{"id":32719,"date":"2026-07-27T09:34:26","date_gmt":"2026-07-27T09:34:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32719"},"modified":"2026-07-27T09:34:26","modified_gmt":"2026-07-27T09:34:26","slug":"joao-duque-teremos-que-abandonar-de-vez-uma-concecao-mecanica-do-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/joao-duque-teremos-que-abandonar-de-vez-uma-concecao-mecanica-do-humano\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Duque: \u201cteremos que abandonar de vez uma conce\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica do humano\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\">O te\u00f3logo portugu\u00eas considera que a enc\u00edclica \u201cMagnifica Humanitas\u201d \u00e9 \u201cde doutrina social da Igreja\u201d. Afirma ser um texto que reflete \u201csobre a humanidade nas circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas\u201d, encontrando \u201cna aplica\u00e7\u00e3o da IA, um problema espec\u00edfico\u201d.<\/div>\n<div class=\"title__separator\">Foi assinada a 15 de maio, na data dos 135 anos da enc\u00edclica \u201cRerum Novarum\u201d de Le\u00e3o XIII. A \u201cMagnifica Humanitas\u201d<i>,<\/i>\u00a0\u201cMagn\u00edfica Humanidade\u201d, \u00e9 a primeira enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV, um documento sobre a prote\u00e7\u00e3o da pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial (IA).<\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p>O te\u00f3logo portugu\u00eas Jo\u00e3o Duque considera que este texto papal \u00e9 \u201cde doutrina social da Igreja\u201d. O professor de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa assinala que esta enc\u00edclica de Le\u00e3o XIV n\u00e3o \u00e9 sobre IA mas sim \u201csobre a humanidade nas circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas\u201d.<\/p>\n<h2>Repensar o que nos qualifica como humanos<\/h2>\n<p>R: Eu diria, depois de ler a enc\u00edclica toda, n\u00e3o considero que a enc\u00edclica seja sobre a IA, que n\u00e3o \u00e9, explicitamente, a enc\u00edclica \u00e9 de doutrina social da Igreja, \u00e9 sobre a humanidade nas circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas. \u00c9 claro que as circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas encontram na IA, na pr\u00e1tica, na aplica\u00e7\u00e3o da IA, um problema espec\u00edfico, evidentemente, como houve outros problemas noutras fases da hist\u00f3ria, e por isso esse problema tem que ser enfrentado, nomeadamente, sobretudo, mais focado nas consequ\u00eancias problem\u00e1ticas, b\u00e1sicas ou negativas, que a utiliza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da IA possa ter.<\/p>\n<p>S\u00f3 h\u00e1, talvez, um aspeto mais concentrado na quest\u00e3o, sobretudo quando l\u00e1 se aborda a quest\u00e3o dos transumanismos, que \u00e9 mais a quest\u00e3o antropol\u00f3gica, dir\u00edamos assim. Ou seja, repensarmos, a fundo, o que nos qualifica como humanos, tendo em conta que, neste caso concreto, este tipo de tecnologia, muito pr\u00f3xima aos humanos, nos deixa numa certa confus\u00e3o, se \u00e9 humana, se n\u00e3o \u00e9 humana, e quem somos n\u00f3s, afinal. Eu diria que esse \u00e9 o aspeto que mais diretamente est\u00e1 ligado com a IA.<\/p>\n<p>Depois s\u00e3o as consequ\u00eancias sociais, etc., da IA, que s\u00e3o abordadas em perspetiva da doutrina social da Igreja, dir\u00edamos, at\u00e9 sem novidade, a n\u00e3o ser a aplica\u00e7\u00e3o a problemas concretos que n\u00e3o existiriam se n\u00e3o houvesse a IA.