{"id":32662,"date":"2026-07-15T09:43:31","date_gmt":"2026-07-15T09:43:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32662"},"modified":"2026-07-15T09:43:31","modified_gmt":"2026-07-15T09:43:31","slug":"amigo-es-muito-importante-para-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/amigo-es-muito-importante-para-mim\/","title":{"rendered":"Amigo, \u00e9s muito importante para mim!"},"content":{"rendered":"<p>Haver\u00e1 algo mais importante do que conhecermo-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios? Haver\u00e1 algo que exija maior aten\u00e7\u00e3o?\u00a0<em>Socorro-me<\/em>\u00a0da filosofia para responder a esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada mais importante do que conhecer-se a si pr\u00f3prio! Para a felicidade pessoal, \u00e9 algo a que nos devemos dedicar de\u00a0<em>corpo e alma<\/em>. E se n\u00e3o o fizermos? Montaigne \u00e9 perspicaz ao lembrar-nos das consequ\u00eancias<em>: \u00abNingu\u00e9m fica doente durante muito tempo a n\u00e3o ser por sua pr\u00f3pria culpa\u00bb<\/em>\u00a0(<em>Ensaios<\/em>). Para ele, o sofrimento prolongado muitas vezes n\u00e3o vem de um v\u00edrus ou da dor f\u00edsica em si, mas da\u00a0<em>nossa resist\u00eancia em aceitar a realidade<\/em>. Se o corpo adoece, isso \u00e9 da natureza. Mas se entramos em desespero e nos tornamos ref\u00e9ns da autocomplac\u00eancia por meses a fio, estamos a prolongar a\u00a0<em>doen\u00e7a<\/em>\u00a0por pr\u00f3pria escolha .<\/p>\n<p>Hoje, todos n\u00f3s culpamos sempre os outros pelos nossos infort\u00fanios, sejam vizinhos ou o Trump. Mas a realidade \u00e9 que a maioria das coisas que nos afligem e das quais nos queixamos dependem de n\u00f3s. Nem sempre no sentido de termos o poder de as mudar, mas no sentido de termos o poder de compreender porque nos afligem e, consequentemente, diminuir o nosso sofrimento, ou at\u00e9 mesmo elimin\u00e1-lo por completo.<\/p>\n<p><em>Olhar para dentro<\/em>\u00a0exige uma coragem brutal. Significa encarar n\u00e3o apenas as nossas virtudes, mas tamb\u00e9m as nossas<em>\u00a0sombras<\/em>: os medos, as falhas, as incoer\u00eancias&#8230; \u00c9 muito mais f\u00e1cil focar no mundo exterior ou julgar o comportamento dos outros do que passar pelo processo do autoconhecimento.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 que tudo isto tem a ver com amizade? Na realidade, a liga\u00e7\u00e3o entre a capacidade de suportar os males inevit\u00e1veis \u200b\u200bda vida, o autoconhecimento e a amizade \u00e9 muito estreita, e Arist\u00f3teles, na obra\u00a0<em>Magna Moralia<\/em>, explica perfeitamente porqu\u00ea. Este\u00a0 fil\u00f3sofo d\u00e1 \u00eanfase, em primeiro lugar, \u00e0 import\u00e2ncia e ao prazer do autoconhecimento, dizendo que\u00a0<em>\u00abconhecer-se a si mesmo \u00e9 a coisa mais dif\u00edcil, mas tamb\u00e9m a mais prazerosa, pois \u00e9 prazeroso conhecer-se a si mesmo\u00bb.<\/em>\u00a0O prazer aqui n\u00e3o \u00e9 uma alegria superficial, mas sim\u00a0<em>liberdade<\/em>. Quando finalmente entendes\u00a0<em>porque<\/em>\u00a0reages de certa forma,\u00a0<em>porque<\/em>\u00a0tens certos medos ou o que realmente te move, deixas de ser\u00a0<em>ref\u00e9m\u00a0<\/em>das rea\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias. Conhecer-se traz uma sensa\u00e7\u00e3o de paz. \u00c9 o fim da guerra contra si mesmo.<\/p>\n<p>No entanto, Arist\u00f3teles, declara a impossibilidade de se conhecer atrav\u00e9s do esfor\u00e7o solit\u00e1rio:\u00a0<em>\u00abN\u00e3o somos capazes de nos conhecer partindo de n\u00f3s pr\u00f3prios, e isso \u00e9 evidente pelo facto de criticarmos os outros sem nos apercebermos de que fazemos o mesmo\u00bb.<\/em>\u00a0A amizade \u00e9 necess\u00e1ria para nos conhecermos:\u00a0<em>\u00abAssim como, quando queremos ver o nosso pr\u00f3prio rosto, o vemos num espelho, da mesma forma, quando nos queremos conhecer, podemos conhecer-nos olhando para n\u00f3s pr\u00f3prios num amigo\u00bb.<\/em>\u00a0De facto, continua o fil\u00f3sofo, um amigo \u00e9 um\u00a0<em>alter ego (outro eu)<\/em>, pelo que\u00a0<em>\u00abn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conhecermo-nos sem outro que seja nosso amigo\u00bb.\u00a0<\/em>Olhar para si mesmo e conhecer as pr\u00f3prias virtudes e defeitos \u00e9 uma tarefa extremamente dif\u00edcil. Para resolver esse p<em>onto cego<\/em>, o ser humano precisa de um amigo verdadeiro.