{"id":32183,"date":"2026-03-20T10:36:28","date_gmt":"2026-03-20T10:36:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32183"},"modified":"2026-03-20T10:36:28","modified_gmt":"2026-03-20T10:36:28","slug":"quo-vadis-humanitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/quo-vadis-humanitas\/","title":{"rendered":"Quo Vadis, Humanitas?"},"content":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional (CPI) tornou p\u00fablico, no in\u00edcio deste m\u00eas, o documento \u201cQuo vadis, humanitas?\u201d, onde reflete sobre o futuro do ser humano \u00e0 luz dos singulares avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que vamos testemunhando. Sem deixar de enaltecer o bem que dessas conquistas nos chega, o texto alerta para a \u201cilus\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d, mais concretamente para a tenta\u00e7\u00e3o do \u201csuper-homem\u201d tecnol\u00f3gico, denunciando a pretens\u00e3o de quem olha para a tecnologia como algo que, por si s\u00f3, pode resolver a condi\u00e7\u00e3o humana ou assegurar a salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Num contexto de mudan\u00e7as que podem levar a uma perda de refer\u00eancias, defendendo uma antropologia crist\u00e3, cujos fundamentos teol\u00f3gicos apresenta, o documento aponta o dedo a alguns perigos, como o controlo social, a manipula\u00e7\u00e3o ou a redefini\u00e7\u00e3o do que significa ser humano. Examina os riscos do transumanismo que procura ultrapassar os limites biol\u00f3gicos do homem, ao mesmo tempo que sublinha a import\u00e2ncia da corporeidade, da consci\u00eancia e da rela\u00e7\u00e3o com Deus, amea\u00e7adas por uma vis\u00e3o puramente materialista ou digital. E apela a uma reflex\u00e3o \u00e9tica sobre o progresso t\u00e9cnico, reafirmando o valor \u00fanico da pessoa humana e insistindo para que a tecnologia continue ao servi\u00e7o do homem e n\u00e3o o inverso.<\/p>\n<p><strong>Duas ideologias na mira<\/strong><\/p>\n<p>Resultado de um trabalho iniciado em 2022, o documento assinala os sessenta anos da constitui\u00e7\u00e3o conciliar\u00a0<em>Gaudium et Spes<\/em>, onde se trata das rela\u00e7\u00f5es da Igreja com o mundo contempor\u00e2neo, e prop\u00f5e uma reflex\u00e3o de \u201cantropologia crist\u00e3\u201d para responder \u00e0 crise de identidade do homem, fragilizado pela vaga tecnol\u00f3gica. Concretamente, o texto visa duas ideologias: o transumanismo e o p\u00f3s-humanismo.<\/p>\n<p>No primeiro, a Igreja v\u00ea \u201cum movimento filos\u00f3fico que opera com a convic\u00e7\u00e3o de que o ser humano pode e deve empregar os recursos da ci\u00eancia e da tecnologia para superar os limites f\u00edsicos e biol\u00f3gicos da condi\u00e7\u00e3o humana\u201d. No segundo caso, os te\u00f3logos alertam para um projeto que assenta em vis\u00f5es pessimistas, prometendo \u201co hibrido\u201d (cyborg), \u201ca ponto de desconstruir o sujeito humano, tornando totalmente fluida a fronteira entre o humano e a m\u00e1quina\u201d. Diante disto, respetivamente, o documento critica a vis\u00e3o ideol\u00f3gica e \u201cingenuamente acr\u00edtica do progresso cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico\u201d, bem como a \u201cexpress\u00e3o existencial de fuga da realidade, que parte de uma desvaloriza\u00e7\u00e3o radical do humano\u201d.