{"id":32702,"date":"2026-07-24T09:57:57","date_gmt":"2026-07-24T09:57:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32702"},"modified":"2026-07-24T09:57:57","modified_gmt":"2026-07-24T09:57:57","slug":"card-tolentino-o-espanto-e-o-umbigo-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/card-tolentino-o-espanto-e-o-umbigo-do-mundo\/","title":{"rendered":"Card. Tolentino: &#8220;O espanto \u00e9 o umbigo do mundo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><i><span class=\"small\">&#8220;Deus n\u00e3o aparece no poema<br \/>\n<\/span><span class=\"small\">apenas escutamos a sua voz de cinza<br \/>\ne assistimos sem compreender a escuras per\u00edcias<br \/>\nA vida reclama invent\u00e1rios e detalhes<br \/>\nn\u00e3o a oi\u00e7as<br \/>\nquando inutilmente perscruta as sequ\u00eancias<br \/>\ndo seu tr\u00e2nsito<br \/>\nS\u00f3 h\u00e1 um modo verdadeiro de rezar:<br \/>\nestende o teu corpo ao longo do barco<br \/>\nque desce silencioso o canal<br \/>\ne deixa que as folhas mortas do bosque<br \/>\nte cubram&#8221;<\/span><\/i><\/p>\n<p>O prefeito do Dicast\u00e9rio para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o, card. Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a, deu voz ao seu pr\u00f3prio poema &#8220;Para ler aos novi\u00e7os&#8221; na Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (Flip), em andamento na cidade hist\u00f3rica do Estado do Rio de Janeiro de 22 a 26 de julho.<\/p>\n<p>O purpurado dividiu a mesa 2 com o escritor brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com media\u00e7\u00e3o da poeta Sofia Mariutti. O tema foi &#8220;saber de cor o sil\u00eancio&#8221;, estrofe do poema de Orides Fontela que inspira todos os pain\u00e9is desta 24\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Flip.<\/p>\n<h2>A vida n\u00e3o nos \u00e9 indiferente<\/h2>\n<p>Em cerca de uma hora e meia de encontro, in\u00fameros foram os temas debatidos, como a for\u00e7a motriz da poesia que, para o cardeal, \u00e9 justamente o espanto:<\/p>\n<p>&#8220;O espanto \u00e9 o umbigo do mundo, porque quando somos capazes de espanto, estamos vivos. Isto \u00e9, a vida n\u00e3o nos passa ao lado. Deixamos que a vida nos interpele, que a vida nos fira. Ent\u00e3o, a poesia tem de ser uma inicia\u00e7\u00e3o ao espanto.&#8221;<\/p>\n<p>O espanto, explicou, gera este sobressalto que nos coloca em rela\u00e7\u00e3o profunda com a realidade, seja exterior, seja interior. E por isso, a escuta e a aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o formas t\u00e3o importantes.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, se n\u00f3s quisermos rezar, n\u00f3s temos de abrir os olhos e temos de estar atentos aos detalhes, a dobra, ao que passa, porque sempre Deus passa, isto \u00e9, sempre o mist\u00e9rio nos visita. Todos os dias acontece o mist\u00e9rio da anuncia\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>A poesia, disse ainda o cardeal, requer uma ader\u00eancia \u00e0 realidade, pois n\u00e3o \u00e9 feita s\u00f3 de imagina\u00e7\u00e3o, mas de uma &#8220;fidelidade rigoros\u00edssima ao que est\u00e1 diante de n\u00f3s&#8221;. Como, por exemplo, as feridas com as quais lidamos na nossa exist\u00eancia, j\u00e1 que &#8220;a vida n\u00e3o nos \u00e9 indiferente&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Essa ferida, que a poesia torna mais viva, penso que \u00e9 a nossa reserva de esperan\u00e7a para permanecer humanos.&#8221;<\/p>\n<h2>A emo\u00e7\u00e3o ao assumir o cargo de &#8220;bibliotec\u00e1rio do Vaticano&#8221;<\/h2>\n<p>A cultura da oralidade na transmiss\u00e3o do conhecimento foi outro t\u00f3pico debatido. O cardeal portugu\u00eas citou o exemplo de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia:<\/p>\n<p>&#8220;Eu tive a grande fortuna, a grande sorte de ter uma av\u00f3 que era analfabeta, mas que foi, em termos absolutos, a minha primeira biblioteca. E quando eu tomei posse como bibliotec\u00e1rio da biblioteca do Vaticano, que \u00e9 a biblioteca mais extraordin\u00e1ria deste planeta, eu quis naquele momento com muita emo\u00e7\u00e3o recordar a minha av\u00f3, mas n\u00e3o s\u00f3 recordar a minha av\u00f3, recordar todos os analfabetos que s\u00e3o respons\u00e1veis pela transmiss\u00e3o da literatura.&#8221;<\/p>\n<p>Tolentino de Mendon\u00e7a afirma ainda que a cultura da escrita est\u00e1 &#8220;\u00e0 beira de uma grande revolu\u00e7\u00e3o&#8221; em decorr\u00eancia da tecnologia. A prop\u00f3sito, indicou a\u00a0<i>Magnifica humanitas<\/i>\u00a0de Le\u00e3o XIV como &#8220;um texto cheio de futuro&#8221;.