<\/p>\n<p>Relativamente a essa quest\u00e3o antropol\u00f3gica, eu acho que est\u00e1 muito bem formulado, ali\u00e1s, at\u00e9 na pr\u00f3pria conclus\u00e3o, depois a refer\u00eancia \u00e0 encarna\u00e7\u00e3o, que, de facto, o desafio que temos perante m\u00e1quinas que imitam t\u00e3o bem o ser humano, para al\u00e9m de poderem superar o ser humano, ok, mas que imitam t\u00e3o bem o ser humano, que nos deixam perplexos, relativamente a algumas qualidades nossas que consider\u00e1vamos que eram tipicamente nossas, nos leva a encontrar as qualidades tipicamente humanas, eventualmente, noutro s\u00edtio, como seja a quest\u00e3o do reconhecimento da pr\u00f3pria fragilidade, a fragilidade nossa e dos outros como condi\u00e7\u00e3o de cuidado tamb\u00e9m pelos outros, encontramos o espec\u00edfico da humanidade numa regi\u00e3o que n\u00e3o era talvez t\u00e3o habitual, que estranhamente \u00e9 a regi\u00e3o evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Ou seja, aquele paragrafozinho da conclus\u00e3o que diz, aquilo que se revela na encarna\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 precisamente o verdadeiro ser humano, e quem \u00e9 o verdadeiro ser humano? O vulner\u00e1vel, o fr\u00e1gil, que ao mesmo tempo est\u00e1 atento e cuida dos vulner\u00e1veis e dos fr\u00e1geis, nisso reside a responsabilidade do humano, essa responsabilidade nunca a poderemos atirar para as m\u00e1quinas. Ao mesmo tempo, teremos que abandonar de vez uma conce\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica do humano, que o humano seja a capacidade de fazer isto, a capacidade de fazer aquilo.<\/p>\n<p><i>P: E da\u00ed a valoriza\u00e7\u00e3o da doutrina social da igreja nesta enc\u00edclica, certo?<\/i><\/p>\n<p>R: Sim, sim, sim, claro, aqui nesta vertente mais de afirma\u00e7\u00e3o at\u00e9 mais antropol\u00f3gica, normalmente a doutrina social da igreja n\u00e3o tem tanto esta componente de repensar o pr\u00f3prio humano, mas depois assumido o princ\u00edpio de que o verdadeiro ser humano revelado em Jesus \u00e9 este tipo de ser humano, ent\u00e3o h\u00e1 as consequ\u00eancias sociais disso tudo, tudo o que \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o de sociedade baseada no cuidado dos vulner\u00e1veis acaba por ser a correspond\u00eancia \u00e0 doutrina social da igreja, todos os princ\u00edpios da doutrina social da igreja, depois v\u00e3o ao encontro deste princ\u00edpio da humanidade.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica \u00e9: n\u00e3o podemos delegar a nossa humanidade para as m\u00e1quinas e n\u00e3o podemos n\u00f3s pr\u00f3prios abandonar a nossa humanidade transformando-nos numa imita\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas, n\u00f3s estamos a construir m\u00e1quinas \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do humano e em rigor o que pode acontecer \u00e9 n\u00f3s transformarmo-nos \u00e0 imita\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas e entendermo-nos simplesmente como m\u00e1quinas.<\/p>\n<p><i>P: O Papa coloca a doutrina social da igreja como uma boa possibilidade para a igreja fazer um teste a si pr\u00f3pria. O que tem a dizer em rela\u00e7\u00e3o a isso? \u00c9 um desafio?<\/i><\/p>\n<p>R: \u00c9 um recanto l\u00e1, que n\u00e3o tem a ver muito com intelig\u00eancia artificial neste caso, eu acho que ele o colocou tamb\u00e9m devido ao problema sinodal que est\u00e1 em curso, porque habitualmente, \u00e9 bastante tradi\u00e7\u00e3o da igreja, a igreja desenvolveu a sua doutrina social como discurso para o mundo relativamente aos problemas da sociedade, mas assume-se sempre como sendo problemas da sociedade que n\u00e3o s\u00e3o os seus problemas.<\/p>\n<p>E a igreja tem tido alguma dificuldade em assumir-se tamb\u00e9m como parte da sociedade e tamb\u00e9m com uma dimens\u00e3o organizacional e pol\u00edtica, diremos assim, das suas pr\u00f3prias comunidades eclesiais, que s\u00e3o muitas, evidentemente, e que t\u00eam, de qualquer modo, uma estrutura. Por isso se trata de igreja cat\u00f3lica, se tiv\u00e9ssemos uma eclesiologia mais protestante preocupava-se menos com as estruturas, a igreja cat\u00f3lica sempre se vinculou muito \u00e0s estruturas. Essas estruturas t\u00eam uma dimens\u00e3o inevitavelmente social e depois n\u00e3o podemos entrar na contradi\u00e7\u00e3o de afirmarmos valores fundamentais, incluindo at\u00e9 o pr\u00f3prio valor da democracia, para as sociedades humanas, considerando que \u00e9 a isso que elas se devem adequar em nome do evangelho e considerar que a igreja est\u00e1 isenta ou imune de se adequar a isso.