{"id":32653,"date":"2026-07-11T11:46:45","date_gmt":"2026-07-11T11:46:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32653"},"modified":"2026-07-11T11:46:45","modified_gmt":"2026-07-11T11:46:45","slug":"leao-xiv-lamento-mas-temos-de-seguir-em-frente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/leao-xiv-lamento-mas-temos-de-seguir-em-frente\/","title":{"rendered":"Le\u00e3o XIV: \u201cLamento, mas temos de seguir em frente\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Secretariado Diocesano da Liturgia<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 \u201cJ\u00e1 reparaste que o nosso filho \u00e9 o \u00fanico que marcha direito?!\u201d \u2013 comentam embevecidos\u00a0 os pais de certo mancebo que marchava na parada, de passo trocado, no dia do juramento de bandeira. A chamada\u00a0<em>Fraternidade Sacerdotal de S\u00e3o Pio X\u00a0<\/em>[FSSPX], movimento de rebeli\u00e3o contra o Conc\u00edlio e contra o Papa, encabe\u00e7ado por Marcel Lefebvre nos anos setenta, n\u00e3o se limita a marchar com o passo trocado. Quer uma \u00abparada\u00bb \u00e0 parte, desligada da obedi\u00eancia ao Papa, com bispos e demais clero exclusivos seus, numa hierarquia paralela desvinculada da comunh\u00e3o efetiva com o sucessor de Pedro. A recente ordena\u00e7\u00e3o de bispos, sem o indispens\u00e1vel mandato apost\u00f3lico, reafirma o\u00a0<em>corte<\/em>\u00a0dos lefebvrianos \u2013 tamb\u00e9m chamados tradicionalistas\u201d \u2013 que j\u00e1 se tinha consumado no tempo de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II (1988). Corte nunca revertido, apesar das concess\u00f5es condescendentes dos papas Bento XVI e Francisco, que a nada se pouparam em prol da paz e unidade dentro da Igreja. Mais um rasg\u00e3o na \u201ct\u00fanica incons\u00fatil\u201d \u2013 sem costuras nem emendas \u2013 de nosso Senhor Jesus Cristo. O \u201cCisma\u201d n\u00e3o \u00e9, principalmente, uma quest\u00e3o jur\u00eddica e can\u00f3nica, embora repercuta nessas \u00e1reas e n\u00e3o se possam escamotear esses aspetos que tutelam o bem comum do Povo de Deus. \u00c9 uma grave quest\u00e3o de Igreja e de doutrina.<\/p>\n<p>Nos in\u00edcios deste movimento, hoje cism\u00e1tico, esteve a recusa global do II Conc\u00edlio do Vaticano. O argumento era de que se tratava de um\u00a0<em>conc\u00edlio pastoral<\/em>, que n\u00e3o definiu qualquer novo dogma vinculante para a f\u00e9 nem emitiu qualquer an\u00e1tema de condena\u00e7\u00e3o a doutrinas ou pr\u00e1ticas. Consequentemente n\u00e3o se era \u201cobrigado\u201d a aceitar os seus ensinamentos, sem defini\u00e7\u00f5es de f\u00e9 ou de costumes vinculantes ou definitivas. Tudo se ficava pelo opin\u00e1vel e nada era obrigat\u00f3rio, nomeadamente em mat\u00e9ria de colegialidade episcopal, liberdade religiosa, ecumenismo, rela\u00e7\u00e3o da Igreja com os estados, determina\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, etc. A \u201cbandeira\u201d desta dissid\u00eancia foi a recusa da reforma lit\u00fargica p\u00f3s-conciliar e a manuten\u00e7\u00e3o dos livros lit\u00fargicos precedentes, mas a quest\u00e3o era bem mais radical.