{"id":32947,"date":"2026-10-07T10:20:45","date_gmt":"2026-10-07T10:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/?p=32947"},"modified":"2026-10-07T10:20:45","modified_gmt":"2026-10-07T10:20:45","slug":"ouvimos-mas-nao-escutamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiaderamalde.pt\/wrdp\/ouvimos-mas-nao-escutamos\/","title":{"rendered":"Ouvimos, mas n\u00e3o escutamos!"},"content":{"rendered":"<p>A capacidade de ouvir atravessa uma profunda crise. Em muitas situa\u00e7\u00f5es concretas demonstramos uma falta de abertura ao di\u00e1logo e \u00e0 discuss\u00e3o fraterna. Estamos cada vez mais <em>polarizados<\/em>. Se observarmos com aten\u00e7\u00e3o, perceberemos como se <em>insinua<\/em> a preocupa\u00e7\u00e3o em dominar o outro e como gritar se tornou, muitas vezes, a \u00fanica forma de comunica\u00e7\u00e3o. Iludimo-nos de que, falando mais alto, e por vezes at\u00e9 berrando, podemos sair vitoriosos.<\/p>\n<p>O prov\u00e9rbio <em>&#8220;A palavra \u00e9 de prata, o sil\u00eancio \u00e9 de ouro&#8221; <\/em>est\u00e1 realmente fora de moda. N\u00e3o me refiro ao sil\u00eancio pelo sil\u00eancio, que muitas vezes \u00e9 sinal de afastamento do outro ou sinal de ressentimento, mas sim ao sil\u00eancio que nos permite ouvir e refletir antes de responder.<\/p>\n<p>Na era das redes sociais, onde <em>tudo<\/em> precisa de ser dito de imediato e onde ganha quem <em>grita mais alto<\/em>, o discurso assemelha-se muitas vezes a um rio caudaloso, que provoca um desastre generalizado, privando-nos da oportunidade de construir rela\u00e7\u00f5es e pontes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ouvimos frequentemente o outro, preocupados em lhe responder, ou ouvimos <em>agarrados<\/em> a preconceitos mentais ou emocionais. Ou fazemo-lo a partir da nossa pr\u00f3pria perspetiva, demasiado r\u00edgidos nas nossas posi\u00e7\u00f5es, incapazes de admitir que a verdade precisa de ser procurada em conjunto.<\/p>\n<p>No Simp\u00f3sio que participei em F\u00e1tima, nos passados dias 2 e 3, <em>\u00abA Educa\u00e7\u00e3o e a Escola em Portugal: Tra\u00e7ar mapas educativos para uma Magnifica Humaniza\u00e7\u00e3o\u00bb<\/em>, o professor Pedro Valinho Gomes, Decano da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica de Lille, disse: <em>\u00abPrecisamos de inventar uma oftalmosofia, isto \u00e9 uma sabedoria do olhar capaz de ver para al\u00e9m das evid\u00eancias e de forjar uma amizade social com o desconhecido, e at\u00e9 com o inimigo\u00bb.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Ouvimos<\/em><\/strong><strong>, mas n\u00e3o escutamos!<\/strong><\/p>\n<p>Para dialogarmos de forma adequada, precisamos de ter consci\u00eancia de que ningu\u00e9m det\u00e9m a verdade absoluta e que cada um v\u00ea a realidade de uma perspetiva diferente. \u00c9 essencial olhar para os outros como irm\u00e3os, e n\u00e3o como inimigos, despojando-nos das nossas expectativas e abrindo-nos \u00e0 novidade que partilham connosco.