<\/p>\n<p>Concluindo: para enfrentarmos o mal, precisamos de nos conhecer. Principalmente as nossas fraquezas que \u00e9 por onde o mal pode chegar ao nosso interior. Para nos conhecermos, por\u00e9m, precisamos de encontrar um\u00a0<em>espelho<\/em>\u00a0atrav\u00e9s do qual nos possamos ver internamente. Esse espelho interior, n\u00e3o \u00e9 f\u00edsico mas espiritual, \u00e9 a interioridade de outra pessoa. E n\u00e3o uma pessoa qualquer, mas algu\u00e9m que est\u00e1 t\u00e3o pr\u00f3ximo de n\u00f3s que pode ser descrito como um\u00a0<em>alter ego<\/em>. Algu\u00e9m diferente de n\u00f3s capaz de objetividade, mas ao mesmo tempo muito semelhante. A empatia tem profundidade, vis\u00e3o e generosidade, capaz de ver com o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aproveitemos as f\u00e9rias para estarmos com os verdadeiros amigos. E n\u00e3o nos esque\u00e7amos do Amigo.<\/p>\n<p>(iMissio)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Haver\u00e1 algo mais importante do que conhecermo-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios? Haver\u00e1 algo que exija maior aten\u00e7\u00e3o?\u00a0Socorro-me\u00a0da filosofia para responder a esta quest\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada mais importante do que conhecer-se a si pr\u00f3prio! Para a felicidade pessoal, \u00e9 algo a que nos devemos dedicar de\u00a0corpo e alma. E se n\u00e3o o fizermos? Montaigne \u00e9 perspicaz ao lembrar-nos das consequ\u00eancias: \u00abNingu\u00e9m fica doente durante muito tempo a n\u00e3o ser por sua pr\u00f3pria culpa\u00bb\u00a0(Ensaios). Para ele, o sofrimento prolongado muitas vezes n\u00e3o vem de um v\u00edrus ou da dor f\u00edsica em si, mas da\u00a0nossa resist\u00eancia em aceitar a realidade. Se o corpo adoece, isso \u00e9 da natureza. Mas se entramos em desespero e nos tornamos ref\u00e9ns da autocomplac\u00eancia por meses a fio, estamos a prolongar a\u00a0doen\u00e7a\u00a0por pr\u00f3pria escolha . Hoje, todos n\u00f3s culpamos sempre os outros pelos nossos infort\u00fanios, sejam vizinhos ou o Trump. Mas a realidade \u00e9 que a maioria das coisas que nos afligem e das quais nos queixamos dependem de n\u00f3s. Nem sempre no sentido de termos o poder de as mudar, mas no sentido de termos o poder de compreender porque nos afligem e, consequentemente, diminuir o nosso sofrimento, ou at\u00e9 mesmo elimin\u00e1-lo por completo. Olhar para dentro\u00a0exige uma coragem brutal. Significa encarar n\u00e3o apenas as nossas virtudes, mas tamb\u00e9m as nossas\u00a0sombras: os medos, as falhas, as incoer\u00eancias&#8230; \u00c9 muito mais f\u00e1cil focar no mundo exterior ou julgar o comportamento dos outros do que passar pelo processo do autoconhecimento. Mas o que \u00e9 que tudo isto tem a ver com amizade? Na realidade, a liga\u00e7\u00e3o entre a capacidade de suportar os males inevit\u00e1veis \u200b\u200bda vida, o autoconhecimento e a amizade \u00e9 muito estreita, e Arist\u00f3teles, na obra\u00a0Magna Moralia, explica perfeitamente porqu\u00ea. Este\u00a0 fil\u00f3sofo d\u00e1 \u00eanfase, em primeiro lugar, \u00e0 import\u00e2ncia e ao prazer do autoconhecimento, dizendo que\u00a0\u00abconhecer-se a si mesmo \u00e9 a coisa mais dif\u00edcil, mas tamb\u00e9m a mais prazerosa, pois \u00e9 prazeroso conhecer-se a si mesmo\u00bb.\u00a0O prazer aqui n\u00e3o \u00e9 uma alegria superficial, mas sim\u00a0liberdade. Quando finalmente entendes\u00a0porque\u00a0reages de certa forma,\u00a0porque\u00a0tens certos medos ou o que realmente te move, deixas de ser\u00a0ref\u00e9m\u00a0das rea\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias. Conhecer-se traz uma sensa\u00e7\u00e3o de paz. \u00c9 o fim da guerra contra si mesmo. 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Concluindo: para enfrentarmos o mal, precisamos de nos conhecer. Principalmente as nossas fraquezas que \u00e9 por onde o mal pode chegar ao nosso interior. Para nos conhecermos, por\u00e9m, precisamos de encontrar um\u00a0espelho\u00a0atrav\u00e9s do qual nos possamos ver internamente. Esse espelho interior, n\u00e3o \u00e9 f\u00edsico mas espiritual, \u00e9 a interioridade de outra pessoa. E n\u00e3o uma pessoa qualquer, mas algu\u00e9m que est\u00e1 t\u00e3o pr\u00f3ximo de n\u00f3s que pode ser descrito como um\u00a0alter ego. Algu\u00e9m diferente de n\u00f3s capaz de objetividade, mas ao mesmo tempo muito semelhante. A empatia tem profundidade, vis\u00e3o e generosidade, capaz de ver com o cora\u00e7\u00e3o. Aproveitemos as f\u00e9rias para estarmos com os verdadeiros amigos. E n\u00e3o nos esque\u00e7amos do Amigo. 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