{"id":32741,"date":"2026-08-03T09:35:48","date_gmt":"2026-08-03T09:35:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32741"},"modified":"2026-08-03T09:35:48","modified_gmt":"2026-08-03T09:35:48","slug":"paulo-vi-nao-a-instrumentalizacao-da-eucaristia-para-promover-a-sedicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/paulo-vi-nao-a-instrumentalizacao-da-eucaristia-para-promover-a-sedicao\/","title":{"rendered":"Paulo VI: \u201cN\u00e3o\u201d \u00e0 instrumentaliza\u00e7\u00e3o da Eucaristia para promover a sedi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Secretariado Diocesano da Liturgia<\/strong><\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 quem suponha que o cisma dos seguidores mais radicais de Lefebvre (FSSPX) \u00e9 \u201capenas\u201d lit\u00fargico: uma quest\u00e3o de gostos e prefer\u00eancias rituais. Por isso sugerem que a forma de responder a esta \u201ccrise\u201d consistir\u00e1 em minimizar o motivo da rutura, tornar l\u00edcito celebrar a Sagrada Liturgia tal como se fazia antes do Conc\u00edlio. Como se o Conc\u00edlio Vaticano II n\u00e3o tivesse decretado qualquer reforma\/instaura\u00e7\u00e3o lit\u00fargica ou, tendo-o feito, tal reforma \u2013 liderada, aprovada e promulgada pela leg\u00edtima autoridade da Igreja Cat\u00f3lica \u2013 se pudesse minimizar ou, at\u00e9, ignorar. \u00c9 uma mera quest\u00e3o de gostos e\u00a0<em>de gustibus non est disputandum! (Gostos n\u00e3o se discutem<\/em>). Como se a Liturgia fosse pouca coisa! Como se n\u00e3o houvesse um nexo estrito entre \u201clex orandi\u201d e \u201clex credendi\u201d!<\/p>\n<p>Na verdade, uma considera\u00e7\u00e3o objetiva dos factos leva a concluir, sem margem para d\u00favidas, que em todo este processo a Liturgia foi pretexto e n\u00e3o causa do Cisma e que, agora, satisfazer as pretens\u00f5es que relativizam a Liturgia da Igreja \u00e9 correr o risco de continuar a instrumentaliz\u00e1-la, alargando o espa\u00e7o do mesmo Cisma para dentro da Igreja e tornando facultativo ou irrelevante o pr\u00f3prio Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico. Seria o carcinoma a metastizar-se por todo o corpo.<\/p>\n<p>Sem dramatizar, e com a perspetiva da hist\u00f3ria da Igreja que ensina que todos os grandes Conc\u00edlios do passado tiveram a sua contrapartida de heresias ou cismas, \u00e9 bom recapitular alguns dos passos mais significativos deste processo.<\/p>\n<p>Marcel Lefebvre (1905\u20131991), apresentou-se no II Conc\u00edlio do Vaticano com uma not\u00e1vel folha de servi\u00e7os de bispo mission\u00e1rio na \u00c1frica Ocidental. Com esse prest\u00edgio, participou na Comiss\u00e3o Preparat\u00f3ria Central do Conc\u00edlio Vaticano II. Nos debates conciliares (1962-1965), a sua posi\u00e7\u00e3o foi-se extremando progressivamente, sendo um dos principais impulsionadores e coordenadores do\u00a0<em>Coetus Internationalis Patrum<\/em>\u00a0[CIP] que agrupava os bispos mais conservadores da assembleia conciliar (cerca de 250-300 em 2500). A princ\u00edpio, foi uma oposi\u00e7\u00e3o moderada. Basta dizer que votou favoravelmente (<em>placet<\/em>) a Constitui\u00e7\u00e3o sobre a Sagrada Liturgia. Aprovou com reservas (<em>placet iuxta modum<\/em>)\u00a0<em>Lumen Gentium\u00a0<\/em>(opunha-se ao princ\u00edpio da colegialidade