{"id":32468,"date":"2026-05-29T10:53:00","date_gmt":"2026-05-29T10:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32468"},"modified":"2026-05-29T10:53:00","modified_gmt":"2026-05-29T10:53:00","slug":"leao-xiv-o-defensor-da-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/leao-xiv-o-defensor-da-humanidade\/","title":{"rendered":"Le\u00e3o XIV, o defensor da humanidade"},"content":{"rendered":"<p>O Papa Le\u00e3o XIV publicou a sua anunciada enc\u00edclica \u201cMagnifica Humanitas\u201d. O primeiro documento deste g\u00e9nero costuma ser program\u00e1tico e trazer a marca e o estilo que v\u00e3o caracterizar os anos seguintes do Servidor de Pedro. Sem surpresa, podemos identificar a espiritualidade agostiniana neste texto: uma \u00e9tica das virtudes, uma contempla\u00e7\u00e3o da nobreza do esp\u00edrito humano habitado pelo divino, uma certa desconfian\u00e7a das media\u00e7\u00f5es humanas hist\u00f3ricos, dada sua disformidade manifesta com o Reino de Deus.\u00a0 A nosso ver, o texto insiste em alguns aspectos fundamentais: a centralidade do ser humano, a den\u00fancia e a preven\u00e7\u00e3o dos perigos que amea\u00e7am essa centralidade, um apelo veemente \u00e0 uni\u00e3o de vontades para superar os desafios com que estamos confrontados.<\/p>\n<p>O primeiro ponto est\u00e1 bem patente desde o pr\u00f3prio t\u00edtulo. A humanidade descreve-se a partir da sua perten\u00e7a a Cristo, na linha do que afirma o Cap\u00edtulo inicial da\u00a0<em>Gaudium et Spes<\/em>. Nessa religa\u00e7\u00e3o se encontra a sua dignidade e a partir dessa contempla\u00e7\u00e3o se pensa a \u00e9tica e pastoral para os nossos dias. Existe uma continuidade com melhor tradi\u00e7\u00e3o da Doutrina Social da Igreja, especialmente com o Conc\u00edlio Vaticano II. Este ponto \u00e9 importante, dada a desconsidera\u00e7\u00e3o que alguns sectores se sentem tentados a fazer hoje, atribuindo \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o conciliar os problemas que a Igreja enfrenta nos dias que correm. A Igreja \u00e9 perita em humanidade, dada a sua escuta de Deus e experi\u00eancia da vida em Cristo. Esta \u00e9 a luz da sua racionalidade e a sua legitimidade para se ocupar dos temas humanos. O esp\u00edrito humano \u00e9 habitado originariamente pela sua perten\u00e7a a Deus e pela sua inser\u00e7\u00e3o em Cristo. Por\u00e9m, a sua situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 tamb\u00e9m, dramaticamente, tentada a viver segundo o amor desordenado da sua condi\u00e7\u00e3o deca\u00edda.<\/p>\n<p>\u00c9 na base desta op\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que o texto se ocupa das \u201ccoisas novas\u201d que est\u00e3o a acontecer no nosso s\u00e9culo: o nuclear, a biotecnologia, a inform\u00e1tica, a interven\u00e7\u00e3o sobre o DNA, a intelig\u00eancia artificial, a digitaliza\u00e7\u00e3o, a rob\u00f3tica. O mundo novo em que j\u00e1 vivemos tem virtualidades que n\u00e3o s\u00e3o objecto do texto. O Papa adverte principalmente para os perigos do novo poder que a humanidade adquiriu pela tecnologia. De facto, h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o do poder em quem det\u00e9m o saber, h\u00e1 mesmo um novo \u201ccolonialismo\u201d exercido pelos detentores do saber sobre os que o n\u00e3o t\u00eam (n. 178), existe a tenta\u00e7\u00e3o de uma manipula\u00e7\u00e3o da verdade e da mem\u00f3ria, uma manipula\u00e7\u00e3o do conhecimento, que \u00e0s vezes se chama um novo e falso \u201crealismo\u201d (n. 205). Estas novas condi\u00e7\u00f5es afectam especialmente o mundo do trabalho, as t\u00e9cnicas da guerra. No que toca \u00e0 quest\u00e3o do trabalho, o texto n\u00e3o se det\u00e9m nas possibilidades que a rob\u00f3tica tem para o trabalho produtivo. O prop\u00f3sito \u00e9, de prefer\u00eancia, de mostrar como traz uma maior concentra\u00e7\u00e3o da riqueza, novas formas de dom\u00ednio sobre os pobres e levanta a quest\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e dos bens necess\u00e1rio \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da vida de todos. A quest\u00e3o da guerra ocupa um longo tratado. A insist\u00eancia do Papa no multilater\u00edssimo necess\u00e1rio \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos \u00e9 um dos pontos mais not\u00e1veis deste texto. A tenta\u00e7\u00e3o de dividir o mundo por polos de influ\u00eancia \u00e9 grande e de defender os interesses dessas pot\u00eancias regionais pela for\u00e7a \u00e9 a fonte de tantos conflitos de hoje.