{"id":32429,"date":"2026-05-19T09:46:07","date_gmt":"2026-05-19T09:46:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32429"},"modified":"2026-05-19T09:50:29","modified_gmt":"2026-05-19T09:50:29","slug":"os-jovens-a-ansiedade-e-os-adultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/os-jovens-a-ansiedade-e-os-adultos\/","title":{"rendered":"Os Jovens, a Ansiedade e os Adultos"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00abVenho, n\u00e3o sei de onde. Sou, n\u00e3o sei quem. Morro, n\u00e3o sei quando. Vou, n\u00e3o sei para onde. Estou surpreso por ser feliz\u00bb. <\/em>\u00a0Martinus von Biberach<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 novo o que\u00a0<em>vejo.\u00a0<\/em>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que ou\u00e7o. Os nossos jovens andam pouco felizes. A press\u00e3o \u00e9 enorme. Os\u00a0<em>resultados<\/em>\u00a0que lhes exigem s\u00e3o bastante altos&#8230;<\/p>\n<p>Numa pequena pesquisa na net, encontramos not\u00edcias de jovens \u00e0 beira de um<em>\u00a0ataque de nervos<\/em>. A sa\u00fade mental nunca esteve na\u00a0<em>ordem do dia<\/em>\u00a0como hoje. H\u00e1 estudos que apontam para \u00edndices in\u00e9ditos de ansiedade, depress\u00e3o e insatisfa\u00e7\u00e3o com a vida. Num s\u00f3 dia leio que na mesma cidade, um jovem de 13 anos e uma jovem de 23 tiraram a pr\u00f3pria vida: o primeiro pulando de uma varanda, deixando um bilhete dizendo que estava cansado da escola; a segunda caindo de uma escada na v\u00e9spera de uma falsa formatura, pois na verdade havia abandonado a universidade e estava h\u00e1 muito, a fingir que a frequentava.<\/p>\n<p>A\u00a0cultura dominante,\u00a0que adotou\u00a0<em>aquela<\/em>\u00a0interpreta\u00e7\u00e3o da humanidade moldada pela m\u00e1quina, educa-nos para funcionar por padr\u00f5es e resultados, fazendo com que as crian\u00e7as e os jovens se sintam objetos de expectativas em vez de sujeitos de possibilidades. O sujeito age, o objeto reage; o sujeito cria, o objeto consome-se; o sujeito \u00e9 livre, o objeto \u00e9 dependente; o sujeito transforma-se, o objeto descarta-se&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei os motivos ou as circunst\u00e2ncias destes suic\u00eddios, bem como de outros que venho lendo nos \u00faltimos dias, mas eles demonstram o efeito fatal da combina\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>press\u00e3o<\/em>\u00a0e<em>\u00a0solid\u00e3o<\/em>\u00a0no desenvolvimento psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p><em>\u00ab<\/em><em>Durante d\u00e9cadas, interrog\u00e1mo-nos sobre se a escola preparava os jovens para o futuro. Estamos a prepar\u00e1-los para o emprego? Para a cidadania? Para a tecnologia? Para a competi\u00e7\u00e3o global? Hoje, talvez as perguntas certas sejam outras: Que futuro lhes estamos a apresentar? E\u00a0esse futuro ainda \u00e9 \u201cpsicologicamente habit\u00e1vel\u201d?