{"id":32009,"date":"2026-02-12T10:46:24","date_gmt":"2026-02-12T10:46:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32009"},"modified":"2026-02-12T10:46:24","modified_gmt":"2026-02-12T10:46:24","slug":"deus-e-a-meteorologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/deus-e-a-meteorologia\/","title":{"rendered":"Deus e a meteorologia"},"content":{"rendered":"<p>Este inverno rigoroso que estamos a viver pode levar-nos a uma medita\u00e7\u00e3o desde a nossa f\u00e9. Houve tempo em que rez\u00e1vamos para pedir chuva, para aben\u00e7oar colheitas, para ser defendidos dos desastres. Essa religiosidade j\u00e1 n\u00e3o nos diz nada nos tempos que correm. Mas h\u00e1 uma pergunta que permanece: Deus j\u00e1 n\u00e3o tem nada que ver com os fen\u00f3menos c\u00f3smicos ou meteorol\u00f3gicos? A coisa tem que se lhe diga.<\/p>\n<p>Para os crentes cujo testemunho ficou escrito nos livros sagrados era evidente que Deus tinha um papel no assunto. O cosmos \u00e9 obra da ac\u00e7\u00e3o divina que assentou os fundamentos, criou os viventes animais e vegetais e, no sexto dia, criou o ser humano. H\u00e1 mesmo uma narrativa que relaciona o desarranjo das leis c\u00f3smicas, o dil\u00favio universal, com o modo de viver da humanidade que se tornou infiel ao projecto divino. Nos Evangelhos, est\u00e1 registado o poder de Jesus sobre o mar encapelado que amea\u00e7a a vida dos ap\u00f3stolos e rep\u00f5e a ordem das ondas. Ser\u00e1 que na base destes elementos, podemos tentar dizer uma palavra de orienta\u00e7\u00e3o sobre esta mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio dizer uma coisa b\u00e1sica para nos entendermos: Deus n\u00e3o cria o cosmos e as suas leis como se de um art\u00edfice se tratasse. Deus \u00e9 um agente, mas n\u00e3o \u00e9 um artes\u00e3o. S\u00e3o coisas muito diferentes. O agente \u00e9 aquele que est\u00e1 na origem das ac\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o \u00e9 necessariamente aquele que as executa. A ac\u00e7\u00e3o divina criadora \u00e9 da ordem da pr\u00e1xis e n\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o. Deus age de modo invis\u00edvel, na qualidade de causa primeira de tudo, mas n\u00e3o na qualidade do que chamamos \u201ccausa segunda\u201d. Podemos mesmo dizer que Deus apenas toca o cosmos no corpo de Jesus e em mais nenhum ponto do que chamamos o espa\u00e7o e o tempo. Por isso, toda a ac\u00e7\u00e3o divina criadora est\u00e1 relacionada com a incarna\u00e7\u00e3o do seu Filho, como afirma um texto muito elaborado que diz: \u201cNele, por Ele e para Ele, todas as coisas foram criadas\u201d (Cl 1, 16). Este \u00e9 o primeiro pressuposto para podermos falar do poder divino sobre os cosmos. Toda a ac\u00e7\u00e3o divina no cosmos \u00e9 referida a Cristo, em vista da incarna\u00e7\u00e3o, tanto antes como depois dele, cronologicamente falando.<\/p>\n<p>Por isso, o poder divino sobre o cosmos tem em vista aqueles que s\u00e3o de Cristo, quer dizer, os seres humanos e, neles, todos os outros viventes, bem como os elementos que tornam poss\u00edvel a vida. Os crentes s\u00e3o quem j\u00e1 est\u00e1 em sintonia com a ac\u00e7\u00e3o criadora divina, pois est\u00e3o em comunh\u00e3o com o Filho de Deus. A f\u00e9, com efeito, torna a vida humana como que simult\u00e2nea com a vida divina, pela media\u00e7\u00e3o do Filho. \u00c9 neste contexto que se d\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o e provid\u00eancia do cosmos e a nossa exist\u00eancia humana. Este ponto \u00e9 muito importante, pois qualquer outra forma de entender a ac\u00e7\u00e3o criadora de Deus \u00e9 afectada por elementos n\u00e3o aceit\u00e1veis pela nossa f\u00e9, como sejam o universo m\u00e1gico ou supersticioso. A f\u00e9 \u00e9 a forma de entrarmos na ac\u00e7\u00e3o criadora divina; a supersti\u00e7\u00e3o \u00e9 tenta\u00e7\u00e3o de nos iludirmos sobre ela. S\u00f3 primeira \u00e9 real e eficaz.