{"id":32347,"date":"2026-04-29T10:17:37","date_gmt":"2026-04-29T10:17:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32347"},"modified":"2026-04-29T10:17:37","modified_gmt":"2026-04-29T10:17:37","slug":"o-legado-do-papa-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/o-legado-do-papa-francisco\/","title":{"rendered":"O legado do Papa Francisco"},"content":{"rendered":"<p>Passou um ano da morte do Papa Francisco. A esta dist\u00e2ncia, podemos olhar a sua figura e o seu legado com mais serenidade e fazer um balan\u00e7o, sem as paix\u00f5es com que a sua mem\u00f3ria continua a ser olhada. Qualquer que seja a opini\u00e3o sobre o seu legado, a multid\u00e3o n\u00e3o o esqueceu, nem dentro nem fora da Igreja. Mesmo que n\u00e3o tenha mudado nada de fundamental na institui\u00e7\u00e3o e nas normas gerais, h\u00e1 algo mais fundo que permanece vivo. e isso \u00e9 fundamental. Vamos ent\u00e3o falar disso que permanece e para que o seu estilo de governo chamou a nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira dessas dimens\u00f5es \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o da fronteira da ac\u00e7\u00e3o da Igreja. Podemos dizer que viveu o seu servi\u00e7o do primado de Pedro, nas fronteiras da pr\u00f3pria vida e n\u00e3o apenas da institui\u00e7\u00e3o. Ele pensou a miss\u00e3o da Igreja como servi\u00e7o do ser humano enquanto vivente, antes de todas as outras qualidades. Todos nos lembramos da sua imagem solit\u00e1ria a subir a Pra\u00e7a de S. Pedro, nos dias sombrios do recolhimento obrigat\u00f3rio pelo terror dos primeiros tempos da pandemia que atingiu o mundo a partir de 2020. Essa imagem \u00e9 simb\u00f3lica. Ele se mostra como o defensor da vida e n\u00e3o como defensor da Igreja e nisso \u00e9 um exemplo para pol\u00edticos e para todos os que servem as na\u00e7\u00f5es, dedicados ao saber ou ao servi\u00e7o da sa\u00fade. O seu foco foi o ser humano na sua indig\u00eancia, na sua pobreza, na sua ang\u00fastia existencial. A fronteira do servi\u00e7o da Igreja situa-se muito al\u00e9m do particularismo, da fronteira pol\u00edtica, para ordenar um mundo em que caibam todos, ordenadamente, sejam nacionais ou sejam migrantes. A sua vida de servi\u00e7o foi marcante neste aspecto e, por isso, a sua mem\u00f3ria n\u00e3o se apaga.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, ele viveu o minist\u00e9rio de Pedro como um carisma e n\u00e3o apenas como uma forma de institucionaliza\u00e7\u00e3o do poder na Igreja. Levou essa insist\u00eancia muito longe, sempre se mostrando surpreendido pela sua elei\u00e7\u00e3o como servidor da f\u00e9, mais do que como cl\u00e9rigo, no sentido t\u00e9cnico do termo. As suas cr\u00edticas insistentes e reiteradas ao clericalismo, \u00e0 C\u00faria Romana, s\u00e3o para entender neste contexto. Ele n\u00e3o se viu como uma figura do poder eclesi\u00e1stico, mas como um iniciador \u00e0 vida em Cristo, mesmo que isso rompa com a pastoral da administra\u00e7\u00e3o que distingue com clareza quem est\u00e1 dentro ou quem est\u00e1 ora ou na margem da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, pode colocar-se a sua insist\u00eancia na pastoral da miseric\u00f3rdia, de prefer\u00eancia \u00e0 aplica\u00e7\u00f5es das leis morais ou jur\u00eddicas. As leis s\u00e3o importantes e ele passa por n\u00e3o ter alterado nenhuma lei. E, no entanto, o seu estilo abriu o servi\u00e7o da Igreja a dimens\u00f5es novas que est\u00e3o cheias de futuro. Alguns dos seus documentos colocam as bases de uma nova forma de pensar a teologia moral, como abertura da vida das pessoas \u00e0 experi\u00eancia da reden\u00e7\u00e3o para l\u00e1 das quedas e dos fracassos que acontecem \u00e0 vida de quase todos. Ele n\u00e3o mudou a norma moral, mas iniciou a pr\u00f3pria moral a uma forma de se pensar, a nosso ver, muito mais pr\u00f3xima da mente de Jesus do que de certas tradi\u00e7\u00f5es vistas como imut\u00e1veis. O seu legado, neste cap\u00edtulo fica a levedar.<\/p>\n<p>Em quarto lugar, ocorre interrogarmo-nos sobre o sentido da sua insist\u00eancia na sinodalidade. A nosso ver, essa insist\u00eancia vai muito mais longe do que a flexibiliza\u00e7\u00e3o da vida institucional da Igreja. N\u00e3o se trata apenas de insistir, e bem, sobre a partilha do poder, e do seu exerc\u00edcio nas dioceses e nas confer\u00eancias episcopais, mas trata-se de iniciar a Igreja a n\u00e3o ser apenas a continua\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de uma funda\u00e7\u00e3o no passado, mas a um exerc\u00edcio continuo da vida actual das pessoas em Cristo, das pessoas que se experimentam como membros da nova comunidade, constitu\u00edda em cada tempo na frescura sempre nova do Evangelho, que \u00e9 vida e n\u00e3o apenas doutrina e grupo vis\u00edvel.