<\/p>\n<p>Outro documento pontif\u00edcio citado foi a enc\u00edclica\u00a0<i>Laudato si&#8217;<\/i>\u00a0do Papa Francisco, definido como &#8220;um dos grandes textos revolucion\u00e1rios da contemporaneidade&#8221; por alertar para os perigos do antropocentrismo desp\u00f3tico:<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o somos os donos da natureza, do ambiente, do mundo, mas somos guardadores, somos cust\u00f3dios, somos pastores do real, daquilo que nos cerca. Se a poesia nos ajuda a converter o olhar, a perceber o mundo e que n\u00f3s estamos no mundo com uma miss\u00e3o diferente, penso que d\u00e1 um grande contributo \u00e0 humanidade do presente e aquela que vir\u00e1 depois de n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Deus n\u00e3o aparece no poema apenas escutamos a sua voz de cinza e assistimos sem compreender a escuras per\u00edcias A vida reclama invent\u00e1rios e detalhes n\u00e3o a oi\u00e7as quando inutilmente perscruta as sequ\u00eancias do seu tr\u00e2nsito S\u00f3 h\u00e1 um modo verdadeiro de rezar: estende o teu corpo ao longo do barco que desce silencioso o canal e deixa que as folhas mortas do bosque te cubram&#8221; O prefeito do Dicast\u00e9rio para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o, card. Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a, deu voz ao seu pr\u00f3prio poema &#8220;Para ler aos novi\u00e7os&#8221; na Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty (Flip), em andamento na cidade hist\u00f3rica do Estado do Rio de Janeiro de 22 a 26 de julho. O purpurado dividiu a mesa 2 com o escritor brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com media\u00e7\u00e3o da poeta Sofia Mariutti. O tema foi &#8220;saber de cor o sil\u00eancio&#8221;, estrofe do poema de Orides Fontela que inspira todos os pain\u00e9is desta 24\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Flip. A vida n\u00e3o nos \u00e9 indiferente Em cerca de uma hora e meia de encontro, in\u00fameros foram os temas debatidos, como a for\u00e7a motriz da poesia que, para o cardeal, \u00e9 justamente o espanto: &#8220;O espanto \u00e9 o umbigo do mundo, porque quando somos capazes de espanto, estamos vivos. Isto \u00e9, a vida n\u00e3o nos passa ao lado. Deixamos que a vida nos interpele, que a vida nos fira. Ent\u00e3o, a poesia tem de ser uma inicia\u00e7\u00e3o ao espanto.&#8221; O espanto, explicou, gera este sobressalto que nos coloca em rela\u00e7\u00e3o profunda com a realidade, seja exterior, seja interior. E por isso, a escuta e a aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o formas t\u00e3o importantes. &#8220;Ent\u00e3o, se n\u00f3s quisermos rezar, n\u00f3s temos de abrir os olhos e temos de estar atentos aos detalhes, a dobra, ao que passa, porque sempre Deus passa, isto \u00e9, sempre o mist\u00e9rio nos visita. Todos os dias acontece o mist\u00e9rio da anuncia\u00e7\u00e3o.&#8221; A poesia, disse ainda o cardeal, requer uma ader\u00eancia \u00e0 realidade, pois n\u00e3o \u00e9 feita s\u00f3 de imagina\u00e7\u00e3o, mas de uma &#8220;fidelidade rigoros\u00edssima ao que est\u00e1 diante de n\u00f3s&#8221;. Como, por exemplo, as feridas com as quais lidamos na nossa exist\u00eancia, j\u00e1 que &#8220;a vida n\u00e3o nos \u00e9 indiferente&#8221;. &#8220;Essa ferida, que a poesia torna mais viva, penso que \u00e9 a nossa reserva de esperan\u00e7a para permanecer humanos.&#8221; A emo\u00e7\u00e3o ao assumir o cargo de &#8220;bibliotec\u00e1rio do Vaticano&#8221; A cultura da oralidade na transmiss\u00e3o do conhecimento foi outro t\u00f3pico debatido. O cardeal portugu\u00eas citou o exemplo de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia: &#8220;Eu tive a grande fortuna, a grande sorte de ter uma av\u00f3 que era analfabeta, mas que foi, em termos absolutos, a minha primeira biblioteca. E quando eu tomei posse como bibliotec\u00e1rio da biblioteca do Vaticano, que \u00e9 a biblioteca mais extraordin\u00e1ria deste planeta, eu quis naquele momento com muita emo\u00e7\u00e3o recordar a minha av\u00f3, mas n\u00e3o s\u00f3 recordar a minha av\u00f3, recordar todos os analfabetos que s\u00e3o respons\u00e1veis pela transmiss\u00e3o da literatura.&#8221; Tolentino de Mendon\u00e7a afirma ainda que a cultura da escrita est\u00e1 &#8220;\u00e0 beira de uma grande revolu\u00e7\u00e3o&#8221; em decorr\u00eancia da tecnologia. A prop\u00f3sito, indicou a\u00a0Magnifica humanitas\u00a0de Le\u00e3o XIV como &#8220;um texto cheio de futuro&#8221;. Outro documento pontif\u00edcio citado foi a enc\u00edclica\u00a0Laudato si&#8217;\u00a0do Papa Francisco, definido como &#8220;um dos grandes textos revolucion\u00e1rios da contemporaneidade&#8221; por alertar para os perigos do antropocentrismo desp\u00f3tico: &#8220;Ent\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o somos os donos da natureza, do ambiente, do mundo, mas somos guardadores, somos cust\u00f3dios, somos pastores do real, daquilo que nos cerca. Se a poesia nos ajuda a converter o olhar, a perceber o mundo e que n\u00f3s estamos no mundo com uma miss\u00e3o diferente, penso que d\u00e1 um grande contributo \u00e0 humanidade do presente e aquela que vir\u00e1 depois de n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":32703,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-32702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32702"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32702\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32703"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}