{"id":31730,"date":"2025-11-28T10:25:35","date_gmt":"2025-11-28T10:25:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=31730"},"modified":"2025-11-28T10:25:35","modified_gmt":"2025-11-28T10:25:35","slug":"a-igreja-e-o-trabalho-no-centenario-da-joc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/a-igreja-e-o-trabalho-no-centenario-da-joc\/","title":{"rendered":"A Igreja e o trabalho no centen\u00e1rio da JOC"},"content":{"rendered":"<p>Ocorreu por estes dias o centen\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o da Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica (JOC). Ao nosso pa\u00eds, esse movimento chegou uma d\u00e9cada mais tarde, sendo assumido como um movimento especializado de Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica no mundo laboral. Foi fundador do movimento o sacerdote belga Joseph Cardijn (1882-1967) que o Papa Paulo VI distinguiu fazendo-o bispo e cardeal. Oriundo de uma fam\u00edlia pobre, foi chamado \u00e0 vida sacerdotal. Olhando a sorte dos seus antigos companheiros de inf\u00e2ncia, explorados no trabalho e agressivos contra a Igreja, teve a intui\u00e7\u00e3o de promover a ac\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica entre eles como forma de os reconduzir \u00e0 Igreja e de mostrar como a f\u00e9 religiosa era um princ\u00edpio de lucidez para transformar o mundo laboral em ebuli\u00e7\u00e3o. A sua milit\u00e2ncia em favor da dignifica\u00e7\u00e3o do povo trabalhador levou-o a uma vida atribulada, tendo passado pela pris\u00e3o em diversas ocasi\u00f5es, nos tempos dif\u00edceis da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. O seu lema: \u201cUm jovem trabalhador vale mais do que todo ouro do mundo\u201d, teve uma grande popularidade entre os jovens militantes oper\u00e1rios e muito do esp\u00edrito da sua actividade continua a fazer imenso sentido nos dias de hoje.<\/p>\n<p>O centen\u00e1rio da JOC coincide com a intensa discuss\u00e3o que o projecto governamental de reforma das leis laborais para o s\u00e9c. XXI est\u00e1 a desencadear no nosso pa\u00eds. Por isso, a inspira\u00e7\u00e3o do passado d\u00e1-nos o ensejo de dizer alguma coisa sobre o que parece que est\u00e1 em causa.<\/p>\n<p>Um ponto que parece importante \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o do trabalho associado na empresa. Os sindicatos op\u00f5em-se com raz\u00e3o a que as leis consagrem uma arbitrariedade do empregador sobre os seus trabalhadores, podendo despedir sem justa causa, ampliando os prazos dos contratos a termo e outras prerrogativas um tanto unilaterais. Do ponto de vista da \u00e9tica social crist\u00e3, podemos dizer que, em geral, a empresa tem resistido ao melhoramento das rela\u00e7\u00f5es humanas entre as pessoas que a integram. Enquanto a comunidade pol\u00edtica se democratizou, a fam\u00edlia se humanizou, as Igrejas se tornaram participativas e sinodais, observamos que a empresa de trabalho continua a ser um foco de resist\u00eancia a estes melhoramentos e permanece uma institui\u00e7\u00e3o hierarquizada \u00e0 moda do tempo antigo. Sabemos que o trabalho associado \u00e9 um mundo de conflito, mas parece justo perguntar se as leis laborais, em vez de aperfei\u00e7oarem as grilhetas de quem trabalha, fossem pensadas como melhoramento das asas das pessoas que trabalham e de as tornarem mais felizes no seu emprego? Ser\u00e1 isso t\u00e3o fora de horizonte? As leis poderiam consagrar o dever de as empresas darem aos seus trabalhadores perspectivas de progress\u00e3o, com prazos mais longos e perspectivas de sal\u00e1rio de acordo com planos individuais de cumprimento objectivos pensados em grupo, aumentando assim a produtividade da empresa e o bem-estar do trabalhador? Isso, a nosso ver, seria o trabalho do s\u00e9c. XXI, mas do que o que est\u00e1 em cima da mesa e que vai ocasionar uma greve geral. Cremos que seria poss\u00edvel pensar as leis com estes pressupostos e n\u00e3o com os antigos, com a pol\u00e9mica que se v\u00ea.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito do trabalho da JOC poderia ainda levar-nos noutra direc\u00e7\u00e3o. Sabemos como a intelig\u00eancia artificial vai condicionar muito o trabalho do futuro. A chegada do robot \u00e9 uma boa not\u00edcia. Se os trabalhos da terra, da constru\u00e7\u00e3o civil e outros trabalhos duros, forem feitos pela m\u00e1quina cada vez mais inteligente, isso \u00e9 uma boa not\u00edcia para o mundo. S\u00f3 quem nunca experimentou a dureza desses trabalhos pode ter medo do futuro. Mas para que o uso da m\u00e1quina inteligente n\u00e3o seja traum\u00e1tico para a sociedade do futuro, ser\u00e1 necess\u00e1rio um grande melhoramento dos sujeitos humanos que somos. Precisamos de um processo muito grande de crescimento em educa\u00e7\u00e3o moral e em cidadania e liberdade. Desde logo para mantermos o poder de decis\u00e3o sobre a m\u00e1quina que, a quanto parece, vai adquirir uma certa espontaneidade. Apenas indiv\u00edduos muito seguros de si e