{"id":32410,"date":"2026-05-12T10:03:44","date_gmt":"2026-05-12T10:03:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32410"},"modified":"2026-05-12T10:03:44","modified_gmt":"2026-05-12T10:03:44","slug":"as-duas-dores-que-fundam-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/as-duas-dores-que-fundam-a-igreja\/","title":{"rendered":"As duas dores que fundam a Igreja"},"content":{"rendered":"<p>O assunto era para ser outro. Mas um recente programa televisivo de grande circula\u00e7\u00e3o que versou sobre a vida de alguns sacerdotes da zona norte do pa\u00eds merece que se diga uma palavra ao povo de Deus. Mesmo que os comportamentos moralmente impr\u00f3prios e civilmente criminosos do grupo em causa n\u00e3o venham a ser comprovados, como esperamos, o ponto de vista que nos parece necess\u00e1rio desenvolver aqui n\u00e3o fica carecido de fundamento.<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o dos factos ainda n\u00e3o comprovados pelo canal de televis\u00e3o em causa \u00e9 sintoma do tempo que vivemos a diversos t\u00edtulos. J\u00e1 sabemos que os meios de comunica\u00e7\u00e3o, mesmo os mais criteriosos, n\u00e3o conhecem hierarquias de valor, de forma a tratarem como especialmente estim\u00e1vel o fen\u00f3meno religioso, acima de outros fen\u00f3menos. Por isso, n\u00e3o podemos esperar que os assuntos do clero que tiverem valor noticioso, como \u00e9 este da incoer\u00eancia da moral dos sacerdotes que pregam uma coisa e fazem outra, venha a ser tratado de forma discreta, em vista de um valor fundamental do sacerd\u00f3cio. Temos de viver com isso. E a mat\u00e9ria que foi divulgada \u00e9 especialmente grave por se tratar de actos homossexuais em grupo e por uma alegada associa\u00e7\u00e3o criminosa de cl\u00e9rigos. \u00c9 aqui que achamos necess\u00e1rio dizer uma palavra ao povo de Deus, na qualidade de ministros da Igreja.<\/p>\n<p>Parece justo dizer, apesar do impacto destas not\u00edcias, a qualidade dos ministros da Igreja de hoje \u00e9 melhor do que nos s\u00e9culos anteriores. De facto, hoje n\u00e3o \u00e9 frequente vermos pessoas demandarem o sacerd\u00f3cio por conformismo social e por ambi\u00e7\u00e3o de ganhos materiais. A profiss\u00e3o de sacerdote n\u00e3o \u00e9 especialmente atractiva por estes motivos interesseiros como foi no passado. Mas a nobreza do sacerd\u00f3cio \u00e9 t\u00e3o alta que as pessoas de qualidade mediana que conseguimos recrutar hoje t\u00eam dificuldade em levar a sua experi\u00eancia de f\u00e9 a n\u00edveis satisfat\u00f3rios. N\u00e3o que a cultura de hoje, ao n\u00edvel da teologia, da filosofia e da arte, n\u00e3o tenha melhores virtualidades para isso do que no passado. O problema est\u00e1 em que n\u00e3o somos capazes de chegar \u00e0 sublimidade da voca\u00e7\u00e3o. Por isso, a forma\u00e7\u00e3o espiritual e moral do clero, tanto dos novos como dos velhos, oferece dificuldades a quem vive o sacerd\u00f3cio e quem exerce a pedagogia em ordem a ele. Esperamos que as gera\u00e7\u00f5es vindouras v\u00e3o mais longe do que n\u00f3s temos ido.<\/p>\n<p>A espiritualidade sacerdotal b\u00edblica diz-nos que n\u00e3o h\u00e1 viv\u00eancia do mist\u00e9rio de Cristo que n\u00e3o passe pelo sofrimento. \u00c9 h\u00e1 dois tipos de sofrimento. Um \u00e9 sofrimento por fazer o bem. Outro \u00e9 o sofrimento por fazer o mal. O mais comum da vida sacerdotal \u00e9 o sofrimento por fazer o bem. E temos muitos exemplos disso, manifestos na santidade da maioria dos sacerdotes de hoje e do passado. Quantos perseveraram at\u00e9 ao mart\u00edrio, quantos viveram pobres com o seu povo pobre, quantos verteram l\u00e1grimas silenciosas para manterem a fidelidade aos seus compromissos sacerdotais.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o sofrimento causado pelo mal que se comete com responsabilidade pessoal. Este mal, o pecado, tamb\u00e9m est\u00e1 inclu\u00eddo no caminho da reden\u00e7\u00e3o, se for assumido e vivido como forma de supera\u00e7\u00e3o do mundanismo que atinge a todos, de maneira maior ou menor. Por isso, esperamos que os sacerdotes que s\u00e3o tentados pelo mal, e s\u00e3o todos, possam encontrar na dura expia\u00e7\u00e3o dos seus actos falhados uma maior identifica\u00e7\u00e3o com Cristo que afirmou a vida, num confronto tit\u00e2nico com o mundo, com o mal e o pecado que nos cerca. Isso devemos ao povo de Deus que confia em n\u00f3s e tem direito de esperar de n\u00f3s um estilo de vida penitente e esfor\u00e7ado.