{"id":32647,"date":"2026-07-10T09:31:24","date_gmt":"2026-07-10T09:31:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32647"},"modified":"2026-07-10T09:31:24","modified_gmt":"2026-07-10T09:31:24","slug":"o-cisma-lefebvriano-e-a-dificil-unidade-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/o-cisma-lefebvriano-e-a-dificil-unidade-da-igreja\/","title":{"rendered":"O cisma lefebvriano e a dif\u00edcil unidade da Igreja"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Jorge Teixeira da Cunha<\/strong><\/p>\n<p>A Fraternidade S. Pio X reincidiu na ordena\u00e7\u00e3o de bispos sem mandato apost\u00f3lico do Papa, coisa que j\u00e1 tinha feito em 1988. No actual ordenamento can\u00f3nico, esse gesto \u00e9 punido com uma excomunh\u00e3o e provoca uma divis\u00e3o da Igreja que se chama cisma. Podemos olhar o assunto sob a forma de ruptura da unidade da Igreja, mas tamb\u00e9m olhar esse facto como um sintoma da unidade sempre imperfeita da Igreja de Cristo. O papa Le\u00e3o XIV n\u00e3o merecia esta provoca\u00e7\u00e3o desse impaciente grupo de crist\u00e3os, logo no in\u00edcio do seu servi\u00e7o de Pedro. Mas, a nosso ver, ele fez bem em n\u00e3o ceder \u00e0 chantagem que vinha sofrendo h\u00e1 meses.<\/p>\n<p>A Fraternidade S. Pio X \u00e9 um grupo de orienta\u00e7\u00e3o conservadora e reaccion\u00e1ria a que deu origem o bispo franc\u00eas Marcel Lefebvre (1905-1991), desde os dias do Conc\u00edlio Vaticano II. O foco das disc\u00f3rdias \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o das delibera\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio em mat\u00e9ria de liturgia, pois rejeitam a reforma lit\u00fargica, no que toca \u00e0 liberdade religiosa e ao di\u00e1logo inter-religioso. A raz\u00e3o imediata que invocaram para desobedecer foi o estado de necessidade, pois precisam de bispos para a assist\u00eancia dos cerca de meio milh\u00e3o de seguidores da sua orienta\u00e7\u00e3o. Os seus candidatos podem at\u00e9 ter qualidade, mas carecem do mandato apost\u00f3lico que Roma lhes tem recusado. Segundo bons canonistas, o estado de necessidade que foi invocado n\u00e3o se verifica e, por isso, a pretens\u00e3o do grupo n\u00e3o \u00e9 justificada.<\/p>\n<p>O que leva estes crist\u00e3os a proceder como precedem e n\u00e3o aceitar a orienta\u00e7\u00e3o da Igreja tomada num Conc\u00edlio ecum\u00e9nico? A nosso ver, trata-se de uma raz\u00e3o teol\u00f3gica. Vem a prop\u00f3sito recordar uma hist\u00f3ria que foi contada aos estudantes do fim dos anos setenta a respeito do bispo Lefebvre. Um seu professor de teologia da comunidade espiritana onde se formou com altas classifica\u00e7\u00f5es, sempre lhe dizia no termo do exame: \u201cMarcelo, fizeste um excelente exame, mas nada percebeste da mat\u00e9ria!\u201d Ora \u00e9 isto que est\u00e1 em causa nesta agremia\u00e7\u00e3o. A compreens\u00e3o racional da f\u00e9 que manifestam \u00e9 tipicamente moderna, cientificista, visibilista. Vivem concentrados sobre um formalismo severo na celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, encaram a Igreja como uma comunidade perfeitamente delimitada pela forma externa, uma institui\u00e7\u00e3o assente no direito e na distin\u00e7\u00e3o, pensam que a salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 no cumprimento escrupuloso de um programa de vida. Mas falta-lhes algo mais importante que a doutrina e a institui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a experi\u00eancia do mist\u00e9rio divino a que Jesus nos iniciou, antes de qualquer doutrina. Eles, e muitos que pensam como eles, s\u00e3o tipicamente modernos sem o saberem. T\u00eam a seu favor o sucesso das suas pr\u00e1ticas para muita gente perdido na cultura de massas em que vivemos, pois muitos preferem a seguran\u00e7a em vez da aventura da f\u00e9. Mas a seguran\u00e7a objectiva nunca foi um crit\u00e9rio de fidelidade ao Evangelho de Jesus.