{"id":32584,"date":"2026-06-25T09:34:19","date_gmt":"2026-06-25T09:34:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32584"},"modified":"2026-06-27T11:00:28","modified_gmt":"2026-06-27T11:00:28","slug":"santo-agostinho-e-a-ia-o-pensamento-agostiniano-na-magnifica-humanitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/santo-agostinho-e-a-ia-o-pensamento-agostiniano-na-magnifica-humanitas\/","title":{"rendered":"Santo Agostinho e a IA: o pensamento agostiniano na Magnifica humanitas"},"content":{"rendered":"<p>Neste coment\u00e1rio, frei Enrique Eguiarte, OAR, um dos maiores especialistas contempor\u00e2neos em Santo Agostinho, analisa o profundo pano de fundo agostiniano presente na Enc\u00edclica Magnifica humanitas do Papa Le\u00e3o XIV. A partir das refer\u00eancias expl\u00edcitas e impl\u00edcitas ao bispo de Hipona, o autor mostra como conceitos centrais da tradi\u00e7\u00e3o agostiniana \u2014 a dignidade humana, a verdade, a justi\u00e7a, a paz e a unidade \u2014 iluminam o debate contempor\u00e2neo sobre a Intelig\u00eancia Artificial (IA), o mundo digital e o futuro da humanidade.<\/p>\n<h2>Babel ou Jerusal\u00e9m: a grande decis\u00e3o do mundo digital<\/h2>\n<p>A nova enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV, Magnifica humanitas, segue em todos os momentos um esquema nitidamente agostiniano. Desde as imagens que prop\u00f5e no in\u00edcio do documento \u2014 a torre de Babel e a reconstru\u00e7\u00e3o da muralha de Jerusal\u00e9m por parte de Neemias \u2014 ficam resumidos os principais conte\u00fados da enc\u00edclica.<\/p>\n<p>Deste modo, aqueles que buscam nos elementos tecnol\u00f3gicos e cibern\u00e9ticos novos modos de domina\u00e7\u00e3o e de exerc\u00edcio do poder, esquecendo a dignidade do ser humano, s\u00e3o comparados aos construtores da torre de Babel. A eles a enc\u00edclica dirige uma exorta\u00e7\u00e3o e um chamado para redescobrir n\u00e3o apenas a dignidade de toda pessoa humana, mas tamb\u00e9m a necessidade de viver na verdade. Para isso, o hparte dos princ\u00edpios essenciais da Doutrina Social da Igreja, n\u00e3o apenas para coment\u00e1-los, mas para aplic\u00e1-los ao uso e ao usufruto dos meios digitais contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Como fundamento do pensamento de Le\u00e3o XIV \u2014 e n\u00e3o poderia ser de outro modo \u2014 aparece a figura luminosa de Santo Agostinho. Dele s\u00e3o mencionados quatro textos expl\u00edcitos e um impl\u00edcito.<\/p>\n<p>O primeiro deles, e com uma l\u00f3gica evidente ao tratar da dignidade do ser humano e de sua grandeza, \u00e9 a conhecida passagem das Confiss\u00f5es: \u201cFizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 inquieto enquanto n\u00e3o descansar em ti\u201d (conf. 1,1).<\/p>\n<p>Trata-se de um texto que resume admiravelmente tudo o que o pont\u00edfice apresenta sobre a dignidade humana. De fato, como assinala o Papa, reiterando a doutrina cl\u00e1ssica da Igreja, o ser humano possui dignidade porque foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus (Gn 1,26). Por isso, toda pessoa n\u00e3o apenas possui dignidade, mas tamb\u00e9m uma grandeza impl\u00edcita e ontol\u00f3gica, que n\u00e3o depende de sua produtividade nem de sua valoriza\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n<p>Essa grandeza \u00e9 inerente ao seu ser, pois foi criada \u00e0 imagem de Deus e traz em si um cora\u00e7\u00e3o inquieto que a impulsiona para Ele, sendo a \u00fanica criatura do universo chamada a participar eternamente da vida divina.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o Papa cita outro texto que, de algum modo, percorre toda a enc\u00edclica como um baixo cont\u00ednuo. Trata-se do pensamento apresentado por Santo Agostinho em A Cidade de Deus, convertido no fundamento de toda esta obra e, ao mesmo tempo, no centro da teologia agostiniana da hist\u00f3ria: \u201cDois amores edificaram duas cidades\u201d.