episcopal),\u00a0<em>Christus Dominus<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Dei Verbum<\/em>. Mas op\u00f4s-se com o seu voto (<em>non placet<\/em>) a\u00a0<em>Unitatis Redintegratio<\/em>\u00a0(ecumenismo),\u00a0<em>Nostra Aetate<\/em>\u00a0(religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s),\u00a0<em>Dignitatis Humanae<\/em>\u00a0(liberdade religiosa) e\u00a0<em>Gaudium et Spes<\/em>\u00a0(Constitui\u00e7\u00e3o pastoral sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo). Por fim, n\u00e3o obstante a radicaliza\u00e7\u00e3o crescente, subscreveu todos e cada um dos documentos conciliares.<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00ea, por esta resenha, que\u00a0<strong>a Liturgia n\u00e3o era o foco da discrep\u00e2ncia<\/strong>. O que, sobretudo, suscitava a sua oposi\u00e7\u00e3o era o suposto e temido casamento da Igreja com os ideais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e a infiltra\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>modernismo<\/em>. Historicamente, a sua dissid\u00eancia come\u00e7a a prop\u00f3sito da quest\u00e3o dos\u00a0<strong>semin\u00e1rios<\/strong>\u00a0e da\u00a0<strong>forma\u00e7\u00e3o do clero<\/strong>. Depois de se distanciar da Congrega\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria dos Padres do Esp\u00edrito Santo, fundou um semin\u00e1rio em \u00c9c\u00f4ne, na Su\u00ed\u00e7a, a princ\u00edpio com aprova\u00e7\u00e3o do Bispo diocesano (1970). Pretendia formar padres na linha da \u00abtradi\u00e7\u00e3o\u00bb: com e para a doutrina \u201cde sempre\u201d, a Liturgia \u201cde sempre\u201d, a pastoral \u201cde sempre\u201d, dizendo\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0ao liberalismo,\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0ao comunismo,\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0ao \u201cmodernismo\u201d,\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0ao di\u00e1logo (ecum\u00e9nico,\u00a0 inter-religioso, sociopol\u00edtico; s\u00f3 a verdade tem direitos e Cristo tem de reinar nas consci\u00eancias e nos Estados). Em suma:\u00a0<strong><em>n\u00e3o<\/em><\/strong>\u00a0\u00e0quilo que chamar\u00e1 \u201cabastardamento\u201d da f\u00e9, da disciplina e da Liturgia.<\/p>\n<p>Obviamente, quem forma seminaristas quer ordenar presb\u00edteros. A rutura come\u00e7a a tornar-se inevit\u00e1vel em 1974 (c\u00e9lebre declara\u00e7\u00e3o de \u00c9c\u00f4ne) e, ap\u00f3s a ordena\u00e7\u00e3o, \u00e0 revelia, dos primeiros padres, Lefebvre \u00e9 suspenso\u00a0<em>a divinis<\/em>\u00a0(proibi\u00e7\u00e3o de presidir \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos e demais atos de culto p\u00fablico cat\u00f3lico) em 22 de julho de 1976, de nada valendo a interven\u00e7\u00e3o pessoal de S\u00e3o Paulo VI. Apesar de intenso di\u00e1logo que, j\u00e1 nos anos 80, teve como protagonista da parte da Santa S\u00e9 o Cardeal Ratzinger, e n\u00e3o obstante a advert\u00eancia de uma inevit\u00e1vel excomunh\u00e3o por\u00a0<em>cisma<\/em>, em 30 de junho de 1988 Lefebvre consumou a rutura ordenando quatro bispos sem o mandato pontif\u00edcio. Era papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II que manifestou a dor imensa da \u201cIgreja de Deus aflita\u201d perante este corte formal com a sua comunh\u00e3o: de f\u00e9, de culto, de disciplina e, portanto, comunh\u00e3o hier\u00e1rquica.