{"id":32602,"date":"2026-06-29T09:22:25","date_gmt":"2026-06-29T09:22:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32602"},"modified":"2026-06-29T09:22:25","modified_gmt":"2026-06-29T09:22:25","slug":"os-sentidos-e-a-linguagem-liturgica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/os-sentidos-e-a-linguagem-liturgica\/","title":{"rendered":"Os sentidos e a linguagem lit\u00fargica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Secretariado Diocesano da Liturgia<\/strong><\/p>\n<p>Numa preciosa p\u00e1gina dos seus\u00a0<em>Sinais Sagrados<\/em>, Romano Guardini enaltece o\u00a0<strong>incenso<\/strong>:<\/p>\n<p><em>\u00ab\u201cVeio ent\u00e3o outro Anjo com um tur\u00edbulo de ouro na m\u00e3o e colocou-se junto do altar. Foram-lhe dadas muitas esp\u00e9cies de aromas, para que os oferecesse com as ora\u00e7\u00f5es de todos os santos, sobre o altar de ouro que est\u00e1 diante do trono. E das m\u00e3os do Anjo subiu \u00e0 presen\u00e7a de Deus o fumo dos aromas com as ora\u00e7\u00f5es dos santos\u201d (Ap 8, 3-4). Assim fala o Apocalipse.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma beleza t\u00e3o nobre no colocar dos gr\u00e3os dourados do incenso sobre as brasas e neste subir do fumo oloroso do tur\u00edbulo agitado! \u00c9 como melodia feita de movimento dominado e de fragr\u00e2ncia. Sem qualquer finalidade, pura como uma can\u00e7\u00e3o. Um belo desperdi\u00e7ar de coisas preciosas. Amor que se oferece, que se entrega todo.<\/em><\/p>\n<p><em>Como um dia, quando o Senhor repousava em Bet\u00e2nia e Maria trouxe nardo precioso, lho derramou sobre os sagrados p\u00e9s e lhos enxugou com os seus cabelos e o perfume encheu toda a casa. Um esp\u00edrito mesquinho murmurou: \u201cPara qu\u00ea tanto desperd\u00edcio?\u201d (Jo 12, 5) Mas o Filho de Deus replicou: \u201cDeixai-a; tinha-o guardado para o dia da minha sepultura\u201d (Jo 12, 8). Mist\u00e9rio da morte, do amor, do perfume, do sacrif\u00edcio.<\/em><\/p>\n<p><em>E o mesmo acontece tamb\u00e9m com o incenso: mist\u00e9rio da beleza que graciosamente se evola, sem utilidade pr\u00e1tica; do amor que arde e se consome, e n\u00e3o teme a morte. E tamb\u00e9m aqui se apresenta o esp\u00edrito tacanho que pergunta: \u00abPara qu\u00ea isto?\u00bb.<\/em><\/p>\n<p><em>Sacrif\u00edcio de agrad\u00e1vel odor, \u00e9 a pr\u00f3pria Escritura que o diz, s\u00e3o as ora\u00e7\u00f5es dos santos. S\u00edmbolo da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o incenso, e precisamente daquela ora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pensa em fins pr\u00e1ticos; que nada quer e que sobe, como o \u201cGl\u00f3ria\u201d no fim de cada salmo, que adora e quer dar gra\u00e7as a Deus, \u201cporque \u00e9 t\u00e3o grande e digno de gl\u00f3ria\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Pode certamente, neste s\u00edmbolo, misturar-se a vaidade. As nuvens perfumadas podem tamb\u00e9m dar origem a sufocante atmosfera de mist\u00e9rio, a uma alucina\u00e7\u00e3o religiosa dos sentidos. Se assim \u00e9, ent\u00e3o tem raz\u00e3o a consci\u00eancia crist\u00e3 em levantar obje\u00e7\u00f5es, reclamando uma ora\u00e7\u00e3o em \u201cesp\u00edrito e verdade\u201d, e recomendando que se seja casto e leal. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m na religi\u00e3o uma tacanhez que prov\u00e9m da mesquinhez de esp\u00edrito, da aridez de cora\u00e7\u00e3o, como a murmura\u00e7\u00e3o de Judas Iscariotes. Aqui, a ora\u00e7\u00e3o converte-se em utilidade espiritual: tem de ser bem medida e bem feita.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas tal mentalidade ignora por completo a r\u00e9gia munific\u00eancia da ora\u00e7\u00e3o que quer dar. Nada entende da profunda adora\u00e7\u00e3o. Nada entende da alma da ora\u00e7\u00e3o, que prescinde absolutamente de saber o porqu\u00ea e para qu\u00ea; antes sobe porque \u00e9 amor e perfume e beleza. E quanto mais ama, tanto mais \u00e9 sacrif\u00edcio, e o perfume evola-se do fogo consumidor\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>\u00abLiturgia dos sentidos\u00bb! Busca de singularidade, excentricidade sem raiz. Ter\u00e1 dito Gaud\u00ed que \u00aba originalidade