A celebração da memória dos 1700 do concílio de Niceia (celebrado no ano de 325, e que proclamou Deus Pai, Filho e Espírito Santo e Jesus Cristo como Filho Deus e consubstancial ao Pai), que constituiu um ponto de encontro das diversas tendências teológicas da época, dando origem ao “Credo” que hoje proclamamos, constituiu o motivo de uma celebração ecuménica realizada em Lisboa e que foi considerada como afirmação presente do compromisso ecuménico.

Dois conceitos se baralham sobre este tema: o tema do ecumenismo e o da unidade. O caminho será o ecumenismo e a meta será a unidade. O concílio procurou encontrar a unidade essencial: a presença de Deus e Jesus Cristo como o sentido de toda a fé cristã. Estamos certos, porém, de que meta não é definitiva, mas ela própria constitui outro caminho: quando encontremos a unidade resta-nos sempre a tarefa da salvação. O próprio Cristo o ensina quando afirma “que todos sejam um para que o mundo creia que Tu me enviaste”, a fim de que depois, como ensina S. Paulo, uma vez acreditando o mundo seja salvo em seu nome. Não se trata apenas de uma salvação individual, mas de uma salvação universal e cósmica.

Traçam-se assim as metas no tempo e a meta para além do tempo. As metas do tempo são a fé e a unidade; as metas para além do tempo são a salvação e a perfeição universal do Amor.

As vias do ecumenismo têm vindo a ser afirmadas e incrementadas nos últimos tempos, ao menos nas palavras e em algumas convicções. E também em doutrinas e atitudes. É já frequente que as confissões cristãs se encontrem em torno de projetos, já se convidam mutuamente os seus membros e hierarcas para pregarem a palavra e se escutarem uns aos outros. Recordamos que no início deste século a Rainha de Inglaterra convidou o Bispo da Igreja Católica a dirigir a palavra a uma magna reunião da Igreja anglicana. Os encontros de Assis, propostos pelo Papa João Paulo II pretendem reunir não apenas os cristãos, mas também outros chefes religiosos, nomeadamente os muçulmanos.

A aproximação entre cristãos e muçulmanos é outro positivo sinal dos tempos: quem diria que aqueles a quem Camões chamou “o torpe ismaelita cavaleiro” poderiam ter assento de paz ao lado dos seguidores de Cristo, Príncipe da Paz”! E que as lutas do passado se possam transformar em projetos edificadores do presente, em caminhos de paz e desenvolvimento.

Sinais positivos dos tempos, que se devem conjugar com outros sinais, estes negativos: que a sociedade ainda não consiga realizar uma integração entre a fé e a vida, entre as convicções profundas e o quotidiano social e político, entre uma fé espiritualista e emocional e as dinâmicas e práticas vivenciais incarnadas no tempo e nos projetos sociais. Se o discurso político incorpora muitas vezes conceitos oriundos do espírito cristão (como liberdade, igualdade, fraternidade ou solidariedade), torna-se penoso o seu esbarrar com os projetos e ambições nascidas do mundo da economia e dos projetos industriais ou de desenvolvimento.

A realização da aproximação entre os cristãos (e entre os crentes que não são cristãos e entre os homens que não são crentes), só pode fazer-se mediante três espécies de caminhos. O primeiro é o reconhecimento, com necessária humildade, dos erros cometidos ao longo dos séculos, não certamente pela força da fé, mas pela incapacidade de saber seguir os caminhos da fé; o segundo é o perdão mútuo, a nascer desse reconhecimento (a que João Paulo II chamava “a purificação da memória”); a terceira é a redescoberta dos caminhos traçados no Evangelho e a força da palavra de Jesus Cristo, ou d’Ele como palavra. Se as duas primeira são difíceis, a mais difícil é esta última: redescobrir no tempo e na ação um Jesus Cristo sempre novo e sempre atual, princípio universal de salvação e de esperança. A descoberta da fé como princípio de organização social e comunitária é a mais importante tarefa da sociedade de hoje, na vida política e na movimentação social.

Os ventos de guerra, militar e económica, que hoje assolam o mundo constituem contraponto negro e desumano do ideal de desenvolvimento e de paz que o mundo tecnológico de hoje teria possibilidades para percorrer. Lamentavelmente parece percorrer o caminho inverso.  Falta assim realizar o que o Patriarca de Lisboa propunha no encontro ecuménico: que a sociedade, as forças políticas, a linguagem e a prática, possam “aderir a um projeto maior, a um projeto de dignidade, a um projeto de paz”.