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer que a quest\u00e3o lit\u00fargica n\u00e3o tenha tido o seu peso neste processo de progressivo distanciamento. As bandeiras contam na mobiliza\u00e7\u00e3o das hostes! \u00c9 um facto que o novo\u00a0<em>Ordo Missae<\/em>, conhecido em 1968, foi objeto de grande controv\u00e9rsia \u2013 impulsionada sobretudo pelos continuadores do CIP, com Lefebvre \u00e0 cabe\u00e7a \u2013 com uma interven\u00e7\u00e3o de p\u00fablica censura do pr\u00f3prio Cardeal Alfredo Ottaviani, antigo e respeitado Prefeito do Santo Of\u00edcio. Segundo o\u00a0<em>Breve Exame Cr\u00edtico<\/em>\u00a0do\u00a0<em>Novo\u00a0<\/em><em>Ordo Missae<\/em>, por ele subscrito, estar-se-ia a\u00a0<em>protestantizar\u00a0<\/em>a Missa, negando ou obscurecendo a f\u00e9 na presen\u00e7a real de Cristo e do seu sacrif\u00edcio, e esvaziando ou desqualificando a interven\u00e7\u00e3o do sacerd\u00f3cio ministerial que j\u00e1 n\u00e3o agiria\u00a0<em>in persona Christi capitis\u00a0<\/em>(fazendo as vezes de Cristo-Cabe\u00e7a) mas sim como presidente de uma assembleia democr\u00e1tica. Hoje sabe-se que o redator principal desse\u00a0<em>exame\u00a0<\/em>inqualific\u00e1vel foi o te\u00f3logo dominicano Michel-Louis Gu\u00e9rard des Lauriers, ent\u00e3o muito pr\u00f3ximo de Lefebvre, defensor da tese\u00a0<em>sedevacantista<\/em>, que terminou os seus dias como bispo cism\u00e1tico rebelde. E o pr\u00f3prio Ottaviani se demarcou, logo a seguir, desse documento manifestamente descontextualizado, infundamentado e preconceituoso. A posterior revis\u00e3o da IGMR, com o acrescento de um pro\u00e9mio, deu-lhe resposta mais do que satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas, voltemos ao princ\u00edpio: o\u00a0<strong>problema decisivo<\/strong>\u00a0n\u00e3o era a Liturgia. Como j\u00e1 tinha claro S\u00e3o Paulo VI, na carta que escreveu a Lefebvre, em 11 de outubro de 1976, \u00ab<strong>o fundamental<\/strong>\u00bb, \u00aba quest\u00e3o capital e essencial\u00bb era esta: \u00abrejeitas em geral\u00a0<strong>a autoridade do Conc\u00edlio e do Sumo Pont\u00edfice<\/strong>\u00bb. \u00ab<em>A\u00a0<strong>Tradi\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9 algo im\u00f3vel e morto \u2026e\u00a0<strong>n\u00e3o pode ser separada do Magist\u00e9rio vivo<\/strong>\u00a0da Igreja<\/em>\u00bb. \u00ab<em>Tu pr\u00f3prio, e os teus seguidores esfor\u00e7ais-vos por permanecer\u00a0<strong>im\u00f3veis<\/strong>\u00a0num certo per\u00edodo definido da vida eclesial; ao faz\u00ea-lo,<strong>\u00a0recusais-vos a aderir \u00e0 Igreja viva<\/strong><\/em><strong>\u00bb<\/strong>. Em mat\u00e9ria de Liturgia, ap\u00f3s sumariar a obra de \u00abrestaura\u00e7\u00e3o lit\u00fargica\u00bb, Paulo VI declara:\u00a0 \u00ab<em>Por Nossa autoridade,\u00a0<strong>sancionamos esta renova\u00e7\u00e3o, ordenando que seja observada por todos<\/strong>\u00a0os que se consideram cat\u00f3licos. Mas se julgamos, em geral, que neste assunto n\u00e3o se devem permitir\u00a0<strong>morat\u00f3rias<\/strong>\u00a0nem conceder\u00a0<strong>exce\u00e7\u00f5es<\/strong>, fazemo-lo para o bem espiritual e a\u00a0<strong>unidade<\/strong>\u00a0de toda a comunidade