<\/p>\n<p>Posteriormente, o bispo de Hipona explica quais s\u00e3o esses dois amores: \u201co amor de si mesmo at\u00e9 o desprezo de Deus e o amor de Deus at\u00e9 o desprezo de si mesmo\u201d (ciu. 14,28). Esta \u00e9 a alternativa diante da qual se encontra todo ser humano e segundo a qual constr\u00f3i uma das duas cidades.<\/p>\n<p>Novamente, como assinala acertadamente o Papa no in\u00edcio da enc\u00edclica, \u00e9 necess\u00e1rio optar entre Babel e Jerusal\u00e9m. Para Santo Agostinho, a cidade deste mundo \u00e9 Babil\u00f4nia, cujo nome est\u00e1 etimologicamente relacionado com Babel, pois ambas significam \u2014 como recorda o pr\u00f3prio Agostinho aludindo \u00e0s l\u00ednguas sem\u00edticas \u2014 \u201cconfus\u00e3o\u201d (en. Ps. 136,1).<\/p>\n<p>Frente a isso, a cidade de Deus pode identificar-se espiritualmente com Jerusal\u00e9m. Por isso Santo Agostinho destaca que Jerusal\u00e9m pode ser interpretada exegeticamente como \u201cvis\u00e3o de paz\u201d (en. Ps. 136,1), meta \u00faltima da peregrina\u00e7\u00e3o do ser humano neste mundo.<\/p>\n<p>Assim, a Doutrina Social da Igreja ajuda para que os elementos pr\u00f3prios da Intelig\u00eancia Artificial e do mundo digital possam se orientar e se converter em ferramentas \u00fateis para os peregrinos que se dirigem a Deus, e n\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, em obst\u00e1culos que n\u00e3o apenas arrebatam a dignidade dos seres humanos, mas acabam se tornando impedimentos para sua aut\u00eantica realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Justi\u00e7a, paz e dignidade humana no pensamento de Santo Agostinho<\/h2>\n<p>Posteriormente, cita-se um texto da Enarratio in Psalmum 84, no qual Santo Agostinho comenta o vers\u00edculo do Salmo 84,11b (85,11b): \u201cA justi\u00e7a e a paz se beijam\u201d.<\/p>\n<p>Santo Agostinho comenta:<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m h\u00e1 que n\u00e3o deseje estar em paz, mas nem todos querem praticar a justi\u00e7a. [\u2026] Mas tu deves praticar a justi\u00e7a, j\u00e1 que a paz e a justi\u00e7a se beijam, n\u00e3o est\u00e3o em disc\u00f3rdia. E tu, por que n\u00e3o est\u00e1s de acordo com a justi\u00e7a? Por exemplo, diz-te a justi\u00e7a: n\u00e3o roubes, e tu n\u00e3o lhe d\u00e1s ouvidos; n\u00e3o cometas adult\u00e9rio, e te fazes de surdo; n\u00e3o fa\u00e7as a outro o que n\u00e3o queres que fa\u00e7am a ti; n\u00e3o fales de outros o que n\u00e3o queres que falem de ti. [\u2026] Queres encontrar-te com a paz? Pratica a justi\u00e7a\u201d (en. Ps. 84,12).<\/p>\n<p>Na extensa passagem recolhida pela enc\u00edclica, o bispo de Hipona assinala que n\u00e3o pode existir paz sem justi\u00e7a, insistindo que ambos os elementos s\u00e3o insepar\u00e1veis. Onde h\u00e1 justi\u00e7a, favorece-se necessariamente o surgimento da paz.<\/p>\n<p>Em seu coment\u00e1rio ao salmo, Santo Agostinho introduz ainda outro elemento fundamental para a enc\u00edclica: o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, embora este segundo texto n\u00e3o tenha sido usado no documento pontif\u00edcio.<\/p>\n<p>A natureza humana goza de uma dignidade insuspeitada porque o Filho de Deus assumiu a carne no seio da Virgem Maria. Precisamente a isso alude Santo Agostinho pouco depois do texto citado pelo Papa, quando comenta o vers\u00edculo: \u201cA verdade brotou da terra\u201d.<\/p>\n<p>O bispo de Hipona interpreta estas palavras como uma refer\u00eancia ao nascimento de Cristo, pois Ele \u00e9 a Verdade que se fez verdadeiramente carne no seio de Maria, simbolizada pela terra fecunda (cf. en. Ps. 84,13).<\/p>\n<h2>Unidade, comunh\u00e3o e corpo de Cristo na era digital<\/h2>\n<p>Uma terceira cita\u00e7\u00e3o \u00e9 extra\u00edda do Serm\u00e3o 272, uma brev\u00edssima homilia que Santo Agostinho pregou em um domingo de P\u00e1scoa aos seus fi\u00e9is, especialmente aos ne\u00f3fitos ou infantes, como gostava de cham\u00e1-los.