<\/p>\n<p>O que deveria ser uma \u201ctens\u00e3o para o ultrapassar de condi\u00e7\u00f5es de vida desfavor\u00e1veis\u201d sofre um desvio para a procura de um \u201csuper-homem\u201d, alertam estes te\u00f3logos, para quem o sonho de uma passagem para l\u00e1 do humano poder\u00e1 levar a uma condi\u00e7\u00e3o \u201cdesumana\u201d. Diante da rejei\u00e7\u00e3o do envelhecimento e da degrada\u00e7\u00e3o f\u00edsica, sugere-se uma reflex\u00e3o sobre a fragilidade para \u201crecordar o sentido decisivo da depend\u00eancia e a vulnerabilidade como elementos constitutivos de toda a experi\u00eancia humana\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPara onde vamos enquanto humanidade?\u201d Urge verificar a dire\u00e7\u00e3o deste impar\u00e1vel desenvolvimento, porque a \u201cverdadeira humaniza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma via contr\u00e1ria a esta \u201cauto-diviniza\u00e7\u00e3o de tipo trans-humanista\u201d.<\/p>\n<p><strong>Intelig\u00eancia artificial<\/strong><\/p>\n<p>O documento demora-se sobre o fen\u00f3meno da IA, \u201ccapaz de substituir todos os aspetos computacionais e operacionais da intelig\u00eancia humana gra\u00e7as a uma velocidade de c\u00e1lculo extremamente elevada\u201d (38). E se tal presen\u00e7a contribuir para enfraquecer ou abandonar certos aspetos espec\u00edficos da intelig\u00eancia humana, tal dispensa pode ser sin\u00f3nimo de um conhecimento \u201csem corpo, sem limites, sem la\u00e7os e sem sentido moral\u201d. Limitar o conhecimento humano a formas de saber que a IA pode tratar faz aumentar o receio de \u201cfortes repercuss\u00f5es no meio educativo\u201d, com o afastamento das quest\u00f5es \u00e9ticas, filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas, que poder\u00e3o ser relegadas \u201cpara o dom\u00ednio subjetivo ou a quest\u00f5es de gosto\u201d.<\/p>\n<p>Apontando o dedo \u00e0 \u201cincerteza de identidade\u201d, que conduz a \u201cconflitos identit\u00e1rios\u201d, a CTI encontra a\u00ed uma das causas da \u201ccrise atual das democracias ocidentais\u201d, ao mesmo tempo que fala de uma \u201ctribaliza\u00e7\u00e3o\u201d das redes sociais \u201cque fragmenta a sociedade em grupos de opini\u00e3o homologados pelos likes\u201d. E neste campo das redes sociais, nomeadamente no que concerne a um \u201cgigantesco mercado religioso\u201d adaptado ao gosto de cada um, o texto faz eco da inquieta\u00e7\u00e3o provocada por novas pr\u00e1ticas espirituais online. \u201cOs casos extremos chegam a pedidos de b\u00ean\u00e7\u00e3os e exorcismos virtuais, espiritismo digital e \u201cpseudo religi\u00f5es\u201d tridimensionais\u201d, sem \u201cliga\u00e7\u00f5es reais nem perten\u00e7a comunit\u00e1ria\u201d. Esta religi\u00e3o digital \u201capresenta-se como se tivesse mesmo o poder de criar um \u2018Deus \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a\u2019 para propor a uma humanidade que deposita total confian\u00e7a na tecnologia\u201d.<\/p>\n<p><strong>Amn\u00e9sia cultural<\/strong><\/p>\n<p>O texto insiste na dimens\u00e3o hist\u00f3rica da experi\u00eancia humana, sublinhando a atual \u201cperda do sentido da hist\u00f3ria\u201d, reduzida ao \u201cmomento fugaz\u201d. Esta amn\u00e9sia cultural conduz ao revisionismo ou ao negacionismo. Ao mesmo tempo, destacam o desaparecimento da \u201cfigura do peregrino\u201d, aquele que parte em busca da sua \u201cverdadeira p\u00e1tria\u201d, em benef\u00edcio da imagem do \u201cn\u00f3mada\u201d, o errante \u00e0 procura de novas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>A humanidade n\u00e3o precisa de um \u201csalto