eclesial, visto que\u00a0<strong>para os cat\u00f3licos do Rito Romano o \u201cOrdo Missae\u201d \u00e9 um sinal preeminente da sua unidade<\/strong>. Quanto a ti, esse rito anterior \u00e9 um\u00a0<strong>ind\u00edcio de falsa eclesiologia e mat\u00e9ria para atacar o Conc\u00edlio<\/strong>\u00a0e a sua obra de restaura\u00e7\u00e3o, sob o pretexto ou com a desculpa de que s\u00f3 nesse rito antigo se preservam o verdadeiro sacrif\u00edcio da Missa e o verdadeiro sacerd\u00f3cio ministerial, sem que seja obscurecido o seu significado. Mas n\u00f3s rejeitamos completamente este ju\u00edzo errado, esta acusa\u00e7\u00e3o injusta, e\u00a0<strong>n\u00e3o podemos permitir que a divina Eucaristia, Sacramento da unidade, se torne causa de divis\u00f5es<\/strong><\/em>\u00a0(<em>1Cor<\/em>\u00a011, 18)\u00a0<em>e que seja usada como\u00a0<strong>instrumento e sinal de sedi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em>\u00bb.<\/p>\n<div class=\"mh-social-bottom\">\n<div class=\"mh-share-buttons clearfix\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Secretariado Diocesano da Liturgia Ainda h\u00e1 quem suponha que o cisma dos seguidores mais radicais de Lefebvre (FSSPX) \u00e9 \u201capenas\u201d lit\u00fargico: uma quest\u00e3o de gostos e prefer\u00eancias rituais. Por isso sugerem que a forma de responder a esta \u201ccrise\u201d consistir\u00e1 em minimizar o motivo da rutura, tornar l\u00edcito celebrar a Sagrada Liturgia tal como se fazia antes do Conc\u00edlio. Como se o Conc\u00edlio Vaticano II n\u00e3o tivesse decretado qualquer reforma\/instaura\u00e7\u00e3o lit\u00fargica ou, tendo-o feito, tal reforma \u2013 liderada, aprovada e promulgada pela leg\u00edtima autoridade da Igreja Cat\u00f3lica \u2013 se pudesse minimizar ou, at\u00e9, ignorar. \u00c9 uma mera quest\u00e3o de gostos e\u00a0de gustibus non est disputandum! (Gostos n\u00e3o se discutem). Como se a Liturgia fosse pouca coisa! Como se n\u00e3o houvesse um nexo estrito entre \u201clex orandi\u201d e \u201clex credendi\u201d! Na verdade, uma considera\u00e7\u00e3o objetiva dos factos leva a concluir, sem margem para d\u00favidas, que em todo este processo a Liturgia foi pretexto e n\u00e3o causa do Cisma e que, agora, satisfazer as pretens\u00f5es que relativizam a Liturgia da Igreja \u00e9 correr o risco de continuar a instrumentaliz\u00e1-la, alargando o espa\u00e7o do mesmo Cisma para dentro da Igreja e tornando facultativo ou irrelevante o pr\u00f3prio Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico. Seria o carcinoma a metastizar-se por todo o corpo. Sem dramatizar, e com a perspetiva da hist\u00f3ria da Igreja que ensina que todos os grandes Conc\u00edlios do passado tiveram a sua contrapartida de heresias ou cismas, \u00e9 bom recapitular alguns dos passos mais significativos deste processo. Marcel Lefebvre (1905\u20131991), apresentou-se no II Conc\u00edlio do Vaticano com uma not\u00e1vel folha de servi\u00e7os de bispo mission\u00e1rio na \u00c1frica Ocidental. Com esse prest\u00edgio, participou na Comiss\u00e3o Preparat\u00f3ria Central do Conc\u00edlio Vaticano II. Nos debates conciliares (1962-1965), a sua posi\u00e7\u00e3o foi-se extremando progressivamente, sendo um dos principais impulsionadores e coordenadores do\u00a0Coetus Internationalis Patrum\u00a0[CIP] que