{"id":32446,"date":"2026-05-22T09:34:23","date_gmt":"2026-05-22T09:34:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32446"},"modified":"2026-05-22T09:34:23","modified_gmt":"2026-05-22T09:34:23","slug":"economia-de-guerra-o-negocio-da-inseguranca-geopolitica-permanente-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/economia-de-guerra-o-negocio-da-inseguranca-geopolitica-permanente-parte-ii\/","title":{"rendered":"Economia de guerra, o neg\u00f3cio da inseguran\u00e7a geopol\u00edtica permanente (Parte II)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Os lucros do setor energ\u00e9tico e petrol\u00edfero<\/strong><\/p>\n<p>Quem lucra com uma economia de guerra n\u00e3o \u00e9 apenas o setor tecnol\u00f3gico e militar, mas tamb\u00e9m o energ\u00e9tico: mat\u00e9rias-primas e petr\u00f3leo em primeiro lugar.<\/p>\n<p>Segundo a Bloomberg, operadores e intermedi\u00e1rios do mercado do petr\u00f3leo est\u00e3o registrando os maiores lucros desde 2022, ano da invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Empresas como Vitol, Trafigura, Gunvor e Mercuria Energy devem obter ganhos astron\u00f4micos, em alguns casos superiores a 2 ou 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Hoje o pre\u00e7o do Brent permanece acima dos 100 d\u00f3lares por barril. Entre os pa\u00edses que mais se beneficiam est\u00e3o Estados Unidos e R\u00fassia, al\u00e9m de outros como Indon\u00e9sia (carv\u00e3o) e Noruega.<\/p>\n<p>\u201cNo caso de Washington \u2013 explica Pelligra \u2013 a revaloriza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo \u00e9 consequ\u00eancia de decis\u00f5es e tend\u00eancias de longa dura\u00e7\u00e3o, preparadas ao longo do tempo. A pol\u00edtica das perfura\u00e7\u00f5es, al\u00e9m do abandono dos princ\u00edpios da transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, j\u00e1 faziam parte do programa pol\u00edtico da atual administra\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ganham as refinarias, que conseguem obter petr\u00f3leo no mercado interno ou importando-o do M\u00e9xico, Canad\u00e1 e tamb\u00e9m da Venezuela, de onde a importa\u00e7\u00e3o triplicou no \u00faltimo ano, segundo dados da Us Energy Information Administration.<\/p>\n<p>Ganham tamb\u00e9m gigantes como ExxonMobil e Chevron, cujas a\u00e7\u00f5es subiram mais de 20%, al\u00e9m das europeias BP, Shell e TotalEnergies, que aumentaram significativamente seus lucros.<\/p>\n<p>Moscou, por sua vez, obt\u00e9m vantagens com o bloqueio do canal de abastecimento de Hormuz e dos pa\u00edses do Golfo, gra\u00e7as ao al\u00edvio das san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>As vantagens para as Bolsas e os mercados financeiros<\/strong><\/p>\n<p>A lista de benefici\u00e1rios continua. Os mercados financeiros tamb\u00e9m veem disparar as cota\u00e7\u00f5es de determinados pap\u00e9is. O \u00edndice S&amp;P500 ganhou mais de 3% entre fevereiro e abril de 2026, com crescimento anual de 30%.<\/p>\n<p>\u201cPara alguns, a inseguran\u00e7a e o medo s\u00e3o formas de capital que oferecem enormes retornos. Mas muitos outros setores industriais est\u00e3o em grande dificuldade\u201d: tanto porque a situa\u00e7\u00e3o atual torna complicado planejar investimentos, quanto porque \u201cas ind\u00fastrias da guerra drenam a maior parte dos recursos dispon\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sobre quem recaem os custos<\/strong><\/p>\n<p>Quase nunca, por\u00e9m, se fala dos custos de uma economia de guerra, al\u00e9m dos frios boletins di\u00e1rios de v\u00edtimas. Ao lado daqueles que acumulam lucros gigantescos, est\u00e3o todos os que sofrem perdas significativas.<\/p>\n<p>\u201cAntes de tudo, os setores que enfrentam dificuldade para encontrar financiadores dispostos a investir em paz, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e desenvolvimento.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda \u201cos custos em termos de fragilidade das rela\u00e7\u00f5es internacionais: o sistema das organiza\u00e7\u00f5es multilaterais, apesar de seus defeitos, entrou em colapso. As rela\u00e7\u00f5es entre antigos aliados evaporaram, e estamos diante de uma l\u00f3gica hobbesiana.