<\/em><em>\u00bb\u00a0<\/em>Frederico Fezas Vital<\/p>\n<p>Educar \u00e9 ajudar a desenvolver algo que j\u00e1 existe, mas precisa ser estimulado,\u00a0<em>provocado<\/em>. O resultado n\u00e3o deve ser o que\u00a0<em>eu<\/em>\u00a0pretendo, mas o que a crian\u00e7a ou adolescente j\u00e1 \u00e9. O processo de amadurecimento \u00e9 o tornar vis\u00edvel o que a pessoa j\u00e1 \u00e9, porque ser \u00fanico e irrepet\u00edvel, se lhe forem dadas as condi\u00e7\u00f5es para tal. Essas condi\u00e7\u00f5es, que devem ser dadas pela fam\u00edlia e s\u00f3 depois pela escola e por toda a sociedade, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es afetivas, que promovem a responsabilidade e autonomia, que proteger\u00e3o contra a press\u00e3o ou a mentira.<\/p>\n<p>Os bons relacionamentos despertam a crian\u00e7a, o adolescente para que assuma a sua vida e se realize a si pr\u00f3prio, enquanto os relacionamentos t\u00f3xicos buscam o controle do outro, for\u00e7ando-o a uma forma externa a si mesmo. O primeiro tipo de relacionamento gera pessoas ativas e respons\u00e1veis, o segundo, reativas e submissas.<\/p>\n<p>As vidas n\u00e3o desaparecem na solid\u00e3o, na raiva, no cansa\u00e7o ou na desilus\u00e3o se encontrarem algu\u00e9m que personifique a alegria de viver e a transmita. Como diz Paolo Crepet:\u00a0<em>\u00abAs crian\u00e7as n\u00e3o precisam de pais perfeitos, mas sim de adultos felizes\u00bb.<\/em><\/p>\n<p>Voltando \u00e0s palavras de\u00a0Frederico Fezas Vital:<\/p>\n<p><em>\u00abH\u00e1 uma dimens\u00e3o que raramente nomeamos com a coragem necess\u00e1ria.\u00a0O exemplo dos adultos.\u00a0Pedimos serenidade aos jovens enquanto lhes oferecemos um espa\u00e7o p\u00fablico cada vez mais inflamado. Falamos-lhes de cidadania, mas normalizamos a agressividade como m\u00e9todo. Ensinamos-lhes coopera\u00e7\u00e3o, mas a vida coletiva espraia-se como uma sucess\u00e3o de trincheiras. N\u00f3s contra eles, vencedores contra vencidos, indignados contra inimigos. (&#8230;)<\/em>\u00a0<em>Mas\u00a0\u00e9 dif\u00edcil imaginar que uma gera\u00e7\u00e3o possa crescer confiante se o mundo adulto lhe apresenta o futuro como uma amea\u00e7a,\u00a0o advers\u00e1rio como inimigo e a diferen\u00e7a como um perigo.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Talvez a crise educacional n\u00e3o se trate tanto da fragilidade das crian\u00e7as, mas dos adultos que n\u00e3o amam a vida. S\u00f3 aqueles que\u00a0<em>nunca param de cresce<\/em>r podem-nos ajudar a crescer, porque \u00e9 inesgot\u00e1vel o que s\u00f3 eles podem ser e fazer e\u00a0<em>isso<\/em>\u00a0inspira a vida dos outros.<\/p>\n<p>(iMissio)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abVenho, n\u00e3o sei de onde. Sou, n\u00e3o sei quem. Morro, n\u00e3o sei quando. Vou, n\u00e3o sei para onde. Estou surpreso por ser feliz\u00bb. \u00a0Martinus von Biberach N\u00e3o \u00e9 novo o que\u00a0vejo.\u00a0N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que ou\u00e7o. Os nossos jovens andam pouco felizes. 