<\/p>\n<p>Bento XVI, quanto mais generoso foi para com os lefebvrianos \u2013 sempre por amor \u00e0 causa da unidade da Igreja \u2013 mais foi por eles desconsiderado. As ced\u00eancias foram relevantes: levantamento das excomunh\u00f5es, liberaliza\u00e7\u00e3o do uso lit\u00fargico anterior ao Vaticano II (chamado \u201cforma extraordin\u00e1ria\u201d do rito romano), viabiliza\u00e7\u00e3o admitida do estatuto de Prelatura pessoal com bispos pr\u00f3prios (no final gorou-se este caminho), indigita\u00e7\u00e3o de \u201ccardeal protetor\u201d\u2026 A partir de 2011 fracassaram rotundamente as tentativas de reconcilia\u00e7\u00e3o. Ficou claro, tamb\u00e9m, que o foco de discrep\u00e2ncia n\u00e3o era o rito lit\u00fargico, dado que se tinha tornado l\u00edcita a celebra\u00e7\u00e3o\u00a0<em>ad libitum<\/em>\u00a0com o\u00a0<em>Missal<\/em>\u00a0e demais livros lit\u00fargicos tridentinos e nem por isso os dissidentes reentraram na Casa comum cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, outras barreiras se foram levantando num endurecimento crescente. Nem todos sabem, mas os membros da FSSPX questionam a validade de alguns sacramentos celebrados na Igreja cat\u00f3lica e, concretamente, a Confirma\u00e7\u00e3o, a Eucaristia, a Ordem e a Santa Un\u00e7\u00e3o\u2026 Se celebram numa Igreja \u201ccat\u00f3lica\u201d, n\u00e3o utilizam as h\u00f3stias consagradas reservadas no Sacr\u00e1rio e procedentes de Missas celebradas por padres que n\u00e3o perten\u00e7am ao movimento (diga-se: seita); se, porventura,\u00a0<em>assistem<\/em>\u00a0a uma missa celebrada por um\u00a0 padre n\u00e3o aderente \u00e0 sua organiza\u00e7\u00e3o, mesmo que o celebrante siga o\u00a0<em>Missal<\/em>\u00a0anterior \u00e0 reforma lit\u00fargica, n\u00e3o comungam; h\u00e1 casos de candidatos aos seus semin\u00e1rios que s\u00e3o crismados de novo, mesmo constando que j\u00e1 tinham recebido esse sacramento\u2026<\/p>\n<p>Parece, em suma, que regressamos aos tempos de Novaciano (s\u00e9c. III) e Donato (s\u00e9c. IV) que instauraram dolorosos cismas na Igreja antiga. O cisma donatista surgiu quando alguns cl\u00e9rigos contestaram o Bispo de Cartago sob o pretexto, que se confirmou ser falso, de que um dos 3 bispos que o ordenara tinha sido\u00a0<em>traidor<\/em>, isto \u00e9, teria\u00a0<em>entregado<\/em>\u00a0livros sagrados \u00e0s autoridades do Estado romano que, ent\u00e3o (tempo de Diocleciano), perseguia os crist\u00e3os. Logo se constituiu uma hierarquia paralela e at\u00e9 se multiplicaram epis\u00f3dios de viol\u00eancia terrorista com os famosos \u201ccircuncili\u00f5es\u201d (que Deus nos defenda: a isto ainda n\u00e3o se chegou!) que tanto amarguraram a vida do grande Santo Agostinho. Diziam os donatistas que toda a hierarquia cat\u00f3lica estava infetada pela\u00a0<em>trai\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e que, consequentemente, os sacramentos celebrados na Igreja cat\u00f3lica era nulos. N\u00e3o hesitavam em\u00a0<em>rebatizar<\/em>\u00a0algum cat\u00f3lico que aderisse ao seu partido. Bem lhes explicou Agostinho que a validade dos Sacramentos n\u00e3o depende da virtude do ministro, mas sim de Cristo, que \u00e9 quem, efetivamente batiza ou se nos d\u00e1 no Sacramento do altar.