{"id":32698,"date":"2026-07-23T09:22:33","date_gmt":"2026-07-23T09:22:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32698"},"modified":"2026-07-23T09:22:33","modified_gmt":"2026-07-23T09:22:33","slug":"a-cultura-europeia-e-a-eutanasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/a-cultura-europeia-e-a-eutanasia\/","title":{"rendered":"A cultura europeia e a eutan\u00e1sia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Jorge Teixeira da Cunha<\/strong><\/p>\n<p>Agora foi a vez da Fran\u00e7a, que acaba de aprovar uma lei que despenaliza a ajuda m\u00e9dica para p\u00f4r termo \u00e0 vida dos moribundos. J\u00e1 tinha sido a Espanha. N\u00f3s, em Portugal, temos essa lei da ajuda m\u00e9dica n\u00e3o pun\u00edvel para morrer adiada, mas n\u00e3o somos melhores cidad\u00e3os por isso. Qual o sentido desta vaga que vai conquistando a cultura europeia e modificando o sistema jur\u00eddico de modo imprevis\u00edvel? Podemos dizer que a moral do cristianismo ainda \u00e9 o fundamento da nossa forma de habitar o continente? S\u00e3o perguntas de resposta dif\u00edcil.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem sido por falta de apelos de respons\u00e1veis da Igreja que as leis despenalizadoras de comportamentos t\u00eam progredido desta maneira. Das mais altas inst\u00e2ncias surgem apelos, algumas vezes, apelos em claro excesso de zelo, como este de um bispo franc\u00eas, proclamando que os deputados que votassem a favor de lei em discuss\u00e3o ficavam proibidos de receber a comunh\u00e3o eucar\u00edstica. Em que ponto estamos a falhar para que a nossa voz seja in\u00f3cua a respeito deste assunto e doutros semelhantes? A nosso ver, a quest\u00e3o tem, pelo menos, duas vertentes.<\/p>\n<p>A primeira vertente \u00e9 a discuss\u00e3o dos fundamentos do direito. Sempre se disse que o fundamento do direito \u00e9 a justi\u00e7a. E sempre pareceu que a proibi\u00e7\u00e3o de atentar contra a vida de um inocente era uma ac\u00e7\u00e3o proibida. Por\u00e9m, nos tempos mais recentes, este racioc\u00ednio deixou de fazer sentido. De facto, o que funda o direito \u00e9 um formalismo que, no fundo, tem como alicerce a regra da maioria que det\u00e9m o poder num determinado momento. Este formalismo e esta regra da maioria s\u00e3o os \u00fanicos fundamentos da liberdade, tal como a entendem os europeus. Por isso, se a maioria vota pela possibilidade de ajudar a morrer os moribundos, ou quem manifesta vontade de se suicidar por condi\u00e7\u00f5es de vida consideradas sem qualidade, deve poder pedir essa ajuda e tem direito a ela, se houver algu\u00e9m que se disponha a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo contexto \u00e9 o que deveria ser o primeiro ponto da nossa discuss\u00e3o cultural e \u00e9tica. De facto, os fundamentos do sistema jur\u00eddico n\u00e3o podem deixar de aludir a valores \u00e9ticos e a op\u00e7\u00f5es culturais defens\u00e1veis. A regra da maioria \u00e9 uma ideia de liberdade \u00e9 muito imperfeita. Ela assenta num terreno antropol\u00f3gico muito pobre que n\u00e3o prov\u00e9m de uma de uma descri\u00e7\u00e3o correcta do sujeito que somos e n\u00e3o sup\u00f5e uma funda\u00e7\u00e3o \u00e9tica minimamente suficiente. Mas \u00e9 nisto que a Europa est\u00e1, esta Europa a que pertencemos e que continuamos a dizer que \u00e9 a Europa crist\u00e3. Neste sentido, podemos dizer que a Europa est\u00e1 a morrer, se \u00e9 que alguma vez foi viva e foi crist\u00e3. Este seria o ponto mais s\u00e9rio da discuss\u00e3o que a Igreja e a sua teologia moral deviam desencadear. Neste \u00e2mbito h\u00e1 muitas preguntas a fazer e muitos caminhos a encetar. O cristianismo tem uma grande riqueza para poder conduzir esta discuss\u00e3o. Mas ela est\u00e1 por fazer e n\u00e3o abunda a compet\u00eancia para a desencadear com pertin\u00eancia e sem paternalismo.