agrupava os bispos mais conservadores da assembleia conciliar (cerca de 250-300 em 2500). A princ\u00edpio, foi uma oposi\u00e7\u00e3o moderada. Basta dizer que votou favoravelmente (placet) a Constitui\u00e7\u00e3o sobre a Sagrada Liturgia. Aprovou com reservas (placet iuxta modum)\u00a0Lumen Gentium\u00a0(opunha-se ao princ\u00edpio da colegialidade episcopal),\u00a0Christus Dominus\u00a0e\u00a0Dei Verbum. Mas op\u00f4s-se com o seu voto (non placet) a\u00a0Unitatis Redintegratio\u00a0(ecumenismo),\u00a0Nostra Aetate\u00a0(religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s),\u00a0Dignitatis Humanae\u00a0(liberdade religiosa) e\u00a0Gaudium et Spes\u00a0(Constitui\u00e7\u00e3o pastoral sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo). Por fim, n\u00e3o obstante a radicaliza\u00e7\u00e3o crescente, subscreveu todos e cada um dos documentos conciliares. J\u00e1 se v\u00ea, por esta resenha, que\u00a0a Liturgia n\u00e3o era o foco da discrep\u00e2ncia. O que, sobretudo, suscitava a sua oposi\u00e7\u00e3o era o suposto e temido casamento da Igreja com os ideais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e a infiltra\u00e7\u00e3o do\u00a0modernismo. Historicamente, a sua dissid\u00eancia come\u00e7a a prop\u00f3sito da quest\u00e3o dos\u00a0semin\u00e1rios\u00a0e da\u00a0forma\u00e7\u00e3o do clero. Depois de se distanciar da Congrega\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria dos Padres do Esp\u00edrito Santo, fundou um semin\u00e1rio em \u00c9c\u00f4ne, na Su\u00ed\u00e7a, a princ\u00edpio com aprova\u00e7\u00e3o do Bispo diocesano (1970). Pretendia formar padres na linha da \u00abtradi\u00e7\u00e3o\u00bb: com e para a doutrina \u201cde sempre\u201d, a Liturgia \u201cde sempre\u201d, a pastoral \u201cde sempre\u201d, dizendo\u00a0n\u00e3o\u00a0ao liberalismo,\u00a0n\u00e3o\u00a0ao comunismo,\u00a0n\u00e3o\u00a0ao \u201cmodernismo\u201d,\u00a0n\u00e3o\u00a0ao di\u00e1logo (ecum\u00e9nico,\u00a0 inter-religioso, sociopol\u00edtico; s\u00f3 a verdade tem direitos e Cristo tem de reinar nas consci\u00eancias e nos Estados). Em suma:\u00a0n\u00e3o\u00a0\u00e0quilo que chamar\u00e1 \u201cabastardamento\u201d da f\u00e9, da disciplina e da Liturgia. Obviamente, quem forma seminaristas quer ordenar presb\u00edteros. A rutura come\u00e7a a tornar-se inevit\u00e1vel em 1974 (c\u00e9lebre declara\u00e7\u00e3o de \u00c9c\u00f4ne) e, ap\u00f3s a ordena\u00e7\u00e3o, \u00e0 revelia, dos primeiros padres, Lefebvre \u00e9 suspenso\u00a0a divinis\u00a0(proibi\u00e7\u00e3o de presidir \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos e demais atos de culto p\u00fablico cat\u00f3lico) em 22 de julho de 1976, de nada valendo a interven\u00e7\u00e3o pessoal de S\u00e3o Paulo VI. Apesar de intenso di\u00e1logo que, j\u00e1 nos anos 80, teve como protagonista da parte da Santa S\u00e9 o Cardeal Ratzinger, e n\u00e3o obstante a advert\u00eancia de uma inevit\u00e1vel excomunh\u00e3o por\u00a0cisma, em 30 de junho de 1988 Lefebvre consumou a rutura ordenando quatro bispos sem o mandato pontif\u00edcio. Era papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II que manifestou a dor imensa da \u201cIgreja de Deus aflita\u201d perante este corte formal com a sua comunh\u00e3o: de f\u00e9, de culto, de disciplina e, portanto, comunh\u00e3o