consiste em voltar \u00e0 origem\u00bb; o fundamental pressuposto da criatividade \u00e9 a \u00abnatureza\u00bb e n\u00e3o a subjetividade dos supostos criadores. A Liturgia da Igreja sempre foi dos sentidos, porque \u00e9 sacramental, humana, decorre da encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica busca sinais, gestos, movimentos, coisas\u2026 que, com as palavras, formam um tecido lingu\u00edstico que abre caminho, de modo adequado, ao invis\u00edvel, ao inef\u00e1vel e inaudito, e que s\u00e3o o escopo dessa a\u00e7\u00e3o. Mas a busca de uma celebra\u00e7\u00e3o\u00a0<em>mais ativa\u00a0<\/em>por vezes tresmalha-se e percorre caminhos sem sa\u00edda ao usar \u00a0uma linguagem que se fecha sobre si mesma: autorreferencial. Para que essa busca n\u00e3o se torne v\u00e3, importa regressar aos fundamentos, \u00e0 origem da linguagem lit\u00fargica que jorra da B\u00edblia e se alimenta na amadurecida tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica.<\/p>\n<p>Uma certa tend\u00eancia\u00a0<em>popularista<\/em>, alimentada pela imagina\u00e7\u00e3o, por vezes bem perto do desvario, ignorando a tradi\u00e7\u00e3o e encerrando-se em si mesma, prop\u00f5e uma suposta linguagem alternativa. Esta n\u00e3o \u00e9 a linguagem da liturgia. Como profundamente se exprimiu Bento XVI num discurso aos bispos do Brasil em visita\u00a0<em>ad limina<\/em>: \u00ab<em>o culto n\u00e3o pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escurid\u00e3o ou uma simples autoafirma\u00e7\u00e3o. A verdadeira liturgia sup\u00f5e que Deus responda e nos mostre como podemos ador\u00e1-lo\u00bb\u00a0<\/em>(15 de abril de 2010)<em>.<\/em><\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o de uma liturgia que seja tamb\u00e9m um agir simb\u00f3lico que fale ao homem completo, na plenitude dos seus sentidos, e n\u00e3o um mero e urdido discurso, requer homogeneidade de gestos, sinais e palavras, na fidelidade \u00e0 positiva Revela\u00e7\u00e3o divina. A B\u00edblia e a tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica constituem um tesouro admir\u00e1vel de imensa e atual vitalidade, terreno f\u00e9rtil donde brotam os aut\u00eanticos sinais lit\u00fargicos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Secretariado Diocesano da Liturgia Numa preciosa p\u00e1gina dos seus\u00a0Sinais Sagrados, Romano Guardini enaltece o\u00a0incenso: \u00ab\u201cVeio ent\u00e3o outro Anjo com um tur\u00edbulo de ouro na m\u00e3o e colocou-se junto do altar. Foram-lhe dadas muitas esp\u00e9cies de aromas, para que os oferecesse com as ora\u00e7\u00f5es de todos os santos, sobre o altar de ouro que est\u00e1 diante do trono. E das m\u00e3os do Anjo subiu \u00e0 presen\u00e7a de Deus o fumo dos aromas com as ora\u00e7\u00f5es dos santos\u201d (Ap 8, 3-4). Assim fala o Apocalipse. H\u00e1 uma beleza t\u00e3o nobre no colocar dos gr\u00e3os dourados do incenso sobre as brasas e neste subir do fumo oloroso do tur\u00edbulo agitado! \u00c9 como melodia feita de movimento dominado e de fragr\u00e2ncia. Sem qualquer finalidade, pura como uma can\u00e7\u00e3o. Um belo desperdi\u00e7ar de coisas preciosas. Amor que se oferece, que se entrega todo. Como um dia, quando o Senhor repousava em Bet\u00e2nia e Maria trouxe nardo precioso, lho derramou sobre os sagrados p\u00e9s e lhos enxugou com os seus cabelos e o perfume encheu toda a casa. Um esp\u00edrito mesquinho murmurou: \u201cPara qu\u00ea tanto desperd\u00edcio?\u201d (Jo 12, 5) Mas o Filho de Deus replicou: \u201cDeixai-a; tinha-o guardado para o dia da minha sepultura\u201d (Jo 12, 8). Mist\u00e9rio da morte, do amor, do perfume, do sacrif\u00edcio. E o mesmo acontece tamb\u00e9m com o incenso: mist\u00e9rio da beleza que graciosamente se evola, sem utilidade pr\u00e1tica; do amor que arde e se consome, e n\u00e3o teme a morte. E tamb\u00e9m aqui se apresenta o esp\u00edrito tacanho que pergunta: \u00abPara qu\u00ea isto?