Quando dobrares o joelho, não o faças apressadamente e de forma descuidada. Dá alma ao teu ato! E que a alma do teu ajoelhar consista em inclinar também o coração diante de Deus, em profunda reverência. Quando entrares ou saíres da igreja ou passares diante do altar, dobra o joelho profunda e lentamente e que todo o teu coração acompanhe este fletir. Isso há de significar: “Meu Deus altíssimo!…”. Isto sim que é humildade e verdade, e fará sempre bem à tua alma» (GUARDINI, Sinais Sagrados, Fátima SNL 2017, p. 17-18).

A Liturgia não é «doceta» (heresia antiga e nova segundo a qual o Corpo de Jesus seria apenas uma aparência), mas toda ela se inscreve no regime da encarnação. Por isso conhece, reconhece e promove nos seus ritos a expressão corporal. Por isso, não prescinde do corpo, símbolo real e expressão viva e operativa da pessoa. Mas um corpo humano espiritualizado, expressivo e impressivo, não um manequim robotizado.

Educar, desde a infância, para rezar e a celebrar com o corpo (enraizado, unificado e orientado pelo mistério) é a primeira grande tarefa da formação litúrgica, isto é, da formação cristã. E isto, a partir de pequenos gestos e sinais: benzer-se, genufletir, pôr as mãos, estar de pé, caminhar, estar sentado e de joelhos, inclinar-se… Não apenas porque está determinado, mas como atitude que envolve a pessoa toda, toda a comunidade… Quando falta a formação, sobra o rubricismo.

Impressiona ver como crianças da catequese entram na Igreja e, sem qualquer gesto de reverência, sem qualquer saudação ao Santíssimo, sempre presente e acolhedor, logo se sentam, se alapam e continuam no seu «intervalo» ou espera mais ou menos distraído e recreativo. Nunca foram exercitados no recolhimento e na mais simples e basilar expressão corporal de um encontro orante. Depois, quando sacerdote e ministros entram processionalmente para dar início à celebração comunitária, continuam sentados, sem se incorporar na ação comum, até que alguém, mais polícia que «mistagogo», os obriga a erguerem-se, sem que eles percecionem o porquê ou o para quê e, por isso, também sem aprumo no «como». Depois… estarão ausentes, à espera de um «espetáculo» que, se houver, será enganoso e distrativo, porque o Mistério não pode ter espectadores, mas, apenas e sempre, participantes.

Diz a IGMR 43 que todos devem ajoelhar durante a consagração, «salvo se a estreiteza do lugar, a assistência numerosa ou outros motivos razoáveis a isso obstarem. Aqueles, porém, que não estão de joelhos durante a consagração, fazem uma inclinação profunda enquanto o sacerdote genuflete após a consagração». Concretamente, em que momento se devem todos (os que não estejam impedidos) ajoelhar? Toda a oração eucarística é «oração de consagração» (IGMR 54), mas não se deve estar de joelhos, por exemplo, durante o prefácio e o canto do Santo que integram a oração eucarística. O nº 55 d) da mesma IGMR liga a consagração, mais restritivamente, à «Narração da Instituição». Será que só então se deverá estar ajoelhado? A resposta está implícita na aplicação aos diáconos da norma geral: «Desde a epiclese até à ostensão do cálice, o diácono permanece habitualmente de joelhos» (IGMR 179; também em Cerimonial dos Bispos 155). Aliás, até o bispo, nas Missas em que participe sem celebrar, deve permanecer de joelhos «desde a epiclese até que termine a elevação do cálice» (Cerimonial dos Bispos 182). A coerência leva a concluir que é esse também o tempo em todos devem ajoelhar – desde a epiclese até que termine a elevação do cálice –, apenas permanecendo de pé os sacerdotes que, in persona Christi Capitis, realizam a consagração. Esse momento é assinalado por um gesto claro e visível para todos: a imposição das mãos sobre as oblatas. Porventura, pode ser oportuno o toque de campainha previsto como possibilidade «um pouco antes da consagração» (IGMR 150).

A atitude é, pois, expressiva da adoração e, ao mesmo tempo, é uma epiclese corporal, súplica intensa com que os fiéis acompanham a prece sacerdotal. Recordamos, a propósito, que era de joelhos que outrora se cantava o Veni Sancte Spiritus (sequência de Pentecostes) e, ainda hoje, os Orientais celebram no dia de Pentecostes o Ofício da genuflexão com um sentido análogo. Também de joelhos se cantava, no passado, o hino Veni Creator Spiritus, na Ordenação episcopal. A atitude de joelhos é também expressiva de uma súplica intensa nas orações solenes de Sexta-Feira Santa e durante o canto das Ladainhas (fora dos Domingos e do Tempo Pascal); exprime a contrição em certos momentos da celebração penitencial…

(Secretariado Diocesano da Liturgia)