evolutivo que ultrapassaria a condi\u00e7\u00e3o atual\u201d, mas de uma \u201crela\u00e7\u00e3o salv\u00edfica, que torne sensata e bela a aventura de realizar-se plenamente\u201d. A f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo oferece \u201cum fim e um sentido que permitem a todos e a cada um realizar a sua voca\u00e7\u00e3o\u201d. Isto \u00e9 importante numa sociedade como a nossa, onde frequentemente se reduz a educa\u00e7\u00e3o a um \u201cprojeto de vida ef\u00e9mera, absolutamente autofundada\u201d.<\/p>\n<p>Aqui fica esta breve apresenta\u00e7\u00e3o, cujo objetivo era convidar \u00e0 leitura atenta do texto e deixar a sugest\u00e3o da uma proveitosa utiliza\u00e7\u00e3o em encontros de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>(D. Joaquim Dion\u00edsio, bispo auxiliar do Porto)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional (CPI) tornou p\u00fablico, no in\u00edcio deste m\u00eas, o documento \u201cQuo vadis, humanitas?\u201d, onde reflete sobre o futuro do ser humano \u00e0 luz dos singulares avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que vamos testemunhando. Sem deixar de enaltecer o bem que dessas conquistas nos chega, o texto alerta para a \u201cilus\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d, mais concretamente para a tenta\u00e7\u00e3o do \u201csuper-homem\u201d tecnol\u00f3gico, denunciando a pretens\u00e3o de quem olha para a tecnologia como algo que, por si s\u00f3, pode resolver a condi\u00e7\u00e3o humana ou assegurar a salva\u00e7\u00e3o. Num contexto de mudan\u00e7as que podem levar a uma perda de refer\u00eancias, defendendo uma antropologia crist\u00e3, cujos fundamentos teol\u00f3gicos apresenta, o documento aponta o dedo a alguns perigos, como o controlo social, a manipula\u00e7\u00e3o ou a redefini\u00e7\u00e3o do que significa ser humano. Examina os riscos do transumanismo que procura ultrapassar os limites biol\u00f3gicos do homem, ao mesmo tempo que sublinha a import\u00e2ncia da corporeidade, da consci\u00eancia e da rela\u00e7\u00e3o com Deus, amea\u00e7adas por uma vis\u00e3o puramente materialista ou digital. E apela a uma reflex\u00e3o \u00e9tica sobre o progresso t\u00e9cnico, reafirmando o valor \u00fanico da pessoa humana e insistindo para que a tecnologia continue ao servi\u00e7o do homem e n\u00e3o o inverso. Duas ideologias na mira Resultado de um trabalho iniciado em 2022, o documento assinala os sessenta anos da constitui\u00e7\u00e3o conciliar\u00a0Gaudium et Spes, onde se trata das rela\u00e7\u00f5es da Igreja com o mundo contempor\u00e2neo, e prop\u00f5e uma reflex\u00e3o de \u201cantropologia crist\u00e3\u201d para responder \u00e0 crise de identidade do homem, fragilizado pela vaga tecnol\u00f3gica. Concretamente, o texto visa duas ideologias: o transumanismo e o p\u00f3s-humanismo. No primeiro, a Igreja v\u00ea \u201cum movimento filos\u00f3fico que opera com a convic\u00e7\u00e3o de que o ser humano pode e deve empregar os recursos da ci\u00eancia e da tecnologia para superar os limites f\u00edsicos e biol\u00f3gicos da condi\u00e7\u00e3o humana\u201d. No segundo caso, os te\u00f3logos alertam para um projeto que assenta em vis\u00f5es pessimistas, prometendo \u201co hibrido\u201d (cyborg), \u201ca ponto de desconstruir o sujeito humano, tornando totalmente fluida a fronteira entre o humano e a m\u00e1quina\u201d. Diante disto, respetivamente, o documento critica a vis\u00e3o ideol\u00f3gica e \u201cingenuamente