\u00bb. Sacrif\u00edcio de agrad\u00e1vel odor, \u00e9 a pr\u00f3pria Escritura que o diz, s\u00e3o as ora\u00e7\u00f5es dos santos. S\u00edmbolo da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o incenso, e precisamente daquela ora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pensa em fins pr\u00e1ticos; que nada quer e que sobe, como o \u201cGl\u00f3ria\u201d no fim de cada salmo, que adora e quer dar gra\u00e7as a Deus, \u201cporque \u00e9 t\u00e3o grande e digno de gl\u00f3ria\u201d. Pode certamente, neste s\u00edmbolo, misturar-se a vaidade. As nuvens perfumadas podem tamb\u00e9m dar origem a sufocante atmosfera de mist\u00e9rio, a uma alucina\u00e7\u00e3o religiosa dos sentidos. Se assim \u00e9, ent\u00e3o tem raz\u00e3o a consci\u00eancia crist\u00e3 em levantar obje\u00e7\u00f5es, reclamando uma ora\u00e7\u00e3o em \u201cesp\u00edrito e verdade\u201d, e recomendando que se seja casto e leal. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m na religi\u00e3o uma tacanhez que prov\u00e9m da mesquinhez de esp\u00edrito, da aridez de cora\u00e7\u00e3o, como a murmura\u00e7\u00e3o de Judas Iscariotes. Aqui, a ora\u00e7\u00e3o converte-se em utilidade espiritual: tem de ser bem medida e bem feita. Mas tal mentalidade ignora por completo a r\u00e9gia munific\u00eancia da ora\u00e7\u00e3o que quer dar. Nada entende da profunda adora\u00e7\u00e3o. Nada entende da alma da ora\u00e7\u00e3o, que prescinde absolutamente de saber o porqu\u00ea e para qu\u00ea; antes sobe porque \u00e9 amor e perfume e beleza. E quanto mais ama, tanto mais \u00e9 sacrif\u00edcio, e o perfume evola-se do fogo consumidor\u00bb. \u00abLiturgia dos sentidos\u00bb! Busca de singularidade, excentricidade sem raiz. Ter\u00e1 dito Gaud\u00ed que \u00aba originalidade consiste em voltar \u00e0 origem\u00bb; o fundamental pressuposto da criatividade \u00e9 a \u00abnatureza\u00bb e n\u00e3o a subjetividade dos supostos criadores. A Liturgia da Igreja sempre foi dos sentidos, porque \u00e9 sacramental, humana, decorre da encarna\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica busca sinais, gestos, movimentos, coisas\u2026 que, com as palavras, formam um tecido lingu\u00edstico que abre caminho, de modo adequado, ao invis\u00edvel, ao inef\u00e1vel e inaudito, e que s\u00e3o o escopo dessa a\u00e7\u00e3o. Mas a busca de uma celebra\u00e7\u00e3o\u00a0mais ativa\u00a0por vezes tresmalha-se e percorre caminhos sem sa\u00edda ao usar \u00a0uma linguagem que se fecha sobre si mesma: autorreferencial. Para que essa busca n\u00e3o se torne v\u00e3, importa regressar aos fundamentos, \u00e0 origem da linguagem lit\u00fargica que jorra da B\u00edblia e se alimenta na amadurecida tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. Uma certa tend\u00eancia\u00a0popularista, alimentada pela imagina\u00e7\u00e3o, por vezes bem perto do desvario, ignorando a tradi\u00e7\u00e3o e encerrando-se em si mesma, prop\u00f5e uma suposta linguagem alternativa. Esta n\u00e3o \u00e9 a linguagem da liturgia. Como profundamente se exprimiu Bento XVI num discurso aos bispos do Brasil em visita\u00a0ad limina: \u00abo culto n\u00e3o pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escurid\u00e3o ou uma simples autoafirma\u00e7\u00e3o. A verdadeira liturgia sup\u00f5e que Deus responda e nos mostre como podemos ador\u00e1-lo\u00bb\u00a0(15 de abril de 2010). A recupera\u00e7\u00e3o de uma liturgia que seja tamb\u00e9m um agir simb\u00f3lico que fale ao homem completo, na plenitude dos seus sentidos, e n\u00e3o um mero e urdido discurso, requer homogeneidade de gestos, sinais e palavras, na fidelidade \u00e0 positiva Revela\u00e7\u00e3o divina. A B\u00edblia e a tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica constituem um tesouro admir\u00e1vel de imensa e atual vitalidade, terreno f\u00e9rtil donde brotam os aut\u00eanticos sinais lit\u00fargicos.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":32603,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-32602","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32602","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32602"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32602\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32603"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32602"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32602"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32602"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}