{"id":32572,"date":"2026-06-22T11:34:13","date_gmt":"2026-06-22T11:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32572"},"modified":"2026-06-22T11:34:13","modified_gmt":"2026-06-22T11:34:13","slug":"ha-gestos-que-nao-resolvem-nada-e-ainda-assim-mudam-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/ha-gestos-que-nao-resolvem-nada-e-ainda-assim-mudam-tudo\/","title":{"rendered":"H\u00e1 gestos que n\u00e3o resolvem nada e, ainda assim, mudam tudo"},"content":{"rendered":"<p>A mensagem chegou-me por WhatsApp como tantas outras: chegou sem contexto, sem aviso, no meio de coisas pequenas que ocupam o dia.<\/p>\n<p>Era uma mensagem do Tiago, um colega do meu hospital.Simples, directo:<\/p>\n<p><em>\u2014 \u201cUma quest\u00e3o\u2026 Quem era a Ver\u00f3nica?&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Fiquei a olhar para o ecr\u00e3 durante uns segundos.<\/p>\n<p>Podia ter respondido logo: \u201cN\u00e3o aparece na B\u00edblia.\u201d E teria sido verdade.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m teria sido curto demais. E, se calhar, seria at\u00e9 um pouco defensivo, como se fechasse a porta \u00e0 pergunta antes mesmo de a deixar entrar.<\/p>\n<p>Escrevi:<\/p>\n<p><em>\u2014 \u201cCuriosamente\u2026 n\u00e3o aparece nos Evangelhos. Mas na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica foi a mulher que limpou o rosto de Jesus quando ele levava a cruz \u00e0s costas.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 \u201cExacto\u2026 mas por acaso n\u00e3o sei quem ela era\u201d<\/em>\u00a0\u2013 respondeu ele.<\/p>\n<p>Completei a minha resposta:<em>\u2014 \u201cN\u00e3o h\u00e1 muitas refer\u00eancias sobre ela, apenas que durante o caminho de Jesus para o Calv\u00e1rio, uma mulher sai da multid\u00e3o, aproxima-se dele e limpa-lhe o rosto com um pano, e nesse pano teria ficado impressa a face de Cristo\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 \u201cPois&#8230; Eu sabia que havia mais qualquer coisa, que n\u00e3o &#8220;apenas&#8221; limpar o rosto. Obrigado\u201d<\/em><\/p>\n<p>A conversa ficou ali. Curta. Quase banal.<\/p>\n<p>Uma pergunta. Duas ou tr\u00eas respostas. Um\u00a0<em>\u201cObrigado\u201d<\/em>\u00a0no fim.<\/p>\n<p>E, no entanto, n\u00e3o saiu de mim.<\/p>\n<p><em>\u201cEu sabia que havia mais qualquer coisa\u2026\u201d<\/em><\/p>\n<p>Foi a \u00faltima coisa que ele escreveu. E essa frase ficou.<\/p>\n<p>N\u00e3o ficou por causa da Ver\u00f3nica. Mas ficou por causa desse\u00a0<em>\u201cmais\u201d.<\/em><\/p>\n<p>________________________________________<\/p>\n<p>Horas depois, entrei numa das Unidades do meu hospital.<\/p>\n<p>Era um daqueles dias cinzentos. Sem grandes acontecimentos, mas com a visibilidade dos cansa\u00e7os que se v\u00e3o acumulando em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Um doente mais agitado. Outro completamente fechado. Profissionais a fazerem o que podem. E, muitas vezes, a fazerem um pouco mais do que podem\u2026<\/p>\n<p>Sentei-me ao lado de um homem que conhe\u00e7o h\u00e1 algum tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe disse grande coisa.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>Fic\u00e1mos ali.<\/p>\n<p>Ao fim de um bocado, passou uma auxiliar.<\/p>\n<p>Vinha com pressa, como quase sempre v\u00eam com pressa, porque o trabalho aperta.<\/p>\n<p>Parou um segundo. Olhou para ele.<\/p>\n<p><em>\u2014 \u201cTem aqui a cara toda suja\u2026\u201d<\/em><\/p>\n<p>Disse-o com naturalidade. Sem peso. Sem discurso.<\/p>\n<p>Foi buscar um pano. Molhou-o. E limpou-lhe o rosto.<\/p>\n<p>Demorou menos de um minuto.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve nenhum sil\u00eancio solene. N\u00e3o houve nenhuma frase marcante. N\u00e3o houve nada que, visto de fora, justificasse parar.<\/p>\n<p>Acabou. E seguiu. Como quem faz apenas o que tem a fazer.<\/p>\n<p>Mas ele ficou.<\/p>\n<p>Diferente.<\/p>\n<p>Endireitou-se ligeiramente. Passou a m\u00e3o pelo rosto, como quem reconhece qualquer coisa. E ficou a olhar em frente de outra maneira.<\/p>\n<p>Nada de extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>E, no entanto, ali estava.