<\/p>\n<p>Os sacramentos dos que est\u00e3o em cisma podem ser v\u00e1lidos. Mas para que sejam plenamente frutuosos falta-lhes a caridade que conduz \u00e0 unidade. Aguardemos os pr\u00f3ximos epis\u00f3dios desta hist\u00f3ria desoladora. No passado dia 16 de junho, em Castel Gandolfo, comentando a inten\u00e7\u00e3o anunciada pelo respons\u00e1vel supremo da FSSPX de ordenar 4 novos bispos sem mandato apost\u00f3lico, Le\u00e3o XIV declarou, serenamente: \u00ab<em>A escolha \u00e9 deles. Temos de perceber o que isso significa para eles e para a Igreja. Certamente, a divis\u00e3o entre crist\u00e3os \u00e9 sempre um ponto doloroso, mas eles recusam-se a aceitar certos elementos fundamentais da Igreja, come\u00e7ando por v\u00e1rios pontos do Conc\u00edlio Vaticano II. Se fizerem essa escolha, lamento, mas temos de seguir em frente<\/em>\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Secretariado Diocesano da Liturgia \u2013 \u201cJ\u00e1 reparaste que o nosso filho \u00e9 o \u00fanico que marcha direito?!\u201d \u2013 comentam embevecidos\u00a0 os pais de certo mancebo que marchava na parada, de passo trocado, no dia do juramento de bandeira. A chamada\u00a0Fraternidade Sacerdotal de S\u00e3o Pio X\u00a0[FSSPX], movimento de rebeli\u00e3o contra o Conc\u00edlio e contra o Papa, encabe\u00e7ado por Marcel Lefebvre nos anos setenta, n\u00e3o se limita a marchar com o passo trocado. Quer uma \u00abparada\u00bb \u00e0 parte, desligada da obedi\u00eancia ao Papa, com bispos e demais clero exclusivos seus, numa hierarquia paralela desvinculada da comunh\u00e3o efetiva com o sucessor de Pedro. A recente ordena\u00e7\u00e3o de bispos, sem o indispens\u00e1vel mandato apost\u00f3lico, reafirma o\u00a0corte\u00a0dos lefebvrianos \u2013 tamb\u00e9m chamados tradicionalistas\u201d \u2013 que j\u00e1 se tinha consumado no tempo de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II (1988). Corte nunca revertido, apesar das concess\u00f5es condescendentes dos papas Bento XVI e Francisco, que a nada se pouparam em prol da paz e unidade dentro da Igreja. Mais um rasg\u00e3o na \u201ct\u00fanica incons\u00fatil\u201d \u2013 sem costuras nem emendas \u2013 de nosso Senhor Jesus Cristo. O \u201cCisma\u201d n\u00e3o \u00e9, principalmente, uma quest\u00e3o jur\u00eddica e can\u00f3nica, embora repercuta nessas \u00e1reas e n\u00e3o se possam escamotear esses aspetos que tutelam o bem comum do Povo de Deus. \u00c9 uma grave quest\u00e3o de Igreja e de doutrina. Nos in\u00edcios deste movimento, hoje cism\u00e1tico, esteve a recusa global do II Conc\u00edlio do Vaticano. O argumento era de que se tratava de um\u00a0conc\u00edlio pastoral, que n\u00e3o definiu qualquer novo dogma vinculante para a f\u00e9 nem emitiu qualquer an\u00e1tema de condena\u00e7\u00e3o a doutrinas ou pr\u00e1ticas. Consequentemente n\u00e3o se era \u201cobrigado\u201d a aceitar os seus ensinamentos, sem defini\u00e7\u00f5es de f\u00e9 ou de costumes vinculantes ou definitivas. 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As ced\u00eancias foram relevantes: levantamento das excomunh\u00f5es, liberaliza\u00e7\u00e3o do uso lit\u00fargico anterior ao Vaticano II (chamado \u201cforma extraordin\u00e1ria\u201d do rito romano), viabiliza\u00e7\u00e3o admitida do estatuto de Prelatura pessoal com bispos pr\u00f3prios (no final gorou-se este caminho), indigita\u00e7\u00e3o de \u201ccardeal protetor\u201d\u2026 A partir de 2011 fracassaram rotundamente as tentativas de reconcilia\u00e7\u00e3o. Ficou