<\/p>\n<p>A Igreja \u00e9 uma comunidade cujas fronteiras s\u00e3o dif\u00edceis de precisar. A unidade da Igreja nunca existe de forma perfeita enquanto caminha na hist\u00f3ria. Por isso, o cisma que gora se consumou n\u00e3o tem uma import\u00e2ncia t\u00e3o grande. N\u00e3o est\u00e1 em causa a sinceridade de muitos dos seguidores dos movimentos conservadores que abundam nos dias que correm. Est\u00e1 em causa o esfor\u00e7o que \u00e9 pedido a todos por perseverarem na fidelidade \u201cao ensino dos ap\u00f3stolos, \u00e0 Eucaristia, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o do Senhor\u201d. As sensibilidades diversas n\u00e3o ofendem a unidade, antes a engrandecem, se forem vividas como forma de contribuir para a riqueza inesgot\u00e1vel da vida em Cristo. Mas a perseveran\u00e7a na comunh\u00e3o como servi\u00e7o de Pedro \u00e9 um aspecto fundamental da vida da Igreja de sempre, mesmo que possa revestir-se de diversas formas e seja perfect\u00edvel. Talvez um dia n\u00e3o seja j\u00e1 poss\u00edvel que todos os bispos sejam escolhidos pelo m\u00e9todo que tem sido nos \u00faltimos s\u00e9culos e sejam eleitos de uma forma melhor. Se a Fraternidade de S. Pio X tiver essa ideia melhor que a comunique a toda a Igreja e c\u00e1 estaremos para discutir o assunto, com sabedoria e com caridade. A sofreguid\u00e3o de avan\u00e7ar unilateralmente n\u00e3o \u00e9 sinal de caridade, nem de sabedoria nem de melhoramento. A pressa insofrida de muitos e bons crist\u00e3os j\u00e1 aconteceu no passado por diversas vezes e nunca o resultado melhorou a unidade e fidelidade a Cristo. Deste vez, tamb\u00e9m n\u00e3o parece que o gesto cism\u00e1tico v\u00e1 melhorar a fidelidade a Deus.<\/p>\n<div class=\"mh-social-bottom\">\n<div class=\"mh-share-buttons clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jorge Teixeira da Cunha A Fraternidade S. Pio X reincidiu na ordena\u00e7\u00e3o de bispos sem mandato apost\u00f3lico do Papa, coisa que j\u00e1 tinha feito em 1988. No actual ordenamento can\u00f3nico, esse gesto \u00e9 punido com uma excomunh\u00e3o e provoca uma divis\u00e3o da Igreja que se chama cisma. Podemos olhar o assunto sob a forma de ruptura da unidade da Igreja, mas tamb\u00e9m olhar esse facto como um sintoma da unidade sempre imperfeita da Igreja de Cristo. O papa Le\u00e3o XIV n\u00e3o merecia esta provoca\u00e7\u00e3o desse impaciente grupo de crist\u00e3os, logo no in\u00edcio do seu servi\u00e7o de Pedro. Mas, a nosso ver, ele fez bem em n\u00e3o ceder \u00e0 chantagem que vinha sofrendo h\u00e1 meses. A Fraternidade S. Pio X \u00e9 um grupo de orienta\u00e7\u00e3o conservadora e reaccion\u00e1ria a que deu origem o bispo franc\u00eas Marcel Lefebvre (1905-1991), desde os dias do Conc\u00edlio Vaticano II. O foco das disc\u00f3rdias \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o das delibera\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio em mat\u00e9ria de liturgia, pois rejeitam a reforma lit\u00fargica, no que toca \u00e0 liberdade religiosa e ao di\u00e1logo inter-religioso. A raz\u00e3o imediata que invocaram para desobedecer foi o estado de necessidade, pois precisam de bispos para a assist\u00eancia dos cerca de meio milh\u00e3o de seguidores da sua orienta\u00e7\u00e3o. Os seus candidatos