<\/p>\n<p>Portanto, esse par\u00e1grafo parece-me bastante importante porque \u00e9 definitivamente o reconhecimento de que a doutrina social diz respeito a todas as rela\u00e7\u00f5es humanas e a toda a conviv\u00eancia humana, incluindo dentro da pr\u00f3pria igreja, acrescentando que se a doutrina \u00e9 social da igreja, as comunidades eclesiais devem ser exemplares, enfim, dentro da fragilidade, como \u00e9 evidente, mas devem ser exemplares na aplica\u00e7\u00e3o da doutrina social da igreja, at\u00e9 mostrar ao mundo como se constr\u00f3i verdadeira democracia, muito para al\u00e9m do ato eleitoral, que \u00e9 um ato muito limitado da organiza\u00e7\u00e3o da democracia, por exemplo.<\/p>\n<p><i>P: E o m\u00e9todo sinodal pode ser uma boa forma de a aplicar&#8230;<\/i><\/p>\n<p>R: O m\u00e9todo sinodal \u00e9 claramente a aplica\u00e7\u00e3o da doutrina social da igreja \u00e0 pr\u00f3pria igreja. Se n\u00e3o o fizermos, estamos em contradi\u00e7\u00e3o permanente e a sacramentalidade da igreja, ter\u00e1 que passar por a\u00ed, ou \u00e9 vis\u00edvel ou n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel, ou melhor, ou \u00e9 vis\u00edvel outra coisa, e ao ser vis\u00edvel outra coisa, \u00e9 contraproducente por completo, como \u00e9 l\u00f3gico.<\/p>\n<h2>Desarmar a IA<\/h2>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica teve lugar na manh\u00e3 de 25 de maio e a sess\u00e3o contou com uma interven\u00e7\u00e3o no final do pr\u00f3prio Papa, na qual apelou a uma mobiliza\u00e7\u00e3o global para travar o potencial destrutivo da IA, defendendo um escrut\u00ednio moral rigoroso sobre os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>\u201cA IA exige agora ser desarmada, libertada das l\u00f3gicas que a transformam num instrumento de domina\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o e morte\u201d, declarou Le\u00e3o XIV.<\/p>\n<p>O Papa comparou a amea\u00e7a algor\u00edtmica aos perigos do armamento nuclear. Ao mesmo tempo, revelou que este documento est\u00e1 fundamentado numa profunda escuta de peritos, de agentes pol\u00edticos e de v\u00edtimas de sistemas inform\u00e1ticos enviesados.<\/p>\n<p>\u201cOuvi relatos muito preocupantes de algoritmos que podem bloquear o acesso \u00e0 sa\u00fade, ao emprego e \u00e0 seguran\u00e7a com base em dados contaminados por preconceito e injusti\u00e7a\u201d, assinalou Le\u00e3o XIV.<\/p>\n<p>O Papa destacou que \u201cn\u00e3o devemos temer a IA\u201d, mas n\u00e3o esquecer a \u201cquest\u00e3o do ser humano\u201d. Porque \u201ca pessoa transporta em si uma liberdade, uma interioridade e a voca\u00e7\u00e3o para amar e adorar que nenhuma m\u00e1quina pode substituir ou bloquear\u201d, declarou o Santo Padre.<\/p>\n<p>O Papa revelou na sua interven\u00e7\u00e3o no final da apresenta\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica, que a Igreja deseja, \u201ccom humildade e franqueza\u201d, participar no di\u00e1logo sobre IA.<\/p>\n<p>\u201cContribu\u00edmos com uma sabedoria sobre o humano que o nosso tempo necessita desesperadamente: cada pessoa \u00e9 \u00fanica e insubstitu\u00edvel, um sujeito livre e inteligente, dotado de consci\u00eancia, capaz de buscar a Deus, servir os outros e cuidar da nossa casa comum\u201d, declarou o Papa Le\u00e3o XIV.