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, isso \u201cleva ao bloqueio do com\u00e9rcio e \u00e0s guerras tarif\u00e1rias como instrumentos de press\u00e3o e retalia\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Existe tamb\u00e9m a quest\u00e3o da democracia. \u201cOs espa\u00e7os no debate p\u00fablico sobre certos temas s\u00e3o extremamente reduzidos. Assim que algu\u00e9m assume uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em um debate j\u00e1 polarizado, \u00e9 imediatamente colocado em um dos extremos. Essa atitude esteriliza a complexidade dos problemas que somos chamados a enfrentar.\u201d<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 as consequ\u00eancias para as liberdades pessoais e a privacidade, \u201cque praticamente j\u00e1 n\u00e3o existe e cuja prote\u00e7\u00e3o abandonamos desde a chegada das redes sociais\u201d.<\/p>\n<p>Diante de um cen\u00e1rio t\u00e3o problem\u00e1tico, poderia parecer que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o \u00e9 assim, conclui o analista.<\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o \u00e9 cultural. \u201cNos \u00faltimos tempos sofremos uma reestrutura\u00e7\u00e3o do modo de pensar e da narrativa\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201cSe anos atr\u00e1s falar de guerra nuclear era um tabu, hoje ela \u00e9 considerada uma possibilidade. Voltou-se tamb\u00e9m a considerar a dissuas\u00e3o como base para a paz. Mas isso n\u00e3o \u00e9 paz: \u00e9 aus\u00eancia de conflito baseada no medo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cComo nos disse o Papa Le\u00e3o, a paz \u00e9 resultado de uma mudan\u00e7a total de perspectiva. Por isso, \u00e9 preciso antes de tudo trabalhar para escapar da ret\u00f3rica belicista, que de normal n\u00e3o tem nada.\u201d<\/p>\n<p>Na semana passada, na Universidade La Sapienza de Roma, o Pont\u00edfice tamb\u00e9m sublinhou que n\u00e3o se pode chamar de defesa aquilo que \u00e9 apenas rearmamento e enriquecimento das elites.<\/p>\n<p>\u201cDepois, h\u00e1 a press\u00e3o que os cidad\u00e3os podem exercer sobre os representantes pol\u00edticos, por exemplo na reconstru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira alian\u00e7a europeia. As san\u00e7\u00f5es decididas pela Uni\u00e3o Europeia contra colonos violentos da Cisjord\u00e2nia s\u00e3o um pequeno sinal: ainda que quantitativamente pouco relevantes, possuem forte significado pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<p>Por fim, como consumidores, \u201csempre temos a possibilidade de votar com a carteira, direcionando nossos investimentos e compras para escolhas \u00e9ticas\u201d.<\/p>\n<p>Em suma, \u00e9 preciso fazer qualquer coisa para n\u00e3o perder a esperan\u00e7a, recolocar no centro a prote\u00e7\u00e3o das liberdades pessoais, a justi\u00e7a e o bem comum, devolvendo \u00e0 pol\u00edtica o papel que lhe cabe.<\/p>\n<p>(Vatican news)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os lucros do setor energ\u00e9tico e petrol\u00edfero Quem lucra com uma economia de guerra n\u00e3o \u00e9 apenas o setor tecnol\u00f3gico e militar, mas tamb\u00e9m o energ\u00e9tico: mat\u00e9rias-primas e petr\u00f3leo em primeiro lugar. Segundo a Bloomberg, operadores e intermedi\u00e1rios do mercado do petr\u00f3leo est\u00e3o registrando os maiores lucros desde 2022, ano da invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia. Empresas como Vitol, Trafigura, Gunvor e Mercuria Energy devem obter ganhos astron\u00f4micos, em alguns casos superiores a 2 ou 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Hoje o pre\u00e7o do Brent permanece acima dos 100 d\u00f3lares por barril. Entre os pa\u00edses que mais se beneficiam est\u00e3o Estados Unidos e R\u00fassia, al\u00e9m de outros como Indon\u00e9sia (carv\u00e3o) e Noruega. \u201cNo caso de Washington \u2013 explica Pelligra \u2013 a revaloriza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo \u00e9 consequ\u00eancia de decis\u00f5es e tend\u00eancias de longa dura\u00e7\u00e3o, preparadas ao longo do tempo. A pol\u00edtica das perfura\u00e7\u00f5es, al\u00e9m do abandono dos princ\u00edpios da transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, j\u00e1 faziam parte do programa pol\u00edtico da atual administra\u00e7\u00e3o.