hier\u00e1rquica. N\u00e3o se pode dizer que a quest\u00e3o lit\u00fargica n\u00e3o tenha tido o seu peso neste processo de progressivo distanciamento. As bandeiras contam na mobiliza\u00e7\u00e3o das hostes! \u00c9 um facto que o novo\u00a0Ordo Missae, conhecido em 1968, foi objeto de grande controv\u00e9rsia \u2013 impulsionada sobretudo pelos continuadores do CIP, com Lefebvre \u00e0 cabe\u00e7a \u2013 com uma interven\u00e7\u00e3o de p\u00fablica censura do pr\u00f3prio Cardeal Alfredo Ottaviani, antigo e respeitado Prefeito do Santo Of\u00edcio. Segundo o\u00a0Breve Exame Cr\u00edtico\u00a0do\u00a0Novo\u00a0Ordo Missae, por ele subscrito, estar-se-ia a\u00a0protestantizar\u00a0a Missa, negando ou obscurecendo a f\u00e9 na presen\u00e7a real de Cristo e do seu sacrif\u00edcio, e esvaziando ou desqualificando a interven\u00e7\u00e3o do sacerd\u00f3cio ministerial que j\u00e1 n\u00e3o agiria\u00a0in persona Christi capitis\u00a0(fazendo as vezes de Cristo-Cabe\u00e7a) mas sim como presidente de uma assembleia democr\u00e1tica. Hoje sabe-se que o redator principal desse\u00a0exame\u00a0inqualific\u00e1vel foi o te\u00f3logo dominicano Michel-Louis Gu\u00e9rard des Lauriers, ent\u00e3o muito pr\u00f3ximo de Lefebvre, defensor da tese\u00a0sedevacantista, que terminou os seus dias como bispo cism\u00e1tico rebelde. E o pr\u00f3prio Ottaviani se demarcou, logo a seguir, desse documento manifestamente descontextualizado, infundamentado e preconceituoso. A posterior revis\u00e3o da IGMR, com o acrescento de um pro\u00e9mio, deu-lhe resposta mais do que satisfat\u00f3ria. Mas, voltemos ao princ\u00edpio: o\u00a0problema decisivo\u00a0n\u00e3o era a Liturgia. Como j\u00e1 tinha claro S\u00e3o Paulo VI, na carta que escreveu a Lefebvre, em 11 de outubro de 1976, \u00abo fundamental\u00bb, \u00aba quest\u00e3o capital e essencial\u00bb era esta: \u00abrejeitas em geral\u00a0a autoridade do Conc\u00edlio e do Sumo Pont\u00edfice\u00bb. \u00abA\u00a0Tradi\u00e7\u00e3o\u00a0n\u00e3o \u00e9 algo im\u00f3vel e morto \u2026e\u00a0n\u00e3o pode ser separada do Magist\u00e9rio vivo\u00a0da Igreja\u00bb. \u00abTu pr\u00f3prio, e os teus seguidores esfor\u00e7ais-vos por permanecer\u00a0im\u00f3veis\u00a0num certo per\u00edodo definido da vida eclesial; ao faz\u00ea-lo,\u00a0recusais-vos a aderir \u00e0 Igreja viva\u00bb. Em mat\u00e9ria de Liturgia, ap\u00f3s sumariar a obra de \u00abrestaura\u00e7\u00e3o lit\u00fargica\u00bb, Paulo VI declara:\u00a0 \u00abPor Nossa autoridade,\u00a0sancionamos esta renova\u00e7\u00e3o, ordenando que seja observada por todos\u00a0os que se consideram cat\u00f3licos. Mas se julgamos, em geral, que neste assunto n\u00e3o se devem permitir\u00a0morat\u00f3rias\u00a0nem conceder\u00a0exce\u00e7\u00f5es, fazemo-lo para o bem espiritual e a\u00a0unidade\u00a0de toda a comunidade eclesial, visto que\u00a0para os cat\u00f3licos do Rito Romano o \u201cOrdo Missae\u201d \u00e9 um sinal preeminente<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":28815,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-32741","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32741","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32741"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32741\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}