{"id":32626,"date":"2026-07-04T10:12:35","date_gmt":"2026-07-04T10:12:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32626"},"modified":"2026-07-04T10:12:35","modified_gmt":"2026-07-04T10:12:35","slug":"o-amor-de-alguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/o-amor-de-alguem\/","title":{"rendered":"O amor de algu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um erro em que ca\u00edmos muitas vezes, empurrados pela pressa.O de acreditar que, por detr\u00e1s da porta de um hospital, mora apenas um doente.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o. N\u00e3o mora. Definitivamente, n\u00e3o mora!<\/p>\n<p>Ali nunca est\u00e1 apenas um doente.<\/p>\n<p>Ali est\u00e1 o universo inteiro de uma vida.<\/p>\n<p>Est\u00e1 uma crian\u00e7a que um dia adormeceu ao colo da m\u00e3e. Est\u00e1 um pai que carregou o filho aos ombros. Est\u00e1 uma mulher que esperou anos pelo homem que amava. Est\u00e1 um amigo que conhecia o caminho para fazer sorrir quem chorava. Est\u00e1 algu\u00e9m que foi indispens\u00e1vel na vida de outra pessoa\u2026<\/p>\n<p>Porque ningu\u00e9m \u00e9 apenas aquilo que a doen\u00e7a deixou \u00e0 vista.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a pode rasgar o corpo, e pode at\u00e9 desfragmentar a mente, mas n\u00e3o apaga a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Silencia a voz, mas n\u00e3o cala o amor.<\/p>\n<p>Enfraquece a mem\u00f3ria, mas n\u00e3o consegue apagar as pegadas deixadas no cora\u00e7\u00e3o daqueles que um dia disseram:\u00a0<strong>\u201cAmo-te\u201d<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 sempre algu\u00e9m que, ao olhar para aquele rosto marcado pelo sofrimento, continua a ver beleza.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m que n\u00e3o v\u00ea sondas, n\u00e3o v\u00ea cicatrizes nem v\u00ea limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>V\u00ea o primeiro beijo.<\/p>\n<p>V\u00ea as m\u00e3os que embalaram um filho.<\/p>\n<p>V\u00ea os ser\u00f5es \u00e0 volta da mesa.<\/p>\n<p>V\u00ea as discuss\u00f5es que terminaram em perd\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00ea uma vida inteira.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que nenhum doente cabe numa cama.<\/p>\n<p>Porque h\u00e1 demasiadas vidas a habitarem dentro dele.<\/p>\n<p>E essa \u00e9 uma das grandes trag\u00e9dias do nosso tempo: aprendemos a medir as pessoas pelo que conseguem fazer, quando Deus nunca deixou de as medir pela infinita capacidade que t\u00eam de amar e de serem amadas.<\/p>\n<p>O Evangelho nunca nos apresenta um Cristo fascinado pelos fortes, ou apenas por aqueles que podiam pagar os cuidados.<\/p>\n<p>Jesus det\u00e9m-Se sempre onde os outros passam depressa.<\/p>\n<p>Ajoelha-Se diante da fragilidade.<\/p>\n<p>Toca a carne que todos evitam.<\/p>\n<p>Demora-Se junto de quem j\u00e1 ningu\u00e9m considera importante.<\/p>\n<p>Porque Deus conhece um segredo que n\u00f3s esquecemos demasiadas vezes:<\/p>\n<p>o valor de uma vida nunca diminui quando as suas for\u00e7as diminuem.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma santidade escondida na vulnerabilidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma esp\u00e9cie de sacramento em cada corpo ferido.<\/p>\n<p>Como se Deus continuasse a escolher a carne mais fr\u00e1gil para recordar ao mundo que o amor nunca depende da perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi esse segredo que S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus compreendeu como poucos.<\/p>\n<p>Quando todos viam pobres, loucos, abandonados e moribundos, ele via irm\u00e3os.<\/p>\n<p>N\u00e3o se aproximava para tratar apenas uma doen\u00e7a, mas para honrar uma dignidade.<\/p>\n<p>Sabia que cada pessoa transportava uma hist\u00f3ria que merecia ser escutada, um nome que merecia ser pronunciado com respeito e um cora\u00e7\u00e3o que continuava a ser infinitamente precioso aos olhos de Deus.<\/p>\n<p>A hospitalidade nasceu desse olhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o do desejo de curar apenas o corpo, mas da coragem de amar a pessoa inteira.<\/p>\n<p>Quando te aproximares de um doente, esquece, por um instante, a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Imagina a m\u00e3e que ainda reza por ele. Por aquele filho t\u00e3o amado.<\/p>\n<p>A filha que todos os dias pergunta ao pai como passou a noite.<\/p>\n<p>O pai que carregou \u00e0s cavalitas os filhos e os netos em animadas brincadeiras<\/p>\n<p>O marido que continua a acariciar o cabelo da esposa, mesmo quando ela j\u00e1 n\u00e3o sabe o seu nome.<\/p>\n<p>O neto que guarda uma fotografia antiga do av\u00f4 onde aquele rosto ainda ria.<\/p>\n<p>Depois, levanta ainda mais o olhar.<\/p>\n<p>Contempla Deus.<\/p>\n<p>N\u00e3o o Deus distante das ideias, mas o Deus que conhece aquele nome desde antes da cria\u00e7\u00e3o do mundo. O Deus que recolheu cada l\u00e1grima, que esteve presente em cada alegria, que nunca retirou os olhos daquele filho, nem quando o mundo deixou de o ver.<\/p>\n<p>\u00c9 esse o olhar que S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus nos deixou como heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Olhar at\u00e9 que a doen\u00e7a deixe de ser o centro.