{"id":32526,"date":"2026-06-11T10:13:27","date_gmt":"2026-06-11T10:13:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32526"},"modified":"2026-06-11T10:13:27","modified_gmt":"2026-06-11T10:13:27","slug":"uma-reflexao-teologica-sobre-ritos-novos-e-antigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/uma-reflexao-teologica-sobre-ritos-novos-e-antigos\/","title":{"rendered":"Uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre ritos novos e antigos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Jorge Teixeira da Cunha<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como negar um afrontamento entre os defensores do uso do missal de S. Pio V e a maioria que celebra a Eucaristia e os outros sacramentos segundo os livros lit\u00fargicos aprovados pelo Papa Paulo VI. De facto, \u00e9 cada vez maior o n\u00famero das pessoas que se re\u00fanem por a\u00ed, de forma clandestina, para assistir \u00e0 missa em rito antigo. O que leva estas pessoas a defender t\u00e3o encarni\u00e7adamente a ora\u00e7\u00e3o p\u00fablica numa l\u00edngua morta, o latim, e seguindo um modelo que limita a participa\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is na ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, que \u00e9 suposto ser participada por todos os membros do povo de Deus? A resposta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pois quando se trata de gostos e de sentimentos, como chegar a uma plataforma comum? Vamos fazer algumas reflex\u00f5es sobre este complexo assunto.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos por perguntar o que levou os bispos reunidos no segundo Conc\u00edlio do Vaticano (1962-1965) a propor uma reforma lit\u00fargica. Uma vez mais, a quest\u00e3o n\u00e3o f\u00e1cil de responder em poucas palavras. No modesto entender de quem escreve este texto, o que levou os representantes da Igreja mundial a votar esta reforma foi algo muito s\u00e9rio e que vinha levedando desde o s\u00e9culo XIX atrav\u00e9s do chamado movimento lit\u00fargico. Este movimento era uma parte de outros movimentos que sentiam a necessidade de um maior contacto com a palavra de Deus na Escritura, de um maior enraizamento existencial da espiritualidade e de um exerc\u00edcio mais aut\u00eantico da m\u00edstica crist\u00e3 e da ora\u00e7\u00e3o. Todo este substracto, por sua vez, est\u00e1 em conformidade com uma transfer\u00eancia da sensibilidade cultural do nosso tempo para uma recupera\u00e7\u00e3o do mundo da vida, em vez da tradicional vis\u00e3o cient\u00edfica do real, como a pensou a modernidade. Por isso, a reforma \u00e9 mais fundamentada do que parece \u00e0 primeira vista parece aos seus opositores.<\/p>\n<p>Foi neste contexto que germinou a op\u00e7\u00e3o por traduzir e colocar na m\u00e3o dos crentes a B\u00edblia (coisa que era proibida no passado), por traduzir os livros lit\u00fargicos para as l\u00ednguas vern\u00e1culas, por ensaiar novas formas de m\u00fasica lit\u00fargica. Este projecto foi bem conseguido? Pois, fazendo um balan\u00e7o, parece oportuno dizer que h\u00e1 muito a fazer. Os defensores do rito antigo t\u00eam alguma raz\u00e3o quando nos acusam de termos desqualificado a liturgia, de termos esvaziado de poesia as f\u00f3rmulas seculares, de termos banalizado a m\u00fasica, de termos introduzido gestos triviais na ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e assim por diante. Mas podemos colocar a quest\u00e3o noutros termos e perguntar: foi em v\u00e3o que se aumentou o contacto das pessoas com a Sagrada Escritura? Foi em v\u00e3o que demos \u00e0s nossas l\u00ednguas a nobreza de expressarem o divino? Foi em v\u00e3o que desencade\u00e1mos um movimento de criatividade que, em pouco mais de meio s\u00e9culo, produziu obras not\u00e1veis de m\u00fasica, que p\u00f4s o povo de Deus a celebrar a liturgia das horas?