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o texto:<\/p>\n<p>\u201cO que vemos tem aspecto corporal; o que entendemos, fruto espiritual. Portanto, se queres entender o corpo de Cristo, ouve o Ap\u00f3stolo que diz aos fi\u00e9is: V\u00f3s sois o corpo de Cristo e seus membros (1 Cor 12,27). Em consequ\u00eancia, se v\u00f3s sois o corpo de Cristo e seus membros, sobre a mesa do Senhor est\u00e1 posto o mist\u00e9rio que v\u00f3s mesmos sois: recebeis o mist\u00e9rio que sois v\u00f3s. A isso que sois, respondeis \u201cAm\u00e9m\u201d, e ao responder (assim) o confirmais. Ouves, pois: \u201cCorpo de Cristo\u201d, e respondes: \u201cAm\u00e9m\u201d. S\u00ea membro do corpo de Cristo, para que o teu \u201cAm\u00e9m\u201d responda \u00e0 verdade\u201d.<\/p>\n<p>Neste texto, breve, mas denso, Santo Agostinho sublinha dois elementos que o Papa retoma expressamente: a unidade e o compromisso de perseverar nela, pois todos formamos o Corpo de Cristo, bem como a santidade, dado que esse Corpo \u00e9 santo.<\/p>\n<p>Por isso adquire grande relev\u00e2ncia a resposta dos fi\u00e9is: o \u201cAm\u00e9m\u201d. Esta afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas expressa a f\u00e9 na presen\u00e7a real do Corpo de Cristo nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas, mas tamb\u00e9m o duplo compromisso de trabalhar pela constru\u00e7\u00e3o da paz e de viver santamente como membros dignos desse mesmo Corpo.<\/p>\n<p>A \u00faltima cita\u00e7\u00e3o de Santo Agostinho \u00e9 impl\u00edcita, pois o Papa retoma palavras pronunciadas em seu discurso \u00e0 C\u00faria Romana por ocasi\u00e3o da sauda\u00e7\u00e3o de Natal em 22 de dezembro de 2025, onde reiterou a frase agostiniana escolhida como lema pontifical: In illo uno unum, ou seja, \u201cnaquele que \u00e9 um, sejamos todos um\u201d (en. Ps. 127,3).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui aparece o convite \u00e0 unidade, ao trabalho comum e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o compartilhada da cidade de Deus, a Jerusal\u00e9m celestial. Unidos, como Neemias na reconstru\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, e n\u00e3o dispersos no ego\u00edsmo pr\u00f3prio de Babel.<\/p>\n<h2>A contribui\u00e7\u00e3o agostiniana de Magnifica humanitas<\/h2>\n<p>Assim, embora as cita\u00e7\u00f5es textuais de Santo Agostinho n\u00e3o sejam numerosas, o pensamento agostiniano percorre toda a enc\u00edclica e sustenta suas linhas mestras: a caridade como princ\u00edpio fundamental da Doutrina Social da Igreja; o amor e a paix\u00e3o pela verdade; a dignidade do ser humano criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus \u2014 ideia presente nos diversos coment\u00e1rios agostinianos ao livro do G\u00eanesis \u2014; a busca da justi\u00e7a; a oposi\u00e7\u00e3o a toda forma de explora\u00e7\u00e3o humana; a rejei\u00e7\u00e3o da guerra; o amor \u00e0 paz; o valor da forma\u00e7\u00e3o e da educa\u00e7\u00e3o; a fraternidade universal; e, finalmente, o destino eterno de todo ser humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste coment\u00e1rio, frei Enrique Eguiarte, OAR, um dos maiores especialistas contempor\u00e2neos em Santo Agostinho, analisa o profundo pano de fundo agostiniano presente na Enc\u00edclica Magnifica humanitas do Papa Le\u00e3o XIV. A partir das refer\u00eancias expl\u00edcitas e impl\u00edcitas ao bispo de Hipona, o autor mostra como conceitos centrais da tradi\u00e7\u00e3o agostiniana \u2014 a dignidade humana, a verdade, a justi\u00e7a, a paz e a unidade \u2014 iluminam o debate contempor\u00e2neo sobre a Intelig\u00eancia Artificial (IA), o mundo digital e o futuro da humanidade. Babel ou Jerusal\u00e9m: a grande decis\u00e3o do mundo digital A nova enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV, Magnifica humanitas, segue em todos os momentos um esquema nitidamente agostiniano. Desde as imagens que prop\u00f5e no in\u00edcio do documento \u2014 a torre de Babel e a reconstru\u00e7\u00e3o da muralha de Jerusal\u00e9m por parte de Neemias \u2014 ficam resumidos os principais conte\u00fados da enc\u00edclica. 