{"id":32086,"date":"2026-02-26T10:38:10","date_gmt":"2026-02-26T10:38:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32086"},"modified":"2026-02-26T10:38:10","modified_gmt":"2026-02-26T10:38:10","slug":"exercicios-espirituais-da-quaresma-8a-meditacao-os-anjos-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/exercicios-espirituais-da-quaresma-8a-meditacao-os-anjos-de-deus\/","title":{"rendered":"Exerc\u00edcios Espirituais da Quaresma, 8\u00aa medita\u00e7\u00e3o: os anjos de Deus"},"content":{"rendered":"<p>Durante os quarenta dias em que Cristo permaneceu no deserto, Satan\u00e1s aproximou-se dele e citou-lhe o Salmo 90, em particular dois vers\u00edculos sobre os anjos. \u201cO diabo \u2014 lemos em S\u00e3o Mateus \u2014 levou Jesus \u00e0 Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo\u201d e o desafiou a provar que era o Filho de Deus, lan\u00e7ando-se para baixo, \u201cPorque est\u00e1 escrito:&#8217;Deus dar\u00e1 ordens aos seus anjos a teu respeito,e eles te levar\u00e3o nas m\u00e3os, para que n\u00e3o tropeces em alguma pedra&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>Somente Deus pode nos convidar a saltar de um pin\u00e1culo. Sua chamada, por\u00e9m, ser\u00e1: \u201cSalta para os meus bra\u00e7os\u201d, e n\u00e3o: \u201cLan\u00e7a-te para baixo\u201d.<\/p>\n<p>As interven\u00e7\u00f5es ang\u00e9licas nem sempre s\u00e3o tranquilizadoras. Os anjos n\u00e3o est\u00e3o ali para satisfazer nossos caprichos. Numa ora\u00e7\u00e3o popular atribu\u00edda a Reginaldo de Canterbury, contempor\u00e2neo de Bernardo, pedimos ao nosso anjo da guarda que nos \u201crege, nos guarde, nos governe e nos ilumine\u201d. S\u00e3o verbos fortes: um anjo \u00e9 antes de tudo um guardi\u00e3o da santidade.<\/p>\n<p>A vida mon\u00e1stica foi logo compreendida e apresentada como ang\u00e9lica por sua finalidade de louvor, mas tamb\u00e9m porque o monge \u00e9 chamado a ser inflamado pelo amor de Deus e a tornar-se seu emiss\u00e1rio para os outros.<\/p>\n<p>O \u00fanico \u201ccanto de louvor\u201d de Cristo, de que fala a\u00a0<i>Sacrosanctum Concilium<\/i>\u00a0em uma bel\u00edssima passagem, ressoa das extremidades da terra at\u00e9 os cumes do c\u00e9u por meio de uma cadeia pulsante de media\u00e7\u00e3o. Os anjos s\u00e3o parte essencial dessa cadeia, como afirmamos em cada Pref\u00e1cio dentro do c\u00e2non da Missa.<\/p>\n<p>Nos serm\u00f5es sobre o\u00a0<i>Qui habitat<\/i>, Bernardo sublinha o papel dos anjos como mediadores da provid\u00eancia de Deus. A media\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 necess\u00e1ria: Deus pode tocar-nos sem mediadores. Contudo, ele se compraz em deixar que suas criaturas sejam canais de gra\u00e7a umas para as outras.<\/p>\n<p>Bernardo nos exorta a olhar o que faz um anjo e a fazer o mesmo: \u201cDesce e mostra miseric\u00f3rdia ao teu pr\u00f3ximo; e de novo, elevando com o mesmo anjo os teus desejos, esfor\u00e7a-te por subir com toda a\u00a0<i>cupiditas<\/i>\u00a0da tua alma \u00e0 suma e eterna verdade\u201d. Raramente, hoje em dia, se faz refer\u00eancia a Cupido no mesmo contexto da \u201csuma e eterna verdade\u201d. A escolha lexical de Bernardo \u00e9 provocadora: ela nos diz que todos os desejos humanos naturais, inclusive os carnais, s\u00e3o atra\u00eddos para seu cumprimento em Deus e, portanto, devem ser orientados para Ele.