{"id":32521,"date":"2026-06-10T10:06:35","date_gmt":"2026-06-10T10:06:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32521"},"modified":"2026-06-10T10:06:35","modified_gmt":"2026-06-10T10:06:35","slug":"somos-magnificos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/somos-magnificos\/","title":{"rendered":"Somos magn\u00edficos!"},"content":{"rendered":"<p>Muito se tem dito e escrito sobre a nova Enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV. Para mim, o que ela tem de mais importante \u00e9 o facto de n\u00e3o ficar por uma premoni\u00e7\u00e3o do que h\u00e1-de vir, bom ou mau, mas por focar o que de facto \u00e9 essencial: o Humanismo.<\/p>\n<p>Uma das primeiras caracter\u00edsticas distintivas da\u00a0<em>Magnifica humanitas<\/em>\u00a0(MH) \u00e9 que, pela primeira vez, a Igreja antecipou a sua reflex\u00e3o sobre a realidade. A\u00a0<em>Rerum Novarum\u00a0<\/em>surgiu\u00a0<em>a posteriori<\/em>, depois de Marx e Engels terem publicado o \u201c<em>Manifesto Comunista\u201d\u00a0<\/em>em 1848; depois de John Stuart Mill ter publicado \u201c<em>Sobre a Liberdade\u201d<\/em>, o manifesto do liberalismo nascente, em 1859; e depois de Charles Dickens, com o seu ensaio\u00a0<em>\u201cTempos Dif\u00edceis\u201d<\/em>, ter tornado p\u00fablicas as consequ\u00eancias socialmente devastadoras da primeira Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. A MH, pelo contr\u00e1rio, age \u00e0 frente do seu tempo,\u00a0<em>tocando<\/em>\u00a0no que poder\u00e1 acontecer a toda a humanidade, em diversas frentes &#8211; social, econ\u00f3mica, pol\u00edtica, cultural -, se uma s\u00e9rie de quest\u00f5es problem\u00e1ticas da Intelig\u00eancia Artificial (IA) n\u00e3o forem resolvidas, desde j\u00e1.<\/p>\n<p>Uma outra caracter\u00edstica desta enc\u00edclica diz respeito ao estilo expositivo do Papa Le\u00e3o XIV: claro e de f\u00e1cil leitura. Mesmo para aqueles que n\u00e3o est\u00e3o habituados a ler sobre Igreja ou a IA. Esta \u00e9 uma escolha metodol\u00f3gica que fez o Papa para real\u00e7ar que as quest\u00f5es abordadas s\u00e3o t\u00e3o importantes que n\u00e3o devem ser confiadas exclusivamente a especialistas. Porque o que est\u00e1 hoje em discuss\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio modelo de civiliza\u00e7\u00e3o a que a humanidade chegou, e n\u00e3o apenas quest\u00f5es espec\u00edficas ou interesses particulares.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isto, o facto de a primeira enc\u00edclica deste Papa ser dedicada \u00e0 IA \u00e9 um sinal importante: reconhece que esta tecnologia n\u00e3o pertence exclusivamente \u00e0s grandes empresas digitais, mas tem impacto no emprego, na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, na seguran\u00e7a e no conhecimento. Questiona o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais poderosas sem perder de vista a pessoa, os direitos e as responsabilidades das nossas escolhas. A IA n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a aut\u00f3noma. Se por um lado, pode acelerar a descoberta de novos medicamentos, melhorar a sa\u00fade, tornar os processos industriais mais eficientes, aumentar a seguran\u00e7a no trabalho e apoiar a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Por outro, n\u00e3o tem consci\u00eancia, n\u00e3o tem inten\u00e7\u00f5es. As inten\u00e7\u00f5es continuam a ser humanas, assim como as responsabilidades. O problema n\u00e3o \u00e9 tanto a tecnologia em si, mas sim a forma como os governos, as empresas e restantes organiza\u00e7\u00f5es optam por desenvolv\u00ea-la e utiliz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Na MH, a Humanidade \u00e9 magn\u00edfica, entendida seja como a soma de todos os seres humanos seja como o facto de sermos humanos.