{"id":32089,"date":"2026-02-27T11:07:00","date_gmt":"2026-02-27T11:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32089"},"modified":"2026-02-27T11:07:00","modified_gmt":"2026-02-27T11:07:00","slug":"exercicios-espirituais-a-realidade-e-um-grito-que-implora-a-misericordia-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/exercicios-espirituais-a-realidade-e-um-grito-que-implora-a-misericordia-de-deus\/","title":{"rendered":"Exerc\u00edcios espirituais, a realidade \u00e9 um grito que implora a miseric\u00f3rdia de Deus"},"content":{"rendered":"<p>A identidade do movimento cisterciense \u00e9 forjada na interface entre o ideal e o concreto, o po\u00e9tico e o pragm\u00e1tico. Seus protagonistas s\u00e3o postos \u00e0 prova e purificados pelas tens\u00f5es que da\u00ed decorrem.<\/p>\n<p>Falei dos elevados ideais de Bernardo, da sua inclina\u00e7\u00e3o para elaborar mentalmente uma linha de conduta, seguida depois de forma um pouco dr\u00e1stica. Era natural para ele mirar alto. Uma caracter\u00edstica intransigente nunca o abandonou, mas suavizou-se com o tempo. \u00c9 deste processo que devemos agora falar: transformou o idealista num realista.<\/p>\n<p>O psicanalista Jacques Lacan disse que &#8220;o real&#8221; \u00e9 aquilo com que nos colidimos. A amplitude dos esfor\u00e7os de Bernardo na Realpolitik fez com que ele se colidisse com frequ\u00eancia. Mas ele se tornou um realista, n\u00e3o apenas no sentido de aceitar as coisas como s\u00e3o, mas tamb\u00e9m porque aprendeu que a realidade mais profunda de todas as vicissitudes humanas \u00e9 um grito que implora miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Quanto mais aprendia a reconhecer esse grito nos cora\u00e7\u00f5es humanos angustiados, nas l\u00e1grimas amargas, nos conflitos mundanos, nas campanhas insanas contra a dec\u00eancia e a verdade \u2014 e at\u00e9 mesmo no sussurro das \u00e1rvores da floresta \u2014 mais Bernardo se tornava consciente da resposta gloriosa e misericordiosa de Deus. Ele a ouvia no santo nome de Jesus, que se tornou indizivelmente querido a ele. Em Jesus, Deus revela seu plano de salva\u00e7\u00e3o, derramando-o sobre a humanidade como um \u00f3leo perfumado, curativo e purificador.<\/p>\n<p>\u201cTodo alimento para a alma\u201d, disse Bernardo aos seus monges, \u201c\u00e9 \u00e1rido, se n\u00e3o estiver impregnado deste \u00f3leo; \u00e9 ins\u00edpido, se n\u00e3o for temperado com este sal. Se voc\u00ea escreve, para mim n\u00e3o tem sabor, se eu n\u00e3o ler Jesus. Se voc\u00ea discute ou discursa, para mim n\u00e3o tem sabor, se n\u00e3o ressoar Jesus. Jesus, mel na boca, melodia no ouvido, j\u00fabilo no cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Bernardo aprendeu as maravilhas que a miseric\u00f3rdia de Deus pode realizar em Jesus. Isso deu \u00e0 sua devo\u00e7\u00e3o uma profundidade afetiva. O termo affectus \u00e9 fundamental para ele. Tem um amplo espectro de significados, mostrando que a gra\u00e7a nos move como seres encarnados, permitindo que nossos sentidos percebam Deus. Mas Bernardo considerava Jesus, a encarna\u00e7\u00e3o da verdade, nada menos que um princ\u00edpio hermen\u00eautico. Ele interpretava situa\u00e7\u00f5es, pessoas e rela\u00e7\u00f5es rigorosamente \u00e0 luz de Jesus. Essa perspectiva lhe render\u00e1 admiradores convictos muito al\u00e9m do rebanho cat\u00f3lico, de Martinho Lutero ao fundador do movimento metodista, John Wesley.<\/p>\n<p>Somente quando iluminada de forma sobrenatural, nossa natureza revelar\u00e1 sua forma perfeita, sua forma bem torneada; somente ent\u00e3o ficar\u00e1 evidente o deleite de que a vida terrena \u00e9 capaz; somente ent\u00e3o a gl\u00f3ria escondida dentro de n\u00f3s e ao nosso redor brilhar\u00e1 com intensos lampejos, ensinando-nos o que n\u00f3s, e os outros, podemos nos tornar, fornecendo um paradigma para um mundo renovado.