<\/p>\n<p>________________________________________<\/p>\n<p>Lembrei-me da mensagem do Tiago.<\/p>\n<p><em>\u201cEu sabia que havia mais qualquer coisa\u2026\u201d<\/em><\/p>\n<p>Sim. H\u00e1.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 mais informa\u00e7\u00e3o. Nem mais detalhe hist\u00f3rico. Nem mais precis\u00e3o sobre quem era ou deixava de ser.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>\u201cmais\u201d<\/em>\u00a0est\u00e1 noutro lugar.<\/p>\n<p>A Ver\u00f3nica, seja ela quem for, n\u00e3o muda o rumo da hist\u00f3ria. N\u00e3o impede a cruz. N\u00e3o altera o fim. Faz um gesto pequeno.<\/p>\n<p>Quase in\u00fatil, se for medido pelos resultados.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 in\u00fatil.<\/p>\n<p>Porque naquele momento, algu\u00e9m deixa de ser apenas sofrimento exposto e volta, ainda que por instantes, a ser algu\u00e9m.<\/p>\n<p>E isso faz uma diferen\u00e7a gigantesca. Sim, faz\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o muda tudo \u00e0 nossa volta, \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Mas muda algu\u00e9m.<\/p>\n<p>________________________________________<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes procuramos o\u00a0<em>\u201cmais\u201d\u00a0<\/em>em explica\u00e7\u00f5es e ficamos presos \u00e0 ideia de que s\u00f3 vale a pena o que resolve. O que \u00e9 mensur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas no hospital, tal como na vida, h\u00e1 demasiadas coisas que n\u00e3o se resolvem. E o\u00a0<em>\u201cmais\u201d<\/em>\u00a0est\u00e1 quase sempre nos gestos que passam despercebidos.<\/p>\n<p>E a pergunta da Ver\u00f3nica, que parece antiga, afinal n\u00e3o o \u00e9.<\/p>\n<p>Repete-se todos os dias, nos corredores e nas Unidades de internamento:<\/p>\n<p>quando n\u00e3o d\u00e1 para curar,<\/p>\n<p>quando n\u00e3o d\u00e1 para impedir,<\/p>\n<p>quando n\u00e3o d\u00e1 sequer para explicar\u2026<\/p>\n<p>quando tudo \u00e9 insuficiente,<\/p>\n<p>quando nada parece chegar,<\/p>\n<p>quando o que fazemos \u00e9 sempre pouco\u2026<\/p>\n<p>ainda assim, fazemos<\/p>\n<p>ou passamos ao lado?<\/p>\n<p>tu passas ao lado<\/p>\n<p>ou aproximas-te?<\/p>\n<p>A conversa acabou com um <em>\u201cObrigado\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Mas acho que a resposta, a \u00fanica que realmente interessa, n\u00e3o se escreve em mensagens.<\/p>\n<p>Escreve-se nisto: num pano molhado, num rosto limpo, num segundo de interrup\u00e7\u00e3o do abandono.<\/p>\n<p>(Fernando d&#8217;Oliveira)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mensagem chegou-me por WhatsApp como tantas outras: chegou sem contexto, sem aviso, no meio de coisas pequenas que ocupam o dia. Era uma mensagem do Tiago, um colega do meu hospital.Simples, directo: \u2014 \u201cUma quest\u00e3o\u2026 Quem era a Ver\u00f3nica?&#8221; Fiquei a olhar para o ecr\u00e3 durante uns segundos. Podia ter respondido logo: \u201cN\u00e3o aparece na B\u00edblia.\u201d E teria sido verdade. Mas tamb\u00e9m teria sido curto demais. E, se calhar, seria at\u00e9 um pouco defensivo, como se fechasse a porta \u00e0 pergunta antes mesmo de a deixar entrar. Escrevi: \u2014 \u201cCuriosamente\u2026 n\u00e3o aparece nos Evangelhos. Mas na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica foi a mulher que limpou o rosto de Jesus quando ele levava a cruz \u00e0s costas.\u201d \u2014 \u201cExacto\u2026 mas por acaso n\u00e3o sei quem ela era\u201d\u00a0\u2013 respondeu ele. Completei a minha resposta:\u2014 \u201cN\u00e3o h\u00e1 muitas refer\u00eancias sobre ela, apenas que durante o caminho de Jesus para o Calv\u00e1rio, uma mulher sai da multid\u00e3o, aproxima-se dele e limpa-lhe o rosto com um pano, e nesse pano teria ficado impressa a face de Cristo\u201d. \u2014 \u201cPois&#8230; Eu sabia que havia mais qualquer coisa, que n\u00e3o &#8220;apenas&#8221; limpar o rosto. Obrigado\u201d A conversa ficou ali. Curta. Quase banal. Uma pergunta. Duas ou tr\u00eas respostas. Um\u00a0\u201cObrigado\u201d\u00a0no fim. E, no entanto, n\u00e3o saiu de mim. \u201cEu sabia que havia mais qualquer