{"id":32651,"date":"2026-07-11T11:42:27","date_gmt":"2026-07-11T11:42:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32651"},"modified":"2026-07-11T11:42:27","modified_gmt":"2026-07-11T11:42:27","slug":"pedro-sobreviver-a-vergonha-de-uma-identidade-ferida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/pedro-sobreviver-a-vergonha-de-uma-identidade-ferida\/","title":{"rendered":"Pedro \u2013 sobreviver \u00e0 vergonha de uma identidade ferida"},"content":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio de Judas, Pedro n\u00e3o trai por c\u00e1lculo. Trai por medo.<\/p>\n<p>Massimo Recalcati, fazendo uma leitura psicanalista, defende que a nega\u00e7\u00e3o de Pedro n\u00e3o revela um homem falso. Revela um homem dividido. A sua trai\u00e7\u00e3o entra em disson\u00e2ncia com aquilo que ele acreditava ser.<\/p>\n<p>Pedro n\u00e3o suporta descobrir que n\u00e3o \u00e9 o disc\u00edpulo corajoso que imaginava.<\/p>\n<p>A verdadeira ferida n\u00e3o \u00e9 ter negado Jesus. \u00c9 ter-se tornado irreconhec\u00edvel para si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Pedro experimenta aquilo que hoje chamar\u00edamos uma rutura narrativa do eu: a hist\u00f3ria que sustentava a sua identidade deixa de funcionar. O \u201ceu fiel\u201d colapsa diante do \u201ceu que teve medo\u201d.<\/p>\n<p>A trai\u00e7\u00e3o torna-se, assim, antes de tudo, uma trai\u00e7\u00e3o de si mesmo.<\/p>\n<p>E Pedro sente vergonha. A vergonha n\u00e3o diz: \u201cfiz algo de errado\u201d; diz: \u201ch\u00e1 uma fenda em mim\u201d.<\/p>\n<p>Pedro n\u00e3o foge apenas de Jesus. Foge do olhar que lhe revela quem ele \u00e9. E as l\u00e1grimas n\u00e3o s\u00e3o apenas arrependimento moral. S\u00e3o luto identit\u00e1rio. Morre o Pedro que (ele) pensava conhecer.<\/p>\n<p>A escritora Iris Murdoch diz que prometemos sempre a partir de uma imagem incompleta de n\u00f3s mesmos. Pedro prometera fidelidade absoluta, porque ainda n\u00e3o conhecia o alcance do seu medo. A queda revela-lhe n\u00e3o a aus\u00eancia de amor, mas a fragilidade do sujeito que ama.<\/p>\n<p>E o regresso \u00e0 pesca, depois de tudo o que aconteceu, \u00e9 a parte vis\u00edvel da regress\u00e3o do eu. Depois da P\u00e1scoa, Pedro volta ao mar. N\u00e3o \u00e9 simples nostalgia. \u00c9 tentativa de regressar a uma identidade anterior ao fracasso.<\/p>\n<p>Quando o eu colapsa, procuramos vers\u00f5es antigas de n\u00f3s pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>E o Ressuscitado aparece n\u00e3o nos templos, mas precisamente onde Pedro tenta esconder a sua falha: no quotidiano. Pedro est\u00e1 nu \u2013 imagem ad\u00e2mica do ser humano depois da queda.<\/p>\n<p>E, ao reconhecer Jesus, lan\u00e7a-se ao mar. Antes, quis caminhar sobre as \u00e1guas para provar a sua f\u00e9. Agora, mergulha nelas porque j\u00e1 n\u00e3o precisa de provar nada. A f\u00e9 passou do hero\u00edsmo para a verdade.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo na praia n\u00e3o \u00e9 um interrogat\u00f3rio; \u00e9 uma reconstru\u00e7\u00e3o. \u201cSim\u00e3o, filho de Jo\u00e3o, tu amas-me?\u201d Jesus n\u00e3o pergunta: \u201cporque me negaste?\u201d Pergunta: \u201cquem \u00e9s tu agora?\u201d A repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o reabre a culpa; reabre o futuro.<\/p>\n<p>Pedro responde com uma linguagem nova: \u201cSenhor, Tu sabes que sou teu amigo.\u201d J\u00e1 n\u00e3o promete mais do que pode viver. J\u00e1 n\u00e3o fala a partir do ideal. Fala a partir da verdade.<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o transforma Pedro num her\u00f3i impec\u00e1vel. Transforma-o num homem reconciliado com a pr\u00f3pria fragilidade.<\/p>\n<p>A P\u00e1scoa n\u00e3o salva o sujeito perfeito. Salva o sujeito dividido. Jesus n\u00e3o devolve a Pedro o Pedro anterior. Devolve-lhe um Pedro verdadeiro.<\/p>\n<p>O fracasso deixa de ser o fim da voca\u00e7\u00e3o e torna-se o seu fundamento. S\u00f3 quem conheceu o medo pode confirmar os irm\u00e3os. S\u00f3 quem caiu pode sustentar quem cai.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o somos definidos pelo momento em que falh\u00e1mos, mas pelo encontro que nos permite recome\u00e7ar depois de falhar.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(Humberto Martins, scj)<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio de Judas, Pedro n\u00e3o trai por c\u00e1lculo. Trai por medo. Massimo Recalcati, fazendo uma leitura psicanalista, defende que a nega\u00e7\u00e3o de Pedro n\u00e3o revela um homem falso. Revela um homem dividido. A sua trai\u00e7\u00e3o entra em disson\u00e2ncia com aquilo que ele acreditava ser. Pedro n\u00e3o suporta descobrir que n\u00e3o \u00e9 o disc\u00edpulo corajoso que imaginava. A verdadeira ferida n\u00e3o \u00e9 ter negado Jesus. \u00c9 ter-se tornado irreconhec\u00edvel para si pr\u00f3prio. Pedro experimenta aquilo que hoje chamar\u00edamos uma rutura narrativa do eu: a hist\u00f3ria que sustentava a sua identidade deixa de funcionar. O \u201ceu fiel\u201d colapsa diante do \u201ceu que teve medo\u201d. A trai\u00e7\u00e3o torna-se, assim, antes de tudo, uma trai\u00e7\u00e3o de si mesmo. E Pedro sente vergonha. A vergonha n\u00e3o diz: \u201cfiz algo de errado\u201d; diz: \u201ch\u00e1 uma fenda em mim\u201d. Pedro n\u00e3o foge apenas de Jesus. Foge do olhar que lhe revela quem ele \u00e9. E as l\u00e1grimas n\u00e3o s\u00e3o apenas arrependimento moral. S\u00e3o luto identit\u00e1rio. Morre o Pedro que (ele) pensava conhecer. A escritora Iris Murdoch diz que prometemos sempre a partir de uma imagem incompleta de n\u00f3s mesmos. Pedro prometera fidelidade absoluta, porque ainda n\u00e3o conhecia o alcance do seu medo. 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