<\/p>\n<p>Por este caminho, podemos ter alguma luz para nos situarmos na reflex\u00e3o sobre fen\u00f3menos meteorol\u00f3gicos e mesmo sobre eventuais altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Tem sentido orar no contexto de dificuldade causada pela amea\u00e7a da vida e tem sentido orar para gerir com responsabilidade aquilo que depende de n\u00f3s na manuten\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que asseguram a vida sobre a terra. Rezar por ocasi\u00e3o de perigos \u00e9 um acto de exposi\u00e7\u00e3o mais convicta \u00e0 provid\u00eancia de Deus que n\u00e3o tem outra preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja garantir a vida de todos os viventes. Se passamos por perigos, eles podem vir da imperfei\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, sobre os quais Deus n\u00e3o tem controle, pois prov\u00eam da perturba\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio Deus consente no seu seio, ao criar seres livres como s\u00e3o os seres humanos. Mas os perigos por que passamos podem tamb\u00e9m vir da nossa gest\u00e3o irrespons\u00e1vel das coisas criadas. Neste \u00faltimo caso, podem ser consideradas as altera\u00e7\u00f5es que derivam da nossa imoderada gest\u00e3o do carbono, nos \u00faltimos tr\u00eas s\u00e9culos. Neste contexto, rezar significa fazer penit\u00eancia pelo modo de vida mau que temos levado e deixar que a lucidez e a altera\u00e7\u00e3o do caminho possam redundar na correc\u00e7\u00e3o dos desvios e na inven\u00e7\u00e3o de modos de vida mais conformes com o projecto criador divino que visa garantir e aumentar a vida de todos.<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 possibilidade dada ao crente de viver a simultaneidade com a ac\u00e7\u00e3o criadora e providente de Deus. Por isso, tem sempre sentido orar bem. N\u00e3o se trata propriamente e directamente de pedir chuva ou tempo seco, mas de viver mais sensatamente o modo humano que \u00e9 o do assentimento a Deus, tal como Jesus a isso nos iniciou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este inverno rigoroso que estamos a viver pode levar-nos a uma medita\u00e7\u00e3o desde a nossa f\u00e9. Houve tempo em que rez\u00e1vamos para pedir chuva, para aben\u00e7oar colheitas, para ser defendidos dos desastres. Essa religiosidade j\u00e1 n\u00e3o nos diz nada nos tempos que correm. Mas h\u00e1 uma pergunta que permanece: Deus j\u00e1 n\u00e3o tem nada que ver com os fen\u00f3menos c\u00f3smicos ou meteorol\u00f3gicos? A coisa tem que se lhe diga. Para os crentes cujo testemunho ficou escrito nos livros sagrados era evidente que Deus tinha um papel no assunto. O cosmos \u00e9 obra da ac\u00e7\u00e3o divina que assentou os fundamentos, criou os viventes animais e vegetais e, no sexto dia, criou o ser humano. H\u00e1 mesmo uma narrativa que relaciona o desarranjo das leis c\u00f3smicas, o dil\u00favio universal, com o modo de viver da humanidade que se tornou infiel ao projecto divino. Nos Evangelhos, est\u00e1 registado o poder de Jesus sobre o mar encapelado que amea\u00e7a a vida dos ap\u00f3stolos e rep\u00f5e a ordem das ondas. Ser\u00e1 que na base destes elementos, podemos tentar dizer uma palavra de orienta\u00e7\u00e3o sobre esta mat\u00e9ria? \u00c9 necess\u00e1rio dizer uma coisa b\u00e1sica para nos entendermos: Deus n\u00e3o cria o cosmos e as suas leis como se de um art\u00edfice se tratasse. Deus \u00e9 um agente, mas n\u00e3o \u00e9 um artes\u00e3o. S\u00e3o coisas muito diferentes. O agente \u00e9 aquele que est\u00e1 na origem das ac\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o \u00e9 necessariamente aquele que as executa. A