{"id":32901,"date":"2026-09-30T10:14:38","date_gmt":"2026-09-30T10:14:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32901"},"modified":"2026-09-30T10:23:15","modified_gmt":"2026-09-30T10:23:15","slug":"deixem-nos-ser-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/deixem-nos-ser-criancas\/","title":{"rendered":"Deixem-nos ser crian\u00e7as!"},"content":{"rendered":"<p>Tenho ouvido muitos adultos preocupados com o bem-estar das crian\u00e7as. Defendem que as crian\u00e7as precisam de brincar. De se afastar dos ecr\u00e3s e de se aproximar mais das pessoas que est\u00e3o respons\u00e1veis por lhes mostrar o que \u00e9 o amor incondicional. Escrevem-se livros sobre a ansiedade que esta nova gera\u00e7\u00e3o sente, revela e espelha. A teoria muito bem defendida por quem usa gravata e fala, mais ou menos bem penteado, num hor\u00e1rio <em>pseudo<\/em> nobre. Todos t\u00eam opini\u00e3o. E todos parecem donos da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, os mesmos adultos que falam sobre como as crian\u00e7as deviam ter espa\u00e7o e tempo, n\u00e3o parecem muito empenhados em dar-lhos. N\u00f3s, os adultos, continuamos a oferecer \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es o nosso exemplo e o nosso modelo de rapidez desenfreada, de foco no pr\u00e9mio, no resultado e na produtividade. Oferecemos a nossa incapacidade de sentir o que trazemos dentro e, sem querer, mostramos-lhes que \u00e9 isso que dever\u00e3o fazer tamb\u00e9m. Oferecemos pressa e a ideia de que tudo \u00e9 urgente e tudo \u00e9 para ontem. Oferecemos a nossa ansiedade. O nosso estilo de vida em modo de sobreviv\u00eancia. E as crian\u00e7as v\u00e3o bebendo dessa fonte poluid\u00edssima que lhes disponibilizamos.<\/p>\n<p>Podemos escrever mil livros e dizer as maiores verdades sobre o mundo e as coisas. Se n\u00e3o as praticarmos, ser\u00e3o palavras vazias e sem ecos de futuro. Falta-nos resolver o estilo de vida dos adultos. Falta-nos ter tempo. Espa\u00e7o. Falta-nos conseguir ser quem somos sem nos sentirmos culpados por isso. Falta-nos olhar como quem, realmente, quer ver.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as n\u00e3o precisam de teorias. Precisam de modelos que se cumpram e que se amem. Precisam de uma sociedade, de escolas e de c\u00edrculos focados na calma, na paz e no tempo de qualidade.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o nos curarmos como adultos n\u00e3o poderemos ter gera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as mais felizes e mais livres.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o soubermos corrigir os desvios que t\u00eam sido feitos, n\u00e3o poderemos (nem saberemos) percorrer outros caminhos. Daniel Sampaio intitulou um dos seus livros: \u201cInventem-se novos pais\u201d. E eu acrescento \u2013 inventem-se novos adultos. \u00c9 o que todas as crian\u00e7as merecem.<\/p>\n<p>(iMissio)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho ouvido muitos adultos preocupados com o bem-estar das crian\u00e7as. Defendem que as crian\u00e7as precisam de brincar. De se afastar dos ecr\u00e3s e de se aproximar mais das pessoas que est\u00e3o respons\u00e1veis por lhes mostrar o que \u00e9 o amor incondicional. Escrevem-se livros sobre a ansiedade que esta nova gera\u00e7\u00e3o sente, revela e espelha. A teoria muito bem defendida por quem usa gravata e fala, mais ou menos bem penteado, num hor\u00e1rio pseudo nobre. Todos t\u00eam opini\u00e3o. E todos parecem donos da raz\u00e3o. No entanto, os mesmos adultos que falam sobre como as crian\u00e7as deviam ter espa\u00e7o e tempo, n\u00e3o parecem muito empenhados em dar-lhos. N\u00f3s, os adultos, continuamos a oferecer \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es o nosso exemplo e o nosso modelo de rapidez desenfreada, de foco no pr\u00e9mio, no resultado e na produtividade. Oferecemos a nossa incapacidade de sentir o que trazemos dentro e, sem querer, mostramos-lhes que \u00e9 isso que dever\u00e3o fazer tamb\u00e9m. Oferecemos pressa e a ideia de que tudo \u00e9 urgente e tudo \u00e9 para ontem. Oferecemos a nossa ansiedade. O nosso estilo de vida em modo de sobreviv\u00eancia. E as crian\u00e7as v\u00e3o bebendo dessa fonte poluid\u00edssima que lhes disponibilizamos. Podemos escrever mil livros e dizer as maiores verdades sobre o mundo e as coisas. Se n\u00e3o as praticarmos, ser\u00e3o palavras vazias e sem ecos de futuro. Falta-nos resolver o estilo de vida dos adultos. Falta-nos ter tempo. Espa\u00e7o. Falta-nos conseguir ser quem somos sem nos sentirmos culpados por isso. Falta-nos olhar como quem, realmente, quer ver. As crian\u00e7as n\u00e3o precisam de teorias. Precisam de modelos que se cumpram e que se amem. Precisam de uma sociedade, de escolas e de c\u00edrculos focados na calma, na paz e no tempo de qualidade. Enquanto n\u00e3o nos curarmos como adultos n\u00e3o poderemos ter gera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as mais felizes e mais livres. Enquanto n\u00e3o soubermos corrigir os desvios que t\u00eam sido feitos, n\u00e3o poderemos (nem saberemos) percorrer outros caminhos. Daniel Sampaio intitulou um dos seus livros: \u201cInventem-se novos pais\u201d. E eu acrescento \u2013 inventem-se novos adultos. \u00c9 o que todas as crian\u00e7as merecem. 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