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A\u00a0cultura dominante,\u00a0que adotou\u00a0aquela\u00a0interpreta\u00e7\u00e3o da humanidade moldada pela m\u00e1quina, educa-nos para funcionar por padr\u00f5es e resultados, fazendo com que as crian\u00e7as e os jovens se sintam objetos de expectativas em vez de sujeitos de possibilidades. O sujeito age, o objeto reage; o sujeito cria, o objeto consome-se; o sujeito \u00e9 livre, o objeto \u00e9 dependente; o sujeito transforma-se, o objeto descarta-se&#8230; N\u00e3o sei os motivos ou as circunst\u00e2ncias destes suic\u00eddios, bem como de outros que venho lendo nos \u00faltimos dias, mas eles demonstram o efeito fatal da combina\u00e7\u00e3o de\u00a0press\u00e3o\u00a0e\u00a0solid\u00e3o\u00a0no desenvolvimento psicol\u00f3gico. \u00abDurante d\u00e9cadas, interrog\u00e1mo-nos sobre se a escola preparava os jovens para o futuro. Estamos a prepar\u00e1-los para o emprego? Para a cidadania? Para a tecnologia? Para a competi\u00e7\u00e3o global? Hoje, talvez as perguntas certas sejam outras: Que futuro lhes estamos a apresentar? E\u00a0esse futuro ainda \u00e9 \u201cpsicologicamente habit\u00e1vel\u201d?\u00bb\u00a0Frederico Fezas Vital Educar \u00e9 ajudar a desenvolver algo que j\u00e1 existe, mas precisa ser estimulado,\u00a0provocado. O resultado n\u00e3o deve ser o que\u00a0eu\u00a0pretendo, mas o que a crian\u00e7a ou adolescente j\u00e1 \u00e9. O processo de amadurecimento \u00e9 o tornar vis\u00edvel o que a pessoa j\u00e1 \u00e9, porque ser \u00fanico e irrepet\u00edvel, se lhe forem dadas as condi\u00e7\u00f5es para tal. Essas condi\u00e7\u00f5es, que devem ser dadas pela fam\u00edlia e s\u00f3 depois pela escola e por toda a sociedade, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es afetivas, que promovem a responsabilidade e autonomia, que proteger\u00e3o contra a press\u00e3o ou a mentira. Os bons relacionamentos despertam a crian\u00e7a, o adolescente para que assuma a sua vida e se realize a si pr\u00f3prio, enquanto os relacionamentos t\u00f3xicos buscam o controle do outro, for\u00e7ando-o a uma forma externa a si mesmo. O primeiro tipo de relacionamento gera pessoas ativas e respons\u00e1veis, o segundo, reativas e submissas. As vidas n\u00e3o desaparecem na solid\u00e3o, na raiva, no cansa\u00e7o ou na desilus\u00e3o se encontrarem algu\u00e9m que personifique a alegria de viver e a transmita. Como diz Paolo Crepet:\u00a0\u00abAs crian\u00e7as n\u00e3o precisam de pais perfeitos, mas sim de adultos felizes\u00bb. Voltando \u00e0s palavras de\u00a0Frederico Fezas Vital: \u00abH\u00e1 uma dimens\u00e3o que raramente nomeamos com a coragem necess\u00e1ria.\u00a0O exemplo dos adultos.\u00a0Pedimos serenidade aos jovens enquanto lhes oferecemos um espa\u00e7o p\u00fablico cada vez mais inflamado. Falamos-lhes de cidadania, mas normalizamos a agressividade como m\u00e9todo. Ensinamos-lhes coopera\u00e7\u00e3o, mas a vida coletiva espraia-se como uma sucess\u00e3o de trincheiras. N\u00f3s contra eles, vencedores contra vencidos, indignados contra inimigos. (&#8230;)\u00a0Mas\u00a0\u00e9 dif\u00edcil imaginar que uma gera\u00e7\u00e3o possa crescer confiante se o mundo adulto lhe apresenta o futuro como uma amea\u00e7a,\u00a0o advers\u00e1rio como inimigo e a diferen\u00e7a como um perigo.\u00bb Talvez a crise educacional n\u00e3o se trate tanto da fragilidade das crian\u00e7as, mas dos adultos que n\u00e3o amam a vida. S\u00f3 aqueles que\u00a0nunca param de crescer podem-nos ajudar a crescer, porque \u00e9 inesgot\u00e1vel o que s\u00f3 eles podem ser e fazer e\u00a0isso\u00a0inspira a vida dos outros. 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