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O te\u00f3logo portugu\u00eas considera que a enc\u00edclica \u201cMagnifica Humanitas\u201d \u00e9 \u201cde doutrina social da Igreja\u201d. Afirma ser um texto que reflete \u201csobre a humanidade nas circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas\u201d, encontrando \u201cna aplica\u00e7\u00e3o da IA, um problema espec\u00edfico\u201d. Foi assinada a 15 de maio, na data dos 135 anos da enc\u00edclica \u201cRerum Novarum\u201d de Le\u00e3o XIII. A \u201cMagnifica Humanitas\u201d,\u00a0\u201cMagn\u00edfica Humanidade\u201d, \u00e9 a primeira enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV, um documento sobre a prote\u00e7\u00e3o da pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial (IA). O te\u00f3logo portugu\u00eas Jo\u00e3o Duque considera que este texto papal \u00e9 \u201cde doutrina social da Igreja\u201d. O professor de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa assinala que esta enc\u00edclica de Le\u00e3o XIV n\u00e3o \u00e9 sobre IA mas sim \u201csobre a humanidade nas circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas\u201d. Repensar o que nos qualifica como humanos R: Eu diria, depois de ler a enc\u00edclica toda, n\u00e3o considero que a enc\u00edclica seja sobre a IA, que n\u00e3o \u00e9, explicitamente, a enc\u00edclica \u00e9 de doutrina social da Igreja, \u00e9 sobre a humanidade nas circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas. \u00c9 claro que as circunst\u00e2ncias contempor\u00e2neas encontram na IA, na pr\u00e1tica, na aplica\u00e7\u00e3o da IA, um problema espec\u00edfico, evidentemente, como houve outros problemas noutras fases da hist\u00f3ria, e por isso esse problema tem que ser enfrentado, nomeadamente, sobretudo, mais focado nas consequ\u00eancias problem\u00e1ticas, b\u00e1sicas ou negativas, que a utiliza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da IA possa ter. S\u00f3 h\u00e1, talvez, um aspeto mais concentrado na quest\u00e3o, sobretudo quando l\u00e1 se aborda a quest\u00e3o dos transumanismos, que \u00e9 mais a quest\u00e3o antropol\u00f3gica, dir\u00edamos assim. Ou seja, repensarmos, a fundo, o que nos qualifica como humanos, tendo em conta que, neste caso concreto, este tipo de tecnologia, muito pr\u00f3xima aos humanos, nos deixa numa certa confus\u00e3o, se \u00e9 humana, se n\u00e3o \u00e9 humana, e quem somos n\u00f3s, afinal. Eu diria que esse \u00e9 o aspeto que mais diretamente est\u00e1 ligado com a IA. Depois s\u00e3o as consequ\u00eancias sociais, etc., da IA, que s\u00e3o abordadas em perspetiva da doutrina social da Igreja, dir\u00edamos, at\u00e9 sem novidade, a n\u00e3o ser a aplica\u00e7\u00e3o a problemas concretos que n\u00e3o existiriam se n\u00e3o houvesse a IA. Relativamente a essa quest\u00e3o antropol\u00f3gica, eu acho que est\u00e1 muito bem formulado, ali\u00e1s, at\u00e9 na pr\u00f3pria conclus\u00e3o, depois a refer\u00eancia \u00e0 encarna\u00e7\u00e3o, que, de facto, o desafio que temos perante m\u00e1quinas que imitam t\u00e3o bem o ser humano, para al\u00e9m de poderem superar o ser humano, ok, mas que imitam t\u00e3o bem o ser humano, que nos deixam perplexos, relativamente a algumas qualidades nossas que consider\u00e1vamos que eram tipicamente nossas, nos leva a encontrar as qualidades tipicamente humanas, eventualmente, noutro s\u00edtio, como seja a quest\u00e3o do reconhecimento da pr\u00f3pria fragilidade, a fragilidade nossa e dos outros como condi\u00e7\u00e3o de cuidado tamb\u00e9m pelos outros, encontramos o espec\u00edfico da humanidade numa regi\u00e3o que n\u00e3o era talvez t\u00e3o habitual, que estranhamente \u00e9 a regi\u00e3o evang\u00e9lica. Ou seja, aquele paragrafozinho da conclus\u00e3o que diz, aquilo que se revela na encarna\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 precisamente o verdadeiro ser humano, e quem \u00e9 o verdadeiro ser humano? O vulner\u00e1vel, o fr\u00e1gil, que ao mesmo tempo est\u00e1 atento e cuida dos vulner\u00e1veis