acr\u00edtica do progresso cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico\u201d, bem como a \u201cexpress\u00e3o existencial de fuga da realidade, que parte de uma desvaloriza\u00e7\u00e3o radical do humano\u201d. O que deveria ser uma \u201ctens\u00e3o para o ultrapassar de condi\u00e7\u00f5es de vida desfavor\u00e1veis\u201d sofre um desvio para a procura de um \u201csuper-homem\u201d, alertam estes te\u00f3logos, para quem o sonho de uma passagem para l\u00e1 do humano poder\u00e1 levar a uma condi\u00e7\u00e3o \u201cdesumana\u201d. 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E se tal presen\u00e7a contribuir para enfraquecer ou abandonar certos aspetos espec\u00edficos da intelig\u00eancia humana, tal dispensa pode ser sin\u00f3nimo de um conhecimento \u201csem corpo, sem limites, sem la\u00e7os e sem sentido moral\u201d. Limitar o conhecimento humano a formas de saber que a IA pode tratar faz aumentar o receio de \u201cfortes repercuss\u00f5es no meio educativo\u201d, com o afastamento das quest\u00f5es \u00e9ticas, filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas, que poder\u00e3o ser relegadas \u201cpara o dom\u00ednio subjetivo ou a quest\u00f5es de gosto\u201d. Apontando o dedo \u00e0 \u201cincerteza de identidade\u201d, que conduz a \u201cconflitos identit\u00e1rios\u201d, a CTI encontra a\u00ed uma das causas da \u201ccrise atual das democracias ocidentais\u201d, ao mesmo tempo que fala de uma \u201ctribaliza\u00e7\u00e3o\u201d das redes sociais \u201cque fragmenta a sociedade em grupos de opini\u00e3o homologados pelos likes\u201d. E neste campo das redes sociais, nomeadamente no que concerne a um \u201cgigantesco mercado religioso\u201d adaptado ao gosto de cada um, o texto faz eco da inquieta\u00e7\u00e3o provocada por novas pr\u00e1ticas espirituais online. \u201cOs casos extremos chegam a pedidos de b\u00ean\u00e7\u00e3os e exorcismos virtuais, espiritismo digital e \u201cpseudo religi\u00f5es\u201d tridimensionais\u201d, sem \u201cliga\u00e7\u00f5es reais nem perten\u00e7a comunit\u00e1ria\u201d. Esta religi\u00e3o digital \u201capresenta-se como se tivesse mesmo o poder de criar um \u2018Deus \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a\u2019 para propor a uma humanidade que deposita total confian\u00e7a na tecnologia\u201d. Amn\u00e9sia cultural O texto insiste na dimens\u00e3o hist\u00f3rica da experi\u00eancia humana, sublinhando a atual \u201cperda do sentido da hist\u00f3ria\u201d, reduzida ao \u201cmomento fugaz\u201d. Esta amn\u00e9sia cultural conduz ao revisionismo ou ao negacionismo. Ao mesmo tempo, destacam o desaparecimento da \u201cfigura do peregrino\u201d, aquele que parte em busca da sua \u201cverdadeira p\u00e1tria\u201d, em benef\u00edcio da imagem do \u201cn\u00f3mada\u201d, o errante \u00e0 procura de novas experi\u00eancias. A humanidade n\u00e3o precisa de um \u201csalto evolutivo que ultrapassaria a condi\u00e7\u00e3o atual\u201d, mas de uma \u201crela\u00e7\u00e3o salv\u00edfica, que torne sensata e bela a aventura de realizar-se plenamente\u201d. A f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo oferece \u201cum fim e um sentido que permitem a todos e a cada um realizar a sua voca\u00e7\u00e3o\u201d. Isto \u00e9 importante numa sociedade como a nossa, onde frequentemente se reduz a educa\u00e7\u00e3o a um \u201cprojeto de vida ef\u00e9mera, absolutamente autofundada\u201d. 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