claro, tamb\u00e9m, que o foco de discrep\u00e2ncia n\u00e3o era o rito lit\u00fargico, dado que se tinha tornado l\u00edcita a celebra\u00e7\u00e3o\u00a0ad libitum\u00a0com o\u00a0Missal\u00a0e demais livros lit\u00fargicos tridentinos e nem por isso os dissidentes reentraram na Casa comum cat\u00f3lica. Pelo contr\u00e1rio, outras barreiras se foram levantando num endurecimento crescente. Nem todos sabem, mas os membros da FSSPX questionam a validade de alguns sacramentos celebrados na Igreja cat\u00f3lica e, concretamente, a Confirma\u00e7\u00e3o, a Eucaristia, a Ordem e a Santa Un\u00e7\u00e3o\u2026 Se celebram numa Igreja \u201ccat\u00f3lica\u201d, n\u00e3o utilizam as h\u00f3stias consagradas reservadas no Sacr\u00e1rio e procedentes de Missas celebradas por padres que n\u00e3o perten\u00e7am ao movimento (diga-se: seita); se, porventura,\u00a0assistem\u00a0a uma missa celebrada por um\u00a0 padre n\u00e3o aderente \u00e0 sua organiza\u00e7\u00e3o, mesmo que o celebrante siga o\u00a0Missal\u00a0anterior \u00e0 reforma lit\u00fargica, n\u00e3o comungam; h\u00e1 casos de candidatos aos seus semin\u00e1rios que s\u00e3o crismados de novo, mesmo constando que j\u00e1 tinham recebido esse sacramento\u2026 Parece, em suma, que regressamos aos tempos de Novaciano (s\u00e9c. III) e Donato (s\u00e9c. IV) que instauraram dolorosos cismas na Igreja antiga. O cisma donatista surgiu quando alguns cl\u00e9rigos contestaram o Bispo de Cartago sob o pretexto, que se confirmou ser falso, de que um dos 3 bispos que o ordenara tinha sido\u00a0traidor, isto \u00e9, teria\u00a0entregado\u00a0livros sagrados \u00e0s autoridades do Estado romano que, ent\u00e3o (tempo de Diocleciano), perseguia os crist\u00e3os. Logo se constituiu uma hierarquia paralela e at\u00e9 se multiplicaram epis\u00f3dios de viol\u00eancia terrorista com os famosos \u201ccircuncili\u00f5es\u201d (que Deus nos defenda: a isto ainda n\u00e3o se chegou!) que tanto amarguraram a vida do grande Santo Agostinho. Diziam os donatistas que toda a hierarquia cat\u00f3lica estava infetada pela\u00a0trai\u00e7\u00e3o\u00a0e que, consequentemente, os sacramentos celebrados na Igreja cat\u00f3lica era nulos. N\u00e3o hesitavam em\u00a0rebatizar\u00a0algum cat\u00f3lico que aderisse ao seu partido. Bem lhes explicou Agostinho que a validade dos Sacramentos n\u00e3o depende da virtude do ministro, mas sim de Cristo, que \u00e9 quem, efetivamente batiza ou se nos d\u00e1 no Sacramento do altar. Os sacramentos dos que est\u00e3o em cisma podem ser v\u00e1lidos. Mas para que sejam plenamente frutuosos falta-lhes a caridade que conduz \u00e0 unidade. Aguardemos os pr\u00f3ximos epis\u00f3dios desta hist\u00f3ria desoladora. No passado dia 16 de junho, em Castel Gandolfo, comentando a inten\u00e7\u00e3o anunciada pelo respons\u00e1vel supremo da FSSPX de ordenar 4 novos bispos sem mandato apost\u00f3lico, Le\u00e3o XIV declarou, serenamente: \u00abA escolha \u00e9 deles. Temos de perceber o que isso significa para eles e para a Igreja. Certamente, a divis\u00e3o entre crist\u00e3os \u00e9 sempre um ponto doloroso, mas eles recusam-se a aceitar certos elementos fundamentais da Igreja, come\u00e7ando por v\u00e1rios pontos do Conc\u00edlio Vaticano II. 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