podem at\u00e9 ter qualidade, mas carecem do mandato apost\u00f3lico que Roma lhes tem recusado. Segundo bons canonistas, o estado de necessidade que foi invocado n\u00e3o se verifica e, por isso, a pretens\u00e3o do grupo n\u00e3o \u00e9 justificada. O que leva estes crist\u00e3os a proceder como precedem e n\u00e3o aceitar a orienta\u00e7\u00e3o da Igreja tomada num Conc\u00edlio ecum\u00e9nico? A nosso ver, trata-se de uma raz\u00e3o teol\u00f3gica. Vem a prop\u00f3sito recordar uma hist\u00f3ria que foi contada aos estudantes do fim dos anos setenta a respeito do bispo Lefebvre. Um seu professor de teologia da comunidade espiritana onde se formou com altas classifica\u00e7\u00f5es, sempre lhe dizia no termo do exame: \u201cMarcelo, fizeste um excelente exame, mas nada percebeste da mat\u00e9ria!\u201d Ora \u00e9 isto que est\u00e1 em causa nesta agremia\u00e7\u00e3o. A compreens\u00e3o racional da f\u00e9 que manifestam \u00e9 tipicamente moderna, cientificista, visibilista. Vivem concentrados sobre um formalismo severo na celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, encaram a Igreja como uma comunidade perfeitamente delimitada pela forma externa, uma institui\u00e7\u00e3o assente no direito e na distin\u00e7\u00e3o, pensam que a salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 no cumprimento escrupuloso de um programa de vida. Mas falta-lhes algo mais importante que a doutrina e a institui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a experi\u00eancia do mist\u00e9rio divino a que Jesus nos iniciou, antes de qualquer doutrina. Eles, e muitos que pensam como eles, s\u00e3o tipicamente modernos sem o saberem. T\u00eam a seu favor o sucesso das suas pr\u00e1ticas para muita gente perdido na cultura de massas em que vivemos, pois muitos preferem a seguran\u00e7a em vez da aventura da f\u00e9. Mas a seguran\u00e7a objectiva nunca foi um crit\u00e9rio de fidelidade ao Evangelho de Jesus. A Igreja \u00e9 uma comunidade cujas fronteiras s\u00e3o dif\u00edceis de precisar. A unidade da Igreja nunca existe de forma perfeita enquanto caminha na hist\u00f3ria. Por isso, o cisma que gora se consumou n\u00e3o tem uma import\u00e2ncia t\u00e3o grande. N\u00e3o est\u00e1 em causa a sinceridade de muitos dos seguidores dos movimentos conservadores que abundam nos dias que correm. Est\u00e1 em causa o esfor\u00e7o que \u00e9 pedido a todos por perseverarem na fidelidade \u201cao ensino dos ap\u00f3stolos, \u00e0 Eucaristia, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o do Senhor\u201d. As sensibilidades diversas n\u00e3o ofendem a unidade, antes a engrandecem, se forem vividas como forma de contribuir para a riqueza inesgot\u00e1vel da vida em Cristo. Mas a perseveran\u00e7a na comunh\u00e3o como servi\u00e7o de Pedro \u00e9 um aspecto fundamental da vida da Igreja de sempre, mesmo que possa revestir-se de diversas formas e seja perfect\u00edvel. Talvez um dia n\u00e3o seja j\u00e1 poss\u00edvel que todos os bispos sejam escolhidos pelo m\u00e9todo que tem sido nos \u00faltimos s\u00e9culos e sejam eleitos de uma forma melhor. Se a Fraternidade de S. Pio X tiver essa ideia melhor que a comunique a toda a Igreja e c\u00e1 estaremos para discutir o assunto, com sabedoria e com caridade. A sofreguid\u00e3o de avan\u00e7ar unilateralmente n\u00e3o \u00e9 sinal de caridade, nem de sabedoria nem de melhoramento. A pressa insofrida de muitos e bons crist\u00e3os j\u00e1 aconteceu no passado por diversas vezes e nunca o resultado melhorou a unidade e fidelidade a Cristo. 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