<\/p>\n<p>Bem diferente disto \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 lei despenalizadora da ajuda m\u00e9dica para apressar a morte de um moribundo que a pede legitimamente. Neste ponto, temos encontrado muitos pronunciamentos de pessoas e de movimentos da Igreja. Mas reparemos que este caminho tem muitos obst\u00e1culos. O primeiro deles parece a muitos uma tentativa um pouco infantilizante de impedir comportamentos por via das leis penais. Se h\u00e1 casos em que a cultura tem como evidente proibir, como os atentados \u00e0 propriedade, ao bom nome, a proibi\u00e7\u00e3o do homic\u00eddio e outros actos, j\u00e1 no que se refere \u00e0 vida dos moribundos, a sensibilidade modificou-se. \u00c9 por isso que a ac\u00e7\u00e3o da Igreja, seja dos respons\u00e1veis seja dos movimentos pr\u00f3-vida, deve ser muito competente e muito cuidadosa. Se apenas nos situarmos do lado da minoria ou da maioria, estamos a fazer o mesmo jogo de que fal\u00e1vamos no par\u00e1grafo anterior. A Igreja \u00e9 muito mais do que um grupo de press\u00e3o para influenciar o sistema jur\u00eddico. Quando nos situamos neste dom\u00ednio, facilmente nos atiram ao rosto a ideia de que a permiss\u00e3o de um comportamente n\u00e3o imp\u00f5e que o pratiquemos. E isso \u00e9 verdade. Levar a que ningu\u00e9m use a faculdade de apressar a morte j\u00e1 \u00e9 alguma coisa. Mas a nossa tarefa \u00e9 bem mais do que isso: \u00e9 dar a viver a plenitude da vida a que Jesus nos iniciou. Isso \u00e9 que \u00e9 evangelizar. Mas n\u00e3o h\u00e1 muitos militantes para este trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jorge Teixeira da Cunha Agora foi a vez da Fran\u00e7a, que acaba de aprovar uma lei que despenaliza a ajuda m\u00e9dica para p\u00f4r termo \u00e0 vida dos moribundos. J\u00e1 tinha sido a Espanha. N\u00f3s, em Portugal, temos essa lei da ajuda m\u00e9dica n\u00e3o pun\u00edvel para morrer adiada, mas n\u00e3o somos melhores cidad\u00e3os por isso. Qual o sentido desta vaga que vai conquistando a cultura europeia e modificando o sistema jur\u00eddico de modo imprevis\u00edvel? Podemos dizer que a moral do cristianismo ainda \u00e9 o fundamento da nossa forma de habitar o continente? S\u00e3o perguntas de resposta dif\u00edcil. N\u00e3o tem sido por falta de apelos de respons\u00e1veis da Igreja que as leis despenalizadoras de comportamentos t\u00eam progredido desta maneira. Das mais altas inst\u00e2ncias surgem apelos, algumas vezes, apelos em claro excesso de zelo, como este de um bispo franc\u00eas, proclamando que os deputados que votassem a favor de lei em discuss\u00e3o ficavam proibidos de receber a comunh\u00e3o eucar\u00edstica. Em que ponto estamos a falhar para que a nossa voz seja in\u00f3cua a respeito deste assunto e doutros semelhantes? A nosso ver, a quest\u00e3o tem, pelo menos, duas vertentes. A primeira vertente \u00e9 a discuss\u00e3o dos fundamentos do direito. Sempre se disse que o fundamento do direito \u00e9 a justi\u00e7a. E sempre pareceu que a proibi\u00e7\u00e3o de atentar contra a vida de um inocente era uma ac\u00e7\u00e3o proibida. Por\u00e9m, nos tempos mais recentes, este racioc\u00ednio deixou de fazer sentido. De facto, o que funda o direito \u00e9 um formalismo que, no fundo, tem como alicerce a regra da maioria