{"id":32931,"date":"2026-10-03T12:57:23","date_gmt":"2026-10-03T12:57:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32931"},"modified":"2026-10-03T12:57:23","modified_gmt":"2026-10-03T12:57:23","slug":"leao-xiv-na-unesco-o-dom-a-cultura-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/leao-xiv-na-unesco-o-dom-a-cultura-a-paz\/","title":{"rendered":"Le\u00e3o XIV na Unesco: o dom, a cultura, a paz"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Jorge Teixeira da Cunha<\/strong><\/p>\n<p>O Papa Le\u00e3o XIV foi recebido na sede da Unesco, em Paris, na sua recente visita \u00e0 Fran\u00e7a. \u00c9 um gesto de hospitalidade interessante, por parte de um organismo internacional que tem as suas dificuldades em dar voz \u00e0s religi\u00f5es. Isso compreende-se at\u00e9 certo ponto, poia trata-se de um organismo com cerca de duzentos pa\u00edses membros, com toda a diversidade de pontos de vista que isso implica. De um modo geral, por\u00e9m, podemos dizer que a Unesco tem sido orientada na base da cultura Ocidental, baseada na ci\u00eancia experimental e muito condicionada pelas vanguardas culturais do nosso mundo europeu e americano. Na hist\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o consta a presen\u00e7a de um antigo observador do Vaticano, o cardeal Roncalli, que veio a ser o Papa Jo\u00e3o XXIII, e uma visita do Papa Jo\u00e3o Paulo II, em 1980.<\/p>\n<p>O discurso do Papa Le\u00e3o \u00e9 muito interessante e muito corajoso, tendo em conta o contexto que acab\u00e1mos de referir. O aspecto que nos parece mais relevante \u00e9 a proposta das bases de um humanismo, n\u00e3o assente nas metas formalistas da cultura corrente europeia, mas num regresso \u00e0s fontes remotas, segundo as quais o cristianismo fala do ser humano. Para o Papa Le\u00e3o, aquilo que caracteriza a nossa humanidade s\u00e3o tr\u00eas experi\u00eancias b\u00e1sicas: a filialidade, a necessidade e a magnific\u00eancia. Quanto ao primeiro ponto, trata-se de observar como os seres humanos se encontram inseridos numa cadeia de gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o controlam, se experimentam a viver sem terem escolhido vir a este mundo. Por isso, o modo sensato de falar de si mesmo \u00e9 sob a forma da filialidade: somos filhos e filhas, antes de sermos qualquer outra coisa. Achamos este ponto interessante, pois esta descri\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de ser aquela que nos d\u00e3o os saberes comuns na nossa cultura de hoje. Para a mentalidade corrente, o ser humano \u00e9 art\u00edfice de si mesmo, \u00e9 aut\u00f3nomo, a ponto de poder dispor da sua pr\u00f3pria vida. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 corrente descrever o ser humano como ser de necessidades, de forma que ningu\u00e9m pode viver sem ser ajudado e de ajudar a prover \u00e0s necessidades. Esta experi\u00eancia bem real da vida contradiz a nossa mentalidade individualista corrente, que v\u00ea o ser humano como um demiurgo, um agente solit\u00e1rio cuja miss\u00e3o \u00e9 precisamente triunfar sobre a necessidade. Finalmente, o Papa Le\u00e3o diz que experimentada desta maneira, a nossa humanidade \u00e9 \u201cmagn\u00edfica\u201d, numa alus\u00e3o evidente \u00e0 sua recente enc\u00edclica program\u00e1tica. Prop\u00f5e, portanto, a contempla\u00e7\u00e3o da vida, antes do desenvolvimento da vida, como forma sensata de habita\u00e7\u00e3o da Terra.