{"id":32941,"date":"2026-10-05T09:44:23","date_gmt":"2026-10-05T09:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32941"},"modified":"2026-10-05T09:44:23","modified_gmt":"2026-10-05T09:44:23","slug":"800-anos-depois-sao-francisco-ainda-nos-desarma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/800-anos-depois-sao-francisco-ainda-nos-desarma\/","title":{"rendered":"800 anos depois, S\u00e3o Francisco ainda nos desarma"},"content":{"rendered":"<p>Francisco morreu no ch\u00e3o. Na noite de 3 de outubro de 1226, na Porci\u00fancula, depois de aben\u00e7oar os irm\u00e3os, morreu estendido sobre a terra nua. O dia seguinte ficaria ligado para sempre \u00e0 sua mem\u00f3ria. Em 2026, o 4 de outubro \u00e9 vivido com o peso particular do VIII centen\u00e1rio daquele tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>A imagem resiste ao tempo: um homem sem nada para segurar, entregando a \u00faltima coisa que nenhum de n\u00f3s consegue possuir \u2014 a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Oito s\u00e9culos d\u00e3o tempo suficiente para romancear um santo. Francisco cabe facilmente entre p\u00e1ssaros, flores, pres\u00e9pios e hist\u00f3rias de mansid\u00e3o. Fica pr\u00f3ximo. Tamb\u00e9m pode ficar inofensivo. O Papa Francisco percebeu esse risco. Em 2022, ao falar do centen\u00e1rio que ent\u00e3o se preparava, confessou que escolhera o nome de um santo \u00abmuito popular, mas tamb\u00e9m muito incompreendido\u00bb.<\/p>\n<p>A pobreza de Francisco n\u00e3o era gosto pela mis\u00e9ria, a rela\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o era ecologia sem Evangelho e a paz n\u00e3o era uma disposi\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica. No centro estava Cristo.<\/p>\n<h3><strong>A paz n\u00e3o \u00e9 uma imagem bonita<\/strong><\/h3>\n<p>Em Assis, a 4 de outubro de 2013, o Papa Francisco foi direto: \u00abA paz franciscana n\u00e3o \u00e9 um sentimento piegas. Por favor, este S\u00e3o Francisco n\u00e3o existe!\u00bb<\/p>\n<p>Em plena Quinta Cruzada, 1219, Francisco atravessou as linhas de guerra para se encontrar com o sult\u00e3o al-Malik al-Kamil. N\u00e3o conhecemos com seguran\u00e7a as palavras trocadas entre os dois. Sabemos que houve encontro onde havia combate.<\/p>\n<p>Le\u00e3o XIV recuperou essa imagem na carta com que abriu o VIII centen\u00e1rio: Francisco atravessou \u00abdesarmado [&#8230;] as linhas de guerra e de incompreens\u00e3o\u00bb. E explicou por que raz\u00e3o ele continua a falar a um tempo ferido por conflitos: \u00abN\u00e3o porque oferece solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas porque a sua vida indica a fonte aut\u00eantica da paz.\u00bb<\/p>\n<p>Essa paz come\u00e7a antes de uma mesa de negocia\u00e7\u00f5es. Come\u00e7a quando deixamos de usar a verdade para esmagar algu\u00e9m. Num grupo de mensagens onde recusamos a humilha\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. Numa comunidade crist\u00e3 onde autoridade n\u00e3o significa vencer todas as discuss\u00f5es. Numa fam\u00edlia onde pedir perd\u00e3o vale mais do que preparar a defesa perfeita.<\/p>\n<h3><strong>Pobreza \u00e9 deixar de possuir o mundo<\/strong><\/h3>\n<p>Tamb\u00e9m a pobreza de Francisco \u00e9 f\u00e1cil de a tornar rom\u00e2ntica. Mas n\u00e3o h\u00e1 romantismo na experi\u00eancia do leproso, na ren\u00fancia aos privil\u00e9gios ou na decis\u00e3o de viver sem transformar as coisas e as pessoas em propriedade.