O Papa Francisco mergulhou no mistério da morte, após o seu último domingo de Páscoa. Que podemos dizer a título de balaço do seu serviço na cátedra de Pedro?
A primeira coisa que caracteriza o tempo de Francisco é o estilo novo. Um homem quem vem de um continente que nunca tinha tido um Papa foi papa de um modo diferente. Isso equivaleu a uma descompressão da figura papal: um estilo simples e desafectado, próprio de alguém que manteve o contacto com a forma elementar da vida, que evitou toda a representação e soberania que anda ligada à vida dos papas. Um homem que paga a sua conta de hotel depois de eleito, que usa os sapatos da sua vida anterior, que é visto a frequentar um negócio de óptica para comprar os seus óculos de ler, nunca se tinha visto antes. É de imaginar que lhe assentou mal a férrea paideia de jesuíta, como mal lhe assentou a dura disciplina da função papal.
Vemos nele, em segundo lugar, um método diferente de apresentação do Evangelho de Jesus. Para ele, a vivência e a acção vêm antes da teoria. Francisco não é um homem formado numa ciência livresca, numa teologia abstracta. É um homem que vive e que fala do que vive, que funda a sua apresentação das coisas da fé na sua experiência pessoal do mistério de Cristo e não num formalismo seco. Os seus textos de fundo (“A alegria do amor”, “Laudato sì”, “Fratelli tutti”) refletem as suas preocupações com os problemas de hoje e não só com a doutrina de sempre. Quem lê a sua última obra, a autobiografia “Esperança”, pode ficar seguro de que as suas preocupações com a sorte dos migrantes, a vida simples dos pobres, os movimentos populares, a guerra e a paz, são temas de brotam do mais recôndito da sua alma. Ele é um escritor antes de ser um teólogo, é uma artista da palavra antes de ser um guardião da ortodoxia. Mesmo que não se tenha mostrado um grande teólogo, como foi o seu antecessor, ele é um excelente pastor que vive profundamente as alegrias e as angústias dos seus contemporâneos.
Em terceiro lugar, devamos-lhe a insistência no espírito das formas de repartição do poder na Igreja. É esse, a nosso ver, o sentido da sinodalidade
Francisco teve uma grande preocupação com o modo de exercer o poder na Igreja. Não basta repartir o poder, como está previsto no direito canónico: é necessário viver a graça que funda o poder em comum, exercido como serviço. Num contexto como o nosso em que as novas tecnologias nos levam a perder a interioridade, Francisco desafiou a Igreja a ser um espeço de abertura à espírito que funda a individualidade, que funda a instituição justa, que dá uma alma à democracia.
Em quarto lugar, aventuramos a dizer que uma das conquistas maiores do tempo de Francisco se refere à forma como descomprimiu o discurso moral da Igreja e da teologia. Quando se distrai, a moral da Igreja tende a ser uma camisa de forças normativa. Ora o Papa apresentou a proposta moral como expressão da vivência do ser humano à procura da sua perfeição, sempre com Deus como fonte e como horizonte. A via para resolver as questões do matrimónio das pessoas divorciadas que vivem nova relações mostra-nos isso. Os teólogos moralistas viveram tempo difíceis nos pontificados anteriores. Hoje agradecem a Francisco o ambiente de confiança e as condições de desanuviamento que possibilitam a proposta de novos horizontes para apresentar o Evangelho de Jesus como caminho de vida feliz e realizada, bem como da norma moral dessa vida. Francisco lançou as bases para resolver alguns assuntos muito polémicos, como é o caso do sentido da vida das pessoas homossexuais. Se bem que não tenha mudado a norma moral, deixou abertos os caminhos para tratar as pessoas que vivem vidas homossexuais de um modo completamente novo.
Em quinto lugar, devemos a Francisco um grande contributo para melhorar o lugar da mulher na Igreja. A opção que tomou de nomear duas senhoras para lugares de governo na Cúria Romana e no Estado do Vaticano constituem mudanças epocais que darão certamente muitos frutos no tempo por vir.
Seguidamente, vemos que Francisco teve na Cúria Romana um motivo de grandes dores de cabeça. Disse aos seus membros algumas das palavras mais duras do seu pontificado. Tentou de todos os modos fazer do governo central da Igreja um lugar de serviço e não de carreira, dar-lhe uma coloratura menos europeia e mais aberta a todos os continentes. Teve a coragem de levar a juízo alguns actos de servidores da cúria do mais alto nível, o que mostra uma força que nunca tinha sido vista. A luta pela transparência, os mecanismos de controle mútuo, foram opções do seu propósito para a cúria romana e as outras cúrias.
Decerto que não há obra perfeita nesta vida e o Papa Francisco não agradou a todos. Diversas coisas ficaram por fazer neste pontificado. Entre elas avulta o diaconado feminino que não chegou a ser instituído. Muitos esperavam também que pudesse haver uma maior participação do povo na eleição dos bispos e dos bispos na eleição do papa. A figura dos padres seculares, com e sem celibato, ficou também por resolver. Fica por saber se a tentativa de reconciliação com o Governo da República Popular da China vai ser favorável ou desfavorável aos cristãos que sofreram para ficar fiéis a Roma.
A nosso ver, Francisco será visto como o Papa que inaugurou o terceiro milénio do cristianismo, que relançou a relevância do cristianismo, que enfrentou com vigor inaudito a crise dos abusos do clero, que enfrentou grupos de pressão, que bateu o pé aos grandes do mundo, que apelou oportuna e importunamente aos grandes da terra para não confiarem na guerra como forma de resolução dos conflitos.