<\/p>\n<p>Dizia S. Agostinho que o pior que pode acontecer \u00e0 vida da Igreja n\u00e3o s\u00e3o os tiranos, nem os hereges. O seu problema maior acontece quando tudo est\u00e1 em paz. Ora, nos tempos recentes, nenhum cl\u00e9rigo europeu perdeu um s\u00f3 cabelo que seja da sua cabe\u00e7a por causa da persegui\u00e7\u00e3o religiosa. Temos tido paz e nem sempre a prezamos. Talvez os v\u00edcios medrem mais nos tempos de paz que felizmente vivemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O assunto era para ser outro. Mas um recente programa televisivo de grande circula\u00e7\u00e3o que versou sobre a vida de alguns sacerdotes da zona norte do pa\u00eds merece que se diga uma palavra ao povo de Deus. Mesmo que os comportamentos moralmente impr\u00f3prios e civilmente criminosos do grupo em causa n\u00e3o venham a ser comprovados, como esperamos, o ponto de vista que nos parece necess\u00e1rio desenvolver aqui n\u00e3o fica carecido de fundamento. A divulga\u00e7\u00e3o dos factos ainda n\u00e3o comprovados pelo canal de televis\u00e3o em causa \u00e9 sintoma do tempo que vivemos a diversos t\u00edtulos. J\u00e1 sabemos que os meios de comunica\u00e7\u00e3o, mesmo os mais criteriosos, n\u00e3o conhecem hierarquias de valor, de forma a tratarem como especialmente estim\u00e1vel o fen\u00f3meno religioso, acima de outros fen\u00f3menos. Por isso, n\u00e3o podemos esperar que os assuntos do clero que tiverem valor noticioso, como \u00e9 este da incoer\u00eancia da moral dos sacerdotes que pregam uma coisa e fazem outra, venha a ser tratado de forma discreta, em vista de um valor fundamental do sacerd\u00f3cio. Temos de viver com isso. E a mat\u00e9ria que foi divulgada \u00e9 especialmente grave por se tratar de actos homossexuais em grupo e por uma alegada associa\u00e7\u00e3o criminosa de cl\u00e9rigos. \u00c9 aqui que achamos necess\u00e1rio dizer uma palavra ao povo de Deus, na qualidade de ministros da Igreja. Parece justo dizer, apesar do impacto destas not\u00edcias, a qualidade dos ministros da Igreja de hoje \u00e9 melhor do que nos s\u00e9culos anteriores. De facto, hoje n\u00e3o \u00e9 frequente vermos pessoas demandarem o sacerd\u00f3cio por conformismo social e por ambi\u00e7\u00e3o de ganhos materiais. A profiss\u00e3o de sacerdote n\u00e3o \u00e9 especialmente atractiva por estes motivos interesseiros como foi no passado. Mas a nobreza do sacerd\u00f3cio \u00e9 t\u00e3o alta que as pessoas de qualidade mediana que conseguimos recrutar hoje t\u00eam dificuldade em levar a sua experi\u00eancia de f\u00e9 a n\u00edveis satisfat\u00f3rios. N\u00e3o que a cultura de hoje, ao n\u00edvel da teologia, da filosofia e da arte, n\u00e3o tenha melhores virtualidades para isso do que no passado. O problema est\u00e1 em que n\u00e3o somos capazes de chegar \u00e0 sublimidade da voca\u00e7\u00e3o. Por isso, a forma\u00e7\u00e3o espiritual e moral do clero, tanto dos novos como dos velhos, oferece dificuldades a quem vive o sacerd\u00f3cio e quem exerce a pedagogia em ordem a ele. Esperamos que as gera\u00e7\u00f5es vindouras v\u00e3o mais longe do que n\u00f3s temos ido. A espiritualidade sacerdotal b\u00edblica diz-nos que n\u00e3o h\u00e1 viv\u00eancia do mist\u00e9rio de Cristo que n\u00e3o passe pelo sofrimento. \u00c9 h\u00e1 dois tipos de sofrimento. Um \u00e9 sofrimento por fazer o bem. Outro \u00e9 o sofrimento por fazer o mal. O mais comum da vida sacerdotal \u00e9 o sofrimento por fazer o bem. E temos muitos exemplos disso, manifestos na santidade da maioria dos sacerdotes de hoje e do passado. Quantos perseveraram at\u00e9 ao mart\u00edrio, quantos viveram pobres com o seu povo pobre, quantos verteram l\u00e1grimas silenciosas para manterem a fidelidade aos seus compromissos sacerdotais. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o sofrimento causado pelo mal que se comete com responsabilidade pessoal. Este mal, o pecado, tamb\u00e9m est\u00e1 inclu\u00eddo no caminho da reden\u00e7\u00e3o, se for assumido e vivido como forma de supera\u00e7\u00e3o do mundanismo que atinge a todos, de maneira maior ou menor. Por isso, esperamos que os sacerdotes que s\u00e3o tentados pelo mal, e s\u00e3o todos, possam encontrar na dura expia\u00e7\u00e3o dos seus actos falhados uma maior identifica\u00e7\u00e3o com Cristo que afirmou a vida, num confronto tit\u00e2nico com o mundo, com o mal e o pecado que nos cerca. Isso devemos ao povo de Deus que confia em n\u00f3s e tem direito de esperar de n\u00f3s um estilo de vida penitente e esfor\u00e7ado. Dizia S. Agostinho que o pior que pode acontecer \u00e0 vida da Igreja n\u00e3o s\u00e3o os tiranos, nem os hereges. O seu problema maior acontece quando tudo est\u00e1 em paz. Ora, nos tempos recentes, nenhum cl\u00e9rigo europeu perdeu um s\u00f3 cabelo que seja da sua cabe\u00e7a por causa da persegui\u00e7\u00e3o religiosa. Temos tido paz e nem sempre a prezamos. 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