Por D. Joaquim Dionísio, bispo auxiliar do Porto

  1. No encontro com os membros da Conferência Episcopal Italiana, ocorrido no dia 17 de junho último, o Papa Leão XIV elencou “alguns pontos de atenção pastoral”, merecedores de “reflexão, ação concreta e testemunho evangélico”. Uma espécie de “coordenadas” que permitirão à Igreja incarnar o Evangelho e ser sinal do Reino de Deus: anúncio do Evangelho, paz, dignidade humana e diálogo. Há realidades, apelos, preocupações, caminhos que se repetem nas intervenções papais. E antes de concluir o seu discurso, o Santo Padre deixou duas exortações aos bispos italianos: avançarem sinodalmente na unidade e não terem medo de “escolhas corajosas”. Porque não podemos defender-nos das provocações do Espírito.
  2. Na primeira coordenada, sem novidade, o Santo Padre recorda que a Igreja é por natureza missionária (AG 2) e, por isso, convidada a protagonizar um “estado permanente de missão” (EG 25), com iniciativas que não visam a sua autopreservação, mas a evangelização (EG 27). A Igreja existe para anunciar Jesus Cristo e espalhar a sua Boa Nova, fazendo discípulos em todas as nações, batizando em nome da Trindade e ensinando tudo o que Ele nos ensinou, para glória de Deus (Mt 28, 19-20). Uma atividade missionária que consiste em proclamar o nome, o ensinamento, a vida, as promessas, o reino e o mistério de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus (EN 14 e 22), a âncora onde a Igreja se apoia e a referência fontal para tudo o que ensina, decide, faz e propõe. Isto mesmo é assumido pelo Documento Final do último Sínodo, logo no primeiro parágrafo, ao afirmar que “cada novo passo na vida da Igreja é um regresso à fonte, uma experiência renovada do encontro com o Ressuscitado”. Um encontro que motiva a conversão e abre ao testemunho.
  3. Nesse sentido, e porque todos os membros da Igreja receberam o batismo, todos são agentes de evangelização, “discípulos missionários”. A mesma evangelização que é o objetivo último da sinodalidade de que temos ouvido falar. Assumindo o risco da “lapalissada”, nunca é demais recordar que sem esta abertura à evangelização, a sinodalidade seria vista como realidade interna, contribuindo para uma visão de Igreja que não se distinguiria de uma qualquer organização humana. E uma evangelização sem sinodalidade perderia o interesse pelas estruturas da Igreja, fomentando a ausência de compromisso e a participação dos fiéis, de todos os fiéis, importantes para uma verdadeira missão. Tal como no-lo diz o Documento Final: “Em termos simples e sintéticos, pode dizer-se que a sinodalidade é um caminho de renovação espiritual e de reforma estrutural para tornar a Igreja mais participativa e missionária, isto é, para a tornar mais capaz de caminhar com cada homem e mulher irradiando a luz de Cristo” (28). Trata-se de um estilo que qualifica a vida e a missão da Igreja inteira, onde a participação e a corresponsabilidade abrangem todos e onde todos se empenham em descobrir a vontade de Deus. Um processo que nos desafia, pela escuta e pelo diálogo, a um trabalho contínuo, pessoal e comunitário, de discernimento face aos novos desafios.
  4. Participar nesta sinodalidade missionária, estar próximo de Jesus e do seu Evangelho e ser o rosto de uma Igreja compassiva, acolhedora, profética e aberta será contribuir para a concretização de uma Igreja em permanente estado de missão, fraterna e servidora, enraizada na realidade e ao serviço de todos. E compreendemos que este esforço de implementar práticas sinodais, de adotar esta mentalidade, não visa proporcionar à Igreja qualquer estado de autopreservação, mas ser um utensílio eficaz para a evangelização do mundo. E se a sinodalidade é um caminho que possibilita a todo o batizado tornar-se sujeito ativo na vida da Igreja e não apenas um objeto de evangelização, vemos como há um círculo virtuoso entre sinodalidade e evangelização. Mas percebemos, também, que este processo é uma questão de serviço e não de poder.
  5. A dinâmica sinodal ajudará as Igrejas locais a cumprirem a missão de concretizarem a “Igreja de Cristo, una santa, católica e apostólica” (CD 11). No entanto, atendendo à realidade diversificada dessas Igrejas, aos contextos sociais que as formam, aos espaços onde se inserem e aos meios de que dispõem, podemos concluir que tal dinâmica tenderá a ter ritmos diferenciados. Daí que as “Pistas para a fase de implementação do sínodo” e a calendarização que as acompanham, apesar de assumidas e tidas como orientadoras, poderão ser cumpridas em diferentes prazos. Tal não dispensa as Igrejas do esforço que lhes é pedido nem pode ser usado como desculpa para adiar mudanças e compromissos. Serve apenas para dizer que a realidade eclesial é diversa, que as possibilidades e os meios são distintos e que “caminhar juntos” não significa caminhar com o mesmo passo. O importante é não ficar parado.
  6. A conversão pastoral é o grande compromisso e a sinodalidade missionária um fruto desejado. E não estamos sós neste caminho: a graça divina faz com que os evangelizados se tornem evangelizadores e os discípulos se tornem missionários.