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O primeiro deles, e com uma l\u00f3gica evidente ao tratar da dignidade do ser humano e de sua grandeza, \u00e9 a conhecida passagem das Confiss\u00f5es: \u201cFizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 inquieto enquanto n\u00e3o descansar em ti\u201d (conf. 1,1). Trata-se de um texto que resume admiravelmente tudo o que o pont\u00edfice apresenta sobre a dignidade humana. De fato, como assinala o Papa, reiterando a doutrina cl\u00e1ssica da Igreja, o ser humano possui dignidade porque foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus (Gn 1,26). Por isso, toda pessoa n\u00e3o apenas possui dignidade, mas tamb\u00e9m uma grandeza impl\u00edcita e ontol\u00f3gica, que n\u00e3o depende de sua produtividade nem de sua valoriza\u00e7\u00e3o externa. 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Novamente, como assinala acertadamente o Papa no in\u00edcio da enc\u00edclica, \u00e9 necess\u00e1rio optar entre Babel e Jerusal\u00e9m. Para Santo Agostinho, a cidade deste mundo \u00e9 Babil\u00f4nia, cujo nome est\u00e1 etimologicamente relacionado com Babel, pois ambas significam \u2014 como recorda o pr\u00f3prio Agostinho aludindo \u00e0s l\u00ednguas sem\u00edticas \u2014 \u201cconfus\u00e3o\u201d (en. Ps. 136,1). Frente a isso, a cidade de Deus pode identificar-se espiritualmente com Jerusal\u00e9m. Por isso Santo Agostinho destaca que Jerusal\u00e9m pode ser interpretada exegeticamente como \u201cvis\u00e3o de paz\u201d (en. Ps. 136,1), meta \u00faltima da peregrina\u00e7\u00e3o do ser humano neste mundo. Assim, a Doutrina Social da Igreja ajuda para que os elementos pr\u00f3prios da Intelig\u00eancia Artificial e do mundo digital possam se orientar e se converter em ferramentas \u00fateis para os peregrinos que se dirigem a Deus, e n\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, em obst\u00e1culos que n\u00e3o apenas arrebatam a dignidade dos seres humanos, mas acabam se tornando impedimentos para sua aut\u00eantica realiza\u00e7\u00e3o. Justi\u00e7a, paz e dignidade humana no pensamento de Santo Agostinho Posteriormente, cita-se um texto da Enarratio in Psalmum 84, no qual Santo Agostinho comenta o vers\u00edculo do Salmo 84,11b (85,11b): \u201cA justi\u00e7a e a paz se beijam\u201d. Santo Agostinho comenta: \u201cNingu\u00e9m h\u00e1 que n\u00e3o deseje estar em paz, mas nem todos querem praticar a justi\u00e7a. [\u2026] Mas tu deves praticar a justi\u00e7a, j\u00e1 que a paz e a justi\u00e7a se beijam, n\u00e3o est\u00e3o em disc\u00f3rdia. E tu, por que n\u00e3o est\u00e1s de acordo com a justi\u00e7a? Por exemplo, diz-te a justi\u00e7a: n\u00e3o roubes, e tu n\u00e3o lhe d\u00e1s ouvidos; n\u00e3o cometas adult\u00e9rio, e te fazes de surdo; n\u00e3o fa\u00e7as a outro o que n\u00e3o queres que fa\u00e7am a ti; n\u00e3o fales de outros o que n\u00e3o queres que falem de ti. [\u2026] Queres encontrar-te com a paz? Pratica a justi\u00e7a\u201d (en. Ps. 84,12). Na extensa passagem recolhida pela enc\u00edclica, o bispo de Hipona assinala que n\u00e3o pode existir paz sem justi\u00e7a, insistindo que ambos os elementos s\u00e3o insepar\u00e1veis. Onde h\u00e1 justi\u00e7a, favorece-se necessariamente o surgimento da paz. Em seu coment\u00e1rio ao salmo, Santo Agostinho introduz ainda outro elemento fundamental para a enc\u00edclica: o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, embora este segundo texto n\u00e3o tenha sido usado no documento pontif\u00edcio. A natureza humana goza de uma dignidade insuspeitada porque o Filho de Deus assumiu a carne no seio da Virgem Maria. Precisamente a isso alude Santo Agostinho pouco depois do texto citado pelo Papa, quando comenta o vers\u00edculo: \u201cA verdade brotou da terra\u201d. O bispo de Hipona interpreta estas palavras como uma refer\u00eancia ao nascimento de Cristo, pois Ele \u00e9 a Verdade que se fez verdadeiramente carne no seio de Maria, simbolizada pela terra fecunda (cf. en. Ps. 84,13). 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