O Papa Leão XIV confessou que a escolha do seu nome pretende indicar-nos uma direcção para o seu magistério: situar-se na tradição da Igreja que se preocupa com a complexidade da chamada Questão social e com a sua resolução. O seu primeiro texto, a Exortação “Dilexi Te”, comprova este propósito. Vamos, por isso, propor uma primeira leitura deste programa que acaba de ser publicado.
Começamos por esclarecer o que se entende por “questão social”. As sociedades antigas não tinham uma questão social, o que não quer dizer que não tinham desequilíbrios. O que se passa é que, na Antiguidade e na Idade Média e em muitas sociedades tradicionais de hoje, se vivia num mundo estático. Havia ricos e pobres, reconhecidos e não-reconhecidos, incluídos e excluídos, mas essa situação não era impugnada pela ética e muitas vezes era sustentada pela religião. Diversas instâncias, como a Igreja, apelavam à esmola e a outras formas de socorro dos desfavorecidos. Mas não havia uma reflexão teológica propriamente dita sobre a matéria. A partir das revoluções que fizeram o mundo moderno, esta situação começou a ser pensada pelas ciências, pela política e pela teologia. É aqui que se situa o Papa Leão XIII que publica, em 1891, a sua encíclica social, a conhecida “Rerum Novarum”. A partir daqui, começa a reconhecer-se que há uma factor apreensível, o “social”, que é objecto da sociologia e da intervenção ética e política. Este reconhecimento tornou as sociedades mais conflituais, mas também mais participativas e mais progressivas. É neste contexto que começam a ser fundados e reconhecidos os “direitos sociais de cidadania” que fazem parte do jogo democrático e das exigências éticas de uma sociedade fundada no bem e não apenas na força.
O texto do Papa Leão XIV é muito interessante neste ponto. Começa por situar-se na continuidade com o seu antecessor, o Papa Francisco, que teria tido mesmo a intenção de publicar um texto sobre o tema do amor para com os pobres. Reconhece que a questão da pobreza é um assunto de muitas faces. Porém, a pobreza, tal como é vista pela teologia suposta no texto, é uma questão de “revelação e não de beneficência” (n. 5). Este ponto é importantíssimo para a leitura da exortação. De facto, a pobreza tem um contexto prévio a todos os outros que é este de ser um lugar de revelação. A pobreza é, pois, uma situação existencial, é o lugar do encontro de Deus com o ser humano, e o ponto de originário da incarnação de Deus, é o território de origem da Igreja. Estamos a falar do lugar da salvação e não de um qualquer motivo de luta sociológica. Por isso, impõe-se um trabalho para superar a ambiguidade que anda ligada à questão da pobreza. Desde logo, para superar qualquer moralismo ou de qualquer ideologia. Todas os pontos de vista emitidos na exortação supõem esta afirmação.
E qual é o foco da atenção do documento, no que toca às pobrezas dos dias que correm? Recordemos que no tempo de Leão XIII, se tratava de questão dos operários, que eram o motor da revolução industrial e não tinham parte nos benefícios dela. No actual contexto, os visados são os descartados da riqueza, os desnutridos e os carentes de água potável, os migrantes. O Papa observa como existe uma distância entre as elites detentoras de uma riqueza desmedida e as enormes multidões que apenas sobrevivem sobre a terra.
Para explicar este estado de coisas, o escrito papal usa muito frequentemente a alusão a um “pecado estrutural”. Este diagnóstico não é novo, pois remonta a João Paulo II. Estas estruturas, criadas pelos seres humanos, tornam patente e explicam os mecanismos de concentração da riqueza mundial, bem como a correspondente dependência dos pobres que alimentam com o seu trabalho a riqueza dos mais ricos. A nosso ver, esta referência é importante pois se situa no centro de uma desordem do nosso mundo económico e financeiro que manipula habilmente o valor em proveito de um grupo possuidor que se torna escandalosamente rico.
A esta explicação, poderia ajuntar-se mais duas observações que o texto não tem na devida conta. Uma delas é a questão cultural da nova face do capitalismo de hoje que já não é baseado na produção e na poupança, mas no consumo, no descarte e na extracção desmedida dos recursos do planeta em ordem a um consumo generalizado, que seduz tenentes e indigentes. Por outro lado, o texto usa, e muito bem, as obras de misericórdia como exigências éticas do cristianismo para obviar à pobreza. Mas falta uma segunda coisa a nosso ver, que é centralidade da moralização do trabalho, como forma de combate à desigualdade e à pobreza real.
“Dilexi Te” dá, pois, o mote do estilo de Leão XIV no serviço de Pedro. Creio que muito podemos esperar dele e que vai conduzir a Igreja pelo caminho da relevância e da proximidade com as multidões.