<\/p>\n<p>Na <em>Laudato si\u2019<\/em>, o Papa Francisco encontrou aqui uma chave decisiva. A austeridade do santo, escreveu, era \u00abuma ren\u00fancia a fazer da realidade um mero objecto de uso e dom\u00ednio\u00bb. A frase vai muito al\u00e9m do consumo. Podemos possuir objetos. Tentamos muitas vezes possuir tamb\u00e9m tempo, aten\u00e7\u00e3o, reputa\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00f5es, at\u00e9 a vers\u00e3o dos acontecimentos que nos deixa sempre do lado certo.<\/p>\n<p>Francisco desarruma esta l\u00f3gica. A cria\u00e7\u00e3o deixa de ser mat\u00e9ria dispon\u00edvel. O pobre deixa de ser problema a resolver \u00e0 dist\u00e2ncia. O outro deixa de ser advers\u00e1rio a derrotar. Tudo come\u00e7a a ser recebido como rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Chamar irm\u00e3 \u00e0quilo que n\u00e3o controlamos<\/strong><\/h3>\n<p>No fim da vida, Francisco acrescentou ao <em>C\u00e2ntico das Criaturas<\/em> o louvor pela \u00abirm\u00e3 morte corporal\u00bb. N\u00e3o estava a fazer da morte uma coisa bonita. Estava a aproximar-se do fim. Cham\u00e1-la irm\u00e3 era reconhecer que nem a morte escapa \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de criatura.<\/p>\n<p>Hoje, no Angelus de 4 de outubro de 2026, Le\u00e3o XIV voltou ao cora\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o. Recordou Francisco como algu\u00e9m que reparou a Igreja \u00absanando as fissuras da disc\u00f3rdia com o testemunho do amor fraterno\u00bb e afirmou: \u00abO carisma de S\u00e3o Francisco continua a dar frutos ainda hoje, ap\u00f3s oito s\u00e9culos\u00bb.<\/p>\n<p>Talvez esses frutos se reconhe\u00e7am menos nas comemora\u00e7\u00f5es do que nas escolhas que elas provocam. Interromper uma corrente de desprezo. Pedir desculpa sem acrescentar uma justifica\u00e7\u00e3o. Repartir uma tarefa que caiu sempre sobre a mesma pessoa. Consumir menos. Aproximar-se de algu\u00e9m que j\u00e1 reduzimos a um r\u00f3tulo. Recusar a viol\u00eancia verbal quando seria f\u00e1cil receber aplausos por ela.<\/p>\n<p>Francisco morreu sem nada nas m\u00e3os. Oito s\u00e9culos depois, continua a <em>questionar-nos<\/em> de quantas coisas precisamos de nos desarmar para receber e dar\u00a0 a paz.<\/p>\n<p>(iMissio)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco morreu no ch\u00e3o. Na noite de 3 de outubro de 1226, na Porci\u00fancula, depois de aben\u00e7oar os irm\u00e3os, morreu estendido sobre a terra nua. O dia seguinte ficaria ligado para sempre \u00e0 sua mem\u00f3ria. Em 2026, o 4 de outubro \u00e9 vivido com o peso particular do VIII centen\u00e1rio daquele tr\u00e2nsito. A imagem resiste ao tempo: um homem sem nada para segurar, entregando a \u00faltima coisa que nenhum de n\u00f3s consegue possuir \u2014 a pr\u00f3pria vida. Oito s\u00e9culos d\u00e3o tempo suficiente para romancear um santo. Francisco cabe facilmente entre p\u00e1ssaros, flores, pres\u00e9pios e hist\u00f3rias de mansid\u00e3o. Fica pr\u00f3ximo. Tamb\u00e9m pode ficar inofensivo. O Papa Francisco percebeu esse risco. Em 2022, ao falar do centen\u00e1rio que ent\u00e3o se preparava, confessou que escolhera o nome de um santo \u00abmuito popular, mas tamb\u00e9m muito incompreendido\u00bb. A pobreza de Francisco n\u00e3o era gosto pela mis\u00e9ria, a rela\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o era ecologia sem Evangelho e a paz n\u00e3o era uma disposi\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica. No centro estava Cristo. A paz n\u00e3o \u00e9 uma imagem bonita Em Assis, a 4 de outubro de 2013, o Papa Francisco foi direto: \u00abA paz franciscana n\u00e3o \u00e9 um sentimento piegas. Por favor, este S\u00e3o Francisco n\u00e3o existe!