<\/p>\n<p>O \u00faltimo e mais decisivo ato de caridade dos anjos acontecer\u00e1 na hora da nossa morte, quando nos conduzir\u00e3o atrav\u00e9s do v\u00e9u deste mundo para a eternidade. Ent\u00e3o manifestar\u00e3o suas caracter\u00edsticas: \u201cN\u00e3o podem ser vencidos nem seduzidos, e muito menos podem nos seduzir\u201d. Toda fic\u00e7\u00e3o cair\u00e1 nessa hora: a ret\u00f3rica desaparecer\u00e1, apenas a verdade permanecer\u00e1, em plena conson\u00e2ncia com a miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Bernardo pregou com precis\u00e3o sobre esses temas em 1139. Setecentos e vinte e seis anos depois, um homem de temperamento diverso, mas de intelig\u00eancia semelhante, tornaria expl\u00edcitas suas intui\u00e7\u00f5es numa poesia primorosa sobre a morte.<\/p>\n<p>John Henry Newman refletia muito sobre os anjos. Concebia o minist\u00e9rio sacerdotal como ang\u00e9lico. O sacerdote est\u00e1 em casa neste mundo, n\u00e3o tem medo de entrar nos bosques escuros \u00e0 procura dos perdidos. Ao mesmo tempo, mant\u00e9m os olhos da mente erguidos para o rosto do Pai, deixando que seu esplendor ilumine toda a realidade presente. A ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre dupla: intelectual e essencial, sacramental e pedag\u00f3gica.<\/p>\n<p>Newman, hoje Doutor da Igreja, tamb\u00e9m nos pede que redescubramos o professor como iluminador ang\u00e9lico. \u00c9 um desafio prof\u00e9tico e belo, se pensarmos em quanto a chamada \u201cinstru\u00e7\u00e3o\u201d est\u00e1 hoje confiada aos meios digitais, inclusive artificiais, enquanto jovens adultos, adolescentes e crian\u00e7as desejam encontrar mestres dignos de confian\u00e7a, capazes de transmitir n\u00e3o apenas habilidades, mas sabedoria.<\/p>\n<p>Um encontro ang\u00e9lico \u00e9 pessoal. N\u00e3o pode ser substitu\u00eddo por um download ou por um chatbot.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante os quarenta dias em que Cristo permaneceu no deserto, Satan\u00e1s aproximou-se dele e citou-lhe o Salmo 90, em particular dois vers\u00edculos sobre os anjos. \u201cO diabo \u2014 lemos em S\u00e3o Mateus \u2014 levou Jesus \u00e0 Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo\u201d e o desafiou a provar que era o Filho de Deus, lan\u00e7ando-se para baixo, \u201cPorque est\u00e1 escrito:&#8217;Deus dar\u00e1 ordens aos seus anjos a teu respeito,e eles te levar\u00e3o nas m\u00e3os, para que n\u00e3o tropeces em alguma pedra&#8217;\u201d. Somente Deus pode nos convidar a saltar de um pin\u00e1culo. Sua chamada, por\u00e9m, ser\u00e1: \u201cSalta para os meus bra\u00e7os\u201d, e n\u00e3o: \u201cLan\u00e7a-te para baixo\u201d. As interven\u00e7\u00f5es ang\u00e9licas nem sempre s\u00e3o tranquilizadoras. Os anjos n\u00e3o est\u00e3o ali para satisfazer nossos caprichos. Numa ora\u00e7\u00e3o popular atribu\u00edda a Reginaldo de Canterbury, contempor\u00e2neo de Bernardo, pedimos ao nosso anjo da guarda que nos \u201crege, nos guarde, nos governe e nos ilumine\u201d. S\u00e3o verbos fortes: um anjo \u00e9 antes de tudo um guardi\u00e3o da santidade. A vida mon\u00e1stica foi logo compreendida e apresentada como