<\/p>\n<p>Enfim, o Papa Francisco n\u00e3o foi um homem perfeito. Tomou decis\u00f5es discut\u00edveis, fez escolhas discut\u00edveis, escreveu documentos longos e perfect\u00edveis. Ele foi um poeta, mais que um te\u00f3logo. O que n\u00e3o podemos dizer \u00e9 que n\u00e3o foi um pastor marcante e memor\u00e1vel, sem a exist\u00eancia do qual a Igreja ficaria muito mais pobre e muito mais amea\u00e7ada de irrelev\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passou um ano da morte do Papa Francisco. A esta dist\u00e2ncia, podemos olhar a sua figura e o seu legado com mais serenidade e fazer um balan\u00e7o, sem as paix\u00f5es com que a sua mem\u00f3ria continua a ser olhada. Qualquer que seja a opini\u00e3o sobre o seu legado, a multid\u00e3o n\u00e3o o esqueceu, nem dentro nem fora da Igreja. Mesmo que n\u00e3o tenha mudado nada de fundamental na institui\u00e7\u00e3o e nas normas gerais, h\u00e1 algo mais fundo que permanece vivo. e isso \u00e9 fundamental. Vamos ent\u00e3o falar disso que permanece e para que o seu estilo de governo chamou a nossa aten\u00e7\u00e3o. A primeira dessas dimens\u00f5es \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o da fronteira da ac\u00e7\u00e3o da Igreja. Podemos dizer que viveu o seu servi\u00e7o do primado de Pedro, nas fronteiras da pr\u00f3pria vida e n\u00e3o apenas da institui\u00e7\u00e3o. Ele pensou a miss\u00e3o da Igreja como servi\u00e7o do ser humano enquanto vivente, antes de todas as outras qualidades. Todos nos lembramos da sua imagem solit\u00e1ria a subir a Pra\u00e7a de S. Pedro, nos dias sombrios do recolhimento obrigat\u00f3rio pelo terror dos primeiros tempos da pandemia que atingiu o mundo a partir de 2020. Essa imagem \u00e9 simb\u00f3lica. Ele se mostra como o defensor da vida e n\u00e3o como defensor da Igreja e nisso \u00e9 um exemplo para pol\u00edticos e para todos os que servem as na\u00e7\u00f5es, dedicados ao saber ou ao servi\u00e7o da sa\u00fade. O seu foco foi o ser humano na sua indig\u00eancia, na sua pobreza, na sua ang\u00fastia existencial. A fronteira do servi\u00e7o da Igreja situa-se muito al\u00e9m do particularismo, da fronteira pol\u00edtica, para ordenar um mundo em que caibam todos, ordenadamente, sejam nacionais ou sejam migrantes. A sua vida de servi\u00e7o foi marcante neste aspecto e, por isso, a sua mem\u00f3ria n\u00e3o se apaga. Em segundo lugar, ele viveu o minist\u00e9rio de Pedro como um carisma e n\u00e3o apenas como uma forma de institucionaliza\u00e7\u00e3o do poder na Igreja. Levou essa insist\u00eancia muito longe, sempre se mostrando surpreendido pela sua elei\u00e7\u00e3o como servidor da f\u00e9, mais do que como cl\u00e9rigo, no sentido t\u00e9cnico do termo. As suas cr\u00edticas insistentes e reiteradas ao clericalismo, \u00e0 C\u00faria Romana, s\u00e3o para entender neste contexto. Ele n\u00e3o se viu como uma figura do poder eclesi\u00e1stico, mas como um iniciador \u00e0 vida em Cristo, mesmo que isso rompa com a pastoral da administra\u00e7\u00e3o que distingue com clareza quem est\u00e1 dentro ou quem est\u00e1 ora ou na margem da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica. Em terceiro lugar, pode colocar-se a sua insist\u00eancia na pastoral da miseric\u00f3rdia, de prefer\u00eancia \u00e0 aplica\u00e7\u00f5es das leis morais ou jur\u00eddicas. As leis s\u00e3o importantes e ele passa por n\u00e3o ter alterado nenhuma lei. E, no entanto, o seu estilo abriu o servi\u00e7o da Igreja a dimens\u00f5es novas que est\u00e3o cheias de futuro. Alguns dos seus documentos colocam as bases de uma nova forma de pensar a teologia moral, como abertura da vida das pessoas \u00e0 experi\u00eancia da reden\u00e7\u00e3o para l\u00e1 das quedas e dos fracassos que acontecem \u00e0 vida de quase todos. Ele n\u00e3o mudou a norma moral, mas iniciou a pr\u00f3pria moral a uma forma de se pensar, a nosso ver, muito mais pr\u00f3xima da mente de Jesus do que de certas tradi\u00e7\u00f5es vistas como imut\u00e1veis. O seu legado, neste cap\u00edtulo fica a levedar. Em quarto lugar, ocorre interrogarmo-nos sobre o sentido da sua insist\u00eancia na sinodalidade. A nosso ver, essa insist\u00eancia vai muito mais longe do que a flexibiliza\u00e7\u00e3o da vida institucional da Igreja. N\u00e3o se trata apenas de insistir, e bem, sobre a partilha do poder, e do seu exerc\u00edcio nas dioceses e nas confer\u00eancias episcopais, mas trata-se de iniciar a Igreja a n\u00e3o ser apenas a continua\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de uma funda\u00e7\u00e3o no passado, mas a um exerc\u00edcio continuo da vida actual das pessoas em Cristo, das pessoas que se experimentam como membros da nova comunidade, constitu\u00edda em cada tempo na frescura sempre nova do Evangelho, que \u00e9 vida e n\u00e3o apenas doutrina e grupo vis\u00edvel. Enfim, o Papa Francisco n\u00e3o foi um homem perfeito. Tomou decis\u00f5es discut\u00edveis, fez escolhas discut\u00edveis, escreveu documentos longos e perfect\u00edveis. Ele foi um poeta, mais que um te\u00f3logo. 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