ac\u00e7\u00e3o divina criadora \u00e9 da ordem da pr\u00e1xis e n\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o. Deus age de modo invis\u00edvel, na qualidade de causa primeira de tudo, mas n\u00e3o na qualidade do que chamamos \u201ccausa segunda\u201d. Podemos mesmo dizer que Deus apenas toca o cosmos no corpo de Jesus e em mais nenhum ponto do que chamamos o espa\u00e7o e o tempo. Por isso, toda a ac\u00e7\u00e3o divina criadora est\u00e1 relacionada com a incarna\u00e7\u00e3o do seu Filho, como afirma um texto muito elaborado que diz: \u201cNele, por Ele e para Ele, todas as coisas foram criadas\u201d (Cl 1, 16). Este \u00e9 o primeiro pressuposto para podermos falar do poder divino sobre os cosmos. Toda a ac\u00e7\u00e3o divina no cosmos \u00e9 referida a Cristo, em vista da incarna\u00e7\u00e3o, tanto antes como depois dele, cronologicamente falando. Por isso, o poder divino sobre o cosmos tem em vista aqueles que s\u00e3o de Cristo, quer dizer, os seres humanos e, neles, todos os outros viventes, bem como os elementos que tornam poss\u00edvel a vida. Os crentes s\u00e3o quem j\u00e1 est\u00e1 em sintonia com a ac\u00e7\u00e3o criadora divina, pois est\u00e3o em comunh\u00e3o com o Filho de Deus. A f\u00e9, com efeito, torna a vida humana como que simult\u00e2nea com a vida divina, pela media\u00e7\u00e3o do Filho. \u00c9 neste contexto que se d\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o e provid\u00eancia do cosmos e a nossa exist\u00eancia humana. Este ponto \u00e9 muito importante, pois qualquer outra forma de entender a ac\u00e7\u00e3o criadora de Deus \u00e9 afectada por elementos n\u00e3o aceit\u00e1veis pela nossa f\u00e9, como sejam o universo m\u00e1gico ou supersticioso. A f\u00e9 \u00e9 a forma de entrarmos na ac\u00e7\u00e3o criadora divina; a supersti\u00e7\u00e3o \u00e9 tenta\u00e7\u00e3o de nos iludirmos sobre ela. S\u00f3 primeira \u00e9 real e eficaz. Por este caminho, podemos ter alguma luz para nos situarmos na reflex\u00e3o sobre fen\u00f3menos meteorol\u00f3gicos e mesmo sobre eventuais altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Tem sentido orar no contexto de dificuldade causada pela amea\u00e7a da vida e tem sentido orar para gerir com responsabilidade aquilo que depende de n\u00f3s na manuten\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que asseguram a vida sobre a terra. Rezar por ocasi\u00e3o de perigos \u00e9 um acto de exposi\u00e7\u00e3o mais convicta \u00e0 provid\u00eancia de Deus que n\u00e3o tem outra preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja garantir a vida de todos os viventes. Se passamos por perigos, eles podem vir da imperfei\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, sobre os quais Deus n\u00e3o tem controle, pois prov\u00eam da perturba\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio Deus consente no seu seio, ao criar seres livres como s\u00e3o os seres humanos. Mas os perigos por que passamos podem tamb\u00e9m vir da nossa gest\u00e3o irrespons\u00e1vel das coisas criadas. Neste \u00faltimo caso, podem ser consideradas as altera\u00e7\u00f5es que derivam da nossa imoderada gest\u00e3o do carbono, nos \u00faltimos tr\u00eas s\u00e9culos. Neste contexto, rezar significa fazer penit\u00eancia pelo modo de vida mau que temos levado e deixar que a lucidez e a altera\u00e7\u00e3o do caminho possam redundar na correc\u00e7\u00e3o dos desvios e na inven\u00e7\u00e3o de modos de vida mais conformes com o projecto criador divino que visa garantir e aumentar a vida de todos. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 possibilidade dada ao crente de viver a simultaneidade com a ac\u00e7\u00e3o criadora e providente de Deus. Por isso, tem sempre sentido orar bem. 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