ang\u00e9lica por sua finalidade de louvor, mas tamb\u00e9m porque o monge \u00e9 chamado a ser inflamado pelo amor de Deus e a tornar-se seu emiss\u00e1rio para os outros. O \u00fanico \u201ccanto de louvor\u201d de Cristo, de que fala a\u00a0Sacrosanctum Concilium\u00a0em uma bel\u00edssima passagem, ressoa das extremidades da terra at\u00e9 os cumes do c\u00e9u por meio de uma cadeia pulsante de media\u00e7\u00e3o. Os anjos s\u00e3o parte essencial dessa cadeia, como afirmamos em cada Pref\u00e1cio dentro do c\u00e2non da Missa. Nos serm\u00f5es sobre o\u00a0Qui habitat, Bernardo sublinha o papel dos anjos como mediadores da provid\u00eancia de Deus. A media\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 necess\u00e1ria: Deus pode tocar-nos sem mediadores. Contudo, ele se compraz em deixar que suas criaturas sejam canais de gra\u00e7a umas para as outras. Bernardo nos exorta a olhar o que faz um anjo e a fazer o mesmo: \u201cDesce e mostra miseric\u00f3rdia ao teu pr\u00f3ximo; e de novo, elevando com o mesmo anjo os teus desejos, esfor\u00e7a-te por subir com toda a\u00a0cupiditas\u00a0da tua alma \u00e0 suma e eterna verdade\u201d. Raramente, hoje em dia, se faz refer\u00eancia a Cupido no mesmo contexto da \u201csuma e eterna verdade\u201d. A escolha lexical de Bernardo \u00e9 provocadora: ela nos diz que todos os desejos humanos naturais, inclusive os carnais, s\u00e3o atra\u00eddos para seu cumprimento em Deus e, portanto, devem ser orientados para Ele. O \u00faltimo e mais decisivo ato de caridade dos anjos acontecer\u00e1 na hora da nossa morte, quando nos conduzir\u00e3o atrav\u00e9s do v\u00e9u deste mundo para a eternidade. Ent\u00e3o manifestar\u00e3o suas caracter\u00edsticas: \u201cN\u00e3o podem ser vencidos nem seduzidos, e muito menos podem nos seduzir\u201d. Toda fic\u00e7\u00e3o cair\u00e1 nessa hora: a ret\u00f3rica desaparecer\u00e1, apenas a verdade permanecer\u00e1, em plena conson\u00e2ncia com a miseric\u00f3rdia. Bernardo pregou com precis\u00e3o sobre esses temas em 1139. Setecentos e vinte e seis anos depois, um homem de temperamento diverso, mas de intelig\u00eancia semelhante, tornaria expl\u00edcitas suas intui\u00e7\u00f5es numa poesia primorosa sobre a morte. John Henry Newman refletia muito sobre os anjos. Concebia o minist\u00e9rio sacerdotal como ang\u00e9lico. O sacerdote est\u00e1 em casa neste mundo, n\u00e3o tem medo de entrar nos bosques escuros \u00e0 procura dos perdidos. Ao mesmo tempo, mant\u00e9m os olhos da mente erguidos para o rosto do Pai, deixando que seu esplendor ilumine toda a realidade presente. A ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre dupla: intelectual e essencial, sacramental e pedag\u00f3gica. Newman, hoje Doutor da Igreja, tamb\u00e9m nos pede que redescubramos o professor como iluminador ang\u00e9lico. \u00c9 um desafio prof\u00e9tico e belo, se pensarmos em quanto a chamada \u201cinstru\u00e7\u00e3o\u201d est\u00e1 hoje confiada aos meios digitais, inclusive artificiais, enquanto jovens adultos, adolescentes e crian\u00e7as desejam encontrar mestres dignos de confian\u00e7a, capazes de transmitir n\u00e3o apenas habilidades, mas sabedoria. Um encontro ang\u00e9lico \u00e9 pessoal. 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