Uma leitura com alguma atenção sobre as notícias habitualmente divulgadas pela Agência Ecclesia dá conta da quantidade (e qualidade) das atividades promovidas pelas diversas iniciativas de carácter eclesial que envolvem a sociedade portuguesa. O mesmo olhar sobre os mesmos acontecimentos nos órgãos de imprensa ou informação nacional dá conta de que grande parte desses acontecimentos ou iniciativas ficam no esquecimento.

Estes dados manifestam um duplo sintoma: que as atividades eclesiais não se inscrevem no conceito de interesse mediático que motive a sua eleição, ou não merecem atenção para o universo mental desse mundo; e que o esquecimento se torna uma forma de ocultamento, porque o que não se vê ou não se sabe não existe ou não exerce a sua influência. Esta dimensão pode não ter fundamento ideológico, mas tem certamente um fundamento prático decisivo.

Nos dias que correm, vários acontecimentos relacionados com a pastoral juvenil mobilizaram milhares de jovens em diversas regiões do país: em Lisboa um encontro nacional de juventude reuniu uma multidão de jovens, na esteira do aniversário da Jornada da Juventude e mereceu uma mensagem do Papa Francisco; o patriarca de Lisboa assinalou a procura pelos jovens “da dimensão essencial da existência humana, que é a dimensão espiritual”; o mesmo podemos verificar noutros espaços, como Viseu, Lamego, Leiria, Guarda  que viveram idênticos acontecimentos e idênticos movimentos marcados pela expressão social e festiva da vivência cristã; os acontecimentos e os debates do Sínodo em curso não têm merecido o destaque que um acontecimento influente na sociedade deveria merecer, para além dos aspectos marginais da ordenação das mulheres ou das questões relacionadas com a moral social.

Tudo isto deve fazer pensar nos critérios, ou ausência de critérios, que norteiam a prática da comunicação social.

Poderíamos recorrer a orientações sobre a prática desejável da comunicação social nas palavras das mensagens eclesiais que frequentemente surgem, como a que propõe que “num período da história marcado por polarizações e oposições – de que, infelizmente, nem a comunidade eclesial está imune – o empenho em prol duma comunicação «de coração e braços abertos» não diz respeito exclusivamente aos agentes da informação, mas é responsabilidade de cada um. Todos somos chamados a procurar a verdade e a dizê-la, fazendo-o com amor, como o Papa Francisco escreveu na mensagem para o ano de 2023.

Esta proposta de uma comunicação de coração aberto deve estimular a que toda a dimensão humana esteja presenta nas palavras e nas imagens que edifiquem e elevem, e não apenas naquelas que agitem sentimentos ou sensibilidades superficiais.

Poderíamos igualmente recorrer aos problemas da utilização e informação no quadro agora badalado da inteligência artificial, que deve proporcionar um contributo positivo no âmbito da comunicação e do conhecimento, valorizando o profissionalismo da comunicação, responsabilizando cada comunicador, proporcionando a cada pessoa ou organismo o papel de sujeito interveniente e ativo, com capacidade crítica e com capacidade de intervenção, a afirmação de projetos e valores que promovam o desenvolvimento de uma sociedade equilibrada, marcada por um dinamismo humano de construção e vivência plena das capacidades e ideais humanos se devolver a cada ser humano o papel de sujeito, com capacidade crítica, da própria comunicação.

Este alargamento ao universo plenamente humano da informação como caminho de humanidade é igualmente formulado na reflexão do documento do Papa Francisco em que aborda o papel da Inteligência artificial na comunicação:  “Como tutelar o profissionalismo e a dignidade dos trabalhadores no campo da comunicação e da informação, juntamente com a dos utentes em todo o mundo? Como garantir a interoperabilidade das plataformas? Como fazer com que as empresas que desenvolvem plataformas digitais assumam as suas responsabilidades relativamente ao que divulgam? Como tornar mais transparentes os critérios subjacentes aos algoritmos de indexação e desindexação e aos motores de pesquisa, capazes de exaltar ou cancelar pessoas e opiniões, histórias e culturas?

Outras questões se prendem com estas: a transparência dos processos de informação; a origem, paternidade e veracidade da informação; a imposição sub-reptícia de um pensamento único revelando dados ou acontecimentos e esquecendo outros, igualmente relevantes para a construção da verdade. (ver Mensagem para 2024).

O apelo à sabedoria neste universo possui um verdadeiro fundo bíblico, e a prática deve saber associar a liberdade tanto de quem informa, dispondo das fontes de informação, como de quem é informado, no sentido de conduzir a vivências ou a convicções. Assim se assinala também a capacidade de discernir, vigiar, ver as coisas a partir do seu termo. “Para não perder a nossa humanidade, procuremos a Sabedoria que existe antes de todas as coisas”.