\u00a0<em>Humanitas<\/em>\u00a0\u00e9 o termo latino para o grego\u00a0<em>paideia\u00a0<\/em>(os romanos admiravam profundamente a cultura grega e, ao buscarem uma palavra que traduzisse a ess\u00eancia da\u00a0<em>\u03c0\u03b1\u03b9\u03b4\u03b5\u03af\u03b1<\/em>, criaram a\u00a0<em>Humanitas<\/em>. Portanto, aquilo de que a humanidade necessita para se tornar plenamente ela pr\u00f3pria. O texto identifica a IA como a causa da\u00a0<em>&#8220;mudan\u00e7a de \u00e9poca&#8221;\u00a0<\/em>que estamos a viver, pois afeta a nossa rela\u00e7\u00e3o com a realidade como nunca antes. A quest\u00e3o, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 tecnol\u00f3gica, mas espiritual: o que nos torna humanos e cria uma civiliza\u00e7\u00e3o mais justa e livre?<\/p>\n<p>Hoje j\u00e1 falamos de um<em>\u00a0&#8220;transumanismo&#8221;<\/em>, a\u00a0<em>religi\u00e3o\u00a0<\/em>que inspira projetos e objetos das grandes empresas tecnol\u00f3gicas: capacitar o indiv\u00edduo n\u00e3o no\u00a0<em>Deus do Amor<\/em>, mas no\u00a0<em>deus da M\u00e1quina<\/em>. N\u00e3o \u00e9 o Amor que move tudo, mas sim o Poder. O ter o dom\u00ednio total sobre a vida, atrav\u00e9s de uma mente e de um corpo artificiais. A IA \u00e9 o\u00a0<em>deus<\/em> com quem nos devemos unir, confiando-lhe o julgamento, os corpos, as escolhas, a fragilidade, as rela\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Somos seres conscientes, capazes do infinito num mundo de coisas finitas. Somos seres capazes de dar sentido \u00e0 realidade, de nos dar prop\u00f3sito, de encontrar vida na vida.\u00a0<em>Somos magn\u00edficos!<\/em>\u00a0No entanto, esta caracter\u00edstica \u00e9 desprezada por aqueles que pensam que o magn\u00edfico n\u00e3o \u00e9 o homem, mas a m\u00e1quina. O Papa chama-lhe &#8220;s\u00edndrome de Babel&#8221;.<\/p>\n<p>Os criadores de IA visam monopolizar o conhecimento e a experi\u00eancia para os vender e\u00a0<em>nos guiar<\/em>: um\u00a0<em>deus<\/em>\u00a0que d\u00e1 sentido e prop\u00f3sito, poupando-nos ao trabalho doloroso da d\u00favida, da investiga\u00e7\u00e3o e da liberdade. Mas a hist\u00f3ria j\u00e1 mostrou que o homem quando se torna<em>\u00a0Criador<\/em>, torna-se\u00a0<em>Controlador<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Explorador<\/em>, e a guerra come\u00e7a, uma \u00e1rea em que a IA \u00e9 utilizada em toda a sua pot\u00eancia. Todo o\u00a0<em>deus<\/em>\u00a0gera seres \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a; um deus artificial cria humanos artificiais, aliviados do trabalho \u00e1rduo do sentido da exist\u00eancia e da liberdade.<\/p>\n<p>A IA \u00e9 o artefacto que, gra\u00e7as ao seu poder, poder\u00e1 ajudar a resolver muitos problemas, mas tamb\u00e9m pode iludir-nos, fazendo-nos pensar que n\u00e3o temos limites, que podemos ser salvos sem feridas, como explica a enc\u00edclica:<\/p>\n<p><em>\u00ab<\/em><em>A nossa rela\u00e7\u00e3o com a vida hoje parece estar em crise. Tudo o que aparenta ser um \u00ablimite\u00bb \u2014 incapacidade, doen\u00e7a, velhice, sofrimento, vulnerabilidade \u2014 tende a ser interpretado sobretudo como um defeito a corrigir, em vez de um lugar onde a humanidade amadurece e se abre \u00e0s rela\u00e7\u00f5es. Em vez disso, a humanidade n\u00e3o floresce apesar das limita\u00e7\u00f5es, mas muitas vezes atrav\u00e9s delas. Se, por um lado, \u00e9 nosso dever procurar eliminar o sofrimento que marca a vida humana, por outro, \u00e9 s\u00e1bio reconhecer a nossa finitude constitutiva, sabendo que a experi\u00eancia religiosa, e em particular a f\u00e9 crist\u00e3, prop\u00f5e que habitemos, sem simplifica\u00e7\u00f5es, esta ambival\u00eancia entre a grandeza e as limita\u00e7\u00f5es da humanidade, interpretando-a \u00e0 luz da nossa rela\u00e7\u00e3o original e fundadora com Deus.\u00bb<\/em>\u00a0(n.\u00ba 118)<\/p>\n<p>(iMissio)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito se tem dito e escrito sobre a nova Enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV. Para mim, o que ela tem de mais importante \u00e9 o facto de n\u00e3o ficar por uma premoni\u00e7\u00e3o do que h\u00e1-de vir, bom ou mau, mas por focar o que de facto \u00e9 essencial: o Humanismo. 