<\/p>\n<p>O balan\u00e7o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de fazer. Os tradicionalistas observam que temos as Igrejas vazias, que temos os semin\u00e1rios despovoados. Mas este tipo de compara\u00e7\u00f5es n\u00e3o colhe. O que teria sido da Igreja se n\u00e3o tivesse feito a reforma do Conc\u00edlio? Quem o pode saber? Ser\u00e1 que o latim nos tinha salvo da crise que estamos a viver? Ser\u00e1 que as pessoas que demandam os semin\u00e1rios tradicionalistas vivem voca\u00e7\u00f5es mais aut\u00eanticas ao sacerd\u00f3cio do que o comum dos fi\u00e9is? S\u00e3o tudo perguntas de resposta dif\u00edcil. Podemos dizer tanto a tradicionalistas como a progressistas que no que toca \u00e0 fidelidade a Deus e \u00e0 experi\u00eancia aut\u00eantica da f\u00e9 e da voca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar her\u00f3is.<\/p>\n<p>A nosso ver, o pensamento de hoje tem mais abertura para o divino do que o pensamento metaf\u00edsico ou cient\u00edfico do passado, onde se radica o rito antigo. Por isso, \u00e9 bom conselho deixar-se de afrontamentos e de compara\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas, quando se trata de medir a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com o mist\u00e9rio insond\u00e1vel de Deus.<\/p>\n<p>Isto dito, ainda falta dizer uma coisa. N\u00e3o parece justo que as pessoas de boa-f\u00e9, que preferem celebrar a Eucaristia no rito antigo, dentro das normas vigentes da Santa S\u00e9, estejam totalmente impedidas de o fazer. Seria conveniente encontrar uma solu\u00e7\u00e3o que, em nome da caridade pastoral e dos leg\u00edtimos direitos dos fi\u00e9is, pudesse dar uma solu\u00e7\u00e3o a este problema. Desde que se aceitem duas condi\u00e7\u00f5es. Que nenhum dos participantes nesta reivindica\u00e7\u00e3o considere que o seu ponto de vista \u00e9 mais fiel ao projecto fundador de Jesus do que o dos outros. E desde que n\u00e3o vejam como advers\u00e1rios a maioria que se esfor\u00e7a por manter a unidade da Igreja e por seguir aquilo que foi escolhido num tempo de especial experi\u00eancia do Esp\u00edrito Santo, como foram os anos conciliares.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jorge Teixeira da Cunha N\u00e3o h\u00e1 como negar um afrontamento entre os defensores do uso do missal de S. Pio V e a maioria que celebra a Eucaristia e os outros sacramentos segundo os livros lit\u00fargicos aprovados pelo Papa Paulo VI. De facto, \u00e9 cada vez maior o n\u00famero das pessoas que se re\u00fanem por a\u00ed, de forma clandestina, para assistir \u00e0 missa em rito antigo. O que leva estas pessoas a defender t\u00e3o encarni\u00e7adamente a ora\u00e7\u00e3o p\u00fablica numa l\u00edngua morta, o latim, e seguindo um modelo que limita a participa\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is na ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, que \u00e9 suposto ser participada por todos os membros do povo de Deus? A resposta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pois quando se trata de gostos e de sentimentos, como chegar a uma plataforma comum? Vamos fazer algumas reflex\u00f5es sobre este complexo assunto. Come\u00e7amos por perguntar o que levou os bispos reunidos no segundo Conc\u00edlio do Vaticano (1962-1965) a propor uma reforma lit\u00fargica. Uma vez mais, a quest\u00e3o n\u00e3o f\u00e1cil de responder em poucas palavras. No modesto entender de quem escreve este texto, o que levou os representantes da Igreja mundial a votar esta reforma foi algo muito s\u00e9rio e que vinha levedando desde o s\u00e9culo XIX atrav\u00e9s do chamado movimento lit\u00fargico. Este movimento era uma parte de outros movimentos que sentiam a necessidade de um maior contacto com a palavra de Deus na Escritura, de um maior enraizamento existencial da espiritualidade e de um exerc\u00edcio mais aut\u00eantico da m\u00edstica crist\u00e3 e da ora\u00e7\u00e3o. Todo este substracto, por sua vez, est\u00e1 