muito competentes poder\u00e3o manter sob o seu dom\u00ednio a m\u00e1quina inteligente. Mas apenas sujeitos muito aut\u00f3nomos e evolu\u00eddos moralmente poder\u00e3o controlar a distribui\u00e7\u00e3o da riqueza produzida, evitando assim um crescimento exponencial das desigualdades a que j\u00e1 estamos a assistir. \u00c9 por isso que a dignifica\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, que foi a luta da JOC no passado, ter\u00e1 de ser a luta dos crist\u00e3os do futuro. E talvez com mais urg\u00eancia no futuro do que o foi no passado. A nossa Igreja ter\u00e1 de fazer um grande investimento para evangelizar o mundo do trabalho no futuro que j\u00e1 come\u00e7ou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ocorreu por estes dias o centen\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o da Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica (JOC). Ao nosso pa\u00eds, esse movimento chegou uma d\u00e9cada mais tarde, sendo assumido como um movimento especializado de Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica no mundo laboral. Foi fundador do movimento o sacerdote belga Joseph Cardijn (1882-1967) que o Papa Paulo VI distinguiu fazendo-o bispo e cardeal. Oriundo de uma fam\u00edlia pobre, foi chamado \u00e0 vida sacerdotal. Olhando a sorte dos seus antigos companheiros de inf\u00e2ncia, explorados no trabalho e agressivos contra a Igreja, teve a intui\u00e7\u00e3o de promover a ac\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica entre eles como forma de os reconduzir \u00e0 Igreja e de mostrar como a f\u00e9 religiosa era um princ\u00edpio de lucidez para transformar o mundo laboral em ebuli\u00e7\u00e3o. A sua milit\u00e2ncia em favor da dignifica\u00e7\u00e3o do povo trabalhador levou-o a uma vida atribulada, tendo passado pela pris\u00e3o em diversas ocasi\u00f5es, nos tempos dif\u00edceis da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. O seu lema: \u201cUm jovem trabalhador vale mais do que todo ouro do mundo\u201d, teve uma grande popularidade entre os jovens militantes oper\u00e1rios e muito do esp\u00edrito da sua actividade continua a fazer imenso sentido nos dias de hoje. O centen\u00e1rio da JOC coincide com a intensa discuss\u00e3o que o projecto governamental de reforma das leis laborais para o s\u00e9c. XXI est\u00e1 a desencadear no nosso pa\u00eds. Por isso, a inspira\u00e7\u00e3o do passado d\u00e1-nos o ensejo de dizer alguma coisa sobre o que parece que est\u00e1 em causa. Um ponto que parece importante \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o do trabalho associado na empresa. Os sindicatos op\u00f5em-se com raz\u00e3o a que as leis consagrem uma arbitrariedade do empregador sobre os seus trabalhadores, podendo despedir sem justa causa, ampliando os prazos dos contratos a termo e outras prerrogativas um tanto unilaterais. Do ponto de vista da \u00e9tica social crist\u00e3, podemos dizer que, em geral, a empresa tem resistido ao melhoramento das rela\u00e7\u00f5es humanas entre as pessoas que a integram. Enquanto a comunidade pol\u00edtica se democratizou, a fam\u00edlia se humanizou, as Igrejas se tornaram participativas e sinodais, observamos que a empresa de trabalho continua a ser um foco de resist\u00eancia a estes melhoramentos e permanece uma institui\u00e7\u00e3o hierarquizada \u00e0 moda do tempo antigo. Sabemos que o trabalho associado \u00e9 um mundo de conflito, mas parece justo perguntar se as leis laborais, em vez de aperfei\u00e7oarem as grilhetas de quem trabalha, fossem pensadas como melhoramento das asas das pessoas que trabalham e de as tornarem mais felizes no seu emprego? Ser\u00e1 isso t\u00e3o fora de horizonte? As leis poderiam consagrar o dever de as empresas darem aos seus trabalhadores perspectivas de progress\u00e3o, com prazos mais longos e perspectivas de sal\u00e1rio de acordo com planos individuais de cumprimento objectivos pensados em grupo, aumentando assim a produtividade da empresa e o bem-estar do trabalhador? Isso, a nosso ver, seria o trabalho do s\u00e9c. XXI, mas do que o que est\u00e1 em cima da mesa e que vai ocasionar uma greve geral. Cremos que seria poss\u00edvel pensar as leis com estes pressupostos e n\u00e3o com os antigos, com a pol\u00e9mica que se v\u00ea. O esp\u00edrito do trabalho da JOC poderia ainda levar-nos noutra direc\u00e7\u00e3o. Sabemos como a intelig\u00eancia artificial vai condicionar muito o trabalho do futuro. A chegada do robot \u00e9 uma boa not\u00edcia. Se os trabalhos da terra, da constru\u00e7\u00e3o civil e outros trabalhos duros, forem feitos pela m\u00e1quina cada vez mais inteligente, isso \u00e9 uma boa not\u00edcia para o mundo. S\u00f3 quem nunca experimentou a dureza desses trabalhos pode ter medo do futuro. Mas para que o uso da m\u00e1quina inteligente n\u00e3o seja traum\u00e1tico para a sociedade do futuro, ser\u00e1 necess\u00e1rio um grande melhoramento dos sujeitos humanos que somos. 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