que det\u00e9m o poder num determinado momento. Este formalismo e esta regra da maioria s\u00e3o os \u00fanicos fundamentos da liberdade, tal como a entendem os europeus. Por isso, se a maioria vota pela possibilidade de ajudar a morrer os moribundos, ou quem manifesta vontade de se suicidar por condi\u00e7\u00f5es de vida consideradas sem qualidade, deve poder pedir essa ajuda e tem direito a ela, se houver algu\u00e9m que se disponha a faz\u00ea-lo. Este \u00faltimo contexto \u00e9 o que deveria ser o primeiro ponto da nossa discuss\u00e3o cultural e \u00e9tica. De facto, os fundamentos do sistema jur\u00eddico n\u00e3o podem deixar de aludir a valores \u00e9ticos e a op\u00e7\u00f5es culturais defens\u00e1veis. A regra da maioria \u00e9 uma ideia de liberdade \u00e9 muito imperfeita. Ela assenta num terreno antropol\u00f3gico muito pobre que n\u00e3o prov\u00e9m de uma de uma descri\u00e7\u00e3o correcta do sujeito que somos e n\u00e3o sup\u00f5e uma funda\u00e7\u00e3o \u00e9tica minimamente suficiente. Mas \u00e9 nisto que a Europa est\u00e1, esta Europa a que pertencemos e que continuamos a dizer que \u00e9 a Europa crist\u00e3. Neste sentido, podemos dizer que a Europa est\u00e1 a morrer, se \u00e9 que alguma vez foi viva e foi crist\u00e3. Este seria o ponto mais s\u00e9rio da discuss\u00e3o que a Igreja e a sua teologia moral deviam desencadear. Neste \u00e2mbito h\u00e1 muitas preguntas a fazer e muitos caminhos a encetar. O cristianismo tem uma grande riqueza para poder conduzir esta discuss\u00e3o. Mas ela est\u00e1 por fazer e n\u00e3o abunda a compet\u00eancia para a desencadear com pertin\u00eancia e sem paternalismo. Bem diferente disto \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 lei despenalizadora da ajuda m\u00e9dica para apressar a morte de um moribundo que a pede legitimamente. Neste ponto, temos encontrado muitos pronunciamentos de pessoas e de movimentos da Igreja. Mas reparemos que este caminho tem muitos obst\u00e1culos. O primeiro deles parece a muitos uma tentativa um pouco infantilizante de impedir comportamentos por via das leis penais. Se h\u00e1 casos em que a cultura tem como evidente proibir, como os atentados \u00e0 propriedade, ao bom nome, a proibi\u00e7\u00e3o do homic\u00eddio e outros actos, j\u00e1 no que se refere \u00e0 vida dos moribundos, a sensibilidade modificou-se. \u00c9 por isso que a ac\u00e7\u00e3o da Igreja, seja dos respons\u00e1veis seja dos movimentos pr\u00f3-vida, deve ser muito competente e muito cuidadosa. Se apenas nos situarmos do lado da minoria ou da maioria, estamos a fazer o mesmo jogo de que fal\u00e1vamos no par\u00e1grafo anterior. A Igreja \u00e9 muito mais do que um grupo de press\u00e3o para influenciar o sistema jur\u00eddico. Quando nos situamos neste dom\u00ednio, facilmente nos atiram ao rosto a ideia de que a permiss\u00e3o de um comportamente n\u00e3o imp\u00f5e que o pratiquemos. E isso \u00e9 verdade. Levar a que ningu\u00e9m use a faculdade de apressar a morte j\u00e1 \u00e9 alguma coisa. Mas a nossa tarefa \u00e9 bem mais do que isso: \u00e9 dar a viver a plenitude da vida a que Jesus nos iniciou. Isso \u00e9 que \u00e9 evangelizar. Mas n\u00e3o h\u00e1 muitos militantes para este trabalho.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":28657,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-32698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32698"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32698\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28657"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}