em conformidade com uma transfer\u00eancia da sensibilidade cultural do nosso tempo para uma recupera\u00e7\u00e3o do mundo da vida, em vez da tradicional vis\u00e3o cient\u00edfica do real, como a pensou a modernidade. Por isso, a reforma \u00e9 mais fundamentada do que parece \u00e0 primeira vista parece aos seus opositores. Foi neste contexto que germinou a op\u00e7\u00e3o por traduzir e colocar na m\u00e3o dos crentes a B\u00edblia (coisa que era proibida no passado), por traduzir os livros lit\u00fargicos para as l\u00ednguas vern\u00e1culas, por ensaiar novas formas de m\u00fasica lit\u00fargica. Este projecto foi bem conseguido? Pois, fazendo um balan\u00e7o, parece oportuno dizer que h\u00e1 muito a fazer. Os defensores do rito antigo t\u00eam alguma raz\u00e3o quando nos acusam de termos desqualificado a liturgia, de termos esvaziado de poesia as f\u00f3rmulas seculares, de termos banalizado a m\u00fasica, de termos introduzido gestos triviais na ac\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e assim por diante. Mas podemos colocar a quest\u00e3o noutros termos e perguntar: foi em v\u00e3o que se aumentou o contacto das pessoas com a Sagrada Escritura? Foi em v\u00e3o que demos \u00e0s nossas l\u00ednguas a nobreza de expressarem o divino? Foi em v\u00e3o que desencade\u00e1mos um movimento de criatividade que, em pouco mais de meio s\u00e9culo, produziu obras not\u00e1veis de m\u00fasica, que p\u00f4s o povo de Deus a celebrar a liturgia das horas? O balan\u00e7o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de fazer. Os tradicionalistas observam que temos as Igrejas vazias, que temos os semin\u00e1rios despovoados. Mas este tipo de compara\u00e7\u00f5es n\u00e3o colhe. O que teria sido da Igreja se n\u00e3o tivesse feito a reforma do Conc\u00edlio? Quem o pode saber? Ser\u00e1 que o latim nos tinha salvo da crise que estamos a viver? Ser\u00e1 que as pessoas que demandam os semin\u00e1rios tradicionalistas vivem voca\u00e7\u00f5es mais aut\u00eanticas ao sacerd\u00f3cio do que o comum dos fi\u00e9is? S\u00e3o tudo perguntas de resposta dif\u00edcil. Podemos dizer tanto a tradicionalistas como a progressistas que no que toca \u00e0 fidelidade a Deus e \u00e0 experi\u00eancia aut\u00eantica da f\u00e9 e da voca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar her\u00f3is. A nosso ver, o pensamento de hoje tem mais abertura para o divino do que o pensamento metaf\u00edsico ou cient\u00edfico do passado, onde se radica o rito antigo. Por isso, \u00e9 bom conselho deixar-se de afrontamentos e de compara\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas, quando se trata de medir a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com o mist\u00e9rio insond\u00e1vel de Deus. Isto dito, ainda falta dizer uma coisa. N\u00e3o parece justo que as pessoas de boa-f\u00e9, que preferem celebrar a Eucaristia no rito antigo, dentro das normas vigentes da Santa S\u00e9, estejam totalmente impedidas de o fazer. Seria conveniente encontrar uma solu\u00e7\u00e3o que, em nome da caridade pastoral e dos leg\u00edtimos direitos dos fi\u00e9is, pudesse dar uma solu\u00e7\u00e3o a este problema. Desde que se aceitem duas condi\u00e7\u00f5es. Que nenhum dos participantes nesta reivindica\u00e7\u00e3o considere que o seu ponto de vista \u00e9 mais fiel ao projecto fundador de Jesus do que o dos outros. E desde que n\u00e3o vejam como advers\u00e1rios a maioria que se esfor\u00e7a por manter a unidade da Igreja e por seguir aquilo que foi escolhido num tempo de especial experi\u00eancia do Esp\u00edrito Santo, como foram os anos conciliares.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":28815,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-32526","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32526"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32526\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}