\u00bb Em plena Quinta Cruzada, 1219, Francisco atravessou as linhas de guerra para se encontrar com o sult\u00e3o al-Malik al-Kamil. N\u00e3o conhecemos com seguran\u00e7a as palavras trocadas entre os dois. Sabemos que houve encontro onde havia combate. Le\u00e3o XIV recuperou essa imagem na carta com que abriu o VIII centen\u00e1rio: Francisco atravessou \u00abdesarmado [&#8230;] as linhas de guerra e de incompreens\u00e3o\u00bb. E explicou por que raz\u00e3o ele continua a falar a um tempo ferido por conflitos: \u00abN\u00e3o porque oferece solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas porque a sua vida indica a fonte aut\u00eantica da paz.\u00bb Essa paz come\u00e7a antes de uma mesa de negocia\u00e7\u00f5es. Come\u00e7a quando deixamos de usar a verdade para esmagar algu\u00e9m. Num grupo de mensagens onde recusamos a humilha\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. Numa comunidade crist\u00e3 onde autoridade n\u00e3o significa vencer todas as discuss\u00f5es. Numa fam\u00edlia onde pedir perd\u00e3o vale mais do que preparar a defesa perfeita. Pobreza \u00e9 deixar de possuir o mundo Tamb\u00e9m a pobreza de Francisco \u00e9 f\u00e1cil de a tornar rom\u00e2ntica. Mas n\u00e3o h\u00e1 romantismo na experi\u00eancia do leproso, na ren\u00fancia aos privil\u00e9gios ou na decis\u00e3o de viver sem transformar as coisas e as pessoas em propriedade. Na Laudato si\u2019, o Papa Francisco encontrou aqui uma chave decisiva. A austeridade do santo, escreveu, era \u00abuma ren\u00fancia a fazer da realidade um mero objecto de uso e dom\u00ednio\u00bb. A frase vai muito al\u00e9m do consumo. Podemos possuir objetos. Tentamos muitas vezes possuir tamb\u00e9m tempo, aten\u00e7\u00e3o, reputa\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00f5es, at\u00e9 a vers\u00e3o dos acontecimentos que nos deixa sempre do lado certo. Francisco desarruma esta l\u00f3gica. A cria\u00e7\u00e3o deixa de ser mat\u00e9ria dispon\u00edvel. O pobre deixa de ser problema a resolver \u00e0 dist\u00e2ncia. O outro deixa de ser advers\u00e1rio a derrotar. Tudo come\u00e7a a ser recebido como rela\u00e7\u00e3o. Chamar irm\u00e3 \u00e0quilo que n\u00e3o controlamos No fim da vida, Francisco acrescentou ao C\u00e2ntico das Criaturas o louvor pela \u00abirm\u00e3 morte corporal\u00bb. N\u00e3o estava a fazer da morte uma coisa bonita. Estava a aproximar-se do fim. Cham\u00e1-la irm\u00e3 era reconhecer que nem a morte escapa \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de criatura. Hoje, no Angelus de 4 de outubro de 2026, Le\u00e3o XIV voltou ao cora\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o. Recordou Francisco como algu\u00e9m que reparou a Igreja \u00absanando as fissuras da disc\u00f3rdia com o testemunho do amor fraterno\u00bb e afirmou: \u00abO carisma de S\u00e3o Francisco continua a dar frutos ainda hoje, ap\u00f3s oito s\u00e9culos\u00bb. Talvez esses frutos se reconhe\u00e7am menos nas comemora\u00e7\u00f5es do que nas escolhas que elas provocam. Interromper uma corrente de desprezo. Pedir desculpa sem acrescentar uma justifica\u00e7\u00e3o. Repartir uma tarefa que caiu sempre sobre a mesma pessoa. Consumir menos. Aproximar-se de algu\u00e9m que j\u00e1 reduzimos a um r\u00f3tulo. Recusar a viol\u00eancia verbal quando seria f\u00e1cil receber aplausos por ela. Francisco morreu sem nada nas m\u00e3os. Oito s\u00e9culos depois, continua a questionar-nos de quantas coisas precisamos de nos desarmar para receber e dar\u00a0 a paz. 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