\u201d Ganham as refinarias, que conseguem obter petr\u00f3leo no mercado interno ou importando-o do M\u00e9xico, Canad\u00e1 e tamb\u00e9m da Venezuela, de onde a importa\u00e7\u00e3o triplicou no \u00faltimo ano, segundo dados da Us Energy Information Administration. Ganham tamb\u00e9m gigantes como ExxonMobil e Chevron, cujas a\u00e7\u00f5es subiram mais de 20%, al\u00e9m das europeias BP, Shell e TotalEnergies, que aumentaram significativamente seus lucros. Moscou, por sua vez, obt\u00e9m vantagens com o bloqueio do canal de abastecimento de Hormuz e dos pa\u00edses do Golfo, gra\u00e7as ao al\u00edvio das san\u00e7\u00f5es. As vantagens para as Bolsas e os mercados financeiros A lista de benefici\u00e1rios continua. Os mercados financeiros tamb\u00e9m veem disparar as cota\u00e7\u00f5es de determinados pap\u00e9is. O \u00edndice S&amp;P500 ganhou mais de 3% entre fevereiro e abril de 2026, com crescimento anual de 30%. \u201cPara alguns, a inseguran\u00e7a e o medo s\u00e3o formas de capital que oferecem enormes retornos. Mas muitos outros setores industriais est\u00e3o em grande dificuldade\u201d: tanto porque a situa\u00e7\u00e3o atual torna complicado planejar investimentos, quanto porque \u201cas ind\u00fastrias da guerra drenam a maior parte dos recursos dispon\u00edveis\u201d. Sobre quem recaem os custos Quase nunca, por\u00e9m, se fala dos custos de uma economia de guerra, al\u00e9m dos frios boletins di\u00e1rios de v\u00edtimas. Ao lado daqueles que acumulam lucros gigantescos, est\u00e3o todos os que sofrem perdas significativas. \u201cAntes de tudo, os setores que enfrentam dificuldade para encontrar financiadores dispostos a investir em paz, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e desenvolvimento.\u201d H\u00e1 ainda \u201cos custos em termos de fragilidade das rela\u00e7\u00f5es internacionais: o sistema das organiza\u00e7\u00f5es multilaterais, apesar de seus defeitos, entrou em colapso. As rela\u00e7\u00f5es entre antigos aliados evaporaram, e estamos diante de uma l\u00f3gica hobbesiana.\u201d Al\u00e9m disso, isso \u201cleva ao bloqueio do com\u00e9rcio e \u00e0s guerras tarif\u00e1rias como instrumentos de press\u00e3o e retalia\u00e7\u00e3o\u201d. Existe tamb\u00e9m a quest\u00e3o da democracia. \u201cOs espa\u00e7os no debate p\u00fablico sobre certos temas s\u00e3o extremamente reduzidos. Assim que algu\u00e9m assume uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em um debate j\u00e1 polarizado, \u00e9 imediatamente colocado em um dos extremos. Essa atitude esteriliza a complexidade dos problemas que somos chamados a enfrentar.\u201d Por fim, h\u00e1 as consequ\u00eancias para as liberdades pessoais e a privacidade, \u201cque praticamente j\u00e1 n\u00e3o existe e cuja prote\u00e7\u00e3o abandonamos desde a chegada das redes sociais\u201d. Diante de um cen\u00e1rio t\u00e3o problem\u00e1tico, poderia parecer que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o \u00e9 assim, conclui o analista. A primeira quest\u00e3o \u00e9 cultural. \u201cNos \u00faltimos tempos sofremos uma reestrutura\u00e7\u00e3o do modo de pensar e da narrativa\u201d, explica. \u201cSe anos atr\u00e1s falar de guerra nuclear era um tabu, hoje ela \u00e9 considerada uma possibilidade. Voltou-se tamb\u00e9m a considerar a dissuas\u00e3o como base para a paz. Mas isso n\u00e3o \u00e9 paz: \u00e9 aus\u00eancia de conflito baseada no medo.\u201d \u201cComo nos disse o Papa Le\u00e3o, a paz \u00e9 resultado de uma mudan\u00e7a total de perspectiva. Por isso, \u00e9 preciso antes de tudo trabalhar para escapar da ret\u00f3rica belicista, que de normal n\u00e3o tem nada.\u201d Na semana passada, na Universidade La Sapienza de Roma, o Pont\u00edfice tamb\u00e9m sublinhou que n\u00e3o se pode chamar de defesa aquilo que \u00e9 apenas rearmamento e enriquecimento das elites. \u201cDepois, h\u00e1 a press\u00e3o que os cidad\u00e3os podem exercer sobre os representantes pol\u00edticos, por exemplo na reconstru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira alian\u00e7a europeia. As san\u00e7\u00f5es decididas pela Uni\u00e3o Europeia contra colonos violentos da Cisjord\u00e2nia s\u00e3o um pequeno sinal: ainda que quantitativamente pouco relevantes, possuem forte significado pol\u00edtico.\u201d Por fim, como consumidores, \u201csempre temos a possibilidade de votar com a carteira, direcionando nossos investimentos e compras para escolhas \u00e9ticas\u201d. Em suma, \u00e9 preciso fazer qualquer coisa para n\u00e3o perder a esperan\u00e7a, recolocar no centro a prote\u00e7\u00e3o das liberdades pessoais, a justi\u00e7a e o bem comum, devolvendo \u00e0 pol\u00edtica o papel que lhe cabe. 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