<\/p>\n<p>di\u00e1logo exige virtudes espec\u00edficas, como a pobreza de esp\u00edrito, a humildade, a mansid\u00e3o, a compreens\u00e3o e a coragem. Sem elas, a comunica\u00e7\u00e3o torna-se um mon\u00f3logo, gerando mal-entendidos e provocando divis\u00e3o. Estas atitudes interiores, s\u00e3o dom do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco de Assis, que celebramos no domingo passado, e Santa Clara compreenderam muito bem que, para dialogar, \u00e9 preciso ser interiormente pobre e desarmado. Quando n\u00e3o se tem nada a defender \u2014 nem a pr\u00f3pria imagem, nem o pr\u00f3prio eu, nem as pr\u00f3prias ideias, nem mesmo o pr\u00f3prio Deus \u2014, est\u00e1-se dispon\u00edvel para acolher qualquer pessoa, mesmo quando s\u00e3o diferente em car\u00e1ter, sensibilidade, l\u00edngua, estilo de vida e religi\u00e3o.<\/p>\n<p>(iMissio)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A capacidade de ouvir atravessa uma profunda crise. Em muitas situa\u00e7\u00f5es concretas demonstramos uma falta de abertura ao di\u00e1logo e \u00e0 discuss\u00e3o fraterna. Estamos cada vez mais polarizados. Se observarmos com aten\u00e7\u00e3o, perceberemos como se insinua a preocupa\u00e7\u00e3o em dominar o outro e como gritar se tornou, muitas vezes, a \u00fanica forma de comunica\u00e7\u00e3o. Iludimo-nos de que, falando mais alto, e por vezes at\u00e9 berrando, podemos sair vitoriosos. O prov\u00e9rbio &#8220;A palavra \u00e9 de prata, o sil\u00eancio \u00e9 de ouro&#8221; est\u00e1 realmente fora de moda. N\u00e3o me refiro ao sil\u00eancio pelo sil\u00eancio, que muitas vezes \u00e9 sinal de afastamento do outro ou sinal de ressentimento, mas sim ao sil\u00eancio que nos permite ouvir e refletir antes de responder. Na era das redes sociais, onde tudo precisa de ser dito de imediato e onde ganha quem grita mais alto, o discurso assemelha-se muitas vezes a um rio caudaloso, que provoca um desastre generalizado, privando-nos da oportunidade de construir rela\u00e7\u00f5es e pontes. Al\u00e9m disso, ouvimos frequentemente o outro, preocupados em lhe responder, ou ouvimos agarrados a preconceitos mentais ou emocionais. Ou fazemo-lo a partir da nossa pr\u00f3pria perspetiva, demasiado r\u00edgidos nas nossas posi\u00e7\u00f5es, incapazes de admitir que a verdade precisa de ser procurada em conjunto. No Simp\u00f3sio que participei em F\u00e1tima, nos passados dias 2 e 3, \u00abA Educa\u00e7\u00e3o e a Escola em Portugal: Tra\u00e7ar mapas educativos para uma Magnifica Humaniza\u00e7\u00e3o\u00bb, o professor Pedro Valinho Gomes, Decano da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica de Lille, disse: \u00abPrecisamos de inventar uma oftalmosofia, isto \u00e9 uma sabedoria do olhar capaz de ver para al\u00e9m das evid\u00eancias e de forjar uma amizade social com o desconhecido, e at\u00e9 com o inimigo\u00bb. Ouvimos, mas n\u00e3o escutamos! Para dialogarmos de forma adequada, precisamos de ter consci\u00eancia de que ningu\u00e9m det\u00e9m a verdade absoluta e que cada um v\u00ea a realidade de uma perspetiva diferente. \u00c9 essencial olhar para os outros como irm\u00e3os, e n\u00e3o como inimigos, despojando-nos das nossas expectativas e abrindo-nos \u00e0 novidade que partilham connosco. di\u00e1logo exige virtudes espec\u00edficas, como a pobreza de esp\u00edrito, a humildade, a mansid\u00e3o, a compreens\u00e3o e a coragem. Sem elas, a comunica\u00e7\u00e3o torna-se um mon\u00f3logo, gerando mal-entendidos e provocando divis\u00e3o. Estas atitudes interiores, s\u00e3o dom do Esp\u00edrito Santo. S\u00e3o Francisco de Assis, que celebramos no domingo passado, e Santa Clara compreenderam muito bem que, para dialogar, \u00e9 preciso ser interiormente pobre e desarmado. 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