coisa\u2026\u201d Foi a \u00faltima coisa que ele escreveu. E essa frase ficou. N\u00e3o ficou por causa da Ver\u00f3nica. Mas ficou por causa desse\u00a0\u201cmais\u201d. ________________________________________ Horas depois, entrei numa das Unidades do meu hospital. Era um daqueles dias cinzentos. Sem grandes acontecimentos, mas com a visibilidade dos cansa\u00e7os que se v\u00e3o acumulando em sil\u00eancio. Um doente mais agitado. Outro completamente fechado. Profissionais a fazerem o que podem. E, muitas vezes, a fazerem um pouco mais do que podem\u2026 Sentei-me ao lado de um homem que conhe\u00e7o h\u00e1 algum tempo. N\u00e3o lhe disse grande coisa. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o. Fic\u00e1mos ali. Ao fim de um bocado, passou uma auxiliar. Vinha com pressa, como quase sempre v\u00eam com pressa, porque o trabalho aperta. Parou um segundo. Olhou para ele. \u2014 \u201cTem aqui a cara toda suja\u2026\u201d Disse-o com naturalidade. Sem peso. Sem discurso. Foi buscar um pano. Molhou-o. E limpou-lhe o rosto. Demorou menos de um minuto. N\u00e3o houve nenhum sil\u00eancio solene. N\u00e3o houve nenhuma frase marcante. N\u00e3o houve nada que, visto de fora, justificasse parar. Acabou. E seguiu. Como quem faz apenas o que tem a fazer. Mas ele ficou. Diferente. Endireitou-se ligeiramente. Passou a m\u00e3o pelo rosto, como quem reconhece qualquer coisa. E ficou a olhar em frente de outra maneira. Nada de extraordin\u00e1rio. E, no entanto, ali estava. ________________________________________ Lembrei-me da mensagem do Tiago. \u201cEu sabia que havia mais qualquer coisa\u2026\u201d Sim. H\u00e1. Mas n\u00e3o \u00e9 mais informa\u00e7\u00e3o. Nem mais detalhe hist\u00f3rico. Nem mais precis\u00e3o sobre quem era ou deixava de ser. O\u00a0\u201cmais\u201d\u00a0est\u00e1 noutro lugar. A Ver\u00f3nica, seja ela quem for, n\u00e3o muda o rumo da hist\u00f3ria. N\u00e3o impede a cruz. N\u00e3o altera o fim. Faz um gesto pequeno. Quase in\u00fatil, se for medido pelos resultados. Mas n\u00e3o \u00e9 in\u00fatil. Porque naquele momento, algu\u00e9m deixa de ser apenas sofrimento exposto e volta, ainda que por instantes, a ser algu\u00e9m. E isso faz uma diferen\u00e7a gigantesca. Sim, faz\u2026 N\u00e3o muda tudo \u00e0 nossa volta, \u00e9 verdade. Mas muda algu\u00e9m. ________________________________________ &nbsp; \u00c0s vezes procuramos o\u00a0\u201cmais\u201d\u00a0em explica\u00e7\u00f5es e ficamos presos \u00e0 ideia de que s\u00f3 vale a pena o que resolve. O que \u00e9 mensur\u00e1vel. Mas no hospital, tal como na vida, h\u00e1 demasiadas coisas que n\u00e3o se resolvem. E o\u00a0\u201cmais\u201d\u00a0est\u00e1 quase sempre nos gestos que passam despercebidos. E a pergunta da Ver\u00f3nica, que parece antiga, afinal n\u00e3o o \u00e9. Repete-se todos os dias, nos corredores e nas Unidades de internamento: quando n\u00e3o d\u00e1 para curar, quando n\u00e3o d\u00e1 para impedir, quando n\u00e3o d\u00e1 sequer para explicar\u2026 quando tudo \u00e9 insuficiente, quando nada parece chegar, quando o que fazemos \u00e9 sempre pouco\u2026 ainda assim, fazemos ou passamos ao lado? tu passas ao lado ou aproximas-te? A conversa acabou com um \u201cObrigado\u201d. Mas acho que a resposta, a \u00fanica que realmente interessa, n\u00e3o se escreve em mensagens. Escreve-se nisto: num pano molhado, num rosto limpo, num segundo de interrup\u00e7\u00e3o do abandono. (Fernando d&#8217;Oliveira)<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":32573,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[77],"tags":[],"class_list":["post-32572","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-ao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32572","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32572"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32572\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32573"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32572"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32572"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32572"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}