas observa\u00e7\u00f5es que o texto n\u00e3o tem na devida conta. Uma delas \u00e9 a quest\u00e3o cultural da nova face do capitalismo de hoje que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 baseado na produ\u00e7\u00e3o e na poupan\u00e7a, mas no consumo, no descarte e na extrac\u00e7\u00e3o desmedida dos recursos do planeta em ordem a um consumo generalizado, que seduz tenentes e indigentes. Por outro lado, o texto usa, e muito bem, as obras de miseric\u00f3rdia como exig\u00eancias \u00e9ticas do cristianismo para obviar \u00e0 pobreza. Mas falta uma segunda coisa a nosso ver, que \u00e9 centralidade da moraliza\u00e7\u00e3o do trabalho, como forma de combate \u00e0 desigualdade e \u00e0 pobreza real.<\/p>\n<p>\u201cDilexi Te\u201d d\u00e1, pois, o mote do estilo de Le\u00e3o XIV no servi\u00e7o de Pedro. Creio que muito podemos esperar dele e que vai conduzir a Igreja pelo caminho da relev\u00e2ncia e da proximidade com as multid\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa Le\u00e3o XIV confessou que a escolha do seu nome pretende indicar-nos uma direc\u00e7\u00e3o para o seu magist\u00e9rio: situar-se na tradi\u00e7\u00e3o da Igreja que se preocupa com a complexidade da chamada Quest\u00e3o social e com a sua resolu\u00e7\u00e3o. O seu primeiro texto, a Exorta\u00e7\u00e3o \u201cDilexi Te\u201d, comprova este prop\u00f3sito. Vamos, por isso, propor uma primeira leitura deste programa que acaba de ser publicado. Come\u00e7amos por esclarecer o que se entende por \u201cquest\u00e3o social\u201d.\u00a0 As sociedades antigas n\u00e3o tinham uma quest\u00e3o social, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o tinham desequil\u00edbrios. O que se passa \u00e9 que, na Antiguidade e na Idade M\u00e9dia e em muitas sociedades tradicionais de hoje, se vivia num mundo est\u00e1tico. Havia ricos e pobres, reconhecidos e n\u00e3o-reconhecidos, inclu\u00eddos e exclu\u00eddos, mas essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era impugnada pela \u00e9tica e muitas vezes era sustentada pela religi\u00e3o. Diversas inst\u00e2ncias, como a Igreja, apelavam \u00e0 esmola e a outras formas de socorro dos desfavorecidos. Mas n\u00e3o havia uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica propriamente dita sobre a mat\u00e9ria. A partir das revolu\u00e7\u00f5es que fizeram o mundo moderno, esta situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser pensada pelas ci\u00eancias, pela pol\u00edtica e pela teologia. \u00c9 aqui que se situa o Papa Le\u00e3o XIII que publica, em 1891, a sua enc\u00edclica social, a conhecida \u201cRerum Novarum\u201d. A partir daqui, come\u00e7a a reconhecer-se que h\u00e1 uma factor apreens\u00edvel, o \u201csocial\u201d, que \u00e9 objecto da sociologia e da interven\u00e7\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica. Este reconhecimento tornou as sociedades mais conflituais, mas tamb\u00e9m mais participativas e mais progressivas. \u00c9 neste contexto que come\u00e7am a ser fundados e reconhecidos os \u201cdireitos sociais de cidadania\u201d que fazem parte do jogo democr\u00e1tico e das exig\u00eancias \u00e9ticas de uma sociedade fundada no bem e n\u00e3o apenas na for\u00e7a. O texto do Papa Le\u00e3o XIV \u00e9 muito interessante neste ponto. Come\u00e7a por situar-se na continuidade com o seu antecessor, o Papa Francisco, que teria tido mesmo a inten\u00e7\u00e3o de publicar um texto sobre o tema do amor para com os pobres. Reconhece que a quest\u00e3o da pobreza \u00e9 um assunto de muitas faces. Por\u00e9m, a pobreza, tal como \u00e9 vista pela teologia suposta no texto, \u00e9 uma quest\u00e3o de \u201crevela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de benefic\u00eancia\u201d (n. 5). Este ponto \u00e9 important\u00edssimo para a leitura da exorta\u00e7\u00e3o. De facto, a pobreza tem um contexto pr\u00e9vio a todos os outros que \u00e9 este de ser um lugar de revela\u00e7\u00e3o. A pobreza \u00e9, pois, uma situa\u00e7\u00e3o existencial, \u00e9 o lugar do encontro de Deus com o ser humano, e o ponto de origin\u00e1rio da incarna\u00e7\u00e3o de Deus, \u00e9 o territ\u00f3rio de origem da Igreja. Estamos a falar do lugar da salva\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de um qualquer motivo de luta sociol\u00f3gica. Por isso, imp\u00f5e-se um trabalho para superar a ambiguidade que anda ligada \u00e0 quest\u00e3o da pobreza. Desde logo, para superar qualquer moralismo ou de qualquer ideologia. Todas os pontos de vista emitidos na exorta\u00e7\u00e3o sup\u00f5em esta afirma\u00e7\u00e3o. E qual \u00e9 o foco da aten\u00e7\u00e3o do documento, no que toca \u00e0s pobrezas dos dias que correm? Recordemos que no tempo de Le\u00e3o XIII, se tratava de quest\u00e3o dos oper\u00e1rios, que eram o motor da revolu\u00e7\u00e3o industrial e n\u00e3o tinham parte nos benef\u00edcios dela. No actual contexto, os visados s\u00e3o os descartados da riqueza, os desnutridos e os carentes de \u00e1gua pot\u00e1vel, os migrantes. O Papa observa como existe uma dist\u00e2ncia entre as elites detentoras de uma riqueza desmedida e as enormes multid\u00f5es que apenas sobrevivem sobre a terra. Para explicar este estado de coisas, o escrito papal usa muito frequentemente a alus\u00e3o a um \u201cpecado estrutural\u201d. Este diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 novo, pois remonta a Jo\u00e3o Paulo II. Estas estruturas, criadas pelos seres humanos, tornam patente e explicam os mecanismos de concentra\u00e7\u00e3o da riqueza mundial, bem como a correspondente depend\u00eancia dos pobres que alimentam com o seu trabalho a riqueza dos mais ricos. A nosso ver, esta refer\u00eancia \u00e9 importante pois se situa no centro de uma desordem do nosso mundo econ\u00f3mico e financeiro que manipula habilmente o valor em proveito de um grupo possuidor que se torna escandalosamente rico. A esta explica\u00e7\u00e3o, poderia ajuntar-se mais duas observa\u00e7\u00f5es que o texto n\u00e3o tem na devida conta. Uma delas \u00e9 a quest\u00e3o cultural da nova face do capitalismo de hoje que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 baseado na produ\u00e7\u00e3o e na poupan\u00e7a, mas no consumo, no descarte e na extrac\u00e7\u00e3o desmedida dos recursos do planeta em ordem a um consumo generalizado, que seduz tenentes e indigentes. Por outro lado, o texto usa, e muito bem, as obras de miseric\u00f3rdia como exig\u00eancias \u00e9ticas do cristianismo para obviar \u00e0 pobreza. Mas falta uma segunda coisa a nosso ver, que \u00e9 centralidade da moraliza\u00e7\u00e3o do trabalho, como forma de combate \u00e0 desigualdade e \u00e0 pobreza real. \u201cDilexi Te\u201d d\u00e1, pois, o mote do estilo de Le\u00e3o XIV no servi\u00e7o de Pedro. 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