<\/p>\n<p>Entre os pontos mais marcantes do texto, podemos elencar a condena\u00e7\u00e3o da guerra justa e a restri\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da pr\u00f3pria guerra defensivo. Este ponto \u00e9 muito controverso, como sabemos. Poderia ir mais longe da proposta da defesa social n\u00e3o-violenta, que parece o modo mais evang\u00e9lico de proceder na resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos. Existe igualmente uma insist\u00eancia num modelo de doutrina social da Igreja como \u201cpensamento din\u00e2mico, \u00e0 luz do Evangelho\u201d e n\u00e3o numa doutrina fixa e sempre aplic\u00e1vel. Transparece do conjunto a impress\u00e3o consoladora de que o Papa (e a Igreja) se pensa como \u201cdefensor da humanidade\u201d e promotor da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d, contra todas as tenta\u00e7\u00f5es de hoje de identificar o inimigo, de privilegiar os direitos do possuidor como mais v\u00e1lidos do que \u201co destino universal dos bens da terra\u201d, contra os direitos injustificados da raz\u00e3o do mais forte, visto como raz\u00e3o sempre de preferir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa Le\u00e3o XIV publicou a sua anunciada enc\u00edclica \u201cMagnifica Humanitas\u201d. O primeiro documento deste g\u00e9nero costuma ser program\u00e1tico e trazer a marca e o estilo que v\u00e3o caracterizar os anos seguintes do Servidor de Pedro. Sem surpresa, podemos identificar a espiritualidade agostiniana neste texto: uma \u00e9tica das virtudes, uma contempla\u00e7\u00e3o da nobreza do esp\u00edrito humano habitado pelo divino, uma certa desconfian\u00e7a das media\u00e7\u00f5es humanas hist\u00f3ricos, dada sua disformidade manifesta com o Reino de Deus.\u00a0 A nosso ver, o texto insiste em alguns aspectos fundamentais: a centralidade do ser humano, a den\u00fancia e a preven\u00e7\u00e3o dos perigos que amea\u00e7am essa centralidade, um apelo veemente \u00e0 uni\u00e3o de vontades para superar os desafios com que estamos confrontados. O primeiro ponto est\u00e1 bem patente desde o pr\u00f3prio t\u00edtulo. A humanidade descreve-se a partir da sua perten\u00e7a a Cristo, na linha do que afirma o Cap\u00edtulo inicial da\u00a0Gaudium et Spes. Nessa religa\u00e7\u00e3o se encontra a sua dignidade e a partir dessa contempla\u00e7\u00e3o se pensa a \u00e9tica e pastoral para os nossos dias. Existe uma continuidade com melhor tradi\u00e7\u00e3o da Doutrina Social da Igreja, especialmente com o Conc\u00edlio Vaticano II. Este ponto \u00e9 importante, dada a desconsidera\u00e7\u00e3o que alguns sectores se sentem tentados a fazer hoje, atribuindo \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o conciliar os problemas que a Igreja enfrenta nos dias que correm. A Igreja \u00e9 perita em humanidade, dada a sua escuta de Deus e experi\u00eancia da vida em Cristo. Esta \u00e9 a luz da sua racionalidade e a sua legitimidade para se ocupar dos temas humanos. O esp\u00edrito humano \u00e9 habitado originariamente pela sua perten\u00e7a a Deus e pela sua inser\u00e7\u00e3o em Cristo. Por\u00e9m, a sua situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 tamb\u00e9m, dramaticamente, tentada a viver segundo o amor desordenado da sua condi\u00e7\u00e3o deca\u00edda. \u00c9 na base desta op\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que o texto se ocupa das \u201ccoisas novas\u201d que est\u00e3o a acontecer no nosso s\u00e9culo: o nuclear, a biotecnologia, a inform\u00e1tica, a interven\u00e7\u00e3o sobre o DNA, a intelig\u00eancia artificial, a digitaliza\u00e7\u00e3o, a rob\u00f3tica. O mundo novo em que j\u00e1 vivemos tem virtualidades que n\u00e3o s\u00e3o objecto do texto. O Papa adverte principalmente para os perigos do novo poder que a humanidade adquiriu pela tecnologia. De facto, h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o do poder em quem det\u00e9m o saber, h\u00e1 mesmo um novo \u201ccolonialismo\u201d exercido pelos detentores do saber sobre os que o n\u00e3o t\u00eam (n. 178), existe a tenta\u00e7\u00e3o de uma manipula\u00e7\u00e3o da verdade e da mem\u00f3ria, uma manipula\u00e7\u00e3o do conhecimento, que \u00e0s vezes se chama um novo e falso \u201crealismo\u201d (n. 205). Estas novas condi\u00e7\u00f5es afectam especialmente o mundo do trabalho, as t\u00e9cnicas da guerra. No que toca \u00e0 quest\u00e3o do trabalho, o texto n\u00e3o se det\u00e9m nas possibilidades que a rob\u00f3tica tem para o trabalho produtivo. O prop\u00f3sito \u00e9, de prefer\u00eancia, de mostrar como traz uma maior concentra\u00e7\u00e3o da riqueza, novas formas de dom\u00ednio sobre os pobres e levanta a quest\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e dos bens necess\u00e1rio \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da vida de todos. A quest\u00e3o da guerra ocupa um longo tratado. A insist\u00eancia do Papa no multilater\u00edssimo necess\u00e1rio \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos \u00e9 um dos pontos mais not\u00e1veis deste texto. A tenta\u00e7\u00e3o de dividir o mundo por polos de influ\u00eancia \u00e9 grande e de defender os interesses dessas pot\u00eancias regionais pela for\u00e7a \u00e9 a fonte de tantos conflitos de hoje. Entre os pontos mais marcantes do texto, podemos elencar a condena\u00e7\u00e3o da guerra justa e a restri\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da pr\u00f3pria guerra defensivo. Este ponto \u00e9 muito controverso, como sabemos. Poderia ir mais longe da proposta da defesa social n\u00e3o-violenta, que parece o modo mais evang\u00e9lico de proceder na resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos. Existe igualmente uma insist\u00eancia num modelo de doutrina social da Igreja como \u201cpensamento din\u00e2mico, \u00e0 luz do Evangelho\u201d e n\u00e3o numa doutrina fixa e sempre aplic\u00e1vel. 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