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o realismo ao qual Bernardo chegou em sua maturidade! Isso lhe permitiu tornar-se n\u00e3o apenas um grande reformador, um orador sem igual e um l\u00edder da Igreja: o conhecimento da realidade absoluta do amor de Cristo e de seu poder de transformar tudo fez de Bernardo um doutor e um santo. \u00c9 por isso que o amamos e o honramos.<\/p>\n<p>&#8220;Ele era&#8221;, nos diz a Primeira Vida, &#8220;livre em si mesmo&#8221;. Isso \u00e9 o que a vida lhe ensinou. Um homem ou uma mulher verdadeiramente livre \u00e9 uma realidade verdadeiramente gloriosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A identidade do movimento cisterciense \u00e9 forjada na interface entre o ideal e o concreto, o po\u00e9tico e o pragm\u00e1tico. Seus protagonistas s\u00e3o postos \u00e0 prova e purificados pelas tens\u00f5es que da\u00ed decorrem. Falei dos elevados ideais de Bernardo, da sua inclina\u00e7\u00e3o para elaborar mentalmente uma linha de conduta, seguida depois de forma um pouco dr\u00e1stica. Era natural para ele mirar alto. Uma caracter\u00edstica intransigente nunca o abandonou, mas suavizou-se com o tempo. \u00c9 deste processo que devemos agora falar: transformou o idealista num realista. O psicanalista Jacques Lacan disse que &#8220;o real&#8221; \u00e9 aquilo com que nos colidimos. A amplitude dos esfor\u00e7os de Bernardo na Realpolitik fez com que ele se colidisse com frequ\u00eancia. Mas ele se tornou um realista, n\u00e3o apenas no sentido de aceitar as coisas como s\u00e3o, mas tamb\u00e9m porque aprendeu que a realidade mais profunda de todas as vicissitudes humanas \u00e9 um grito que implora miseric\u00f3rdia. Quanto mais aprendia a reconhecer esse grito nos cora\u00e7\u00f5es humanos angustiados, nas l\u00e1grimas amargas, nos conflitos mundanos, nas campanhas insanas contra a dec\u00eancia e a verdade \u2014 e at\u00e9 mesmo no sussurro das \u00e1rvores da floresta \u2014 mais Bernardo se tornava consciente da resposta gloriosa e misericordiosa de Deus. Ele a ouvia no santo nome de Jesus, que se tornou indizivelmente querido a ele. Em Jesus, Deus revela seu plano de salva\u00e7\u00e3o, derramando-o sobre a humanidade como um \u00f3leo perfumado, curativo e purificador. \u201cTodo alimento para a alma\u201d, disse Bernardo aos seus monges, \u201c\u00e9 \u00e1rido, se n\u00e3o estiver impregnado deste \u00f3leo; \u00e9 ins\u00edpido, se n\u00e3o for temperado com este sal. Se voc\u00ea escreve, para mim n\u00e3o tem sabor, se eu n\u00e3o ler Jesus. Se voc\u00ea discute ou discursa, para mim n\u00e3o tem sabor, se n\u00e3o ressoar Jesus. Jesus, mel na boca, melodia no ouvido, j\u00fabilo no cora\u00e7\u00e3o.\u201d Bernardo aprendeu as maravilhas que a miseric\u00f3rdia de Deus pode realizar em Jesus. Isso deu \u00e0 sua devo\u00e7\u00e3o uma profundidade afetiva. O termo affectus \u00e9 fundamental para ele. Tem um amplo espectro de significados, mostrando que a gra\u00e7a nos move como seres encarnados, permitindo que nossos sentidos percebam Deus. Mas Bernardo considerava Jesus, a encarna\u00e7\u00e3o da verdade, nada menos que um princ\u00edpio hermen\u00eautico. Ele interpretava situa\u00e7\u00f5es, pessoas e rela\u00e7\u00f5es rigorosamente \u00e0 luz de Jesus. Essa perspectiva lhe render\u00e1 admiradores convictos muito al\u00e9m do rebanho cat\u00f3lico, de Martinho Lutero ao fundador do movimento metodista, John Wesley. Somente quando iluminada de forma sobrenatural, nossa natureza revelar\u00e1 sua forma perfeita, sua forma bem torneada; somente ent\u00e3o ficar\u00e1 evidente o deleite de que a vida terrena \u00e9 capaz; somente ent\u00e3o a gl\u00f3ria escondida dentro de n\u00f3s e ao nosso redor brilhar\u00e1 com intensos lampejos, ensinando-nos o que n\u00f3s, e os outros, podemos nos tornar, fornecendo um paradigma para um mundo renovado. 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