<\/p>\n<p>Olhar at\u00e9 que a pessoa volte a aparecer.<\/p>\n<p>Olhar at\u00e9 descobrir, por detr\u00e1s de cada fragilidade, algu\u00e9m que continua a ser amado sem medida.<\/p>\n<p>E nesse instante o olhar transforma-se.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1s diante de um desconhecido.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1s diante de um peso.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1s diante de &#8220;mais um&#8221;.<\/p>\n<p>Est\u00e1s diante do amor de uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Est\u00e1s diante do amor de Deus.<\/p>\n<p>Cuidar de um doente n\u00e3o \u00e9 apenas aliviar uma dor. \u00c9 entrar, descal\u00e7o, no lugar mais sagrado da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Porque um doente nunca \u00e9 apenas um doente.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre o amor de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>E \u00e9 sempre, para Deus, um filho infinitamente amado.<\/p>\n<p>(iMissio)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um erro em que ca\u00edmos muitas vezes, empurrados pela pressa.O de acreditar que, por detr\u00e1s da porta de um hospital, mora apenas um doente. Mas n\u00e3o. N\u00e3o mora. Definitivamente, n\u00e3o mora! Ali nunca est\u00e1 apenas um doente. Ali est\u00e1 o universo inteiro de uma vida. Est\u00e1 uma crian\u00e7a que um dia adormeceu ao colo da m\u00e3e. Est\u00e1 um pai que carregou o filho aos ombros. Est\u00e1 uma mulher que esperou anos pelo homem que amava. Est\u00e1 um amigo que conhecia o caminho para fazer sorrir quem chorava. Est\u00e1 algu\u00e9m que foi indispens\u00e1vel na vida de outra pessoa\u2026 Porque ningu\u00e9m \u00e9 apenas aquilo que a doen\u00e7a deixou \u00e0 vista. A doen\u00e7a pode rasgar o corpo, e pode at\u00e9 desfragmentar a mente, mas n\u00e3o apaga a hist\u00f3ria. Silencia a voz, mas n\u00e3o cala o amor. Enfraquece a mem\u00f3ria, mas n\u00e3o consegue apagar as pegadas deixadas no cora\u00e7\u00e3o daqueles que um dia disseram:\u00a0\u201cAmo-te\u201d H\u00e1 sempre algu\u00e9m que, ao olhar para aquele rosto marcado pelo sofrimento, continua a ver beleza. 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Porque Deus conhece um segredo que n\u00f3s esquecemos demasiadas vezes: o valor de uma vida nunca diminui quando as suas for\u00e7as diminuem. H\u00e1 uma santidade escondida na vulnerabilidade. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de sacramento em cada corpo ferido. Como se Deus continuasse a escolher a carne mais fr\u00e1gil para recordar ao mundo que o amor nunca depende da perfei\u00e7\u00e3o. Foi esse segredo que S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus compreendeu como poucos. Quando todos viam pobres, loucos, abandonados e moribundos, ele via irm\u00e3os. N\u00e3o se aproximava para tratar apenas uma doen\u00e7a, mas para honrar uma dignidade. Sabia que cada pessoa transportava uma hist\u00f3ria que merecia ser escutada, um nome que merecia ser pronunciado com respeito e um cora\u00e7\u00e3o que continuava a ser infinitamente precioso aos olhos de Deus. A hospitalidade nasceu desse olhar. N\u00e3o do desejo de curar apenas o corpo, mas da coragem de amar a pessoa inteira. Quando te aproximares de um doente, esquece, por um instante, a doen\u00e7a. Imagina a m\u00e3e que ainda reza por ele. Por aquele filho t\u00e3o amado. A filha que todos os dias pergunta ao pai como passou a noite. O pai que carregou \u00e0s cavalitas os filhos e os netos em animadas brincadeiras O marido que continua a acariciar o cabelo da esposa, mesmo quando ela j\u00e1 n\u00e3o sabe o seu nome. O neto que guarda uma fotografia antiga do av\u00f4 onde aquele rosto ainda ria. Depois, levanta ainda mais o olhar. Contempla Deus. N\u00e3o o Deus distante das ideias, mas o Deus que conhece aquele nome desde antes da cria\u00e7\u00e3o do mundo. O Deus que recolheu cada l\u00e1grima, que esteve presente em cada alegria, que nunca retirou os olhos daquele filho, nem quando o mundo deixou de o ver. \u00c9 esse o olhar que S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus nos deixou como heran\u00e7a. Olhar at\u00e9 que a doen\u00e7a deixe de ser o centro. Olhar at\u00e9 que a pessoa volte a aparecer. Olhar at\u00e9 descobrir, por detr\u00e1s de cada fragilidade, algu\u00e9m que continua a ser amado sem medida. E nesse instante o olhar transforma-se. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1s diante de um desconhecido. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1s diante de um peso. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1s diante de &#8220;mais um&#8221;. Est\u00e1s diante do amor de uma fam\u00edlia. Est\u00e1s diante do amor de Deus. Cuidar de um doente n\u00e3o \u00e9 apenas aliviar uma dor. \u00c9 entrar, descal\u00e7o, no lugar mais sagrado da exist\u00eancia humana. Porque um doente nunca \u00e9 apenas um doente. \u00c9 sempre o amor de algu\u00e9m. E \u00e9 sempre, para Deus, um filho infinitamente amado. 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