Nas duas últimas semanas, o Papa Leão XIV teve algumas intervenções públicas em que, como filho de Santo Agostinho, enalteceu o valor da música e, em particular, do canto litúrgico. Referimo-nos, principalmente, à sua homilia na Eucaristia que assinalou, na Praça de São Pedro, o Jubileu dos Coros (23 de novembro). Mas também aos discursos que pronunciou por ocasião do Concerto com os pobres, quer num encontro com os organizadores (5 de dezembro), quer no próprio evento (6 de dezembro).

Na base deste magistério pontifício está a apreciação do valor antropológico e cultural deste fenómeno eminentemente humano, património comum das civilizações. A música permite exprimir o inefável. «O canto representa uma expressão natural e completa do ser humano: a mente, os sentimentos, o corpo e a alma unem-se para comunicar as grandes coisas da vida». Recordando e desenvolvendo o conhecido aforisma de Santo Agostinho – cantare amantis est: cantar é próprio de quem ama – Leão XIV sublinha: «quem canta exprime o amor, mas também a dor, a ternura e o desejo que habitam no seu coração e, ao mesmo tempo, ama aquele a quem dirige o seu canto».

A música não é um luxo, uma reserva de alguns privilegiados, mas, poderia dizer-se, um direito universal. Aliás, os pobres jamais abdicaram da música e de música de qualidade. A música, afirma o Papa, é «um dom divino acessível a todos, ricos e pobres». «A beleza é um dom de Deus para todos os seres humanos, unidos pela mesma dignidade e chamados à fraternidade» (citação do Papa Francisco). A iniciativa vaticana do concerto com os pobres, em que estes se sentam nos primeiros lugares, transmite essa mensagem. Extrapolando para a nossa pastoral, poderemos também dizer que a música litúrgica não pode ser um privilégio exclusivo das paróquias e comunidades com mais recursos: é para todas. E, pensamos, talvez deva ser colocada no patamar dos bens de primeira necessidade…

Sendo realidade eminentemente humana, a música tem um lugar insuprimível na relação do ser humano com o divino. «A música é como uma ponte que nos conduz a Deus. É capaz de transmitir sentimentos, emoções, até os movimentos mais profundos da alma, elevando-os, transformando-os numa escada ideal que liga a terra ao céu. Sim, a música pode elevar o nosso ânimo! Não porque nos distraia das nossas misérias, porque nos atordoe ou nos faça esquecer os problemas ou as situações difíceis da vida, mas porque nos lembra que não somos apenas isto: somos muito mais do que os nossos problemas e aflições, somos filhos amados de Deus!»

Consequentemente, a música tem lugar de destaque em todas as expressões cultuais da humanidade. E não podia ser de outro modo no culto cristão. «A música sempre desempenhou um papel importante na experiência cristã. Na liturgia, em particular, o canto nunca é uma “banda sonora”, um simples fundo, mas destina-se a elevar a alma para a conduzir tanto quanto possível até ao mistério que se celebra». «Para o Povo de Deus, o canto exprime a invocação e o louvor, é o “cântico novo” que Cristo Ressuscitado eleva ao Pai, fazendo com que todos os batizados participem dele, como um único corpo animado pela Vida nova do Espírito. Em Cristo, tornamo-nos cantores da graça, filhos da Igreja que encontram no Ressuscitado a causa do seu louvor. A música litúrgica torna-se assim um instrumento preciosíssimo através do qual prestamos o serviço de louvor a Deus e manifestamos a alegria da Vida nova em Cristo».

Temos, pois, que valorizar, mais ainda do que se tem feito, o precioso serviço dos músicos, cantores e coralistas. Eles desempenham um verdadeiro e insubstituível ministério litúrgico. «Santo Agostinho, falando precisamente do canto na oração, escrevia no seu Comentário aos Salmos: “Deves cantar-lhe, mas não de forma desafinada. Não quer que os seus ouvidos sejam ofendidos. Cantai com arte, irmãos” (In Ps 32, II, 1, 8). Quão importantes são na música o cuidado, o esforço, a arte e, finalmente, a harmonia que deles deriva: é verdadeiramente um dom precioso feito por Deus a toda a humanidade!» Em próxima colaboração partilharemos com os nossos leitores o que Leão XIV proferiu sobre o significado e importância dos coros litúrgicos.

Ao terminar a saudação aos organizadores do Concerto com os pobres, Leão XIV dizia, meio a brincar e meio a sério: «Por favor, cantai bem! Cantai e tocai com arte e, acima de tudo, com o coração, porque a música pode realmente representar uma forma de amor, uma via pulchritudinis que conduz a Deus». Sirva este o mote para os nossos músicos e cantores neste tempo de Advento e Natal. Com a encarnação do Verbo entrou no nosso mundo o “cantor” e o “canto novo”. Estejamos «prontos para ouvir o canto do amor de Deus, que é Jesus Cristo. Sim, Jesus é o canto de amor de Deus pela humanidade. Ouçamos este canto! Vamos aprendê-lo bem, para que também o possamos cantar, com a nossa vida».

(Secretariado Diocesano da Liturgia)