e dos fr\u00e1geis, nisso reside a responsabilidade do humano, essa responsabilidade nunca a poderemos atirar para as m\u00e1quinas. Ao mesmo tempo, teremos que abandonar de vez uma conce\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica do humano, que o humano seja a capacidade de fazer isto, a capacidade de fazer aquilo. P: E da\u00ed a valoriza\u00e7\u00e3o da doutrina social da igreja nesta enc\u00edclica, certo? R: Sim, sim, sim, claro, aqui nesta vertente mais de afirma\u00e7\u00e3o at\u00e9 mais antropol\u00f3gica, normalmente a doutrina social da igreja n\u00e3o tem tanto esta componente de repensar o pr\u00f3prio humano, mas depois assumido o princ\u00edpio de que o verdadeiro ser humano revelado em Jesus \u00e9 este tipo de ser humano, ent\u00e3o h\u00e1 as consequ\u00eancias sociais disso tudo, tudo o que \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o de sociedade baseada no cuidado dos vulner\u00e1veis acaba por ser a correspond\u00eancia \u00e0 doutrina social da igreja, todos os princ\u00edpios da doutrina social da igreja, depois v\u00e3o ao encontro deste princ\u00edpio da humanidade. Na pr\u00e1tica \u00e9: n\u00e3o podemos delegar a nossa humanidade para as m\u00e1quinas e n\u00e3o podemos n\u00f3s pr\u00f3prios abandonar a nossa humanidade transformando-nos numa imita\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas, n\u00f3s estamos a construir m\u00e1quinas \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do humano e em rigor o que pode acontecer \u00e9 n\u00f3s transformarmo-nos \u00e0 imita\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas e entendermo-nos simplesmente como m\u00e1quinas. P: O Papa coloca a doutrina social da igreja como uma boa possibilidade para a igreja fazer um teste a si pr\u00f3pria. O que tem a dizer em rela\u00e7\u00e3o a isso? \u00c9 um desafio? R: \u00c9 um recanto l\u00e1, que n\u00e3o tem a ver muito com intelig\u00eancia artificial neste caso, eu acho que ele o colocou tamb\u00e9m devido ao problema sinodal que est\u00e1 em curso, porque habitualmente, \u00e9 bastante tradi\u00e7\u00e3o da igreja, a igreja desenvolveu a sua doutrina social como discurso para o mundo relativamente aos problemas da sociedade, mas assume-se sempre como sendo problemas da sociedade que n\u00e3o s\u00e3o os seus problemas. E a igreja tem tido alguma dificuldade em assumir-se tamb\u00e9m como parte da sociedade e tamb\u00e9m com uma dimens\u00e3o organizacional e pol\u00edtica, diremos assim, das suas pr\u00f3prias comunidades eclesiais, que s\u00e3o muitas, evidentemente, e que t\u00eam, de qualquer modo, uma estrutura. Por isso se trata de igreja cat\u00f3lica, se tiv\u00e9ssemos uma eclesiologia mais protestante preocupava-se menos com as estruturas, a igreja cat\u00f3lica sempre se vinculou muito \u00e0s estruturas. Essas estruturas t\u00eam uma dimens\u00e3o inevitavelmente social e depois n\u00e3o podemos entrar na contradi\u00e7\u00e3o de afirmarmos valores fundamentais, incluindo at\u00e9 o pr\u00f3prio valor da democracia, para as sociedades humanas, considerando que \u00e9 a isso que elas se devem adequar em nome do evangelho e considerar que a igreja est\u00e1 isenta ou imune de se adequar a isso. Portanto, esse par\u00e1grafo parece-me bastante importante porque \u00e9 definitivamente o reconhecimento de que a doutrina social diz respeito a todas as rela\u00e7\u00f5es humanas e a toda a conviv\u00eancia humana, incluindo dentro da pr\u00f3pria igreja, acrescentando que se a doutrina \u00e9 social da igreja, as comunidades eclesiais devem ser exemplares, enfim, dentro da fragilidade, como<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":32522,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-32719","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32719\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}