<\/p>\n<p>Estes pontos de partida tem um grande interesse como contributo para a tarefa de um organismo como a Unesco que se ocupa de ci\u00eancia, de cultura, de educa\u00e7\u00e3o. Se reparamos bem, se fossem eleitos como caminho e como meta, levariam a um belo resultado. Muito diferente seria a ci\u00eancia se n\u00e3o fosse apenas a descodifica\u00e7\u00e3o dos constituintes da mat\u00e9ria, como \u00e9 a sua acep\u00e7\u00e3o corrente. Se a ci\u00eancia se ocupasse tamb\u00e9m do sentir dos seres humanos e n\u00e3o apenas da f\u00edsica e da qu\u00edmica das suas fun\u00e7\u00f5es vitais, a nossa cultura seria muito diferente. Isso n\u00e3o significa qualquer desprezo pelo conhecimento cient\u00edfico, que tantas comodidades tem dado ao nosso mundo. Significa apenas a conveni\u00eancia de dar aten\u00e7\u00e3o a aspectos descuidados que, do ponto de vista crist\u00e3o, nos parecem important\u00edssimos. Entre esses caminhos n\u00e3o andados da ci\u00eancia e da cultura e da educa\u00e7\u00e3o, parece que est\u00e3o aqueles que o Papa Le\u00e3o prop\u00f5e na sua enc\u00edclica sobre a intelig\u00eancia artificial. Pois ele n\u00e3o prop\u00f5e um desenvolvimento da experi\u00eancia subjectiva do ser humano, para que possa discernir o verdadeiro do falso, no que toca \u00e0s possibilidades intelig\u00eancia artificial? Se apenas soubermos de \u00e1tomos, n\u00e3o seremos capazes de manter os automatismos da intelig\u00eancia artificial sob o nosso controlo no futuro. O que Le\u00e3o nos parece querer dizer tamb\u00e9m \u00e9 que na base do conhecimento geom\u00e9trico do mundo n\u00e3o estaremos \u00e0 altura de fundar uma \u00e9tica para o mundo que a\u00ed est\u00e1 e que se adivinha no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Na sua aparente simplicidade, n\u00e3o foi pouco o que o Papa disse em Paris. A escuta da vida subjectiva como dom, a cultura como aprofundamento da vida, como funda\u00e7\u00e3o da proximidade e da paz. H\u00e1 muito que meditar neste texto. Bem gost\u00e1vamos de saber o que pensam dele os membros mu\u00e7ulmanos, budistas e judeus que integram a assembleia da Unesco. O Papa Le\u00e3o coloca-se na perspectiva de dar voz n\u00e3o apenas ao cristianismo, mas a todas as formas de escuta que as religi\u00f5es s\u00e9rias constituam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jorge Teixeira da Cunha O Papa Le\u00e3o XIV foi recebido na sede da Unesco, em Paris, na sua recente visita \u00e0 Fran\u00e7a. \u00c9 um gesto de hospitalidade interessante, por parte de um organismo internacional que tem as suas dificuldades em dar voz \u00e0s religi\u00f5es. Isso compreende-se at\u00e9 certo ponto, poia trata-se de um organismo com cerca de duzentos pa\u00edses membros, com toda a diversidade de pontos de vista que isso implica. De um modo geral, por\u00e9m, podemos dizer que a Unesco tem sido orientada na base da cultura Ocidental, baseada na ci\u00eancia experimental e muito condicionada pelas vanguardas culturais do nosso mundo europeu e americano. Na hist\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o consta a presen\u00e7a de um antigo observador do Vaticano, o cardeal Roncalli, que veio a ser o Papa Jo\u00e3o XXIII, e uma visita do Papa Jo\u00e3o Paulo II, em 1980. O discurso do Papa Le\u00e3o \u00e9 muito interessante e muito corajoso, tendo em conta o contexto que acab\u00e1mos de referir. O aspecto que nos parece mais relevante \u00e9 a proposta das bases de um humanismo, n\u00e3o assente nas metas formalistas da cultura corrente europeia, mas num regresso \u00e0s fontes remotas, segundo as quais o cristianismo fala do ser humano. Para o Papa Le\u00e3o, aquilo que caracteriza a nossa humanidade s\u00e3o tr\u00eas experi\u00eancias b\u00e1sicas: a filialidade, a necessidade e a magnific\u00eancia. Quanto ao