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Uma outra caracter\u00edstica desta enc\u00edclica diz respeito ao estilo expositivo do Papa Le\u00e3o XIV: claro e de f\u00e1cil leitura. Mesmo para aqueles que n\u00e3o est\u00e3o habituados a ler sobre Igreja ou a IA. Esta \u00e9 uma escolha metodol\u00f3gica que fez o Papa para real\u00e7ar que as quest\u00f5es abordadas s\u00e3o t\u00e3o importantes que n\u00e3o devem ser confiadas exclusivamente a especialistas. Porque o que est\u00e1 hoje em discuss\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio modelo de civiliza\u00e7\u00e3o a que a humanidade chegou, e n\u00e3o apenas quest\u00f5es espec\u00edficas ou interesses particulares. Al\u00e9m de tudo isto, o facto de a primeira enc\u00edclica deste Papa ser dedicada \u00e0 IA \u00e9 um sinal importante: reconhece que esta tecnologia n\u00e3o pertence exclusivamente \u00e0s grandes empresas digitais, mas tem impacto no emprego, na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, na seguran\u00e7a e no conhecimento. Questiona o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais poderosas sem perder de vista a pessoa, os direitos e as responsabilidades das nossas escolhas. A IA n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a aut\u00f3noma. Se por um lado, pode acelerar a descoberta de novos medicamentos, melhorar a sa\u00fade, tornar os processos industriais mais eficientes, aumentar a seguran\u00e7a no trabalho e apoiar a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Por outro, n\u00e3o tem consci\u00eancia, n\u00e3o tem inten\u00e7\u00f5es. As inten\u00e7\u00f5es continuam a ser humanas, assim como as responsabilidades. O problema n\u00e3o \u00e9 tanto a tecnologia em si, mas sim a forma como os governos, as empresas e restantes organiza\u00e7\u00f5es optam por desenvolv\u00ea-la e utiliz\u00e1-la. Na MH, a Humanidade \u00e9 magn\u00edfica, entendida seja como a soma de todos os seres humanos seja como o facto de sermos humanos.\u00a0Humanitas\u00a0\u00e9 o termo latino para o grego\u00a0paideia\u00a0(os romanos admiravam profundamente a cultura grega e, ao buscarem uma palavra que traduzisse a ess\u00eancia da\u00a0\u03c0\u03b1\u03b9\u03b4\u03b5\u03af\u03b1, criaram a\u00a0Humanitas. Portanto, aquilo de que a humanidade necessita para se tornar plenamente ela pr\u00f3pria. O texto identifica a IA como a causa da\u00a0&#8220;mudan\u00e7a de \u00e9poca&#8221;\u00a0que estamos a viver, pois afeta a nossa rela\u00e7\u00e3o com a realidade como nunca antes. A quest\u00e3o, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 tecnol\u00f3gica, mas espiritual: o que nos torna humanos e cria uma civiliza\u00e7\u00e3o mais justa e livre? 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Se, por um lado, \u00e9 nosso dever procurar eliminar o sofrimento que marca a vida humana, por outro, \u00e9 s\u00e1bio reconhecer a nossa finitude constitutiva, sabendo que a experi\u00eancia religiosa, e em particular a f\u00e9 crist\u00e3, prop\u00f5e que habitemos, sem simplifica\u00e7\u00f5es, esta ambival\u00eancia entre a grandeza e as limita\u00e7\u00f5es da humanidade, interpretando-a \u00e0 luz da nossa rela\u00e7\u00e3o original e fundadora com Deus.\u00bb\u00a0(n.\u00ba 118) (iMissio)<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":32522,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-32521","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32521","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32521"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32521\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32521"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32521"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32521"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}