primeiro ponto, trata-se de observar como os seres humanos se encontram inseridos numa cadeia de gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o controlam, se experimentam a viver sem terem escolhido vir a este mundo. Por isso, o modo sensato de falar de si mesmo \u00e9 sob a forma da filialidade: somos filhos e filhas, antes de sermos qualquer outra coisa. Achamos este ponto interessante, pois esta descri\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de ser aquela que nos d\u00e3o os saberes comuns na nossa cultura de hoje. Para a mentalidade corrente, o ser humano \u00e9 art\u00edfice de si mesmo, \u00e9 aut\u00f3nomo, a ponto de poder dispor da sua pr\u00f3pria vida. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 corrente descrever o ser humano como ser de necessidades, de forma que ningu\u00e9m pode viver sem ser ajudado e de ajudar a prover \u00e0s necessidades. Esta experi\u00eancia bem real da vida contradiz a nossa mentalidade individualista corrente, que v\u00ea o ser humano como um demiurgo, um agente solit\u00e1rio cuja miss\u00e3o \u00e9 precisamente triunfar sobre a necessidade. Finalmente, o Papa Le\u00e3o diz que experimentada desta maneira, a nossa humanidade \u00e9 \u201cmagn\u00edfica\u201d, numa alus\u00e3o evidente \u00e0 sua recente enc\u00edclica program\u00e1tica. Prop\u00f5e, portanto, a contempla\u00e7\u00e3o da vida, antes do desenvolvimento da vida, como forma sensata de habita\u00e7\u00e3o da Terra. Estes pontos de partida tem um grande interesse como contributo para a tarefa de um organismo como a Unesco que se ocupa de ci\u00eancia, de cultura, de educa\u00e7\u00e3o. Se reparamos bem, se fossem eleitos como caminho e como meta, levariam a um belo resultado. Muito diferente seria a ci\u00eancia se n\u00e3o fosse apenas a descodifica\u00e7\u00e3o dos constituintes da mat\u00e9ria, como \u00e9 a sua acep\u00e7\u00e3o corrente. Se a ci\u00eancia se ocupasse tamb\u00e9m do sentir dos seres humanos e n\u00e3o apenas da f\u00edsica e da qu\u00edmica das suas fun\u00e7\u00f5es vitais, a nossa cultura seria muito diferente. Isso n\u00e3o significa qualquer desprezo pelo conhecimento cient\u00edfico, que tantas comodidades tem dado ao nosso mundo. Significa apenas a conveni\u00eancia de dar aten\u00e7\u00e3o a aspectos descuidados que, do ponto de vista crist\u00e3o, nos parecem important\u00edssimos. Entre esses caminhos n\u00e3o andados da ci\u00eancia e da cultura e da educa\u00e7\u00e3o, parece que est\u00e3o aqueles que o Papa Le\u00e3o prop\u00f5e na sua enc\u00edclica sobre a intelig\u00eancia artificial. Pois ele n\u00e3o prop\u00f5e um desenvolvimento da experi\u00eancia subjectiva do ser humano, para que possa discernir o verdadeiro do falso, no que toca \u00e0s possibilidades intelig\u00eancia artificial? Se apenas soubermos de \u00e1tomos, n\u00e3o seremos capazes de manter os automatismos da intelig\u00eancia artificial sob o nosso controlo no futuro. O que Le\u00e3o nos parece querer dizer tamb\u00e9m \u00e9 que na base do conhecimento geom\u00e9trico do mundo n\u00e3o estaremos \u00e0 altura de fundar uma \u00e9tica para o mundo que a\u00ed est\u00e1 e que se adivinha no futuro pr\u00f3ximo. Na sua aparente simplicidade, n\u00e3o foi pouco o que o Papa disse em Paris. A escuta da vida subjectiva como dom, a cultura como aprofundamento da vida, como funda\u00e7\u00e3o da proximidade e da paz. H\u00e1 muito que meditar neste texto. Bem gost\u00e1vamos de saber o que pensam dele os membros mu\u00e7ulmanos, budistas e judeus que integram a assembleia da Unesco. 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